
O raciocínio parece simples: se um país reduziu sua estrutura postal diante da digitalização, manter esse modelo seria insistir no passado.
A Dinamarca costuma ser citada como exemplo. Em dezembro de 2025, a PostNord Denmark entregou sua última carta no formato tradicional estatal, após uma queda de cerca de 90% no volume desde o ano 2000.
Mas há um detalhe importante: a Dinamarca não “fechou seus Correios”. A PostNord continua existindo. É uma empresa pública controlada pelos governos da Dinamarca (40%) e da Suécia (60%). O que foi encerrado foi a entrega tradicional de cartas. A operação de encomendas permanece ativa.
Não houve privatização. Houve reconfiguração de serviço.
O mundo não está abandonando seus Correios
A redução das cartas é um fenômeno global. A expansão da logística também. Grandes países continuam operando serviços postais públicos:
- Nos Estados Unidos, o USPS segue como infraestrutura nacional.
- No Japão, o Japan Post mantém presença pública estratégica.
- Na França, a La Poste combina serviço universal com atuação de mercado.
Todos passaram por mudanças. Nenhum deixou de existir. O setor postal deixou de ser essencialmente correspondência. Tornou-se infraestrutura logística.
O Brasil não é a Dinamarca
Comparações internacionais só fazem sentido quando respeitam contexto. A Dinamarca tem cerca de 6 milhões de habitantes e conectividade digital praticamente universal.
O Brasil conecta mais de 200 milhões de pessoas em um território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Segundo o IBGE, mais de 20 milhões de brasileiros ainda não utilizam internet. Quase 6 milhões de domicílios permanecem completamente desconectados.
Em um país continental, onde parte da população ainda depende da presença física para acessar serviços, vender produtos e integrar mercados, a equação é diferente. Infraestrutura digital não substitui automaticamente infraestrutura territorial.
A questão central não é quantas cartas ainda circulam. É como o país garante circulação de mercadorias, integração econômica e presença em todos os municípios.
A transição brasileira
O Brasil também está redesenhando seus Correios. O Plano de Reestruturação 2025–2027 organiza essa transição em três frentes: estabilizar a operação, modernizar processos e tecnologia e preparar a empresa para competir em um ambiente mais digital e exigente.
A Dinamarca fez escolhas adequadas à sua realidade. O Brasil precisa fazer escolhas adequadas à sua. Porque não somos a Dinamarca. E o futuro dos Correios se constrói a partir da realidade de cada país.


