O papel de uma infraestrutura pública que conecta o país

Nos últimos meses, os Correios voltaram ao centro do noticiário, em grande parte por causa dos resultados financeiros e do processo de reestruturação em curso. O foco é compreensível, mas não explica tudo. Antes de falar em números, eficiência ou modelos de gestão, vale responder a uma pergunta mais básica e decisiva para o debate público: qual é a função dos Correios no Brasil?
Essa é a pergunta que inaugura a série “Nossos Porquês“. A proposta é oferecer contexto para compreender o papel dos Correios como parte da infraestrutura que sustenta o funcionamento do país.
Os Correios não são apenas uma empresa de entregas. São uma infraestrutura pública, criada para garantir que pessoas, documentos, encomendas e serviços circulem por todo o território nacional, de forma regular e contínua, com tarifas reguladas e definidas em normas públicas.
Por que correios existem em todo o mundo
Porque há uma função que o mercado não assume por completo. Empresas privadas operam por decisão econômica. Atendem onde há demanda, margem e previsibilidade. Não assumem a obrigação de:
- chegar a todas as localidades, inclusive as menos rentáveis;
- manter preços regulados e acessíveis;
- garantir o serviço de forma permanente, mesmo quando a operação não gera retorno financeiro.
Os correios nacionais existem para cumprir exatamente esse papel. É por isso que todos os países mantêm um serviço postal, independentemente do modelo econômico adotado. Não se trata de tradição nem de ideologia, mas de necessidade prática para garantir integração territorial, comunicação básica e acesso a serviços.
Um sistema que conecta países
Os correios de cada país não funcionam isoladamente. Eles fazem parte de um sistema internacional coordenado pela União Postal Universal, que reúne quase todos os países do mundo.
Na prática, o funcionamento é simples:
- cada país garante o serviço postal dentro do seu território;
- acordos internacionais conectam esses sistemas entre si.
É isso que permite, por exemplo, que uma carta enviada de uma cidade pequena no Brasil chegue a outro país e que correspondências do exterior cheguem aqui com regras comuns, custos controlados e previsibilidade.
Sem esse sistema coordenado, a comunicação internacional seria fragmentada, mais cara e restrita, especialmente para cidadãos e pequenos remetentes.
Atender sem excluir tem custo
A universalização é o princípio que orienta o serviço postal no Brasil. Ela está prevista na Lei nº 6.538, de 22 de junho de 1978, que estabelece a responsabilidade do Estado pela prestação do serviço postal em todo o território nacional.
Na prática, universalização significa que o acesso aos serviços postais não depende de onde a pessoa mora nem da rentabilidade daquela região.
Isso quer dizer que:
- uma carta custa o mesmo para quem envia de uma capital ou de um município pequeno;
- o serviço postal deve chegar também a localidades distantes e de difícil acesso;
- a operação não pode ser interrompida simplesmente porque deixou de ser lucrativa em determinado lugar.
A lógica é simples: o território é atendido como um todo, e não apenas onde a conta fecha. Regiões mais movimentadas ajudam a sustentar a operação em áreas onde o mercado não atua. Esse equilíbrio permite que o serviço exista de forma contínua e previsível para toda a população.
Sem esse princípio, partes do país ficariam estruturalmente desconectadas, com acesso irregular ou inexistente a serviços básicos. A universalização evita esse tipo de exclusão logística e garante que o serviço postal cumpra sua função pública.
É esse compromisso legal que diferencia os Correios de uma empresa comum de entregas: não se trata de escolher onde operar, mas de assegurar que o serviço chegue a todos, com regras iguais e continuidade garantida.
Os Correios de hoje
Outra ideia comum é associar os Correios apenas à carta. Isso não reflete a realidade atual.
Hoje, a atuação dos Correios envolve principalmente:
- encomendas e logística;
- apoio ao comércio eletrônico;
- serviços essenciais ao Estado;
- atendimento a regiões onde outras empresas não chegam.
A correspondência tradicional continua existindo, mas deixou de ser o centro da operação. Os Correios atuam hoje como uma plataforma logística e institucional, integrada às necessidades reais do país — mantendo, ao mesmo tempo, obrigações de cobertura nacional e continuidade que não existem no setor privado.
Por que esse debate importa
Reconhecer o papel estrutural dos Correios não significa ignorar desafios. Eles existem e são conhecidos.
É justamente por isso que a empresa iniciou um Plano de Reestruturação, voltado a modernizar processos e garantir sustentabilidade no longo prazo, sem abrir mão da cobertura nacional. No curto prazo, o foco está em melhorar a experiência do cliente, com ações voltadas a dar mais regularidade à operação, aumentar a previsibilidade das entregas e reduzir falhas que impactam diretamente quem utiliza os serviços.
A questão central não é se os Correios devem funcionar como uma empresa privada. Eles não foram criados para isso.
A pergunta correta é outra: que tipo de infraestrutura logística o Brasil precisa manter para integrar seu território e garantir serviços básicos à população?
Responder a essa pergunta exige mais do que comparações rápidas. Exige contexto, informação clara e compreensão do papel que os Correios cumprem todos os dias.
