DIA DAS MÃES |
Um telegrama para dona Ozeneyde, em voz alta

A filha ligava do Rio, a mãe não escutava em Sena Madureira. Quatro mil quilômetros depois, foi um carteiro quem leu a mensagem em voz alta.

Há meses, Vânia Ribeiro de Lima Libardi tentava conversar com a mãe pelo telefone. Dona Ozeneyde, 86 anos, já não escutava direito. Do outro lado da linha, em Sena Madureira, no interior do Acre, repetia que não estava entendendo. As ligações foram rareando.

No Dia das Mães, Vânia escreveu a mensagem num papel. Pediu que uma colega digitasse, e enviou um telegrama. Como dona Ozeneyde não é alfabetizada, pediu também que o carteiro lesse a carta em voz alta.

O recado saiu do centro de tratamento de cartas e encomendas (CTCE) da Cidade Nova, no Rio de Janeiro, onde Vânia trabalha como coordenadora de turno. Percorreu cerca de quatro mil quilômetros até a agência de Sena Madureira, a 150 quilômetros de Rio Branco. A coincidência fez o resto: a gerente da agência, Natércia Maia de Lima Barbosa, havia sido colega de Vânia na infância. Os carteiros Augusto Cezar Lima de Mendonça e Pedro Henrique Santana Flores de Araújo do Nascimento foram fazer a entrega juntos. Pedro Henrique leu.

“Conforme comecei a ler, minha voz foi embargando”, conta. Alguém filmou a cena, e o vídeo voltou para o Rio. Foi assim que Vânia conseguiu, enfim, ver a mãe responder.

Dona Ozeneyde e o carteiro Pedro Henrique. Foto: Divulgação/Correios.

A ação do Dia das Mães, criada pelo Departamento de Produtos dos Correios sob o conceito “O amor se entrega em mãos”, propunha justamente isso: usar o telegrama impresso, em papel, como veículo de declarações de afeto. Duas funcionárias dos Correios, acostumadas a ficar do lado de quem despacha, se viram do outro lado.

Luciane Lopes Camilo, analista, foi chamada à recepção. Recebeu um telegrama de Arthur, o filho de 10 anos. “Tô tremendo”, disse. “Saber que seu filho lembra de você assim.”

Em Brasília, a carteira Regilene Rodrigues da Silva, do centro de distribuição (CDD) do Lago Norte, recebeu a mensagem do filho Jonathan, de 23 anos, formado em Educação Física. Riu da maquiagem borrada. Quando perguntaram o que ia fazer com o papel, respondeu: “Vou guardar.”


O telegrama no Brasil foi criado em 1852, no tempo de Dom Pedro II . Sobreviveu ao telex, ao fax, aos primeiros e-mails e voltou a crescer. Em 2025, os Correios entregaram 4,18 milhões de telegramas, quase 30% a mais que no ano anterior. É o maior volume desde 2018.

A maior parte são comunicações formais: convocações, prazos, comprovações jurídicas. Mas alguns continuam fazendo o que o telegrama sempre soube fazer: atravessar o país de uma pessoa para outra, em papel, em mãos, em voz alta. Em Sena Madureira, dona Ozeneyde ouviu a filha pela primeira vez em meses, pela voz de Pedro Henrique. Guardou o papel.

Assista ao vídeo com as entregas dos telegramas no Youtube.