Astronomia e exploração espacial no universo filatélico

Mayra Guapindaia

O desejo de voar e conquistar os céus e o espaço é antigo. A admiração pelo cosmos surgiu praticamente junto com a humanidade. Já na Grécia antiga, o mito de Dédalo e Ícaro expressa esta vontade. Para escapar de um labirinto, Dédalo e seu filho Ícaro construíram pares de asas para atravessar o mar Egeu. Ícaro, contudo, cedeu à curiosidade e voou mais alto em direção ao sol. A proximidade com o calor fez com que a cera de suas asas derretesse e ele caísse no mar.

A literatura foi uma das formas de expressar o anseio de explorar o desconhecido. O escritor francês Júlio Verne ficou famoso por seu livro “Da terra à lua” (1865), no qual idealizou a conquista do satélite natural pelos Estados Unidos. Nesta obra, Verne afirma que “agora vamos à lua, e ainda havemos de ir aos planetas, ainda havemos de ir às estrelas, como se vai hoje de Liverpool a Nova Iorque, com facilidade, rapidez e segurança”(VERNE, 2019, pos.3076). Paralelo à ficção, as descobertas científicas eventualmente permitiram ao homem alcançar o que almejava.

O universo e sua exploração pelo homem foram frequentemente estampados em selos postais. Além de representar um momento histórico, a filatelia pode ser considerada um instrumento útil para a divulgação da astronomia no ensino básico. A difusão da ciência por parte dos selos postais é uma maneira de auxiliar na construção de uma “cultura científica” junto à sociedade, contribuindo, assim, para o exercício da democracia (SALCEDO, 2010, p.41). Isso porque os selos postais são um meio pouco usual de comunicação cujo se alcance estende além das fronteiras materiais e culturais. (PENEREIRO, 1997, p.1).

A corrida espacial e a divulgação em selos

Foi no período da Guerra Fria e, especificamente, da corrida espacial (1957-1975), polarizada entre URSS e Estados Unidos, que a tecnologia rumo ao espaço avançou significativamente, como modo de mostrar o poderio político, econômico e militar das duas potências mundiais. Nesse mesmo contexto, começaram a surgir selos de diversos países que divulgaram essas empreitadas espaciais e que demonstram os avanços do conhecimento científico e os homens e mulheres que fizeram parte desse momento histórico. Mas os selos também eram uma forma de demonstrar apoio político ou subordinação por parte de outros países a um dos polos no qual o mundo então se dividia. Por isso, conhecer a história dos selos postais é, também, conhecer as formas de pensar de uma época.

Neste período, o envio de cartas e outros documentos escritos era recorrente no cenário mundial, pelo que o selo postal realmente cumpria o papel de divulgador de uma determinada visão da cultura e história de um país para o resto do mundo. Assim, os selos com motivos astronômicos e sobre os avanços tecnológicos da corrida espacial eram demonstrações, tanto do polo capitalista quanto soviético, do poderio de cada um nesta área.

No caso brasileiro, os selos postais também demarcam a inserção do país nesta questão. Em 1961, o Comando-Geral da Tecnologia Aéreo Espacial (CTA), ao qual está subordinado o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), foi o primeiro a desenvolver projetos para o lançamento de foguetes. Nesse mesmo período é criada Comissão Nacional de Atividades Espaciais (Cnae), de onde posteriormente surgiria o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os projetos pioneiros para construção de foguetes Sonda foram idealizados pelo Comando-Geral de Tecnologia Espacial (CTA).

Revelando o alinhamento do regime militar brasileiro ao polo estadounidense, o primeiro lançamento, de um foguete americano, o Nike Apache, foi feito em 1965 no Centro de Lançamento Barreira do Inferno – Natal/RN. Os selos postais brasileiros desta época e de períodos posteriores demonstram estes acontecimentos.

Um selo recente que rememora este período é “Homenagem à chegada do Homem à Lua”, lançado em 2019.

Santos Dumont como símbolo da conquista espacial brasileira

No início do século XX, o sonho de voar começa se a tornar realidade. Data desse período a invenção de aeronaves. Os irmãos Wright conseguiram desenvolver aviões que decolavam com o impulso do vento ou de catapultas. Contudo, foi o brasileiro Alberto Santos Dumont o responsável por fazer um voo em uma aeronave que possuía meio próprio de propulsão. Em 1906, o 14-Bis voou pela primeira vez em Paris. Santos Dumont foi diversas vezes homenageado em selo e, inclusive, sua figura como conquistador dos ares foi associado ao posterior avanço para o cosmos.

Na representação imagética e simbólica, Dumont foi apreendido socialmente como “precursor natural” dos avanços espaciais.  Em 1969, um selo brasileiro que marca a chegada do homem à lua traz a figura do aviador. Além disso, essa associação foi feita não só em selos postais, mas pelo próprio programa espacial brasileiro. Em 2006, a Missão Centenário, que levou o primeiro astronauta brasileiro ao espaço, foi assim chamada devido às comemorações do centenário do voo do 14-bis. Ela, inclusive, foi marcada com selo postal aonde a aeronave é representada juntamente com a base espacial.

Marcos César Pontes, piloto da Força Aérea Brasileira e engenheiro pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), foi escolhido para receber treinamento pela NASA e representar o Brasil em missões espaciais. Em 2006, em cooperação com o governo russo, Pontes foi o primeiro astronauta brasileiro a viajar para uma Estação Espacial Internacional. Marcos Pontes foi conduzido ao foguete Soyuz (“união” em russo) por Valentina Tereshkova, a primeira mulher a ir para o espaço. O selo de 2006 foi lançado em órbita, na Estação Espacial, por Pontes.

Astronomia: o estudo do espaço em selos postais

Na mesma época em que os selos postais começaram a representar as inovações tecnológicas que levaram o homem ao espaço, também se multiplicaram os selos que retratavam o universo, os astros e os seus estudiosos. Ou seja, no período da corrida espacial e após o mesmo, o interesse por estes temas aumentou, sendo que a filatelia acompanhou esta tendência.

Um exemplo é Nicolau Copérnico, astrônomo e matemático que concebeu a teoria do heliocentrismo, que coloca o sol como o centro do sistema solar. No século XVI, época em que Copérnico viveu, a teoria mais aceita era a do geocentrismo, segundo a qual a terra era tida como centro. Sua descoberta foi extremamente importante para a concepção atual do sistema solar e é considerada o início da astronomia moderna. Foi homenageado filatelicamente por 55 países, dentre eles o Brasil, pelos 500 anos do seu nascimento.

No caso brasileiro, a partir dos anos 1960 a participação do governo em políticas espaciais aumentou também o incentivo à pesquisa nesta área. O Observatório Nacional, responsável por estudos em astronomia e astrofísica, passou a ser subordinado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 1976 e, assim, estar fortemente ligado ao desenvolvimento do tema. E esta instituição foi homenageada na filatelia pelo advento do seu sesquicentenário em 1977.

O Observatório Nacional foi responsável por organizar a infraestrutura necessária para que o eclipse solar de 29 de maio de 1919 fosse observado por uma expedição britânica. Este evento foi recentemente homenageado em selo postal. Henrique Morize, diretor do Observatório, elegeu Sobral/CE como ponto de observação.

Por fim, o último destaque de selos postais sobre astronomia é a recente emissão “Sistema Solar”, que entrou em circulação no dia 29/2/2020. Esta emissão foi feita em parceria com o Observatório Nacional e possui edital assinado pelo pesquisador Fernando Roig. Assim, os Correios confirmam seu compromisso em divulgar a ciência em geral e a astronomia em particular aos colecionadores e ao público em geral.

Referências Bibliográficas

NOGUEIRA, Salvador; FILHO, José Bezerra Pessoa; SOUZA, Petrônio Noronha de. Astronáutica: ensino fundamental e médio. Brasília: MEC, SEB ; MCT ; AEB, 2009.348 p.–: il. – (Coleção Explorando o ensino ; v. 12)

PENEREIRO, Júlio César. A filatelia como forma de divulgação da Astronomia. Caderno Catarinense do Ensino de Física, v.13, n.1, 1997, p.64-82.

SALCEDO, Diego Andres. A ciência nos selos postais comemorativos brasileiros: 1900-2000. Dissertação (mestrado). UFPE, 2010, 163p.

VERNE, Júlio. Da Terra à Lua. Edição do Kindle. Editora Mimética: 2019.

Publicado em Filatelia, Programação Filatélica 2019, Programação Filatélica 2020 | 3 comentários
  1. Neemias disse:

    Muito bom. Parabéns.

  2. Patricia Souza disse:

    Excelente apanhado da temática!

    Parabéns pela nova roupagem que está sendo dada ao blog!

    Adorei!

  3. Vera Guapindaia disse:

    Excelente artigo. Muito didático e informativo. Parabéns!

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