Correios forma mais uma turma do programa Jovem Aprendiz


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73 respostas a Correios forma mais uma turma do programa Jovem Aprendiz

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  4. Boa noite meu nome é Stephanie tenho 14 moro em Poá sp bem pertinho de um correio gostaria muito de ter a oportunidade de mostrar oq faço dê melhor

  5. hist disse:

    Este é o primeiro de uma série de textos sobre a Alemanha do período entre guerras, com algumas reflexões sobre a contemporaneidade. Hoje a tentativa de golpe do Putsch da Cervejaria, a primeira tentativa de Adolf Hitler e o partido nazista tomarem o poder na Alemanha, completa 90 anos. Em Oito de Novembro de 1923, Hitler e cerca de dois mil de seus partidários marcharam rumo ao centro de Munique, capital da Bavária. Podem ser citados diversos motivos para o ato, mas estão todos ligados ao mesmo contexto de divisão política radical, de distúrbios econômicos e políticos, e esse panorama maior que será o objeto destes posts.

    Na época, o Putsch parecia apenas mais um dentre diversos episódios de conflito e convulsão política. O primeiro objetivo seria derrubar o governo bávaro, arregimentar todas as diversas milícias paramilitares (Freikorps) da região e, então, marchar rumo à Berlim, tal qual Mussolini marchou para Roma, derrubar o governo social-democrata e instaurar um novo governo, que faria frente às supostas ameaças ao povo alemão, como os judeus e o comunismo. O golpe fracassou em seus primeiros estágios. Morreram vinte pessoas, incluindo quatro policiais, e a tentativa de golpe fracassou. Hitler foi preso dois dias depois, e condenado a cinco anos de prisão; cumpriu apenas nove meses da sentença, período em que escreveu Minha Luta, e o Putsch rendeu uma grande oportunidade de propaganda, tanto para Hitler quanto para o Partido e seus “mártires”.

    Militantes do primeiro núcleo do Partido Nazista, no Putsch de 1923 Foto: Bundesarchiv
    Militantes do primeiro núcleo do Partido Nazista, no Putsch de 1923
    Foto: Bundesarchiv

    Curiosamente, exatamente cinco anos antes do Putsch, fazendo aniversário de 95 anos hoje, a Bavária foi o primeiro Estado do II Reich alemão a se declarar como um “estado livre” e republicano; Ludwig III, o último Rei da Bavária, fugiu da revolução popular no dia 7 de Novembro, fazendo da dinastia Wittelsbach a primeira a renunciar no Império Alemão que se esfacelava após a derrota na Primeira Guerra Mundial. Quem declarou a Bavária como livre e como uma república (existiam diversos movimentos regionais na Alemanha, inclusive partidários de uma Bavária independente, soberana e monárquica; retomarei isso em textos vindouros) foi o intelectual e ativista de esquerda Kurt Eisner.

    Eisner não era comunista radical, nem um social-democrata como os fundadores da República de Weimar; era de uma esquerda moderada, como Rosa Luxemburgo, e assumiu como primeiro Ministro Presidente bávaro. Alguns meses depois, em 21 de Fevereiro de 1919, Eisner ia entregar sua renúncia ao Parlamento bávaro, decorrente de sua derrota eleitoral. No caminho, rua onde hoje há um memorial, foi assassinado pelo conde Anton von Arco auf Valley, nacionalista de extrema direita. O assassinato gerou conflitos abertos entre as latentes extremas de direita e de esquerda; parte da consequência desses conflitos foi o estabelecimento da República Soviética da Bavária (fato pouco conhecido, já que o estado comunista, reconhecido por Lênin, durou menos de um mês). Outra parte foi o surgimento de mais movimentos de extrema direita e nacionalistas na região, como justamente o Partido Nazista.

    Esquerda: Anton Graf von Arco auf Valley, o assassino. Direita: Kurt Eisner, o assassinado.
    Esquerda: Anton Graf von Arco auf Valley, o assassino. Direita: Kurt Eisner, o assassinado.

    Retomo o assassino de Eisner, conde Anton. Foi julgado em Janeiro de 1920 e condenado à pena capital. Teve sua pena reduzida para cinco anos de prisão, cumpriu parte dessa pena e foi perdoado em 1927. O judiciário conservador (lembrando que conservador, nesse período e nesse momento, pode ter diversos significados, como nacionalista, monarquista, etc.) reduziu sua pena pelas razões ideológicas da vítima, e a postura do assassino foi até elogiada, no radical espectro político da época. E, outra coincidência, que fecha o círculo: a cela que Anton ocupou em Stadelheim é a mesma cela 70 que foi ocupada por Adolf Hitler.

    Em 1920, um assassino de extrema-direita foi perdoado e até mesmo elogiado por sua postura em “evitar um mal maior”, ao matar um suposto comunista (Eisner não era). Seu ato desencadeou um estágio de guerra-civil e instabilidade política. Anos depois, no mesmo local, o líder um movimento revolucionário (e, antes que algum leitor diga que o nazismo é de esquerda, aviso que será tema de um post vindouro, não se apresse) também é perdoado e glorificado, pois, independente de seus atos, eram contra os “inimigos” ditados pelo senso comum do período e do lugar, os judeus e o bolchevismo. Em tempos fraturados, passíveis de enfrentamentos radicais, alimentar uma postura ou unir-se a um lado com o único objetivo de evitar um suposto mal, uma união visando não à construção, mas meramente o inimigo comum, pode exatamente gerar o mal que pretendia evitar. Criem corvos, e comerão seus olhos. Lição frequentemente esquecida.

  6. hist disse:

    Caros leitores, hoje damos sequência aos textos da série sobre a Alemanha no período entreguerras, que buscam discutir o contexto histórico da ascensão do nazismo e se o regime pode ser enquadrado como “de esquerda”. No texto anterior, Revolução Alemã: a escolha dos males e a Constituição, paramos na promulgação da Constituição de Weimar, em Agosto de 1919. Hoje prosseguiremos com a recapitulação, tratando de evento político que, por diversas razões, não entrou para a História com a mesma força que o Putsch da Cervejaria, em Novembro de 1923 (marco temporal do fim do período revolucionário na Alemanha): O Putsch de Kapp. O período revolucionário será tema de mais textos na série, um tratando de eventos que relacionam a Alemanha ao exterior e suas fronteiras, e outro analisando eventos internos.

    O Putsch-Kapp ocorreu em Março de 1920, como reação direta ao Tratado de Versalhes, assinado em Junho de 1919, que ditou as condições de derrota impostas à Alemanha. O Tratado foi assinado por Gustav Bauer, Chanceler alemão (o Chefe de Governo; Friedrich Ebert era o Presidente, Chefe de Estado), parte da coalizão de partidos sociais-democratas que formava o governo da República de Weimar. Os termos do Tratado de Versalhes eram considerados radicais, dentre eles: a Alemanha assumia total responsabilidade pela guerra, sofreria perdas territoriais, pagaria indenizações aos países aliados e teria suas forças armadas severamente delimitadas. O fato de o governo social-democrata ter aceitado tais imposições colaborou, e muito, para o fortalecimento do mito da “punhalada pelas costas”.

    O mito, iniciado pelo general Erich Ludendorff, figura essencial para a compreensão da ascensão nazista, pode ser resumido em poucas palavras. Para os que compartilhavam dessa ideia, o exército alemão não foi derrotado na Primeira Guerra Mundial; o fato de que, quando a guerra acabou, as tropas alemãs estavam em território francês, além de ter derrotado a Rússia, seria exemplo disso. A Alemanha teria sido traída pela sociedade civil, especialmente pelos políticos que derrubaram a monarquia e pelos comunistas e sindicais que, ao ordenar e articular greves, prejudicaram o esforço de guerra alemão. O fato de que tais políticos aceitaram os termos de Versalhes seria a “prova conclusiva” dessa traição.

    Além do descontentamento de setores mais radicais da sociedade com o governo social-democrata, o fato do Tratado de Versalhes impor a diminuição das forças armadas alemãs também gerou revolta e preocupação. Na véspera da assinatura, a Reichswehr, o exército regular de Weimar, contava com cerca de 350 mil homens; soma-se os cerca de 250 mil homens nas forças irregulares, já citadas aqui, os Freikorps. Versalhes determinava que as forças alemãs tivessem um máximo de cem mil homens. Ou seja, além de ser considerado (mais um) golpe no orgulho nacional alemão e interferência em uma das principais camadas da sociedade, muitos se viram diante da possibilidade de desemprego e inatividade.

    Em 29 de Fevereiro de 1920, o Ministro da Defesa, Gustav Noske, do Partido Socialdemocrata, ordenou a dissolução de dois Freikorps, a Marinebrigade Loewenfeld e a Marinebrigade Ehrhardt. A Marinebrigade Ehrhardt era dos principais Freikorps, tendo participado dos principais eventos dos anos anteriores. Seus membros eram opositores do governo de Ebert e o grupo era visto como uma potencial ameaça ao regime republicano. Seu comandante, Korvettenkapitän Hermann Ehrhardt, recusou a ordem de dissolução. O elemento principal da crise aparece nesse momento. O general Walther von Lüttwitz, comandante do maior grupo da Reichswehr, a quem diversos Freikorps estavam subordinados, desafiou o governo de Weimar e declarou que não abriria mão da unidade.

    Hermann Ehrhardt, marcado com um X
    Hermann Ehrhardt, marcado com um X

    Lüttwitz foi o real comandante do Putsch, referido muitas vezes como Putsch Kapp-Lüttwitz. Kapp se refere a Wolfgang Kapp, político nacionalista e um dos principais difusores da ideia de “punhalada pelas costas”. Foi fundador do Deutsche Vaterlandspartei (Partido da Pátria), ainda em 1917, que buscava aumentar a presença do nacionalismo e militarismo no governo. Em 1919 foi eleito para o Reichstag (Parlamento) como monarquista, pelo Deutschnationale Volkspartei, (Partido Popular Nacional Alemão, DNVP) embora seu apoio ao retorno dos Hohenzollern fosse mais simbólico do que concreto. Kapp era o mentor intelectual das forças políticas que viriam a apoiar o Putsch, comandado, na prática, pelo general von Lüttwitz.

    Wolfgang Kapp
    Wolfgang Kapp

    Com a crise derivada da insubordinação, Lüttwitz foi ao encontro do Presidente Ebert com as exigências dos movimentos nacionalistas da direita. Dentre os itens, a dissolução do governo, novas eleições para o Reichstag, a dispensa do comandante do exército e a instauração de Lüttwitz no posto e a revogação das ordens para dissolução dos Freikorps. O governo rejeitou e Noske afirmou que queria a renúncia de Lüttwitz no dia seguinte. O general não apenas rejeitou a ordem como contatou Ehrhardt e o consultou quando conseguiria mobilizar seus homens e ocupar Berlim. A resposta foi Treze de Março.

    Lüttwitz também contatou Kapp e Ludendorff, pedindo apoio e afirmando que, assim que o governo fosse deposto, eles deveriam estar prontos para assumirem os cargos e conduzir o processo rumo a um Estado autoritário, embora o formato desse autoritarismo ainda fosse incerto e o movimento não estivesse articulado. Na noite do dia Doze de Maraço, Ehrhardt ordenou que seus homens entrassem na capital e tomassem os prédios do governo, independente da resistência. Na madrugada do dia Treze, uma reunião do gabinete do governo determinou que as tropas do exército alemão deveriam resistir ao golpe. Os comandantes do Exército se recusaram e afirmaram que as tropas não iriam atirar “contra os camaradas com os quais lutaram contra um inimigo comum”. O gabinete de Ebert e Noske não tinha muitas possibilidades.

    Os principais líderes do governo social-democrata fugiram de Berlim no amanhecer, primeiro para Dresden e depois restabelecendo o governo em Stuttgart, convocando uma “greve geral” de resistência contra o golpe. As tropas do Freikorps foram recebidas por Lüttwitz, Ludendorff e Kapp. No próprio dia Treze, Kapp se declarou Chanceler e que iria formar um governo provisório. Lüttwitz se proclamou comandante das Forças Armadas. A maioria dos comandantes do exército, da polícia e o comando da marinha reconheceram imediatamente a autoridade do governo provisório, aparentando que o golpe seria um sucesso. Boa parte do aparato burocrata, conservador e formado nos tempos da monarquia, aparentemente se alinharia ao lado dos golpistas.

    Tropas da Marinebrigade Ehrhardt em Berlim
    Tropas da Marinebrigade Ehrhardt em Berlim

    A greve geral convocada pelo governo de Weimar, entretanto, atingiu enormes proporções. As classes trabalhadoras, os sindicatos e vários partidos apoiaram a greve que, calcula-se, mobilizou doze milhões de trabalhadores. O fornecimento de gás, água e energia foi praticamente interrompido. O governo interino não tinha como operar; uma anedota diz que ninguém ficou sabendo da convocação para novas eleições, já que os jornais estavam em greve, assim como os escreventes do governo. Quatro dias depois, no dia 17 de Março, o Putsch foi encerrado por negociações.

    O bloco de centro dos quatro partidos sociais-democratas de Weimar concedeu mudanças no governo e anistia para os líderes. Lüttwitz e Kapp renunciaram; Lüttwitz foi aposentado com pensão integral e Kapp se exilou na Suécia. O novo comandante do exército seria Hans von Seeckt, que chefiou a insubordinação do dia Doze de Março, afirmando que as tropas alemãs não iriam disparar contra seus camaradas de Freikrops. Ehrhardt foi anistiado e foi para Munique. Em 1920, durante os julgamentos de crimes ocorridos durante o Putsch, o judiciário conservador puniria apenas um réu nos 705 processos.

    Como analisar esses fatos? Aparentemente, a solução negociada após o fracasso do Putsch era a ideal. Pelo contrário. A direita conservadora e nacionalista notou que precisaria se articular mais e melhor, já que a precipitação das ações levou ao seu rápido colapso. O centro, dos sociais-democratas, sairia fragilizado e com uma impressão de fraqueza. Isso seria demonstrado nas eleições vindouras, em que o centro não conseguiria recuperar seus números. Finalmente, a esquerda sindical e comunista concluiu, do sucesso da greve geral, que seria a “sua vez” de tomar o poder, pois supostamente contariam com o apoio popular. No próximo texto, veremos como a esquerda e o nacionalismo alemão, separadamente, se radicalizaram em eventos relacionados ao fim do Putsch de Kapp.

  7. hist disse:

    Caros leitores, hoje retomamos uma série que, ao mesmo tempo, deveria ser uma prioridade desse autor e acaba relegada ao segundo plano, por pressão dos temas atuais. Depois de um imperdoável hiato de seis meses, retomo a categoria de textos sobre a Alemanha no entreguerras, que objetiva compreender a origem do nazismo e suas características; por exemplo, a caracterização recente do nazismo como à esquerda no espectro político.

    No primeiro texto, comentei o assassinato de Kurt Eisner e a existência de um judiciário conservador aliado ao sentimento antirrepublicano. No segundo texto, mais aprofundado, explica-se que o governo social-democrata de Weimar “vendeu a alma” para poder estabelecer a república e sua nova constituição. Finalmente, o terceiro texto trata do putsch de Kapp e como setores radicais da direita, especialmente das forças armadas, tentaram aproveitar o momento de crise para tomar o poder.

    Como introduzido ao final do terceiro texto, hoje veremos as ações da esquerda radical que, no mesmo contexto de crise institucional, também tentou orquestrar uma tomada do poder.

    Uma das maneiras que o governo social-democrata do Partido Social-democrata Alemão (Sozialdemokratische Partei Deutschlands, SPD) encontrou para combater e enfraquecer o putsch de Kapp, em Maço de 1920, foi a convocação de uma greve geral. Doze milhões de trabalhadores paralisaram suas atividades, interrompendo serviços essenciais, como fornecimento de água e gás. A greve atingiu também a região do vale do Ruhr, historicamente o coração da economia industrial alemã. Aproveitando tanto o momento quanto o sucesso e amplitude da greve, setores políticos de esquerda e da extrema-esquerda alemã articularam uma tentativa de tomada do poder. Seu desfecho e, principalmente, a diferença no tratamento dos dois levantes quase simultâneos, desempenha um papel essencial na compreensão dos anos 1920 na Alemanha e a consequente ascensão do nazismo.

    Setores mais à esquerda do SPD, o Partido Comunista Alemão (Kommunistische Partei Deutschlands, KPD), o Partido Social-democrata Independente Alemão (Unabhängige Sozialdemokratische Partei Deutschlands, USPD) e o grupo anarcossindicalista União Livre dos Trabalhadores da Alemanha (Freie Arbeiter Union Deutschlands, FAUD) formaram o cerne dessa articulação que objetivava tanto a derrota do putsch de Kapp quanto à instauração de um governo revolucionário e proletário na república. A consequência foi, além da paralisação econômica, o levante de um exército de cerca de cinquenta mil trabalhadores e a instauração de diversos conselhos populares em fábricas e instituições governamentais, como prefeituras.

    A importância do vale do Ruhr deve ser contextualizada. Em 1913, último ano de paz na Europa, a região extraía de suas minas cerca de 114 milhões de toneladas de carvão e produzia cerca de 8.2 milhões de toneladas de ferro fundido; esse número é maior que toda a Europa ocidental somada, no período. O tamanho do rio Ruhr, seus afluentes e canais também faz da região uma grande fornecedora de energia elétrica e de abastecimento de água. Dada sua importância econômica, que remonta ao século XVIII, diversas das principais cidades alemãs estão ali. Dortmund, Essen, Duisburg e Bochum, por exemplo. Atualmente, a área urbana do Ruhr é a quinta maior da Europa. O vale foi um dos protagonistas do Tratado de Versalhes, com partes ocupadas pelas potências vencedoras e parcelas de sua produção direcionadas exclusivamente ao pagamento da dívida de guerra alemã (isso será tema de texto próprio).

    Dado esse contexto, uma greve geral acompanhada de um levante proletário na região paralisaria todo o país; ainda pior, na perspectiva dos segmentos sociais já tratados nessa série, era o risco potencial de uma revolução. O Levante do Ruhr (Ruhraufstand), controlando uma região essencial, poderia se alastrar por toda a Alemanha, proporcionando uma revolução bem-sucedida, como aconteceu na Rússia anos antes. O Exército Vermelho do Ruhr (Rote Ruhrarmee) teve total iniciativa nas ações até o dia 26 de março, ocupando cidades importantes como Dortmund e formando um Comitê Central dos trabalhadores (Zentralrat). Além disso, o Exército Vermelho do Ruhr teve algumas vitórias em escaramuças contra unidades Freikorps, como o Freikorps Lichtschlag, que será citado novamente.

    Voluntários do Exército Vermelho do Ruhr
    Voluntários do Exército Vermelho do Ruhr

    Após o fracasso do putsch Kapp e a consequente reestruturação, o governo de Weimar voltou suas atenções para o levante no Ruhr. No dia 24 de março, o governo emitiu um ultimato, exigindo o final da greve e dos conselhos de trabalhadores até o dia 30 de março. No dia 26 de março, o Reichspräsident Friedrich Ebert indicou Hermann Müller como o novo chanceler. O ultimato não foi atendido, apenas fortaleceu a greve. Mais de trezentos mil mineradores cruzaram os braços e cidades como Düsseldorf e Elberfeld passaram ao controle dos revolucionários. Até o final de março, toda a região do Ruhr estava controlada pelos conselhos de trabalhadores e movimentos populares. Müller tentou uma solução negociada em Bielefeld, mas não contou com o apoio dos chefes militares e dos freikorps.

    No dia Dois de abril de 1920, após o fracasso das negociações e a recusa do ultimato do governo, forças regulares da república, Reichswehr, com apoio de unidades freikorps, marcharam para a região do Ruhr. Faziam parte do contingente inclusive unidades que se levantaram contra Weimar dias antes, apoiando o putsch de Kapp. O Exército Vermelho do Ruhr foi derrotado pelas unidades mais experientes e equipadas do exército alemão e dos freikorps; os combates foram seguidos de execuções em massa e “julgamentos” por traição. No dia Três de abril, o presidente Ebert proibiu as execuções, mas a ordem só foi repassada pelos comandantes militares no dia 12 de abril. Números concretos são impossíveis de se obter, mas calcula-se cerca de mil execuções. O citado Freikorps Lichtschlag ficou conhecido como Freikorps Totschlag (assassino). Um contraste brutal no tratamento entre o levante de setores da direita com o levante da esquerda revolucionária.

    Otto Lichtschlag, fundador e comandante do Freikorps que levava seu nome.
    Otto Lichtschlag, fundador e comandante do Freikorps que levava seu nome.

    No dia Oito de abril, a Reichswehr já controlava todo o vale do Ruhr alemão. Parte dos revolucionários fugiu para as regiões do Ruhr que estavam sob ocupação francesa e britânica. Ambas as potências denunciaram a presença das forças armadas alemãs na região, proibida pelo Tratado de Versalhes, e ameaçaram com mobilização e ocupação do restante do Ruhr. Forças francesas, em resposta, ocuparam algumas cidades alemãs, como Frankfurt; essa ocupação durou até 17 de maio de 1920. Esse episódio será parte do próximo texto, ainda no período revolucionário alemão. Dentro de suas fronteiras, temos um governo que acredita que está estabelecido, uma direita fortalecida e com a lição de necessidade de articular-se e, finalmente, uma esquerda suprimida. A relação da Alemanha com o que acredita ser seu território e suas novas fronteiras de 1918 será o próximo ingrediente nesse caldeirão que resultará no nazismo.

  8. hist disse:

    Caros leitores, depois de um longuíssimo hiato, retomo a série de textos sobre a Alemanha no entreguerras. O primeiro texto foi publicado tem mais de seis meses, chamado As lições da História: Um aniversário sombrio, sobre o aniversário do Putsch da Cervejaria de Munique, em 1923, e o assassinato de Kurt Eisner. Qual o propósito dessa série? São diversos. Primeiro, minha formação é em História, mas, felizmente, também é minha paixão, e é um tema que me interessa escrever, sendo direto e reto. Existem outros motivos menos pessoais também. O primeiro é que, com esse olhar histórico, podemos fazer muitas análises sobre o presente; de certo modo, é o chavão “estudar a História para não repeti-la”.

    Na perspectiva desse blog e desse autor, presenciamos, desde 2001, um momento muito parecido com o período entreguerras. Especialmente por uma crise financeira eclodir e alimentar uma série de radicalismos, seja na política nacional, seja na política internacional, como visto nas crises da Crimeia e na série de textos sobre as fronteiras invisíveis da Europa. O propósito do primeiro texto era exatamente esse, assim como será o de textos vindouros. Finalmente, o período do nazismo, o Estado do III Reich, é, até hoje, dos períodos mais polêmicos, que gera mais debate.

    Todo mês temos alguma publicação nas bancas de jornal que fale em nazismo ou em Hitler, ou com a cruz suástica. Muitas vezes, o nazismo é usado como uma carta argumentativa, especialmente na internet. Temos até uma teoria sobre isso, a Lei de Godwin. Em qualquer discussão política, atualmente, se evoca o nazismo ou Hitler como exemplo da suposta falta de base do argumento contrário. E, muitas vezes, faz-se isso sem a compreensão do que significou o nazismo. Entramos então no terceiro propósito dessa série de textos, que é compreender as condições de surgimento do nazismo e da máquina do III Reich, antes da Segunda Guerra Mundial e antes do Holocausto.

    Compreender a sociedade que formou, embasou e sustentou o regime. Para isso, não basta voltarmos, partindo de 1939, para 1934, com a Noite das Longas Facas, como alguns fazem. Também não basta voltar para 1933, com a ascensão política de Adolf Hitler. A compreensão do nazismo e de seu contexto remete ao século XIX, para a própria fundação de um Império Alemão liderado pela Prússia dos Hohenzollern. Somente assim sairemos de alguns lugares-comuns ou de anacronismos, como o que classifica o nazismo como um regime de esquerda, moda liderada pelos republicanos radicais dos EUA. Mas ainda chegarei lá.

    O primeiro texto tratou de como um jovem, de origem aristocrática, foi defendido por um aparato conservador em um assassinato; sua postura foi até elogiada, já que o assassinado era de esquerda, o primeiro líder de uma Bavária republicana. O assassinato desencadeou uma crise que culminou na proclamação da República Soviética da Bavária, que teve vida curta. Todos esses episódios, porém, estavam um contexto mais amplo. A Revolução Alemã, às vezes tratada como Guerra Civil Alemã, conhecida em alemão como Novemberrevolution, que durou, aproximadamente, de Três de Novembro de 1918 até 11 de Agosto de 1919.

    Cortejo fúnebre de mortos em combate durante a Revolução
    Cortejo fúnebre de mortos em combate durante a Revolução

    As hostilidades da Primeira Guerra Mundial acabaram oficialmente em 11 de Novembro de 1918. A crise do final da guerra, com seus desdobramentos políticos, econômicos, sociais e humanitários, causou o fim das monarquias alemãs e o colapso do Império. O Kaiser Guilherme II abdicou do trono imperial em Nove de Novembro de 1918. Na origem desses fatos está uma “simples” revolta dos marinheiros de Kiel, em 30 de Outubro de 1918. O comando da Marinha Imperial Alemã determinou, sem autorização do governo imperial, que a esquadra alemã zarpasse para uma última batalha “pela honra” contra a Marinha Real Britânica. Os marinheiros, já desmoralizados pela postura defensiva da marinha alemã desde a Batalha da Jutlândia, em Junho de 1916, se recusaram, na crença de que era um sacrifício fútil de vidas.

    Os marinheiros tomaram comando de alguns navios, estabelecendo conselhos modelados no estilo dos sovietes russos. No dia quatro de Novembro, com cerca de quarenta mil marinheiros e trabalhadores navais mobilizados, a crise foi resolvida, com sete mortos. O sentimento de revolta e a falência do sistema e das forças armadas alemãs, entretanto, já tinham se espalhado em um rápido efeito-dominó. No dia sete de Novembro, Munique foi tomada pela revolta, causando o fim da dinastia Wittelsbach, como citado no texto anterior. Nos dias seguintes, o Kaiser abdicou, o armistício de Compiègne foi assinado, encerrando as hostilidades (formalmente, não foi uma rendição) e uma república foi proclamada, com um governo interino liderado por Friedrich Ebert, político do Partido Social-Democrata (SPD).

    Conselho de Marinheiros amotinados em Kiel. Foto: Bundesarchiv
    Conselho de Marinheiros amotinados em Kiel. Foto: Bundesarchiv

    O governo interino durou, teoricamente, até o dia 11 de Agosto de 1919, com a promulgação da Constituição de Weimar (oficialmente, Constituição do Reich Alemão, que serviu de base para a Constituição Brasileira de 1934). Nos nove meses de período revolucionário, uma miríade de facções lutava pelo controle regional ou nacional. Uma série delas estava à esquerda do espectro político, outras na direita, algumas mais extremadas que as outras. No centro, o SPD e seus aliados do Partido Democrata Alemão (DDP) e do democrata cristão Zentrum. Os representantes da coligação partidária se consideravam o único governo legítimo, embora soubessem que poucos enxergavam neles essa legitimidade.

    O que se seguiu foi um jogo de apaziguamento e de ampliação de apoio por parte do SPD. Apaziguamento, por exemplo, no acordo de Stinnes-Legien, de 15 de Novembro de 1918, em que os industriais cederam aos sindicatos em temas como jornada de trabalho e ordenados, em troca do esvaziamento dos Conselhos Operários e do abandono da proposta de nacionalização dos meios de produção. Ampliação de apoio ao assimilar as aristocracias do período imperial. O Império Alemão era composto de quatro reinos, seis grão-ducados, cinco ducados, sete principados e três cidades livres (cidades autônomas); boa parte do aparato estatal, especialmente o Judiciário, estava sob controle das famílias conservadoras das diversas nobrezas locais.

    Ao concertar os grupos mais moderados, o SPD ainda tinha como eventuais rivais pelo controle os grupos extremados, revolucionários em sua essência. Na esquerda estavam principalmente a Liga Espartaquista, nomeada em homenagem ao gladiador Espartacus; o Partido Comunista alemão, que dividia sua origem com a Liga, mas teve uma atuação mais ampla; os movimentos comunistas bávaros, que culminaram na República Soviética da Bavária e, finalmente, a União Livre de Trabalhadores da Alemanha, movimento anarcossindicalista formado pelas dissidências sindicais revolucionárias em relação ao acordo de Stinnes-Legien.

    Os grupos revolucionários de direita eram a Stahlhelm, organização paramilitar formada logo após a guerra, que reuniu segmentos das forças armadas descontentes com o processo de paz. Seus membros seguiam a ideia de que a guerra acabou por causa de uma “punhalada pelas costas” dos democratas e sindicalistas alemães, que falharam em manter a sociedade apoiando o exército. Sua orientação era a de tomada do poder para a restauração da monarquia Hohenzollern e retomada da guerra. Seu nome completo era Stahlhelm, Bund der Frontsoldaten, traduzido como “Capacete de Aço, Liga dos Soldados do Fronte”, numa clara alusão ao fato de seus membros serem ex-combatentes. Stahlhelm era o termo utilizado para o modelo do capacete pós-1916.

    Além da Stahlhelm, existiam os diversos Freikorps, citados no texto anterior. Traduzidos livremente como Corpos Livres, no sentido de um corpo militar, variavam em intenções e tamanho. Vários tinham milhares de homens, como o Freikorps Epp. A maioria defendia a repressão dos movimentos de extrema-esquerda e a resistência contra movimentos locais e estrangeiros, como nos conflitos na fronteira com a Polônia. Além disso, defendiam a existência de um governo central forte e autoritário, a essência do que seria o nazismo. Vários membros do Partido Nazista fizeram partes de Freikorps, inclusive. Isso, entretanto, não era regra. O Freikorps Chiemgau, por exemplo, pretendia combater o comunismo bávaro para proclamar uma Bavária monárquica e independente, separada do restante da Alemanha.

    Membros do Freikorps Maerker em combate, Janeiro de 1919, em Berlim
    Membros do Freikorps Maerker em combate, Janeiro de 1919, em Berlim

    O fato dos Freikorps terem sido tão amplos, assim como a Stahlhelm, se deve às condições da retirada do exército alemão da guerra. Não houve uma retirada organizada, feita de forma coordenada por um governo estabelecido. Pelo contrário, o final das monarquias viu um vácuo de poder, que causou uma retirada generalizada. Os soldados simplesmente voltaram para suas casas e suas cidades, portando seu armamento e sem muitas perspectivas na vida civil. Subitamente, dezenas de milhares de homens armados e com treinamento estavam na Alemanha, em meio a uma crise política. A formação de diversos grupos armados e paramilitares foi uma consequência quase natural.

    Finalmente, o SPD conseguiu o apoio do comando central das forças armadas no Pacto Ebert-Groener, entre o citado Friedrich Ebert e Wilhelm Groener, intendente geral do Exército. Ebert garantiu que o prestígio do Exército seria mantido e que seu comando permaneceria nas mãos de um núcleo de oficiais de carreira; o Exército alemão continuaria a ser um “Estado dentro do Estado”, com a imensa autonomia e influência que gozava desde os tempos prussianos. A sociedade altamente militarizada e hierarquizada da Alemanha foi uma consequência disso, desde o século XIX. E essa sociedade militarizada desejaria um governo central autoritário.

    Em contrapartida, Ebert garantiu a Groener que os movimentos de esquerda seriam reprimidos e que não permitiria uma “sovietização” das forças armadas, em que conselhos de soldados e marinheiros tivessem poder decisório, como na Rússia ou como no levante dos marinheiros de Kiel. Sendo assim, o restante do exército alemão, juntamente com os segmentos paramilitares citados, esmagou os incipientes movimentos revolucionários de esquerda. Tais eventos ficaram conhecidos como a Revolta de Janeiro. Em 15 de Janeiro de 1919, os dois principais líderes do Movimento Espartaquista e do Partido Comunista, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, foram capturados e executados por membros do Freikorps Garde-Kavallerie-Schützen-Division. Combates ocorreram principalmente em Berlim, Munique, Kiel e Hamburgo, e durariam pelos meses seguintes. Além dos combates, houve a repressão armada e violenta às greves gerais ordenadas pelos sindicatos e pela Liga.

    Rosa Luxemburgo, que era descendente de judeus poloneses. Foto: Fundação Rosa Luxemburgo
    Rosa Luxemburgo, que era descendente de judeus poloneses. Foto: Fundação Rosa Luxemburgo

    No dia 19 de Janeiro, uma Assembleia Nacional foi eleita e constituída para a elaboração de uma nova Carta-Magna, que foi promulgada em 11 de Agosto de 1919, encerrando, oficialmente, o período revolucionário. Em 21 de Agosto de 1919, Ebert foi empossado como Presidente (Reichspräsident). Os combates e os conflitos da guerra civil, entretanto, não estariam encerrados. De 1919 até 1923, uma série de conflitos, levantes e tentativas de golpe ocorreriam. Embora Ebert tenha conseguido angariar apoio suficiente para o estabelecimento da República, ela era indesejada pela ampla maioria.

    Ninguém apostava na sobrevida do regime democrático, e a imensa maioria dos interessados em estabelecer um regime autoritário tinha recebido a bênção do próprio Ebert. Pode-se dizer que Ebert “vendeu a alma”, pois, para estabelecer a República, alimentou aqueles que viriam a serem os carrascos desta. Escolheu um dos males, o que considerava menor, perto dos males do comunismo, e que permitiria angariar mais apoio. Um apoio temporário, apenas. A formalização do período revolucionário como entre 1918 e 1919 é justificada apenas pela adoção da Constituição de Weimar. O período revolucionário, do ponto de vista historiográfico, segue até 1923. Os eventos entre Agosto de 1919 e Novembro de 1923, quando acontece o Putsch da Cervejaria, serão tratados no próximo texto.

  9. ERIC CARVALHO disse:

    UOL – O melhor conteúdo
    Trivela

    COPA DO MUNDO
    Vitória foi um alívio, para o time e para a tabela, mas não para o nível de futebol do Brasil
    Por: Bruno Bonsanti

    22 de junho de 2018 às 11:29

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    A vitória do Brasil sobre a Costa Rica, por 2 a 0, com dois gols nos acréscimos, foi um alívio. Para a Seleção e para a situação na tabela. Não para quem estava preocupado com o nível de futebol que o time treinado por Tite apresentou na estreia contra a Suíça. Alguns dos mesmos problemas se repetiram: lado esquerdo sobrecarregado, dificuldade para criar, Neymar excessivamente individualista. Com exceção dos primeiros 15 minutos do primeiro tempo, o Brasil sofreu. Desta vez, Tite foi um pouco além da sua formação ideal para mudar o jogo e foi premiado pelo gol de Coutinho, a partir do segundo atacante que colocou dentro da área. Neymar, no último ato, fez 2 a 0 e desabou em campo, chorando. O choro do alívio. Agora, com quatro pontos, a classificação às oitavas de final está mais encaminhada. Mas ainda há preocupações sérias a serem administradas.

    Costa Rica bem
    A Costa Rica executou bem o seu plano de jogo. Uma linha com quatro jogadores. Outro com cinco à frente da primeira. E, quando recuperar a bola, lançar nas costas de Marcelo. Foi assim que surgiu a melhor chance de gol do primeiro tempo. Celso Borges recebeu o cruzamento rasteiro dali e bateu de primeira. Sorte do Brasil que Fagner apareceu para pressionar, e o jogador da Costa Rica não conseguiu direcionar direito o seu chute.

    Brasil bem mal
    O Brasil tem um lado esquerdo fantástico: Marcelo, Coutinho e Neymar. Eu sei disso, você sabe disso e obviamente a Costa Rica também sabe disso. Logo, estava preparada para que o volume de jogo do time brasileiro fosse majoritariamente por esse setor, como já havia sido na estreia contra a Suíça. Marcelo tentou três chutes. Um deles foi o mais perigoso, uma batida cruzada próxima à trave de Navas. O outro foi o único que acertou o alvo, mas sem problemas para o goleiro do Real Madrid. Coutinho não apareceu no primeiro tempo, e Neymar também não foi bem. Tentou dribles onde não havia espaço em vez de tentar a tabela rápida. Sua única boa ação foi um cruzamento perigoso para Jesus na segunda trave. Mas houve impedimento.

    A seleção brasileira foi muito lenta na chegada ao ataque, sem triangulações ou movimentações. E muito previsível. Apenas nos minutos finais da etapa inicial, houve algum jogo pelo lado direito. O que surpreendeu também Willian, que errou as duas ou três jogadas que precisou fazer. Diante de uma equipe muito fechada, Paulinho foi peça nula. Não houve espaços para infiltrar ou entrar na área como elemento surpresa, seus pontos fortes. Sem eles, o jogador do Barcelona não contribui muito para a construção ofensiva. Muitos times precisaram enfrentar retrancas bem organizadas nesse Mundial. O Brasil foi mal nos primeiros 45 minutos desse desafio.

    Paulinho no jogo
    Tite tentou corrigir um dos problemas com a entrada de Douglas Costa. E acabou corrigindo ambos. Além de variar os lados, o Brasil teve mais aproximação e tabelas. Os espaços apareceram. E Paulinho os encontrou. Tocou de calcanhar para Jesus e infiltrou. Recebeu de volta, mas a zaga cortou. Fagner ficou com a sobra e mandou para a pequena área. Neymar dividiu com a defesa, e Navas agarrou. Fagner, contrariando as preocupações e fazendo um bom jogo, cruzou na cabeça de Jesus. A bola acertou o travessão. Paulinho fez uma grande jogada para recolher o rebote e rolou para Coutinho. A bola explodiu na zaga e foi para fora. Paulinho recebeu pela direita e tocou para Neymar exigir linda defesa de Navas. O jogador do Barcelona ainda rolou para Coutinho que, de frente, bateu sem problemas para Navas.

    Desequilíbrio
    Apesar do que fez nos primeiros 15 minutos do segundo tempo, Paulinho foi sacado para a entrada de Firmino. Mudou a formação da equipe, agora com dois atacantes e um meia a menos. A primeira consequência foi um jogo mais aberto, sem o controle que o Brasil impunha até então. Foi de Jesus o passe de primeira que deixou Neymar na cara do gol. O craque brasileiro, porém, tomou a decisão errada. Em vez de encher o pé de perna esquerda, dominou e tentou cortar para a perna direita. Giancarlo González tocou-o com o braço, e Neymar despencou. O árbitro inicialmente deu pênalti, mas, checando o assistente de vídeo, voltou atrás corretamente. E depois disso, o Brasil perdeu o rumo.

    Substituição de Tite funciona
    O time pode inicialmente ter ficado menos sólido com a entrada de Firmino, mas colocar dois atacantes na área funcionou. Foi daí que saiu o gol da vitória. Marcelo cruzou da esquerda para a segunda trave. O jogador do Liverpool escorou de cabeça para Gabriel Jesus, que errou o domínio. Apareceu Coutinho como elemento surpresa dentro da área e completou de bico. Foi o alívio para a seleção brasileira. Com 1 a 0 no placar, Firmino ainda teve uma chance clara de fazer 2 a 0, o que veio por meio de Neymar, que recebeu de Douglas Costa e selou a vitória brasileira

    Ficha técnica
    Brasil 2 x 0 Costa Rica

    Local: Estádio de São Petersburgo, em São Petersburgo (Rússia)
    Árbitro: Bjorn Kuipers (Holanda)
    Gols: Coutinho e Neymar (Brasil)
    Cartões amarelos: Neymar e Coutinho (BRA); Johnny Acosta (COS)

    Brasil: Alisson; Fagner, Thiago Silva, Miranda e Marcelo; Casemiro, Paulinho (Roberto Firmino) e Coutinho; Willian (Douglas Costa), Neymar e Gabriel Jesus (Fernandinho). Técnico: Tite

    Costa Rica: Keylor Navas; Johnny Acosta, Giancarlo González e Óscar Duarte; Cristian Gamboa (Francisco Calvo), Celso Borges, David Guzmán (Yeltsin Tejada) e Bryan Oviedo; Johan Venegas, Bryan Ruiz e Marco Ureña (Christian Bolaños). Técnico: Óscar Ramírez

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  10. ERIC CARVALHO disse:

    Em 1913, quando Adolf Hitler estava com 24 anos, nada em sua vida apontava para o futuro
    líder carismático da Alemanha. Nem sua profissão: ele ganhava a vida como pintor de retratos
    de turistas em Munique. Nem sua casa: ele morava num quartinho alugado do alfaiate Josef
    Popp, no terceiro piso de uma casa na 34 Schleissheimer Strasse, ao norte da estação central de
    Munique. Nem as roupas que usava: ele se vestia de modo conservador, quase desleixado, com o
    traje do burguês convencional da época – calça e casaco pretos. Nem sua aparência física: seus
    traços eram pouco atraentes, com o rosto fundo, dentes amarelados, bigode irregular e cabelos
    pretos sem vida, caindo na testa. Nem sua vida emocional: ele achava impossível manter
    amizades duradouras e jamais tivera uma namorada.
    Sua característica mais predominante era sua capacidade de odiar. “Ele era de mal com o
    mundo”, escreveu August Kubizek, que o hospedara na Áustria vários anos antes. “Para qualquer
    lugar que ele olhasse, só via injustiça, ódio e hostilidade. Nada escapava de sua crítica, lhe caía
    bem aos olhos… Asfixiado por sua lista de ódios, ele despejava a fúria em tudo, a humanidade
    como um todo, que não o compreendia, não o valorizava e o perseguia.”
    9
    Como foi possível que esse homem tão medíocre aos 24 anos se tornasse uma das figuras
    mais poderosas e infames da história mundial, um líder conhecido por seu “carisma”?
    Claro que as circunstâncias tiveram um papel importante nessa transformação. Porém, um
    dos tantos aspectos notáveis dessa história é como inúmeros traços que Hitler possuía como um
    pintor excêntrico, perambulando pelas ruas de Munique, em 1913 – traços de sua personalidade
    que contribuíram para seu insucesso profissional e pessoal à época – não apenas permaneceram
    com ele até o fim, mas passaram a ser vistos como pontos fortes, em lugar de fraquezas. Sua
    intolerância monumental, por exemplo, se traduzia em sua impossibilidade de discutir qualquer
    assunto. Ele afirmava seu ponto de vista e perdia a paciência quando era questionado ou
    criticado. Mas o que era assimilado como gritos ignorantes, em 1913, mais tarde seria visto como
    uma visão determinada. E ele tinha um excesso de confiança absurdo em suas próprias
    habilidades. Anos antes, em Viena, anunciou ao perplexo colega de quarto que tinha resolvido
    escrever uma ópera – e o fato de não saber interpretar partituras adequadamente não seria um
    empecilho. Nos anos seguintes, essa confiança excessiva seria interpretada como um traço de
    genialidade.
    Até chegar a Munique, Hitler já vivera anos de decepções. Nascido em 20 de abril de 1889,
    em Braunau am Inn, na Áustria, na fronteira com a Alemanha, Hitler não se dava bem com o
    pai, que o surrava. Seu pai morreu em janeiro de 1903, aos 65 anos, e sua mãe sucumbiu ao
    câncer, quatro anos depois, em dezembro de 1907, com apenas 47 anos. Órfão aos 18 anos,
    Hitler perambulou entre Linz, na Áustria, e a capital Viena, e em 1909, passou grandes privaçõe

  11. ERIC CARVALHO disse:

    durante alguns meses, até receber uma pequena quantia em dinheiro de presente da tia, o que o
    permitiu se estabelecer como pintor. Ele não gostava de Viena. Julgava uma cidade ordinária e
    impura, repleta de prostituição e corrupção. Só aos 24 anos, ao receber a modesta herança do
    pai, no valor de 800 Kronen, que pôde deixar a Áustria e buscar abrigo em Munique, a cidade
    “alemã”, lugar que mais tarde disse ser o que “mais se apegou, do que qualquer outro lugar do
    mundo”.
    10
    Mesmo finalmente vivendo em uma cidade que adorava, Hitler parecia destinado ao total
    anonimato. Apesar da impressão que ele queria passar ao mundo – em sua autobiografia Mein
    Kampf (Minha luta), escrita onze anos depois, tentava convencer os leitores de que durante esse
    tempo ele agia quase como um político em formação
    11 –, em 1913 Hitler era um indivíduo
    inadequado social e emocionalmente, com uma vida sem direção. O que primordialmente lhe
    faltava, aos 24 anos, era o sentido da missão pessoal, algo que muitos líderes carismáticos e
    personalidades históricas já apresentavam nessa idade. Ele só descobriu o que fervorosamente
    acreditava ser sua “missão” de vida após a Primeira Guerra, pela forma como terminou. Sem
    esses acontecimentos épicos, é quase certo que ele teria permanecido em Munique, um
    desconhecido na história.
    Em vez disso, começou sua jornada rumo ao consciente coletivo, quando, em 3 de agosto de
    1914, pediu para se alistar – como austríaco – no Exército da Bavária. Apenas dois dias antes, em
    1º de agosto, a Alemanha havia declarado guerra à Rússia. Hitler agora queria fervorosamente
    servir ao Estado Alemão que tanto admirava, e seu desejo foi concedido quando, em setembro
    de 1914, foi enviado como um soldado comum ao 16º Regimento Bávaro de Reserva (também
    conhecido como Regimento de “List”). No mês seguinte, ele viu a ação pela primeira vez,
    próximo à Ypres. Ele escreveu a um conhecido de Munique contando em detalhes a cena: “À
    esquerda e à direita, os estilhaços explodiam, e, no meio, as balas inglesas zuniam. Mas nem
    demos atenção… Os projéteis rugiam sobre nossas cabeças, cascalhos e galhos de árvore
    voavam à nossa volta. Granadas explodiam na mata, levantando nuvens de pedra, terra e
    abafando tudo com um vapor verde amarelado, fedorento e nauseante… Sempre me lembro de
    Munique, e todos os nossos homens só desejam acabar logo com isso. Queremos ir pra cima com
    tudo, custe o que custar…”
    12
    Essas são palavras de um homem que havia descoberto algo. Não somente – pela primeira
    vez – um sentido para uma empreitada comum, com outros seres humanos, mas um verdadeiro
    insight das possibilidades drásticas da existência. E esse conflito teria um efeito semelhante não
    somente em Hitler, mas em muitos outros. “A guerra, pai de todas as coisas, é também nosso
    pai”, escreveu Ernst Jünger, outro veterano de guerra. “Prossegue nos talhando e moldando, nos
    endurecendo, nos transformando em quem somos agora. E para sempre, enquanto girar a roda
    da vida, a guerra será o eixo sobre o qual ela revolve. Treinou-nos para a guerra e guerreiros
    permaneceremos, até o último suspiro de vida.”
    13
    O que Hitler, Jünger e milhões de outros enfrentaram no front ocidental foi uma guerra
    como nenhuma outra. Uma guerra em que o poder defensivo de armamentos como a
    metralhadora e o arame farpado restringiam o conflito a terrenos estreitos, de matanças
    sangrentas. Uma guerra na qual o lança-chamas, os explosivos potentes e gases venenosos foram
    devastadores. Como resultado, para Hitler, o “romantismo” da batalha foi logo substituído pelo
    “terror”.
    14
    Não surpreende que ele tenha elaborado a visão da vida como uma luta brutal constante,
    pois a vida para um soldado raso da Primeira Guerra era exatamente isso. Mas não era só isso

  12. ERIC CARVALHO disse:

    Também havia – principalmente para Adolf Hitler – uma sensação de que a experiência dessa
    guerra também era um teste que oferecia a possibilidade de atos de heroísmo. Ainda assim,
    apesar dos estudos recentes que confirmam que ele não viveu nas trincheiras, mas serviu como
    mensageiro do quartel-general do regimento, logo atrás da linha de frente,
    15 é inegável que
    Adolf Hitler foi um soldado corajoso. Em outubro de 1916, foi ferido na Batalha de Somme, e
    dois anos depois ganhou a Cruz de Ferrão, Primeira Classe. Foi indicado a essa condecoração por
    um oficial judeu, Hugo Gutmann, e recebeu uma comenda oficial do comandante do regimento,
    Emmerich von Godin, que afirmou que “na função de mensageiro, ele (Hitler) foi exemplar
    com seu sangue frio e determinação, em combates locais ou de deslocamento” e que “sempre
    estava pronto para se oferecer como voluntário para entregar mensagens nas situações mais
    difíceis, sob grande risco de vida”.
    16
    No entanto, apesar da bravura, Hitler permaneceu como um sujeito esquisito entre seus
    camaradas de regimento, como era antes da guerra, com os conhecidos. Como relembrou
    Balthasar Brandmayer, um dos soldados, “havia algo peculiar em Hitler”.
    17 Seus companheiros
    achavam estranho que ele nunca quisesse tomar uns tragos, ou fazer sexo com uma prostituta,
    passando o tempo livre lendo ou desenhando, ou eventualmente discursando para quem estivesse
    por perto, sobre algum assunto que gostasse. Estranho que parecesse não ter amigos ou familiares
    e, consequentemente, fosse um homem decidido a ser só.
    18 Quanto ao “carisma”, Hitler parecia
    não possuir nenhum.
    Ainda assim, era inteiramente comprometido com a guerra e extrapolava sua própria
    bravura e comprometimento, achando que quase todos do front se sentiam da mesma forma.
    Segundo Hitler escreveu no livro Mein Kampf (Minha luta), foi por trás da linha de combate, na
    Alemanha, que as tropas foram “traídas” pelos que queriam lucrar com o sacrifício dos soldados
    em combate. Essa ideia de um Frontgemaneisch, os soldados da linha de frente sendo passados
    para trás por outros, distante do campo de batalha, é um mito, apesar de popular. Até que Hitler
    fosse ferido pela última vez em batalha, em outubro de 1918, perto de Ypres, a Alemanha tinha
    perdido a guerra por inúmeras razões, nenhuma delas por “traição” por trás da linha de combate.
    A realidade era que os alemães foram esmagados pelo peso das tropas que lutaram contra eles –
    sem contar os americanos, que entraram na guerra em abril de 1917, garantindo a chegada de
    centenas de milhares de tropas com novo fôlego. Adicionalmente, o bloqueio naval da Alemanha
    pelos aliados espalhou a escassez de alimentos e a situação, que já estava ruim, só piorou com a
    irrupção da influenza, em 1918.
    Até aquele outono, havia membros de sobra nas forças armadas alemãs que concluíram
    que a guerra estava perdida. Em outubro, os marujos do almirante Franz von Hipper se
    recusaram a deixar o porto para lutar na última ação, malfadada, contra os Aliados. Um motim
    veio a seguir, na cidade naval de Kiel, e se espalhou para Lübeck, Bremen e acabou chegando a
    Hamburgo. A disseminação de uma revolução alemã parecia uma possibilidade, algo inspirado
    na bem-sucedida Revolução Bolchevique, que ocorrera na Rússia, no ano anterior. Para os
    políticos alemães ficou óbvio que era preciso dar fim à guerra o mais depressa possível. Devido
    às exigências dos aliados, era igualmente óbvio que qualquer que fosse o futuro da Alemanha, ele
    não incluía um futuro no qual o Kaiser, homem mais atrelado à decisão de ir à guerra,
    permanecesse como chefe de Estado. O general Whilhem Groener deu a notícia indesejada ao
    Kaiser, em 9 de novembro de 1918, quando a Alemanha se tornou uma república.
    A partida súbita do chefe de Estado causou profundo desânimo aos oficiais alemães. “No
    pior momento da guerra, nós fomos apunhalados pelas costas”, escreveu Ludwig Beck, à época

  13. ERIC CARVALHO disse:

    servindo no Alto-Comando do Exército, depois assumindo a função de comandante do Exército
    Alemão. “Nunca em minha vida fiquei tão aborrecido por algo que presenciei, como fiquei em 9
    e 10 de novembro. Tamanho abismo de baixeza, covardia, falta de caráter, algo que, até então,
    eu achava impossível acontecer. Em algumas horas, 500 anos de história foram estilhaçados, o
    imperador foi deportado para território holandês, como se fosse um ladrão. Não podia ter sido
    mais veloz – e tudo com um homem distinto, nobre e honrado.”
    19
    Em meio a inúmeros soldados rasos do front, que desconheciam o fato de que a Alemanha
    mal poderia se sustentar nessa guerra, havia uma sensação semelhante de perplexidade, não
    apenas pela rápida retirada do Kaiser, mas também pela declaração imediata do armistício, que
    entrou em vigor em 11 de novembro de 1918. “As tropas da linha de frente não se sentiam
    derrotadas”, afirma Herbert Richter, que lutou no front ocidental, “e nós nos perguntávamos o
    motivo para que o armistício tivesse sido tão depressa, e por que teríamos de abandonar todas as
    nossas posições com tanta pressa, já que ainda estávamos em território inimigo, achando tudo
    aquilo muito estranho… Ficamos zangados, pois não nos sentíamos no fim de nossas forças”.
    20
    A Alemanha parecia estar dividida entre aqueles que, como Beck e Richter, acreditavam
    que o Exército havia sido traído de alguma forma e os que, como os marujos alemães
    amotinados, haviam aceitado a derrota e agora queriam uma nova ordem social. Em janeiro de
    1919, uma greve geral em Berlim se tornou uma ascensão socialista. O bávaro Fridolin von
    Spaun, adolescente à época, viajou para a capital para testemunhar esses acontecimentos
    históricos: “Eu estava muito empolgado com o que estava acontecendo, pois tinha lido no jornal a
    respeito da revolução em Berlim, e simplesmente tinha que ver com meus próprios olhos como é
    feita uma revolução. Fui levado à Berlim pela curiosidade. Chegando lá, mergulhei no tumulto. A
    cidade estava totalmente enlouquecida. Centenas de milhares de pessoas corriam pelas ruas
    gritando: primeiro de um lado, depois do outro. Havia uma facção bem esquerdista. E essa
    facção era decisivamente influenciada por um homem chamado Karl Liebknecht. E a sorte, que
    às vezes sorri para mim, me concedeu a chance de vê-lo, em carne e osso… Eu estava no meio
    da multidão e, subitamente, ouvi um grito. Depois chegou um caminhão, as pessoas abriram
    algum espaço para ele. Ao passar, todos gritavam ‘Liebknecht, Liebknecht!’, saudando. Eu nem
    conseguira vê-lo, pois ele estava totalmente cercado por uma massa humana, por guarda-costas
    armados de rifles… Então, aquele homem lendário, Karl Liebknecht, surgiu na janela de cima e
    fez um discurso empolgado. Não foi muito demorado, menos de meia hora, já não me lembro
    bem. E aquele discurso me impressionou tanto que, a partir dali, eu jurei ser antibolchevista. Por
    conta de todas as baboseiras que ele lançava nas pessoas, e as afirmações tão inflamadas,
    incrivelmente inflamadas… Notei que ele não estava nada interessado em criar um paraíso para
    os trabalhadores. Na verdade, era só cobiça pelo poder. Dessa forma, totalmente imune às
    tentações da esquerda, eu fui embora da praça sendo um antibolchevista. Quatorze dias depois,
    esse sr. Liebknecht não estava mais vivo. Seus opositores o haviam pegado com sua cúmplice –
    uma polonesa chamada Rosa Luxemburgo. Simplesmente mataram os dois. Pode até soar
    insensível, mas não chorei por eles. Tiveram o que mereceram.”
    21
    Fridolin von Spaun também ficou tão apavorado com a “sede de poder” de Karl Liebknecht
    naquele janeiro de 1919, em Berlim, que em seguida ingressou numa unidade da Freikorps para
    lutar contra os revolucionários comunistas. No rastro de destruição, ao final da guerra, inúmeras
    dessas Freikorps haviam sido formadas, no intuito de reprimir a revolução esquerdista. Faziam
    parte desses grupos principalmente ex-soldados que atendiam ao chamado de seu antigo
    comandante. E foram as unidades de Freikorps – e não a polícia, nem o Exército alemão – que
    exerceram o papel mais importante na repressão à revolução de Berlim, em janeiro de 1919,

  14. ERIC CARVALHO disse:

    passando a ser as primeiras garantidoras da nova República Alemã. Muitas das figuras que mais
    tarde seriam conhecidas como nazistas infames – dentre as quais, Heinrich Himmler, Rudolf
    Höss e Gregor Strasser – eram atuantes nas Freikorps daquela época. No entanto, Adolf Hitler
    não era atuante de forma expressiva.
    Em Mein Kampf, Hitler escreveu que, enquanto estava no hospital, em Pasewalk, em
    novembro de 1918, temporariamente cego
    22 por conta de um ataque a gás, ele se sentiu
    oprimido pela sensação de que as circunstâncias do fim da guerra representavam “a maior
    vilania do século”.
    23 Segundo seu ponto de vista, tratava-se de uma aliança entre marxistas e
    judeus, na tentativa de derrubar a Terra Mãe. Conforme ele escreveu, aquele momento foi
    crucial para sua decisão de “ingressar na política”.
    Os atrativos de uma história tão dramática na formação do mito são óbvios. O soldado nobre
    da frente de combate, traído por políticos corruptos e egoístas, agora decide dedicar a vida pela
    salvação de seu país. Tudo se encaixa. Porém, embora enredos de ficção possam dar certo
    assim, isso raramente acontece na vida real. E a prova é que, até ali, a grande “missão” de Hitler
    não tinha nada de sólido.
    Ele deixou o hospital em 17 de novembro de 1918 e regressou à Munique. Encontrou a
    cidade em meio a uma grande mudança. Dez dias antes, em 7 de novembro, uma manifestação
    organizada no parque Theresienwiese pelo político socialista Erhard Auer, tinha levado à
    revolução. A centelha foi acesa pelo jornalista e ativista antiguerra Kurt Eisner. Ele havia
    incitado os soldados que participaram na manifestação a se amotinarem contra seus oficiais e
    assumirem o controle de seus batalhões. “Conselhos trabalhistas” e “Conselhos de soldados”
    foram formados para instituir a ordem na revolução, e foi deposta a monarquia hereditária da
    Bavária, Casa de Wittelsbach. Munique então se tornou uma República Socialista sob a liderança
    de Kurt Eisner.
    Mais tarde, Hitler expressaria em Mein Kampf a sua repulsa pela forma como as coisas se
    desenrolaram em sua amada Munique. Não é de se admirar, já que Kurt Eisner era judeu e
    também socialista. No entanto, a postura de Hitler, à época, era bem diferente. Ao contrário de
    milhares de alemães que, como Fridolin von Spaun, se alistaram nas Freikorps para lutar contra a
    revolução comunista, ele decidiu continuar no Exército. Então, após um breve período servindo
    num campo de prisioneiros de guerra, distante de Munique, ele regressou à cidade, no início de
    1919, a serviço de seu batalhão, numa época em que Munique ainda estava sob o comando de
    Kurt Eisner.
    24 E os de registros dão conta de que, quando a malfadada “república soviética”, da
    Bavária foi declarada, algumas semanas depois, conduzida por comunistas fanáticos como Eugen
    Levine (que, como Eisner, era judeu), Hitler foi eleito representante de seu batalhão
    25 – algo que
    seria muito improvável, se ele tivesse se oposto à revolução comunista.
    Nessa época havia opções claras à Hitler, que poderia ter deixado o Exército e ingressado
    numa Freikorps ou, pelo menos, optado pelo menor envolvimento possível com o regime
    comunista de Munique. O fato de não ter tomado nenhuma dessas decisões lança fortes dúvidas
    quando à sua afirmação, em Mein Kampf, quanto a já ter fanaticamente abraçado sua “missão”
    política, em 1919. No entanto, apenas alguns meses depois, no outono daquele ano, quando Hitler
    escreveu seu primeiro manifesto político, o conteúdo transbordava ódio contra os judeus e é
    inteiramente compatível com as visões que ele expressaria pelo resto de sua vida.
    O que mudou entre a aparente aceitação de Hitler quanto à revolução comunista em
    Munique, em abril de 1919, e a expressão de sua ira contra os judeus, em setembro, foi a
    situação política. As Freikorps ingressaram em Munique em 1º de maio de 1919 para retomar a

  15. ERIC CARVALHO disse:

    cidade. A “república soviética” da Bavária logo desmoronou, mas não antes que os comunistas
    assassinassem cerca de vinte reféns. A vingança das Freikorps foi sangrenta e extensa, e pelo
    menos mil pessoas foram mortas. A cidade ficou traumatizada por essa experiência da esquerda
    e logo abraçou as forças de direita, como fez Adolf Hitler. Logo após a queda do governo
    comunista da Bavária, Hitler foi membro do novo comitê investigativo de soldados para
    averiguar se membros de seu regimento haviam apoiado o regime. O rápido flerte de Hitler com
    as instituições de esquerda se encerrou para sempre.
    Como era de se esperar, a relativamente recente descoberta da improvável relação entre
    Hitler e a revolução esquerdista em Munique resultou em várias tentativas de explicação de suas
    atitudes. Talvez ele tivesse “virado a casaca”,
    26 e suas atitudes fossem um sinal de uma situação
    “extremamente confusa e incerta”,
    27 algo que serviu para ilustrar que a vida dele ainda poderia
    “ter se desenrolado em outras direções”.
    28
    Como podemos, então, melhor entender a postura de Hitler durante esse período? Seria
    possível que seu apoio implícito à revolução socialista fosse uma fraude? Que ele ainda fosse
    intimamente fiel às antigas crenças de extrema direita, mas estava apenas seguindo os
    acontecimentos, talvez atuando como um espião, de modo a descobrir mais sobre seus
    adversários? Sem dúvida, essa é a explicação que ele próprio teria dado, se fosse forçado a fazê-
    lo. Ele teria se sentido extremamente vulnerável ao peso contido nessa história, demonstrando
    que era meramente como a maioria dos seres humanos, aturdido pelo que tinha de acontecer.
    Porém, não há qualquer prova convincente que respalde a ideia de que Hitler estivesse
    seguindo alguma estratégia maquiavélica nos meses posteriores ao fim da guerra – muito ao
    contrário. O capitão Karl Mayr, comandante do departamento de “informações” do Exército,
    em Munique (incumbido de “reeducar” os soldados após a revolução socialista), conheceu Hitler
    na primavera de 1919, e suas lembranças eram claras: “À época, Hitler estava pronto para se
    unir a qualquer um que lhe fosse gentil. Ele nunca teve aquele espírito de mártir ‘Alemanha ou
    morte’, que depois lhe seria atribuído e tão utilizado como propaganda, no slogan para enfatizá-lo.
    Ele teria trabalhado para um empregador judeu ou francês com a mesma rapidez que o faria
    para um ariano. Logo que o conheci, ele parecia um cão perdido, em busca de dono.”
    29
    Mayr era um sujeito incomum. Mais tarde, ele deixaria a extrema-direita da política alemã
    para se tornar um democrata e voraz adversário de Hitler, e acabaria morrendo em um campo
    de concentração nazista, em 1945. E embora algumas de suas investidas contra Hitler
    parecessem exageradas e até extravagantes – ele alegava, por exemplo, que ele era tão idiota
    que nem conseguia escrever seus próprios discursos – não há muito por que duvidar de suas
    impressões do primeiro encontro com Hitler, em maio de 1919. Na verdade, essas impressões
    oferecem a explicação mais convincente quanto à conduta de Hitler, na época.
    Dessa forma, ao que parece, Hitler não era uma figura política tão perspicaz, em 1919. Era
    simplesmente um soldado desconsolado pela guerra perdida, confuso e incerto em relação ao
    que viria pela frente, contente por conseguir se manter no Exército pelo máximo tempo possível,
    único lar e emprego que teve. Isso não significa que ele fosse inexpressivo. Ele já tinha seus
    princípios políticos, como o pangermanismo, e o tempo anterior à guerra que passou em Viena o
    expôs a uma variedade de influências antissemitas terríveis. Mas foram os meses seguintes de
    formação, como um dos agentes de “reeducação”, que lhe possibilitariam cristalizar seu
    raciocínio.
    A tarefa de Hitler era falar com outros soldados sobre os perigos do comunismo e os
    benefícios do socialismo. Como treinamento para a função, participou de um curso especial na
    Universidade de Munique, entre 5 e 12 de junho de 1919, onde assistiu a diversas palestras, dentre

  16. ERIC CARVALHO disse:

    as quais “História Política de Guerra” e “Nossa Situação Econômica”,
    30
    todas de posição
    “correta” e antibolchevista. Segundo todos os relatos, Hitler devorou as informações avidamente
    e depois regurgitou tudo para os soldados de uma base alemã próxima, em Augsburg, em agosto.
    Ele extravasou suas visões antissemitas vorazes particularmente em discursos, ligando os
    judeus aos bolchevistas, e à revolução de Munique. Isso não chegava a ser uma reflexão original,
    pois era comum entre os extremistas de direita da Alemanha, na época, e foi a origem de boa
    parte do preconceito antissemita disseminado no rastro da Primeira Guerra. Segundo Fridolin von
    Spaun, também antissemita convicto, “As pessoas mandadas para a Bavária para estabelecerem
    o regime de conselhos (comunistas) eram, em grande parte, judias. Basta olhar os nomes das
    figuras de destaque. Naturalmente, já se sabia que na Rússia os judeus também ocupavam uma
    posição de muita influência… A teoria marxista começou com um judeu (Karl Marx), na qual
    Lênin supostamente se embasou”.
    31
    Hitler já havia sido exposto a retóricas antissemitas severas, por exemplo, o discurso de Karl
    Lueger, então prefeito de Viena. Porém, ao contrário da visão que expõe em Main Kampf, não há
    evidências contemporâneas expressivas que provem que ele já tivesse um engajamento
    antissemita antes do fim da guerra. Fica claro que ele indubitavelmente manifestava visões
    fortemente antissemitas por volta de agosto de 1919, mas, àquela altura, já havia participado das
    palestras organizadas por Mayr e presenciado o estado de espírito de muitos em Munique em
    relação à república soviética de curta duração que fora instituída na cidade.
    Entretanto, não há indícios de que Hitler estivesse forjando a sua postura antissemita. O
    poder e a força com que expressava suas opiniões eram de um convicto absoluto.
    Hitler estava com 30 anos. Somente a partir desse momento, no verão de 1919, que se pode
    identificar o registro histórico da primeira referência de um traço “carismático” que ele pudesse
    possuir. Na base de Augsburg, inúmeros soldados frisaram positivamente a habilidade de Hitler
    como orador. Um deles, o artilheiro Hans Knoden, escreveu que Hitler “revelou ser um orador
    brilhante e fervoroso que incita a plateia a acompanhar seu discurso. Em uma ocasião, ele não
    conseguiu concluir um discurso mais extenso dentro do tempo disponível e perguntou ao público
    se eles estariam interessados em ouvi-lo falar após o expediente – imediatamente todos
    concordaram. Ficou óbvio que o interesse havia sido despertado nos homens”.
    32
    Hitler sempre desprezara debates e só queria discursar. No entanto, antes da guerra, não
    havia plateia disposta a ouvir suas arengas sobre ópera ou arquitetura. Mas agora havia gente
    pronta a ouvir suas opiniões sobre as dificuldades da Alemanha pós-guerra. Hitler sempre fora
    convicto quanto a seus julgamentos e relutante em ouvir ou argumentar. E nessa crise, muitos
    estavam predispostos a acolher essa postura implacável.
    Muitos dos pontos de vista de Hitler agora eram reconhecidos, como os do futuro Führer do
    povo alemão. Em 16 de setembro de 1919, por exemplo, ele escreveu, a pedido do capitão Mayr,
    uma declaração antissemita terrivelmente odiosa. Ele disse que os judeus “geravam uma
    tuberculose racial entre as nações” e que o objetivo tinha de ser a “remoção total dos judeus” da
    Alemanha.
    33
    Quatro dias antes de escrever essa carta, Hitler tinha participado de uma reunião política no
    Salão Leiber da cervejaria Sterneckerbräu, em Munique. Parte de seu trabalho para o capitão
    Mayr era observar e relatar os partidos políticos extremistas e não havia grupo mais radical do
    que o partido dos “Trabalhadores Alemães”. Eles eram pouco mais que um grupo de discussão
    fundado em 1919 por um chaveiro chamado Anton Drexler e o jornalista Karl Harrer. Os dois
    decidiram promover um programa antissemita e antibolchevista, e pró-trabalhadores, do tipo já
    comum na direita. Drexler já tinha sido membro do “Partido da Pátria”, fundado por Wolfgang

  17. ERIC CARVALHO disse:

    von Kapp dois anos antes, um dos incontáveis grupos de direita da época, como a “Federação da
    Resistência e Proteção Nacionalista Alemã” e a “Sociedade Thule”.
    Havia somente duas dúzias de pessoas no Salão Leiber naquela noite, quando Hitler
    discursou contra o movimento de independência da Bavária do restante da Alemanha, e ele logo
    causou uma forte impressão. Drexler percebeu o talento retórico de Hitler e o encorajou a
    ingressar no pequeno partido. Foi nesse momento que Adolf Hitler se uniu ao que viria a ser o
    Partido Nazista.
    Nas semanas seguintes, Hitler revelou que possuía uma “missão”: proclamar os meios de
    soerguer a Alemanha das ruínas da derrota. Mas ainda não havia revelado que era ele o grande
    líder que pessoalmente realizaria essa tarefa. No entanto, em sua carta de 16 de setembro,
    atacando os judeus, ele tinha apontado a necessidade de transformar a Alemanha em um Estado
    autocrático regido por indivíduos autocráticos: “O renascimento não se dará pela liderança
    política de maiorias irresponsáveis e influenciadas por dogmas partidários, nem pela imprensa
    irresponsável, nem por frases de efeito adotadas de países estrangeiros, mas somente pela ação
    implacável de personalidades que demonstrem liderança nacional e senso de responsabilidade
    interior.”
    34 Aparentemente, o homem havia encontrado sua missão – mas não era uma missão à
    qual estava predestinado.
    Após a chegada à Sterneckerbräu, a vida de Hitler mudou. Ele havia sido arremessado de
    um lado para o outro por mares tempestuosos, mas agora havia encontrado um porto seguro.
    Pelo resto da vida, ele fingiria que sempre havia sido destinado a chegar a esse lugar.

  18. ERIC CARVALHO disse:

    Capítulo 2
    Estabelecendo a conexão
    A bem-sucedida ascensão de Hitler ao poder – e sua liderança carismática – tem base em
    sua habilidade retórica. “Com suas ameaças e clamores e mãos suplicantes, seus olhos azuis
    gélidos, ele tinha a expressão de um fanático”, escreveu Kurt Lüdecke, que ouviu Hitler
    discursar, em 1922. “Suas palavras eram como um chicote. Quando ele falou sobre a desgraça
    da Alemanha, eu me senti pronto para avançar no inimigo. Seu apelo à hombridade alemã era
    como um chamado à batalha, era como se ele pregasse um evangelho de verdade sagrada. Ele
    parecia outro Lutero. Fiquei alheio a tudo, menos àquele homem. Olhando em volta, vi que seu
    magnetismo prendia milhares de pessoas, como se fossem uma só.”
    35 Nos anos que se seguiram
    após a Primeira Guerra, havia inúmeros pequenos grupos políticos extremistas em Munique, mas
    nenhum deles possuía um palestrante capaz de inspirar o público daquele jeito.
    Hitler já tinha ganhado muita prática como orador didático – embora ainda não tivesse
    convencido ninguém de que era “mais um Lutero”. Apesar de ter impressionado August Kubizek,
    na Viena pré-guerra, com sua habilidade de expressar com “fluência”,
    36 Hitler se estendia tanto
    que parecia “desequilibrado”.
    37 Mas os tempos eram outros e agora a Alemanha era um lugar
    totalmente diferente da Viena pré-guerra. Os alemães lidavam com o trauma de uma guerra
    perdida, a destruição de um antigo sistema político baseado no Kaiser. Havia o medo de uma
    revolução comunista e um humilhante tratado de paz os urgia a aceitarem a “culpa” por iniciar a
    guerra, além das reparações punitivas que, na conferência de janeiro de 1921, em Paris,
    determinaram o pagamento de 220 milhões de marcos em ouro aos vitoriosos.
    Dessa forma, Hitler estava pregando para pessoas desesperadas. A situação econômica
    estava tão ruim que era como se toda a estrutura financeira da nação pudesse desmoronar,
    quando a hiperinflação a atingiu, em 1923. “Eles (os aliados) queriam manter a Alemanha
    derrotada economicamente, industrialmente, ao longo de gerações”, conta Bruno Hähnel, que
    cresceu durante os anos subsequente à Primeira Guerra. “Havia inflação – você pagava bilhões
    (de marcos) por um pão.”
    38 E para os soldados que regressavam, como Herbert Richter, era
    absolutamente arrasador presenciar as dificuldades econômicas após o sofrimento da guerra.
    “Meus pais só tinham capital”, continua. “Não eram proprietários de terras. Tampouco de uma
    casa. E a fortuna deles evaporou como neve sob o sol. Desapareceu. Antes, éramos ricos. De
    repente, ficamos sem nada. Ficamos pobres.”
    39
    Os alemães estavam vivendo uma crise que não era apenas econômica, mas também
    política e, em muitos casos, espiritual. Nessas circunstâncias fica fácil entender por que eles se
    perguntavam “quem é o culpado de todo esse horror?” e “por que nos obrigaram a tanto
    sofrimento?”. E essas eram perguntas às quais Adolf Hitler dizia poder responder, falando a seu

  19. ERIC CARVALHO disse:

    público crescente como eles deveriam se sentir sobre o que estavam vivenciando e o que
    poderiam fazer para melhorar as coisas.
    Hitler estruturou seus discursos iniciais não somente de modo a controlar o humor do
    público, porém – mais importante – para provocar uma reação emocional. Ele frequentemente
    iniciava, como fez no discurso em 12 de abril de 1922, descrevendo a terrível situação na qual a
    Alemanha se encontrava. “Praticamente”, disse Hitler, “não temos mais um Reich alemão
    politicamente independente, já somos uma colônia do mundo externo”.
    40
    Depois perguntava quem era responsável por aquele pesadelo – e ali, para o público, estava
    a boa nova. Porque, no fim das contas, segundo a visão de Hitler, a maioria da população alemã
    não era culpada por seu infortúnio. Era tudo, segundo ele alegava, culpa dos judeus: eles tinham
    sido responsáveis pelo início da Primeira Guerra, pelos abusos do capitalismo e a nova crença
    revolucionária no comunismo, e estiveram por trás dos “criminosos de novembro”, que
    assinaram o armistício, em 1928, pondo fim à guerra. Hitler argumentava que os judeus não
    prestavam lealdade a qualquer nação, mas somente a outros judeus, através das fronteiras
    nacionais. Ele criou um mundo de fantasia, no qual os judeus até fingiam estar de ambos os lados
    de uma disputa industrial para conturbar a sociedade – o lado dos trabalhadores e o lado dos
    empregadores. “Eles (os judeus) buscam tanto uma política comum quanto um objetivo único.
    Moses Kohn, de um lado, incentiva sua associação a recusar as exigências dos trabalhadores,
    enquanto seu irmão Isaac, na fábrica, incita a massa e esbraveja ‘Olhe para eles! Eles só querem
    oprimi-los! Livrem-se dos grilhões…’Seu irmão cuida para que os grilhões estejam muito bem
    presos.”
    41
    Hitler também tinha consciência de que estava falando para um público no coração da
    Bavária católica, portanto, estava até preparado, no contexto da luta contra os judeus, para
    comparar o movimento nazista nascente a Jesus e seus discípulos. “Meus sentimentos de cristão
    me apontam meu Senhor e Salvador como um guerreiro”, disse Hitler, em abril de 1922.
    “Apontam-me o homem que, quando na solidão, cercado por poucos seguidores, reconheceu
    esses judeus pelo que eram e reuniu homens para lutar contra eles, e que – em verdade, vos
    digo! – foi grande, não com um sofredor, mas como guerreiro. No amor infinito de cristão, e
    como homem, eu leio essa passagem (da Bíblia), que nos diz como o Senhor finalmente se
    ergueu em Sua glória e expulsou do templo a corja de víboras.”
    42
    É extremamente improvável que Hitler fosse, mesmo nessa fase, um cristão, como ele
    alegava. Mas grande parte de seu público certamente era. E era possível que eles fizessem outras
    comparações – e blasfêmias – entre Jesus e Hitler. Por exemplo, que ambos os líderes tivessem
    esperado até os 30 anos, antes de iniciarem sua “missão”, e que ambos prometessem redenção
    do sofrimento do momento. De modo a apoiarem essas visões, não surpreende que os nazistas
    tenham ignorado o registro histórico, alegando que Jesus não era judeu.
    Hitler não estava fazendo nada de extraordinário ao tentar pintar os judeus como
    responsáveis pelo infortúnio alemão. À época, eles eram um bode expiatório conveniente e
    popular para muitos da extrema-direita. Conforme explica o professor Christopher Browning:
    “Praticamente toda tribulação na Alemanha pode ser vinculada aos judeus: indenizações, judeus
    predadores como financiadores, humilhação nacional. Os judeus também foram (retratados
    como) a fraqueza por trás do front, os aproveitadores que não lutaram na guerra. O liberalismo –
    considerado produto judeu –, a emancipação, a igualdade perante a lei, os soviéticos e o
    bolchevismo-judeu, tudo viabiliza um antissemitismo bem mais radical e sua disseminação de
    respaldo político… Portanto, não houve sinais de alerta, nenhum alarme disparou, quando Hitler
    se tornou obcecado pelos judeus, porque ele estava apenas expressando de forma extrema

  20. ERIC CARVALHO disse:

    argumentos que, pode-se dizer, já existiam. Portanto, Hitler certamente está apelando aos
    alemães, de forma certeira, que acabem com as dificuldades econômicas, eliminem o impasse
    político, tornando a Alemanha fortalecida internacionalmente, impedindo a desintegração de sua
    cultura. Para ele, tudo isso estava ligado ao antissemitismo”.
    43
    Desde o início, Hitler desdenhava da democracia, ridicularizando a noção de que “o povo
    governa”.
    44 Ele dizia que o necessário não era uma democracia, mas um indivíduo que surgisse
    para recuperar a forte liderança da Alemanha. E ele era explícito quanto à política central que
    esse líder teria de buscar, de modo a resgatar a Alemanha – uma renovação nacional baseada
    em isenção de classe e raça. Hitler exigia que todos, exceto os “arianos”, fossem excluídos da
    cidadania alemã (Novamente, a ideia de que havia um subgrupo “ariano” de caucasianos, ou que
    esse grupo de estilo nórdico era, de alguma forma, uma “raça superior”, não era original, mas já
    havia sido adotada por inúmeros teoristas raciais antes da Primeira Guerra). Uma vez que a
    Alemanha só consistisse desse povo “ariano” – e a vasta maioria da população alemã àquela
    época já fosse “ariana”, segundo Hitler –, então o país poderia se tornar uma nação de uma
    “raça” e, no processo, todas as distinções de classe seriam eliminadas. “Então, dissemos a nós
    mesmos: não há tal coisa como classes, não pode haver. Classe significa casta, e casta significa
    raça.”
    45
    Esse chamado para que “todos os verdadeiros alemães” trabalhassem juntos por uma nova
    Alemanha foi particularmente atraente para jovens bávaros como Emil Klein. “Esse partido
    queria erradicar as diferenças de classe”, conta ele. “(A ordem em vigor era) a classe operária
    ali, a burguesia ali e a classe média ali. Esses conceitos estavam profundamente enraizados
    naquela nação dividida. Portanto, esse ponto era importante pra mim, algo que gostei – ‘a nação
    precisa se unir!’Isso já era claro pra mim, quando jovem – ficava evidente que não havia uma
    classe operária ali e a classe média aqui.”
    46 E, ligado a essa ideia, havia a noção de que “o alto
    poder financeiro internacional, o poder financeiro judeu” tinha de ser eliminado. Acreditando na
    fantasia que Hitler havia espalhado, Klein estava convencido de que esse poder se originava, em
    parte, em Nova York. “Wall Street sempre era mencionada.”
    O que Emil Klein e outros que ouviam esses primeiros discursos descobriram foi que ouvir
    uma palestra de Hitler era ser levado a uma jornada. Partia-se de um sentimento inicial de
    desespero, conforme Hitler descrevia os problemas terríveis que o país enfrentava, passando pela
    percepção de que o público não podia ser culpado pelos problemas atuais, até se chegar à visão
    de como tudo isso podia ser corrigido, transformado em um mundo melhor e sem divisão de
    classes, uma vez que um líder forte, oriundo do povo alemão, pudesse ganhar poder,
    encabeçando uma revolução nacional. Para as pessoas que lutavam sob o impacto da crise
    econômica, isso podia ser cativante.
    Hitler foi frequentemente acusado de ser um “ator”, mas uma parte vital do início de sua
    imagem atraente era o fato de que seus apoiadores nas cervejarias, como Emil Klein, achavam-
    no verdadeiramente autêntico. “Da primeira vez que eu o vi falando, numa reunião, no
    Hofbräuhaus (uma grande cervejaria em Munique)”, conta Emil Klein, “o homem transmitia
    um carisma tão forte que as pessoas acreditavam em qualquer coisa que ele dissesse. E hoje,
    quando alguém diz que ele era um ator, então, sou obrigado a dizer que o povo alemão só podia
    ser completamente idiota, concedendo tanta credibilidade a um homem como aquele, a ponto de
    a nação alemã inteira ter resistido até o último dia de guerra. Até hoje, eu acredito que Hitler
    acreditava ser capaz de cumprir o que pregava. Que ele honestamente acreditava naquilo tudo…
    E todos os que estavam comigo, tantas pessoas nas conferências dos partidos, por toda parte,
    essas pessoas acreditavam nele, e só podiam acreditar porque era evidente que ele acreditava

  21. ERIC CARVALHO disse:

    também, que ele falava com convicção, e isso era algo raro naquela época.”
    47
    A sinceridade emocional que muitos achavam detectar em Hitler, como orador, era um
    pré-requisito necessário de seu atrativo carismático. Hans Frank, que mais tarde se tornaria o
    governante da Polônia, com boa parte ocupada pelos nazistas, durante a Segunda Guerra, foi
    imensamente influenciado pelo que assimilava como a ausência de artifícios de Hitler, ao ouvi-lo
    falar, em janeiro de 1920: “A primeira coisa que se sentia era: o palestrante é honesto, ele não
    quer convencê-lo de algo que ele próprio desacreditava… e durante as pausas de seu discurso,
    seus olhos azuis brilhavam fervorosamente, enquanto ele afastava os cabelos, usando a mão
    direita… Tudo vinha do coração e ele tocava a todos… Ele expressava o que estava na
    consciência de todos os presentes e estabelecia a conexão das experiências gerais com o
    entendimento claro e os desejos comuns dos que estavam sofrendo, ansiando por um
    planejamento… Mas não era só isso. Ele mostrava o caminho, o único caminho restante para
    todas as pessoas arruinadas na história, o novo começo, vindo das profundezas da coragem, fé,
    prontidão para a ação, trabalho duro e dedicação, um objetivo grandioso, brilhante e comum a
    todos… Daquela noite em diante, embora eu não fosse um partidário, fiquei convencido de que,
    se havia um homem capaz de fazer isso, somente Hitler poderia conduzir o destino da
    Alemanha.”
    48
    Hans Frank só tinha 19 anos quando ouviu Hitler falar, e talvez não surpreenda tanto que um
    jovem facilmente impressionável tenha sido tão afetado pelas palavras do Füher, durante aquela
    época de desespero para a Alemanha. Menos compreensível é o fato de que Hermann Göring,
    veterano condecorado da Força Aérea e comandante do famoso esquadrão Richthofen, durante a
    Primeira Guerra, tenha se aliado a Hitler após o primeiro encontro que tiveram, no outono de
    1922.
    Göring tinha quase 30 anos quando conheceu Hitler, e era um indivíduo acostumado a
    impressionar os outros. Sua ousadia como um dos membros pioneiros da Força Aérea alemã lhe
    rendeu não somente a Cruz de Ferro como muitas outras comendas, incluindo a Pour Le Mérite,
    um dos prêmios mais altos do Império Alemão. Ele ficara indignado pela decisão do término da
    guerra, em 11 de novembro de 1928, e disse aos homens de seu esquadrão, apenas oito dias após
    o armistício: “A nova luta pela liberdade, pelos princípios, pelo moral e pela pátria começou.
    Temos um longo e difícil caminho pela frente, mas a verdade será nossa luz. Temos de nos
    orgulhar dessa verdade e do que fizemos. Precisamos pensar nisso. Nossa hora virá
    novamente.”
    49
    Por volta do outono de 1922, Göring havia regressado à Alemanha, depois de passar um
    tempo trabalhando na Escandinávia, primeiramente, como piloto substituto, depois como piloto
    comercial, para uma companhia aérea sueca, a Svensk-Lufttrafik. Pouco tempo depois, ele se
    casaria com a baronesa Carin von Kantzow, recém-divorciada. Já mais maduro e aluno de
    ciências políticas na Universidade de Munique, Göring era um homem experiente e
    autoconfiante. Ainda assim, ele ficou imediatamente impressionado quando viu Adolf Hitler pela
    primeira vez. “Um dia, num domingo de outubro ou novembro de 1922, eu fui a uma
    manifestação, como expectador”, Göring disse, durante seu julgamento por crimes de guerra,
    em Nuremberg, em 1946. “No final, Hitler foi chamado a falar. Eu já ouviria falar dele, por alto
    e queria ouvir o que ele tinha a dizer. Ele declinou o convite para falar e foi pura coincidência
    que eu estivesse perto e escutasse seus motivos para a recusa… Ele considerava insensatos os
    protestos sem embasamento de peso. Isso me impressionou profundamente. Eu era da mesma
    opinião.”
    50
    Intrigado por Hitler, Göring foi assistir aos discursos dele alguns dias depois. “Hitler falou

  22. ERIC CARVALHO disse:

    sobre Versalhes. Ele disse que… um protesto só tem êxito se for respaldado pelo poder que lhe dá
    peso. A convicção foi expressa, palavra por palavra, em minha própria alma.” Como resultado,
    Göring buscou um encontro pessoal com Hitler. “Eu só queria falar com ele, primeiro, para ver
    se poderia auxiliá-lo, de alguma forma. Ele me recebeu na hora e, depois de sermos
    apresentados, disse que foi um extraordinário golpe do destino que nós nos encontrássemos.
    Falamos de assuntos que nos eram caros – a defesa de nossa pátria… Versalhes. Eu lhe disse que
    eu, em todos os aspectos, e tudo que eu era e possuía estavam à sua inteira disposição, para a
    questão mais essencial e decisiva: a luta contra o Tratado de Versalhes.”
    O testemunho revela, acima de tudo, que Hitler não precisou convencê-lo de nada – ambos
    já compartilhavam da mesma sensação do que havia de errado com a Alemanha. Esse insight é
    vital no funcionamento da natureza do “carisma” de Hitler, naquele início, pois o que ele ofertou
    a Göring (e a muitos outros) era um sentimento profundo de reafirmação – uma confirmação de
    que o que ele já pensava do mundo estava correto.
    51
    Nesse sentido, Hitler foi ajudado por outra qualidade importante que se exprimia em seus
    discursos: uma convicção absoluta. As análises de Hitler não deixavam brecha para qualquer
    dúvida. Ele jamais pareceu sequer remotamente indeciso entre alternativas. Hitler usara essa
    técnica em seus monólogos durante anos. Ele lia um livro, por exemplo, depois declamava em
    voz alta, afirmando qual deveria ser a conclusão “correta”. “Ele não estava interessado em ‘outra
    opinião’”, disse August Kubizek, “nem em qualquer discussão sobre o livro”.
    52
    Hitler também se especializou em apresentar a vida com “ou, ou”, referindo-se ao “o
    inimigo” (pelo qual ele geralmente apontava os judeus), ou todo o restante que seria destruído. O
    mundo era profundamente preto ou branco, na mente de Hitler. A vida era uma luta perpétua, e
    escolher sair da luta não era opção. “Eles (gente que não tinha um papel político atuante) nunca
    entenderam que não é necessário ser inimigo de um judeu para que um belo dia ele o arraste
    para o palanque da guilhotina”, disse, em abril de 1922.
    53 “Eles não acham o suficiente que você
    tenha uma cabeça sobre os ombros e não seja judeu: certamente irão levá-lo à guilhotina.”
    Para seus apoiadores iniciais, Hitler demonstrava ter “carisma”, mas esses apoiadores
    tinham de estar predispostos pela virtude de suas próprias personalidades e visão política para
    acreditarem nesse “carisma”.
    54 “Nem era preciso perguntar com que artes ele conquistava a
    massa”, escreveu Konrad Heiden, que ouviu Hitler discursar muitas vezes. “Seus discursos são
    devaneios desse espírito coletivo… Os discursos sempre começavam com profundo pessimismo e
    terminavam em redenção arrebatada, um final feliz triunfante. Os argumentos poderiam ser
    refutados pelo bom senso, mas seguiam muito mais a poderosa lógica do subconsciente, lógica
    que nenhuma contestação pode alcançar… Hitler deu voz ao terror indizível das massas
    modernas…”
    55
    Opinião compartilhada por Otto Strasser, irmão de um dos primeiros apoiadores nazistas
    Gregory Strasser: “Só posso atribuí-lo (o sucesso de Hitler como orador) à sua intuição
    excepcional, que infalivelmente diagnosticava as dores da plateia… e falava sobre o que captava
    no lugar… Ele é imediatamente transformado em um dos maiores oradores do século… Suas
    palavras acertam o alvo como uma flecha, cutucam as feridas mais íntimas, liberando o
    inconsciente das massas, expressando suas aspirações mais secretas, dizendo-lhes o que elas mais
    querem escutar.”
    56
    Sir Nevile Henderson, embaixador britânico na Alemanha no fim da década de 1930,
    ratificava esse ponto de vista: “Ele (Hitler) deve o sucesso na luta pelo fato de ser um reflexo das
    mentes subconscientes [de seus partidários], e à habilidade de expressar em palavras o que essa

  23. ERIC CARVALHO disse:

    mente subconsciente achava que queria.”
    57
    Quando o público não estava predisposto a deixar que aquelas palavras comovessem suas
    “aspirações mais profundas”, os ouvintes não percebiam qualquer carisma em Hitler. Josef
    Felder, por exemplo, não se convenceu com Hitler ao ouvi-lo palestrar na Hofbräuhaus, em
    Munique, no início da década de 1920. Como partidário engajado do Partido Social-Democrata,
    Felder achou aqueles argumentos repulsivos. “Escutei com atenção aquele discurso e percebi que
    Hitler agia de forma extraordinariamente demagógica. Ele costumava como que jogar frases
    para a plateia. O discurso dedicou-se em parte à traição dos sociais-democratas em 1919, quando
    assinaram o Tratado de Versalhes. Hitler começou abordando a Revolução de Novembro e a
    humilhação de Novembro. E então, é claro, começou a puxar suas teorias contra o tratado. E
    insistia ainda mais, com muitas declarações particularmente agressivas, sobre como tudo aquilo
    era resultado das atividades dos judeus. E foi então que ele tomou todo o problema antissemita
    como base do discurso… Fez certas afirmações que de forma alguma eram válidas. Quando
    deixei a reunião, encontrei-me com amigos e comentei: ‘Após esse discurso, espero que esse
    homem, Hitler, jamais alcance o poder político.’ Todos concordaram.”
    58
    Herbert Richter, um veterano da Primeira Guerra, sentiu aversão ainda maior quando
    cruzou com Hitler num café de Munique, em 1921. Richter “antipatizou com ele
    imediatamente”, por causa de sua “voz estridente” e sua tendência a “gritar” ideias políticas
    “muito, muito simples”. O veterano também achou a aparência de Hitler “cômica, com aquele
    bigodinho engraçado”, e chegou à conclusão de que ele era “bizarro” e “não muito normal”.
    59
    O testemunho de pessoas como Herbert Richter e Josef Felder nos lembra de que o
    surgimento de Hitler na cena política não foi, na época, um divisor de águas. Mesmo que, aos
    poucos, o futuro Führer tenha atraído seguidores, eles representavam uma pequena parcela dos
    eleitores em potencial. De fato, um estudo
    60 recente revela que em 1919 a grande maioria (mais
    de 70%) dos soldados lotados em Munique não votou em partidos de direita, mas no Partido
    Social-Democrata.
    Entre os diversos partidos de direita, no entanto – os chamados grupos “völkisch” –, Hitler
    sem dúvida causou boa impressão. Ele rapidamente dominou o pequeno Partido dos
    Trabalhadores Alemães e se tornou não apenas seu principal porta-voz, mas também o
    responsável por toda a propaganda da agremiação. Trabalhou com Anton Drexler em um
    “programa partidário” e apresentou os “25 pontos” que resultaram dessas discussões, numa
    reunião, em 24 de fevereiro de 1920. Logo depois, o nome do partido foi alterado para “Partido
    Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei,
    NSDAP) – do qual seus oponentes derivaram o termo abreviado “nazi”, ou nazista.
    Os “25 pontos” do programa refletiam os temas repetidos por Hitler em seus discursos:
    abandonar os tratados de paz de Versalhes e Saint-Germain, cassar a cidadania alemã dos
    judeus, proibir a imigração para a Alemanha e considerar como cidadãos legítimos do país
    apenas os que tivessem “sangue alemão”. Havia também várias medidas contra o capitalismo,
    tais como o clamor pela divisão de lucros e pelo fim de grandes lojas de departamentos para que
    pequenos comerciantes prosperassem.
    Não havia menção, no entanto, sobre como um futuro governo nazista conseguiria, em
    termos práticos, implementar as propostas contidas nos “25 pontos”. O “programa” era
    deliberadamente vago. Essa imprecisão provou-se vantajosa para Hitler de diversas formas, pois
    lhe dava flexibilidade para interpretar a política nazista da forma como bem lhe aprouvesse
    quando chegasse à liderança do partido, e permitia que os nazistas se posicionassem como um
    “movimento”, e não como um partido político comum, amarrado por programas detalhado

  24. ERIC CARVALHO disse:

    formulados e decididos em conjunto. Essa abordagem também possibilitava que uma ampla
    gama de indivíduos apoiassem os nazistas, já que as propostas, como a de “cassar os judeus”,
    poderiam ser interpretadas de diferentes maneiras – desde impedir que os judeus assumissem
    certas profissões até a sua expulsão da Alemanha, ou algo ainda pior.
    A ideia de defender uma “visão” da Alemanha, em vez de uma coleção de políticas
    detalhadas não era exclusiva dos nazistas. A Freikorps Oberland, por exemplo, também queria
    estabelecer um “Terceiro Reich” (em sequência ao “primeiro” Reich do Sacro Império Romano
    e ao “segundo” Reich Germânico, fundado em 1871 por Bismarck e que acabou em 1918). Seus
    membros também desprezavam informações detalhadas. “Nada é mais característico do espírito
    associativo da Oberland do que a ideia do Terceiro Reich”, comentou um partidário. “Os homens
    sonhavam alto com aquele mistério, um mistério que seria enterrado sob um programa político
    rígido, assim que se tentasse defini-lo com precisão.”
    61 E, assim como os nazistas, a Oberland
    preconizava a “subordinação do indivíduo… às necessidades de toda a nação”.
    62
    Em agosto de 1921, Hitler já conquistara poder ditatorial sobre o inexperiente Partido
    Nazista. Os velhos tempos das reuniões e discussões do comitê de Anton Drexler haviam
    acabado. Hitler, no entanto, ainda não afirmava que ele próprio seria o salvador da Alemanha,
    apenas que o país precisava de um salvador.
    “Nos primeiros anos, ninguém dizia ‘Heil Hitler’, isso nunca foi dito, e ninguém jamais teria
    pensado nisso”, afirma Bruno Hähnel, que militava no partido em 1920. “Hitler não havia
    assumido posição central naquela época, como aconteceria depois. Ele era apenas o presidente
    do NSDAP.”
    63
    Também era óbvio que, desde o início de seu envolvimento com o Partido dos
    Trabalhadores Alemães, boa parte da força e segurança que Hitler emanava ao falar a multidões
    parecia abandoná-lo quando a plateia se restringia a duas ou três pessoas. Como ele mesmo
    confessou ao fotógrafo Heinrich Hoffmann: “Entre círculos pequenos eu nunca sei o que dizer…
    como orador em pequenas reuniões de família ou funerais, não sirvo para nada.”
    64
    Outras pessoas também percebiam essa inconsistência em Hitler, essa enorme distância
    entre o desempenho em público e na vida privada. Mesmo o capitão Mayr, que “descobriu” a
    habilidade do jovem soldado como orador, observou que Hitler era “retraído e envergonhado”
    65
    quando estava entre os demais recrutas do quartel e, no entanto, era capaz de inspirar grandes
    plateias na cervejaria. Mayr argumentou posteriormente que essa característica permitia que
    figuras mais inteligentes da extrema-direita manipulassem Hitler conforme os próprios
    interesses. “No que diz respeito à liderança”, escreveu Mayr, “Hitler provavelmente foi a maior
    peça já pregada no mundo”.
    66
    Embora seja verdade que personagens políticos mais obviamente astutos como Hermann
    Göring e Ernst Röhm – esse último capitão do Exército alemão durante a guerra – tenham
    aderido ao Partido Nazista desde o início, isso não significa que Hitler tenha se subordinado a eles.
    É certo que a maior parte de suas ideias foram emprestadas de outros, como Gottfried Feder, o
    economista político que preconizava o fim da “escravidão dos juros”. Entretanto, no verão de
    1921, ele já era indiscutivelmente o líder do Partido Nazista. De certa forma, a própria esquisitice
    de Hitler – em particular, o fato de ter dificuldade com as relações sociais “normais” e, ainda
    assim, inspirar multidões – contribuiu para a progressiva opinião de que ele era um líder político
    diferente. “Havia sempre um certo elemento de sua personalidade a que ele não permitia a
    entrada de ninguém”, evoca um conhecido do início de sua trajetória. “Ele tinha seus segredos
    inescrutáveis e, em muitos aspectos, sempre foi um enigma para mim.”
    67

  25. ERIC CARVALHO disse:

    A extraordinária combinação da habilidade de cativar uma grande plateia de partidários,
    não raro reforçando e então intensificando suas crenças preexistentes, e da incapacidade de
    interagir de forma normal e corriqueira com as pessoas – esse era o cerne da criação do
    “carisma” de Hitler como orador. De maneira quase inacreditável, Hitler sabia ser íntimo com
    uma plateia e distante com um indivíduo.
    A necessidade de um líder político criar “distância” é algo que Charles de Gaulle,
    contemporâneo de Hitler, reconhecia como de importância vital. “Em primeiro lugar”, escreveu
    de Gaulle, “não pode haver prestígio sem mistério, pois a familiaridade gera o desprezo. Todas as
    religiões possuem o mais sagrado do sagrado, e nenhum homem é um herói para seu mordomo.
    Na elaboração, na conduta e no raciocínio de um líder tem de haver “algo” que outras pessoas
    não podem penetrar, algo que as intrigue, que mexa com elas, que desperte sua atenção…
    68
    Indiferença, caráter e a personificação da quietude, são essas qualidades que cercam de prestígio
    os que estão preparados para carregar o fardo que é pesado demais para mortais inferiores… Ele
    (o líder) precisa aceitar a solidão que, segundo Faguet, é a ‘miséria dos seres superiores’”.
    69
    Mas uma das muitas diferenças entre de Gaulle e Hitler – que nasceram com apenas alguns
    meses de diferença um do outro – é que de Gaulle reconhecia o valor de abrir “distância”
    daqueles a quem ele liderava e conscientemente agia para fazê-lo. Hitler não agia assim por
    opção. Ele sempre teve dificuldades para se ligar a outros seres humanos individualmente – uma
    amizade “normal” era impossível para ele. Só que naquele momento essa característica
    funcionava em sua vantagem. Muitos dos seguidores de Hitler testemunharam sua aparente falta
    de necessidade de intimidade pessoal e viam isso como a marca de um homem de carisma. Na
    verdade, a marca de um herói.
    35 Kurt Lüdecke, I Knew Hitler, Jarrolds, 1938, p22-25.

  26. ERIC CARVALHO disse:

    Capítulo 3
    Em busca de um herói
    Heroísmo e carisma são entremeados. Tanto que Max Weber sustentava que o “heroísmo
    pessoal” era um dos indicativos mais importantes no “carisma autêntico”.
    70 Portanto, não foi
    acidental que Adolf Hitler alegasse que sua liderança do Partido Nazista se justificasse, em
    grande parte, por seu passado “heroico”.
    Na Alemanha, após a Primeira Guerra, havia muitos que ansiavam pelo surgimento de um
    herói – um “homem forte”,
    71
    como menciona Emil Klein, apoiador do nazismo – para norteá-
    los a um mundo novo e mais iluminado. Entre 1919 e 1923, Adolf Hitler teve uma evolução
    contínua, transformando-se nesse líder heroico para eles e, ao fazê-lo, conseguiu construir uma
    tradição poderosa de heroísmo individual – que havia sido disseminado pela criação do Estado
    moderno alemão, no século XIX. Mais de duzentas Bismarcktürme (Torres Bismarck), por
    exemplo, foram erguidas ao redor da Alemanha para comemorar a liderança “heroica” de
    Bismarck, o chanceler que tinha unificado o país. Filósofos alemães como Arthur Schopenhauer
    também honravam o regime de/por indivíduos, em lugar de governos, enquanto Friedrich
    Nietzsche era um defensor fervoroso da importância de um herói no que ele anunciava ser um
    mundo sem Deus. Nietzsche louvava Napoleão como herói, como a “encarnação do ideal
    nobre”.
    72
    Agora os alemães estavam inspirados a olharem para trás, nos exemplos de sua própria
    história, em busca dos heróis individuais. Uma das atrações turísticas mais populares da
    Alemanha era o Hermannsdenkmal (Monumento Hermann), concluído em 1875, na Floresta
    Teutoburg, que celebrava a vitória das tribos alemães lideradas por Arminius (ou Hermann, líder
    dos Cherusci), derrotando o general romano Varus e suas três legiões, quase dois mil anos antes.
    Antes da guerra, muitos membros do Wandervogel, um movimento jovem popular,
    invocavam um líder heroico para resgatar os alemães da crescente industrialização do país e
    liderar o regresso à natureza. “Os rostos ávidos, tensos e jovens se acenderam” escreveu Peter
    Viereck, de um grupo Wandervogel, “quando, sob a luz da fogueira, alguns liam seu autor
    favorito, Nietzsche, ou talvez Stefan George, ainda no começo de 1907, dizendo “O homem! A
    façanha! Volk e o alto conselho anseiam pelo Homem! A Façanha!… Talvez alguém que tenha
    sentado entre seus assassinos e dormido em suas prisões irá se apresentar e realizar a
    façanha”.
    73
    Fundado em 1901 e inspirado pelos ideais de Herman Hoffmann Fölkersamb, um jovem
    diplomata, o Wandervogel, cresceu e se transformou no movimento jovem mais popular da
    Alemanha pré-guerra. Em seguida, inúmeros membros do Wandervogel, como Bruno Hähnel,
    ingressaram no Partido Nazista, levando seu idealismo juvenil com eles. “Sentávamos lá (no

  27. ERIC CARVALHO disse:

    campo), à noite, e eram grandes ocasiões para nós. Minha esposa depois participou; nós nos
    conhecemos quando éramos muito jovens. E mais tarde, na vida, sempre pensávamos naquele
    tempo, por ter sido tão lindo. Sempre havia canto, tínhamos grupos de canto, tínhamos grupos de
    dança folclórica. Eu e minha esposa, éramos do movimento de dança folclórica. Havia um
    sentimento verdadeiro de engajamento baseado na filosofia do Wandervogel. Nós éramos como
    um protesto contra o mundo burguês.”
    74
    “Era uma reação contra a era do imperador Guilherme, que tinha tudo a ver com a
    indústria e o comércio”, confirma Fridolin von Spaun, outro membro do Wandervogel que passou
    a acreditar firmemente em Adolf Hitler. “Eram jovens que simplesmente ficaram mortos de
    tédio e seguiam para a natureza, buscando arredores naturais para algo que eles não conseguiam
    ter em seu próprio ambiente. Eu ingressei por mero acaso, por uma ligação com Elberfeld –
    ainda durante a Primeira Guerra. Nós saíamos para perambular… podíamos cantar nossas
    músicas, cozinhar, jogar, praticávamos esportes também… Era um movimento espiritual.”
    75
    Richard Wagner, outro apoiador dos “movimentos espirituais” e um protestante “contra o
    mundo burguês”, era um herói para muitos desses Wandervogel – da mesma forma que era para
    Adolf Hitler. Óperas de Wagner, como Der Ring des Nibelungen (O anel dos nibelungos), com
    trabalhos épicos como “O crepúsculo dos Deuses” (Götterdämmerung), remetiam aos mitos da
    grande saga nórdica alemã. Hitler era tão obcecado pela natureza “heroica” do trabalho de
    Wagner que ele assistiu à ópera Lohengrin, apresentando um Cavaleiro do Santo Graal, “pelo
    menos dez vezes”,
    76 na Viena pré-guerra. Ele até tentou, sem sucesso, escrever sua própria
    ópera heroica, chamada Wieland, o Ferreiro.
    A leitura predileta de Hitler, em Viena, era As sagas dos Heróis Alemães (Die Deutschen
    Heldensagen) e, segundo seu companheiro de apartamento, August Kubizek, Hitler “se
    identificava com os grandes homens dessa época desaparecida. Nada parecia mais digno do que
    uma vida como a deles, repleta de atos de bravura e grandes consequências, a vida mais heroica
    possível…”
    77
    Mais recentemente, durante a Primeira Guerra, líderes individuais estamparam seus nomes
    em seus regimentos, como uma demonstração da importância do “herói” individual. O próprio
    Hitler, por exemplo, ingressou no 16º Regimento de Infantaria da Reserva Bávara, mas seu
    quartel era, na verdade, conhecido como o regimento “List”, batizado em homenagem ao
    coronel Julius von List, que comandava aquela unidade, no começo da guerra. Essa tendência de
    batizar os regimentos segundo seus comandantes individuais ficou ainda mais forte com a
    formação das unidades paramilitares Freikorps, logo após o final da Primeira Guerra. Uma das
    mais importantes, por exemplo, era conhecida como a “Rossbach Freikorps”, por conta de seu
    comandante, Gerhard Rossbach; outra foi a “Brigada Ehrhardt”, liderada pelo ex-capitão da
    Marinha Imperial, chamado Hermann Ehrhardt. Unidades como essas, segundo Fridolin von
    Spaun, ele próprio um membro de uma Freikorps, “dependiam inteiramente da personalidade e
    das habilidades de seus líderes”.
    78 Ademais, segundo escreveu Ludwig Gengler, “O comandante
    individual (da Freikorps) era frequentemente chamado de Führer. Ele é idolatrado como a
    encarnação concreta de todas essas qualidades que o próprio voluntário queria possuir. E o
    Führer também é uma abstração. O homem que virá”.
    79
    Assim como sua predisposição histórica inclinada à crença no “herói” individual, para Hitler
    e o Partido Nazista havia, no início da década de 1920, uma prova concreta do quanto um heroico
    “Homem que virá” poderia influenciar um país inteiro. Na Itália, Benito Mussolini, que como

  28. ERIC CARVALHO disse:

    Hitler havia se ferido na Primeira Guerra e tinha se tornado ativo na política nacionalista de
    violência extrema, havia formado o Partido Nacional Fascista, em 1919, para lutar contra a
    influência de socialistas e comunistas. Ali estava a prova do quanto um líder “heroico” poderia
    abrir caminho lutando, para sair da obscuridade.
    Naqueles primeiros anos, foi um autor bêbado chamado Dietrich Eckart que mais ajudou
    Adolf Hitler a se transformar em alguém que poderia ser a resposta da Alemanha para Benito
    Mussolini. Hitler encontrou Eckart, pela primeira vez, na segunda reunião do Partido Trabalhista
    Alemão, no outono de 1919. Irascível, ousado e aparentando ser mais velho do que um homem
    de cinquenta e poucos anos, Eckart era um antissemita virulento que, assim como Hitler, sentia
    que a Alemanha havia sido traída pela forma como a guerra havia terminado e pelo Tratado de
    Paz de Versalhes. Ele tinha tanto ódio dos judeus que alegou que gostaria de “embarcar todos os
    judeus num trem e entrar no mar Vermelho com ele”.
    80 Porém, ao contrário de Hitler, Eckart
    era bem relacionado nos círculos sociais sofisticados de Munique e abastado – suas peças,
    particularmente sua versão de Peer Gynt, de Ibsen, lhe renderam uma quantia considerável. E
    ele estava esperando por um homem como Hitler. Em 1919, Eckart tinha dito que a Alemanha
    precisava de um líder que fosse um “sujeito que pudesse suportar a trepidação das
    metralhadoras. A turba tem de tremer de medo. Não posso utilizar um oficial; essa gente já não
    tem respeito por eles. O melhor de tudo seria um trabalhador que sabe falar… Ele não precisa de
    muita inteligência; a política é o negócio mais parvo do mundo”.
    81 Portanto, não foi de
    surpreender que Eckart imediatamente tivesse visto o potencial que Hitler possuía. Ele era um
    simples soldado, porém, havia sido condecorado por heroísmo e recebera a Cruz de Ferro. Após
    seu primeiro encontro com Hitler, Eckart afirmou: “Esse é o futuro homem da Alemanha. Um
    dia, o mundo falará dele.”
    82
    Eckart apresentou Hitler a patrocinadores potenciais e abastados de Munique, que passou a
    ser um sucesso particularmente com as mulheres de determinada idade – houve uma viúva, que
    fazia tanto estardalhaço ao redor dele que ela tornou-se conhecida como Hitler-Mutti (“mãe de
    Hitler”). Antes de sua morte, por um ataque do coração, em 1923, Eckart também ajudou
    financeiramente a Hitler e ao novato Partido Nazista, levantando recursos para comprar o
    Völkischer Beobachter, um jornal para divulgar a visão nazista.
    Talvez, no entanto, um dos maiores auxílios que Eckart deu a Adolf Hitler tenha sido apoiá-
    lo, quando seu papel dominante no Partido Nazista foi ameaçado, no verão de 1921. Anton
    Drexler vinha flertando com a ideia de fundir o Partido Nazista com outros grupos semelhantes,
    como o Partido Socialista Alemão. Drexler via isso como um meio óbvio de fazer o partido
    crescer rapidamente. Então, no verão de 1921, ele ficou impressionado com o trabalho de Otto
    Dickel, professor de filosofia da Universidade de Augsburg. O professor Dickel tinha escrito O
    ressurgimento do Ocidente, um livro que continha ideias semelhantes às expressas nos 25 pontos
    do programa nazista acordados no ano anterior, embora Dickel expressasse seus pontos de vista
    com mais peso intelectual. Quando Drexler ouviu Dickel falar, ele, assim como outros do Partido
    Nazista, ficaram ansiosos por algum tipo de aliança com o professor e seu próprio partido, o
    Abendländischer Bund (Liga Ocidental).
    Toda essa manobra ocorreu quando Hitler estava fora de Munique, e ele ficou indignado ao
    descobrir o que havia sido discutido em sua ausência. Furioso, Hitler saiu de uma reunião com
    Dickel e abandonou o Partido Nazista. Mais uma vez, demonstrou ser relutante e incapaz de
    participar de um debate intelectual.
    A princípio, Eckart tinha se interessado no que Dickel poderia acrescentar ao partido – no
    mínimo, a respeitabilidade intelectual –, porém, uma vez que Hitler renunciou, ele fez o máxim

  29. ERIC CARVALHO disse:

    para convencê-lo a voltar. E Hitler voltou, mas sob suas próprias condições, como o ditador
    inquestionável do Partido Nazista. Eckart então estampou seu apoio a Hitler na capa do Völkischer
    Beobachter.
    83
    Esse foi um momento expressivo na jornada de Hitler: ele já não estava mais angariando
    apoio para um futuro líder da Alemanha, ainda desconhecido. Ele agora se posicionava como
    esse líder em potencial. Hitler havia demonstrado não estar preparado para dividir o poder – e
    viria a encarar quaisquer consequências que sua recusa pudesse gerar. E igualmente importante
    foi o fato de que outros passaram a aceitar a sua avaliação pessoal. Dietrich Eckart, por exemplo,
    teria preferido engajar o professor Dickel no Partido Nazista, porém, uma vez que Hitler se
    recusou, Eckart foi forçado a escolher e, nesse processo, Hitler ganhou um poder incontestável no
    movimento nazista. Agora ele podia se retratar como um “herói”, em parte, porque os outros
    viam sua intransigência como “heroica”, de certa forma. Podia ser um sujeito bem difícil de se
    lidar, porém, nesse jeito difícil é que estava – potencialmente – um atrativo poderoso. Afinal,
    quem espera que “heróis” sejam pessoas razoáveis?
    No ano seguinte, 1922, o Partido Nazista começou a crescer por aquisição. Em outubro de
    1922, Hitler conseguiu convencer os apoiadores do Deutsche Werkgemeinschaft, de Nuremberg,
    a se subordinarem ao Partido Nazista – não numa aliança livre, como havia sido proposto no ano
    anterior, mas reconhecendo que Hitler agora era seu líder. Hitler sempre foi grato a Julius
    Streicher, líder do Deutsche Werkgemeinschaft, por providenciar isso.
    Streicher tinha ouvido Hitler falar anos antes, e ficara atônito. “Eu nunca tinha visto aquele
    homem”, disse ele, em seu julgamento, após a guerra. “E lá estava eu, um desconhecido entre
    outros desconhecidos. Vi aquele homem pouco antes de meia-noite, depois que ele tinha falado
    durante três horas, encharcado de suor, radiante. Meu vizinho disse que achou ter visto uma
    auréola em volta de sua cabeça, e eu tive uma experiência que transcendeu o lugar comum.”
    84
    Streicher era um sujeito pavoroso. Em 1923, ele passou a publicar o Der Stürmer, um jornal
    de sadismo e semipornográfico, com fotografias e histórias antissemitas repulsivas. Mas Streicher
    não era incomum ao tipo das pessoas que agora se ligavam a Hitler. Dentre as pessoas que
    passavam a ser figuras influentes do Partido Nazista incluíam-se Christian Weber, um ex-leão de
    chácara de boate, Hermann Esser, um agressivo perseguidor de judeus, e Ernst Röhn, capitão
    devasso do Exército alemão, que mais tarde escreveu que “eu queria servir a um Volk de
    lutadores, não a um bando de poetas e sonhadores”.
    85 Todos esses homens passaram a deter suas
    posições seniores no Partido Nazista – e todos eles eram bandidos mal-afamados. Esses sujeitos
    violentos e de baixo nível sem dúvida teriam concordado com a visão de Hermann Göring
    expressada em seu julgamento por crimes de guerra, quando ele disse que ingressou no Partido
    Nazista, no começo da década de 1920, porque ele era um “revolucionário”. Em suma, a visão
    de Otto Strasser era de que “Hitler tem prazer na companhia deles, pois eles confirmam sua
    profunda convicção de que o homem é essencialmente vil”.
    86
    Ernst Röhm, particularmente, foi uma figura crucial naquele começo dos nazistas, em parte
    porque ajudou a organizar as armas para a ala paramilitar do Partido Nazista, a SA, os
    Sturmabteilung, ou as tropas tempestuosas. A SA foi oficialmente estabelecida em novembro de
    1921, mas quase desde os primeiros dias do partido inúmeros bandidos nazistas, dentre eles
    muitos ex-soldados, tinham reuniões “protegidas” do partido, em cervejarias, expulsando
    qualquer um que incomodasse Hitler, e foi desse grupo de leões de chácara que a SA se
    desenvolveu.
    87
    Foi em meio a essa mistura violenta e daninha que chegou a notícia, em outubro de 1922,

  30. ERIC CARVALHO disse:

    que Benito Mussolini se tornara primeiro ministro da Itália, um momento que energizou os
    revolucionários do Partido Nazista. Pois se um líder ultranacionalista subitamente ganhava o
    poder na Itália, por que não na Alemanha? Em 3 de novembro de 1922, poucos dias após o
    sucesso de Mussolini, Hermann Esser afirmou para uma aglomeração na cervejaria
    Hofbräuhaus, em Munique, que “o Mussolini da Alemanha se chamava Adolf Hitler”.
    88 No mês
    seguinte, dezembro de 1922, o Völkischer Beobachter publicou um artigo proclamando que Adolf
    Hitler não era um mero figurante, mas o líder que salvaria a Alemanha.
    89
    No ano seguinte, Hitler abocanhou a oportunidade de demonstrar suas credenciais como
    revolucionário heroico. Mas – e isso foi um papel recorrente em sua ascensão ao poder – de
    modo a fazê-lo, ele precisava explorar uma crise no Estado alemão. Felizmente, para Hitler, os
    franceses haviam ocupado Ruhr, a região industrial no oeste da Alemanha. Sob os termos do
    Tratado de Versalhes, os alemães estavam proibidos de lotar regimentos naquela região,
    portanto, os franceses enfrentaram pouca resistência, quando ingressaram em território alemão,
    em 11 de janeiro de 1923. Raymond Poincaré, primeiro ministro francês, adotara esse plano de
    ação porque os alemães tinham cessado as entregas de carvão e lenha devidas à França, como
    parte dos pagamentos de reparação.
    Não foi de se surpreender que a ocupação francesa tenha sido malquista. “Foi quando
    descobrimos que os franceses regiam com mão de ferro”, disse Jutta Rüdiger,
    90
    na época um
    adolescente. “Se havia algo que não lhes agradasse, se você estivesse caminhando pela via
    pública, por exemplo, e eles viessem com seus cavaleiros, você tinha que descer da calçada para
    a rua… Havia um bocado de assédio.” E, além de ter de lidar com os franceses no Ruhr, a
    população da Alemanha precisava, de alguma forma, seguir em frente, vivendo sob a pressão da
    hiperinflação. “Em 1923”, relembra Rüdiger, “um livro de exercícios custava cerca de três
    bilhões de marcos, eu acho”.
    Hitler não evocava seus apoiadores para participarem da resistência passiva que alguns
    alemães estavam preparando contra os franceses, no Ruhr. Seu foco permaneceu na construção
    da inspiração do exemplo de Mussolini, na Itália. Mas ele percebeu que precisava de pelo menos
    um apoio tácito do Reichswehr, as Forças Armadas alemãs, em sua busca pela derrocada do
    governo em Berlim. No entanto, em maio de 1923, quando, num primeiro passo na direção de
    uma revolução nacional, os nazistas tentaram incitar os soldados do Reichswehr que estavam
    numa parada no Oberwiesenfeld, em Munique, as abordagens foram compreensivelmente
    rejeitadas. Apesar disso, Hitler acreditava que precisava agir. Quem poderia saber quanto tempo
    duraria a crise? Assim, em novembro daquele ano, ele lançou o Beer Hall Putsch – um evento
    que lhe renderia a publicidade nacional, pela primeira vez, embora não da forma como ele
    esperava.
    Não era óbvio para ninguém envolvido no planejamento do Putsch, que Hitler realmente
    fosse, ou não, o equivalente “heroico” de Mussolini. Hitler estava em discussões com o general
    Erich Ludendorff, herói da vitória alemã em Tannenberg, na Primeira Guerra, sobre seu
    potencial envolvimento na revolução inspirada pelo nazismo, mas nunca ficou claro qual seria o
    papel de Ludendorff. Será que Ludendorff deveria ser apenas o líder militar, com Hitler
    encabeçando a revolução, ou Ludendorff era o verdadeiro “herói”, para quem Hitler havia
    meramente preparado o caminho?
    Ficou claro, no entanto, que até o final de 1923, Hitler havia decidido agarrar a
    oportunidade. O plano era simples: forçar os líderes do governo autoritário da Bavária a declarar
    seu apoio à “marcha em Berlim”, liderada pelos nazistas, para derrubar os “criminosos de
    novembro”, que estavam no poder. Como era óbvio que os nazistas precisavam de ajuda – ou,

  31. ERIC CARVALHO disse:

    pelo menos, do consentimento – das forças de segurança do Estado bávaro, assim como de seus
    líderes políticos, Hitler decidiu que o golpe deveria ser tentado enquanto o “encarregado pelo
    Estado” da Bavária, Gustav von Kahr, discursava em uma reunião no Bürgerbräukeller, em
    Munique. Kahr era efetivamente o ditador da Bavária, e tinha sido nomeado em setembro de
    1923, em resposta à crise no governo de Berlim, decorrente, mais uma vez, pela ameaça de uma
    revolução.
    Havia sinais de que a estratégia de Hitler talvez tivesse êxito – o governo bávaro, por
    exemplo, parecia mais solidário aos nazistas do que as autoridades de outros Estados alemães.
    Após o assassinato do judeu Walther Rathenau, ministro das Relações Exteriores da Alemanha,
    um ano antes, os nazistas haviam sido banidos na maior parte da Alemanha. Porém, na Bavária,
    os nazistas ainda podiam atuar e Kahr compartilhava do desprezo de Hitler pelo governo de
    Berlim.
    Seria vantajoso para os nazistas darem esse passo na reunião de Kahr, já que Hans von
    Seisser, chefe da polícia Bávara, e o general Otto von Lossow, comandante do Exército Bávaro,
    também estariam presentes. A aposta de Hitler era que, ao ser defrontado com uma decisão já
    tomada, todos esses líderes concordariam com sua revolução planejada.
    Dessa forma, por volta de 20h20, em 8 de novembro de 1923, Hitler e mais de uma dezena
    de apoiadores, incluindo Hermann Göring, Rudolf Hess e Alfred Rosenberg, forçaram passagem
    para entrar no Bürgerbräukeller, enquanto Kahr discursava para um público de milhares. Fora da
    cervejaria, unidades da SA guardavam as saídas. Depois que um tiro foi disparado para o teto da
    cervejaria, Hitler anunciou que a revolução tinha começado. Ele e seus camaradas então
    forçaram as figuras-chave do triunvirato – Kahr, von Seisser e von Lossow – a irem para uma
    sala anexa.
    Mas Hitler deparou-se com um problema: nenhum dos três se animou a apoiar a causa
    nazista. Foi necessária a chegada de Ludendorff na cervejaria para fazer com que eles
    finalmente ofertassem um consentimento indiferente. Hitler, que havia anunciado de forma
    melodramática a Kahr e seus colegas que se suicidaria se o golpe não fosse bem-sucedido, saiu,
    em Munique, para tentar angariar apoio para o Putsch em outros lugares, deixando Ludendorff
    no controle, no Bürgerbräukeller. No entanto, Ludendorff – sendo um oficial à moda antiga –
    acabou optando por liberar Kahr, von Seisser e von Lossow, aceitando a palavra de honra dos três
    em apoio à revolução. Foi um erro catastrófico, como Hitler percebeu, mais tarde, ao regressar
    ao Bürgerbräukeller naquela noite e descobrir que os três homens haviam desaparecido. Agora,
    todos eles haviam retirado a promessa de apoio ao nazismo, e trabalhavam ativamente contra o
    Putsch.
    Nenhuma estratégia de revolução havia sido idealizada e, dessa forma, uma marcha em
    Munique foi rapidamente improvisada para o dia seguinte, depois que um grupo de nazistas havia
    roubado uma fábrica onde eram impressas notas de bilhão de marcos. Emil Klein participou da
    marcha, e se lembra de como os tiros ecoaram quando os apoiadores dos nazistas chegaram ao
    memorial de guerra, no Feldherrnhalle, no centro de Munique, e foram confrontados pelas forças
    de segurança bávaras. “A primeira coisa: Hitler foi ferido?”, conta Emil Klein. “Ludendorff está
    ferido? E todos se espalharam. Claro, se há tiros, você precisa correr. Nós obviamente éramos
    homens da SA bem treinados, e sabíamos o que fazer quando havia tiros… E as pessoas
    levantaram e começaram a olhar em volta, para ver o que estava acontecendo. Foi realmente
    um rebuliço, em parte por conta da massa que havia ali – todos uniformizados – sem saber o que
    estava acontecendo. Porém, de uma coisa nós sabíamos: Kahr tinha traído o acordo. Eles não
    tinham mantido a palavra. Tinham sacramentado com um aperto de mão e esse gesto foi
    desfeito por Kahr e seus colegas, deixando Hitler aparentemente sozinho.”
    91

  32. ERIC CARVALHO disse:

    Em meio ao tiroteio no Feldherrnhalle – e ninguém sabe exatamente quem começou a
    batalha armada –, o homem que estava ao lado de Hitler, Erwin von Scheubner-Ritcher, foi
    alvejado e morto. Hitler se jogou no chão – e seus críticos posteriormente mencionaram que isso
    foi a prova de sua covardia.
    92 Mas Emil Klein discorda veementemente, dizendo que Hitler
    “sempre” demonstrou bravura e coragem. “Eu sempre me impressionei por Hitler ter apenas
    alguns guarda-costas que o acompanhavam em suas jornadas, (e) quando ele andava de carro,
    era sempre em carro aberto.”
    Ludendorff demonstrou sua bravura prosseguindo na marcha através da formação policial,
    chegando ileso ao outro lado. Mas 16 dos apoiadores de Hitler foram mortos naquele dia, assim
    como quatro membros das forças de segurança bávara. Muitos mais foram feridos – incluindo
    Herman Göring. Alvejado na virilha, ele foi auxiliado a sair de Feldherrnhalle, recebeu curativos
    e foi levado clandestinamente até a fronteira da Áustria, a um hospital em Innsbruck.
    Hitler foi preso apenas dois dias após a luta armada. Ele tinha perdido totalmente o controle
    da situação, desde seu fracasso em garantir que Kahr, von Seisser e von Lossow ficassem
    seguramente retidos pelos conspiradores, uma vez que o Bürgerbräukeller foi invadido, até a
    ausência de qualquer plano coerente sobre o que fazer, caso a liderança bávara demonstrasse
    menos entusiasmo quanto ao Putsch. Ademais, Hitler tinha demonstrado não fazer jus à
    promessa de se matar caso a revolução fracassasse, já que agora estava sob custódia das
    autoridades bávaras, esperando julgamento. Esse não foi bem o comportamento de um “herói
    carismático”.
    O julgamento de Hitler começou em 26 de fevereiro de 1924, em Munique. E desde o
    começo Hitler buscava o que, para os que viam de fora, parecia uma estratégia de grande risco:
    ele não apenas admitiu, mas glorificou o que havia feito. Além disso, no tribunal alegou
    abertamente o que via como seu papel na luta que estava por vir. “Decidi ser o destruidor do
    Marxismo”, disse ele. E embora um dia tivesse admitido ser um “soldado”, ele agora “exigia
    para si mesmo a liderança na luta política”. Como consequência, anunciou que era o “herói” que
    salvaria a Alemanha: “Eu exijo que a liderança da organização pela qual todos nós ansiamos e
    pela qual você anseia com a mesma intensidade vá para o herói que, aos olhos de toda a
    juventude alemã, está sendo chamado a ela.”
    93
    Os partidários de Hitler na Bavária viram sua conduta no julgamento como a prova da força
    do caráter de seu líder. “Eu disse a mim mesmo que ele se saiu bem e se portou decentemente
    diante da corte”, conta Emil Klein. “É importante que um homem assuma sua posição, mesmo
    que esteja fazendo algo errado, e eu tive a impressão de que Hitler assumiu sua posição nesse
    julgamento.”
    94 O caso da corte foi amplamente relatado e, pela primeira vez, Hitler se tornou
    conhecido por um imenso número de pessoas, ao redor de toda a Alemanha. Agora, muitos deles
    julgavam, assim como Emil Klein fizera, que ele era um homem de integridade, bravura e
    coragem – de fato, um “herói carismático”. Essa transformação aconteceu, em grande parte,
    por causa da postura desafiadora de Hitler em seu julgamento por alta traição, e diante da prova
    contundente de que o golpe, em si, havia sido terrivelmente mal julgado.
    Hitler sabia, no entanto, que antes mesmo de falar em seu julgamento, os juízes seriam
    brandos com ele. O juiz que presidia o julgamento, Georg Neithardt, já havia demonstrado em
    um caso anterior
    95 que era simpatizante de Hitler e da causa nazista, e Hitler também tinha
    consciência de que estava de posse de revelações constrangedoras de Kahr e das autoridades
    bávaras. O próprio Kahr não tinha concordado em participar desse ato de “alta traição”, diante
    de uma plateia, no Bürgerbräukeller?
    Para os que estavam inteirados disso, o veredicto moderado da corte não poderia ter sido

    surpresa. O Times londrino relatou que “Munique está gargalhando por conta do veredicto”, o que
    provou “que a trama contra a constituição do Reich não é considerada um crime sério na
    Bavária”.
    96
    Hitler recebeu a pena mínima – cinco anos – e provavelmente seria libertado em
    condicional, muito antes. Enquanto isso, ele se beneficiaria pela pena cumprida. Pois enquanto
    esteve encarcerado, passou seus dias tramando como se retratar, inequivocamente, como um
    “herói” carismático com a “missão” de salvar a Alemanha.

  33. ERIC CARVALHO disse:

    Muito bom o video

    Exchanges brasileiras anunciam mudanças visando melhorias em seu atendimento

  34. ERIC CARVALHO disse:

    Capítulo 1 Alexandre, o Grande (356-323 a.C.): Da
    Furiosa Juventude Macedônica a Conquistador do
    Mundo
    A mitologia a respeito da vida de Alexandre é tão de outro mundo que pode até ser
    descrita como a de um deus grego. Uma profetisa o declarou como sendo filho de
    Zeus ao invés de Filipe da Macedônia. De acordo com Plutarco, sua mãe, antes de
    consumar o casamento, sonhou que seu útero era atingido por um relâmpago, o que
    originou uma chama que se espalhou larga e distante antes de desaparecer. O
    enorme Templo de Ártemis em Éfeso foi incendiado no mesmo dia, por ação da
    própria deusa que estava preocupadíssima com o nascimento do guerreiro neste
    mundo. Outras histórias dizem que a Rainha Talestris das amazonas mandou a
    Alexandre 300 virgens para que procriassem e dessem origem a uma nova
    super-raça.
    Alexandre inclusive é citado na Bíblia e no Corão. No livro de Daniel, escrito
    250 anos antes do seu nascimento, o profeta judeu e estadista persa o descreve
    como sendo um homem cabra que “veio do oeste, atravessando a superfície de toda
    a terra, sem tocar no chão; e a cabra tem um notável chifre entre os olhos.” No
    Corão é descrito como sendo uma criatura a qual Alá concebeu imenso poder, e
    viajou ao lugar onde o sol nasce e se põe. Ali ele construiu um muro para cercar
    Gogue e Magogue, o qual será quebrado no dia do Juízo Final. Alexandre
    provavelmente ficaria surpreso ao saber que dois livros sagrados monoteístas tanto
    o elogiaram, enquanto ele vivia a vida de um mortal bêbado e pagão politeísta.
    No entanto, sua gigante reputação é merecida. Era brilhante, bem educado,
    ótimo estrategista, astuto politicamente, extremamente bem sucedido, e esperto o
    suficiente para eleger escritores para registraram seus feitos. O reinado de
    Alexandre se iniciou aos seus 20 anos e terminou com sua morte, 13 anos mais
    tarde. Ele não só demonstrou a importância da estratégia de batalha, mas também a
    importância da logística e da política nas campanhas militares. Ele pode não ter
    conquistado seu objetivo de se tornar imperador de toda Ásia, mas levou seu
    exército, em conquista seguida de conquista, a transformar o Império Macedônico
    num grande poder econômico e militar. O legado de Alexandre foi um modelo

  35. ERIC CARVALHO disse:

    militar que ainda ensina lições importantes mesmo se passando há dois milênios.
    Alexandre nasceu no ano de 356 a.C., filho do rei Filipe II da Macedônia com
    sua quarta mulher, rainha Olímpia. Cresceu no rastro da carreira militar de seu pai.
    No dia de seu nascimento, Filipe preparava o cercamento da cidade Potideia, na
    península Calcídica. As vitorias militares de Filipe incluíam a aquisição da Trácia e
    norte da Grécia. O jovem Alexandre foi o beneficiado com todas essas vitórias.
    Sua educação consistia em aulas dos temas mais centrais do refinamento
    macedônico para os jovens: equitação, luta, caça e literatura.
    Sua grande força de vontade já se manifestava desde a tenra idade. Quando
    tinha 10 anos, Filipe comprou um cavalo da Tessália que se recusava a ser
    montado. Achou que era muito selvagem e decidiu se desfazer dele. De acordo
    com Plutarco, Alexandre percebeu que o cavalo apenas tinha medo da sua própria
    sombra. Superando esse problema, ele domou-o rapidamente e chamou-lhe
    Bucéfalo, que significa “cabeça de boi.” Seu pai se enchia de alegria diante da
    bravura e inteligência de seu filho. Ele exclamava: “Meu menino, você deve
    encontrar um reino que seja grande o suficiente para suas ambições. A Macedônia
    é muito pequena pra você.”
    Suas ambições, todavia, o fizeram um mau aluno. Nos 13 anos, Filipe procurou
    um tutor para seu filho. A agitação característica da adolescência requeria um
    professor que pudesse argumentar com ele e que não fosse um simples autodidata.
    Filipe encontrou a resposta com Aristóteles, um dos personagens do

  36. ERIC CARVALHO disse:

    triunvirato da filosofia ocidental juntamente com Sócrates e Platão. Ele foi
    professor de Alexandre e dos filhos de nobres macedônios como Ptolomeu,
    Heféstion e Cassandro, muitos dos quais se tornariam futuros generais e
    igualmente beneficiados com essa instrução. Alexandre se mostrou ser um
    excelente estudante de filosofia, literatura e ciências. Ele adorava as histórias da
    Odisseia e Ilíada. Aristóteles lhe deu uma cópia comentada da Ilíada, que
    Alexandre leu vorazmente e sempre deixava guardado – junto com uma pequena
    espada – debaixo do travesseiro.
    Quando tinha 16, Alexandre foi nominado regente da Macedônia enquanto
    Filipe tomou rumo em direção à Trácia. Um grupo de tracianos vindos de Medos
    viu isso como uma oportunidade para atacar a Macedônia diretamente enquanto o
    rei estava ausente. O jovem regente reuniu um exercito e enfrentou a ofensiva,
    derrotando os invasores. Eles foram definitivamente expulsos do seu território, e
    suas terras colonizadas pelos gregos. Ele chamou essa nova área de
    Alexandrópolis.
    Filipe estava satisfeito. Deus novas responsabilidades a seu filho e o despachou
    com uma pequena tropa para reprimir revoltas na península da Trácia. Com 18
    anos, Alexandre teve em suas mãos o comando de uma das alas da cavalaria na
    Batalha de Chaeronea na qual a Macedônia lutou contra uma aliança de
    cidades-estado gregas, incluindo Atenas e Tebas. Essa foi uma revolta contra
    Filipe, que havia se tornado o líder de facto da Grécia, e uma revogação dos
    tratados assinados com ele. Alexandre se mostrou digno de seu compromisso
    quando seu flanco destruiu o Batalhão Sagrado de Tebas, formada pelos membros
    da elite da infantaria tebana. Ele foi o primeiro a conseguir tal feito, dando um fim
    à batalha. A guerra de resistência contra Filipe tinha chegado ao fim. Sem mais
    nenhuma oposição interna restante, Filipe fixou seus olhos para a região dos Bálcãs
    e se preparou para uma guerra contra a tão antiga inimiga persa: Grécia. Ele foi
    votado comandante supremo para uma invasão pan-helênica. Filipe morreu antes
    de executar este tão esperado plano, mas Alexandre avidamente vestiu seu fardo
    alguns anos mais tarde.
    Sob a tutela de seu pai, Alexandre aprendeu as avançadas estratégias militares
    que lhe assegurariam obter tais grandes conquistas. Filipe ensinou seus soldados a

  37. ERIC CARVALHO disse:

    usarem a sarissa, uma lança de 4 a 7 metros de comprimento que permitia a
    formação em falange, capaz de atacar o inimigo a uma distância onde as espadas
    não alcançavam. Uma vez que as lanças eram pesadas, requeriam que quem as
    portasse utilizasse as duas mãos. Para defender então o lanceiro, Filipe criou uma
    categoria de escudeiros chamados de hipaspistas. A formação em si não era o
    suficiente para aniquilar completamente o inimigo, mas mantinha-os parados; era
    como se fosse uma bigorna e a cavalaria fosse o martelo que atacava os flancos do
    adversário. Cada lado da falange era flanqueado por unidades de cavalaria.
    A cavalaria macedônica era formada pelos conhecidos Heteros e é amplamente
    reconhecida como a melhor unidade de cavalaria do mundo antigo. Foi a primeira
    cavalaria de choque da história num cenário onde todas as outras evitavam o
    contato direto durante o combate pesado. Cada membro montava nos melhores
    cavalos e tinham os melhores armamentos possíveis. Cada um levava consigo um
    xyston (uma lança que media por volta de 4 metros), uma couraça, guarda ombros,
    e um capacete beócio. Os Heteros eram organizados em oito esquadrões territoriais
    com cerca de 200-300 cavaleiros cada. Uma vez que a falange impedia a
    movimentação do inimigo, a cavalaria atacava pelos lados ou por trás. Alexandre
    liderou pessoalmente o esquadrão real da cavalaria dos Heteros onde era
    facilmente reconhecível. Isso fez dele um alvo, estratégia que levou a muitos
    ferimentos, porém inspirava coragem em suas tropas.
    A Macedônia também detinha armas de cerco que completavam seu exército.
    Bruce Upbin descreve o modo peculiar que os engenheiros macedônicos
    desenvolveram para dominar os oponentes que eram protegidos por muros. Foi
    uma inovação crucial, uma vez que exércitos gregos não tinham a capacidade de
    vencer tais fortificações. Os espartanos nunca foram capazes de conquistar Atenas
    durante a Guerra do Peloponeso.

  38. ERIC CARVALHO disse:

    Uma das principais inovações nessa área foi a utilização da torre de cerco. A torre
    era utilizada por exércitos desde o século XI a.C. no antigo Oriente Próximo, mas
    Alexandre construiu um arranjo mais eficiente delas. Ela permitia com que fossem
    passados muito mais homens pelos muros do que com o uso de uma simples
    escada. A isso, foi incorporado novas formas de catapulta e artilharia que
    arremessava lanças e projéteis usando fibras e cordas firmemente enroladas como
    energia de torque que propulsionavam dois braços móveis, aumentando
    drasticamente o potencial de ataque. Essa capacidade superior de arremessamento
    resultou na criação de um grande lança pedras chamado de lithobolos, máquinas
    que podiam lançar pedras pesando mais de 80kg. Isso tudo fez com que a
    derrubada de muros das cidades se tornasse um importante item durante as
    conquistas e ajudou o exército a evitar longos cercamentos, condição que muitas
    vezes acompanhava o quadro de fome. Alexandre utilizava em batalha artilharia
    tanto terrestre quanto a estratégia de cerco.
    Em 336 a.C., Filipe foi assassinado. Nessa época, havia se divorciado de
    Olímpia, casado com Cleópatra Eurídice, e seu relacionamento com Alexandre se
    abalou. Alexandre não era mais garantido como o sucessor de seu pai. A tensão
    entre os dois poderia ter se tornado uma séria rivalidade além da relação pai e filho.
    Plutarco descreve a situação perturbadora durante o casamento de Filipe e
    Cleópatra: “No casamento de Cleópatra… seu tio Átalo desejou que os macedônios
    rogassem aos deuses para que dessem à sua sobrinha o sucessor do reino. Isso
    irritou tanto Alexandre que jogou uma taça na sua cabeça, gritando: ‘Seu maldito,
    então, sou eu, um bastardo?’ Então Filipe se levantou e na intenção de atravessar
    uma faca em seu filho, mas por sorte dos dois, por causa de sua raiva eufórica ou
    por causa do vinho que havia bebido, seu pé escorregou e acabou caindo no chão.
    Alexandre então lhe lança o insulto: ‘Veja só, o homem que pretende passar a
    Europa para a Ásia não é capaz ao menos de passar de um assento para outro.'”
    Alexandre, com medo de ser morto fugiu para Ilíria, mas voltou seis meses
    depois. Nesse tempo, a questão da sucessão havia sido resolvida quando Filipe foi
    morto pelo capitão de seus guarda-costas, Pausânias.
    Alexandre então focou em conquistar territórios na tentativa de sair da
    Macedônia. Suprimiu rebeliões na Tribália e Trácia, e rapidamente organizou

  39. ERIC CARVALHO disse:

    tropas em Tebas para abafar uma rebelião da Grécia. Ofereceu aos tebanos a
    chance de se renderem, que foi recusada, logo invadiu a cidade brutalmente,
    destruindo quase toda estrutura que se encontrava pelo caminho, matando 6.000
    pessoas e escravizando trinta mil cidadãos. Ouras cidades gregas que planejavam
    rebeliões rapidamente desistiram dos planos. Atenas, Corinto, e Termópilas
    juraram lealdade.
    Essas vitórias eram características das manobras táticas de Alexandre. A
    Macedônia pode ter sido um estado grego, que vivia às sombras do Império Persa,
    porém detinha uma força militar competente e profissional que poderia
    rapidamente massacrar a maioria dos exércitos inimigos. Alexandre se tornou líder
    desse exército, transformou-o numa máquina de guerra que foi capaz de cruzar
    continentes e dizimar qualquer coisa que estivesse no caminho.
    Depois de consolidar seu poder, Alexandre se preparou para expandir o legado
    de seu pai. Filipe morreu enquanto preparava uma invasão na Pérsia. O império
    havia molestado continuamente estados gregos por séculos e ameaçava sua total
    conquista em diversas ocasiões. Os mitos gregos de conquistas heroicas em
    batalhas, principalmente a batalha de Teófanes em 480, consistiam em pequenas
    tropas gregas impedindo a entrada de uma massiva tropa persa. Filipe desejava
    uma empreitada ofensiva e acabar com séculos de ataques que seu reino havia
    sofrido entre os governos de Ciro a Dário III. Alexandre consultou os assessores de
    seu pai e iniciou a preparação de uma massiva campanha rumo ao oriente. Muitos
    pensavam que se tratava de uma pequena conquista de algumas fortalezas
    principais da Pérsia. Seus assessores nunca esperaram que estava para ser lançada
    uma campanha que duraria mais de décadas rumo àquele mundo conhecido. Ele
    teve uma dedicação especial em relação às palavras de Aristóteles para unir leste e
    oeste.
    Sob a guarda das fronteiras ao norte, preparou a travessia em direção a Ásia com
    50 mil soldados, 6 mil cavaleiros, e uma esquadra de 120 navios com
    aproximadamente 40 mil tripulantes. Chegava de repente, dando pouco tempo para
    que seus inimigos se preparassem. A formação de seu exército incluía hábeis
    soldados fortemente armados na frente, na formação de falange, empurrados por
    tropas de apoio que vinham logo atrás. O exército dos flancos contava com
    arqueiros, lançadores e cavaleiros.
    Uma vez iniciada a jornada à Ásia, Alexandre inspirava corajosamente suas
    tropas ao liderá-las no front, no compromisso com a vitória, e respeito com aqueles
    que haviam falecido. Quando seus exércitos chegaram na Ásia atravessando
    Dardanelos, fincou sua lança em solo anatólio e reivindicou o continente como
    sendo um presente dos deuses. Apesar de se imaginar como sendo um ser divino,
    Alexandre não tratava a vida de seus soldados como uma mercadoria qualquer. Se
    morressem em batalha, isentava a família dos impostos. Personagens notáveis eram
    agraciados com status.
    Alexandre também foi conhecido por sua sabedoria. Esforçava-se para fazer
    visitas e fraternizar com seus soldados, o que inspirava lealdade na hora da batalha.
    Vestia o mesmo uniforme de seus subordinados. Os soldados recebiam um baixo
    salário, porém Alexandre garantia que recebem uma recompensa ao final de cada
    conquista (o sistema de pagamento era baseado na comissão, o que incentivava
    soldados a lutarem por mais de uma década em terras estrangeiras para que
    pudessem retirar suas riquezas). Era um especialista em logística e garantia que seu
    exército estivesse bem alimentado e propriamente equipado. Essa é uma parte
    pouco valorizada do trabalho, tão detalhista quanto essencial. A história está
    repleta de casos onde exércitos foram destruídos não por seus inimigos, mas sim
    pelo estômago vazio e pela falta de equipamentos.
    Sua primeira vitória sobre a Pérsia foi na Batalha do Grânico em 334a.C. Seu
    exército era menor porém mais bem preparado do que o dos oponentes, e venceu
    apesar da presença de gregos relutantes no seu time. Depois dessa batalha,
    Alexandre aceitou a rendição de Sardes, uma capital provinciana persa. Seu
    exército prosseguiu ao longo da costa do Egeu, cercando muitas cidades
    começando por Halicarnássio. De lá, moveram-se para as montanhas de Lícia, e para as planícies da Panfília. Eliminou bases navais persas, despedaçando a cadeia
    de suprimentos da Anatólia. Deslocaram-se depois para Termesso. Quando
    chegaram na capital do antigo reino da Frígia, Górdio, as narrativas acerca de seu
    grandioso destino são confirmadas. De acordo com um oráculo, aquele que fosse
    capaz de desatar o nó górdio se tornaria o rei de toda a Ásia. Como não conseguia
    encontrar as extremidades, Alexandre simplesmente sacou a espada e cortou-o ao
    meio. É daí que vem a expressão “cortar o nó górdio”, que consiste em resolver um
    problema de forma prática.
    Em Isso, norte da Síria, Alexandre se deparou com o exército de Dario III, que
    foi facilmente derrotado e assustou o imperador persa, uma vez que seus números
    estavam na proporção dois pra um. Na vitória, as tropas de Alexandre mataram
    dezenas de milhares. Dario fugiu do campo de batalha deixando pra trás sua mãe,
    esposa, e duas filhas. Ofereceu-lhes 10mil talentos (a moeda da época) e todas as
    terras que haviam sido invadidas na Anatólia. Os macedônios recusaram. De
    acordo com os cronistas, Sisigambis, a mãe de Dario, como vingança perante a
    covardia do filho, substitui-lhe por Alexandre, que foi tratado como sendo seu. De
    sua parte, Alexandre foi tolerante e generoso com Sisigambis e o resto da família
    de Dario. No entanto, recusou os ainda mais generosos termos de renúncia do
    imperador e sitiou Tiro. O imperador ofereceu 30mil talentos por sua família, a
    mão de sua filha mais velha em casamento, e toda terra a leste do rio Eufrates. Ao
    que Alexandre ainda recusava devido à sua missão de conquista, nações bárbaras
    da proximidade ficaram temerosas. A maioria simplesmente preferiu jurar
    fidelidade a enfrentá-lo em batalha.
    Alexandre poderia ser desnaturado com seus inimigos, mas a gentileza com
    que tratava Sisigambis não era uma anormalidade. Geralmente tratava seus
    oponentes com respeito, mas em alguns casos era impiedoso, causando execuções
    em massa e escravização. O que explica essa dicotomia? Não era efeito de uma
    síndrome bipolar. Na maioria das vezes, demonstrava a brilhante habilidade
    política de Alexandre. Por vezes, uma disposição violenta para que se obtivesse respeito,
    obediência e lealdade era necessária para liderar um exército de milhares de
    soldados em direção a terras desconhecidas de um outro continente. Alexandre
    pode ter permitido que suas tropas massacrassem todos os homens de uma cidade e
    escravizassem todas as mulheres e crianças, como fez em Tiro em 332 a.C., mas
    sabiam que o mesmo destino poderia recair sobre eles caso não cumprissem as
    ordens. Saques, roubos e abatimento de cidades inteiras eram mensagens enviadas
    aos próximos inimigos em potencial.
    Essa abordagem podia ser vista durante a conquista da costa fenícia. Quando
    chegou à ilha de Tiro, os cidadãos se recusaram a se render. Alexandre cercou a
    cidade nos sete meses seguintes. Incapaz de empreender um ataque por mar,
    Alexandre gastou uma quantidade considerável de recursos na construção de uma
    ponte. Quando Tiro finalmente se rendeu, a cidade foi destruída, 7.000 pessoas
    foram mortas e 30.000 escravizadas. Ele foi piedoso com o rei de Tiro e sua
    família. Depois moveu-se para Gaza onde os cidadãos se entregaram após dois
    meses de sítio.
    No Egito, demonstrou mais uma vez sua engenhosidade diplomática. Deixou
    encantada a elite política teocrática ao se submeter a uma peregrinação religiosa e
    se encarecendo com os padres no oráculo. Em 331 a.C., Alexandre adentrou o
    Egito onde foi agraciado como sendo o libertador de dois séculos de domínio
    persa. Combinou sua vitória com sua decisão estratégica para construir uma cidade
    na foz do Rio Nilo. Essa cidade foi planejada como sendo um ponto estratégico
    naval e um porto comercial. Foi chamada de Alexandria em sua homenagem;
    décadas depois, Ptolomeu a tornou a capital do império e se tornou o pólo
    científico do mundo antigo. Alexandre também foi a uma peregrinação ao templo e
    oráculo de Amon-Rá, deus sol egípcio, conectado com a divindade macedônia
    Zeus Amon. Os padres do templo declararam Alexandre como sendo filho de Zeus
    Amon , assim como os faraós eram tidos como filhos de Amon-Rá.
    Depois de conquistado o Egito, Alexandre retornou a Tiro para uma batalha
    final contra Dario. O uma vez referenciado deus rei, aproximou- se da terra firma
    por causa de suas perdas militares. Alexandre capturou Susa e a antiga capital do
    Império Aquemênida, Persépolis, que fora queimada como vingança devido ao incêndio da Acrópole de Atenas durante a Segunda Guerra Médica. Dario fugiu
    por Medos e Pártia, mas acabou sendo aprisionado e posteriormente esfaqueado
    pelo sátrapa Bessos. Junto de sua morte, ocorreu a Queda do Império Aquemênida
    e a Pérsia ficou sob o domínio grego. Alexandre almejou, então, matar Bessos por
    se tratar de um usurpador, e sua tropa o perseguiu pela Ásia Central. Bessos foi
    capturado e executado em 329 a.C., mas não antes de Alexandre fundar cidades nas
    regiões em que passara, tais como Candaar no Afeganistão e a atual Khujand no
    Tajiquistão.
    Alexandre não forçou para que os persas adotassem nem a cultura grega, nem a
    macedônica. Na verdade foi bem o contrário: aceitou coisas como vestimenta,
    cerimônias, tradições e práticas judiciais. Em especial, adotou alguns rituais de
    respeito que os persas dedicavam a seus superiores, como algumas formas de
    reverência e o simbólico beijo nas mãos. Alexandre manteve uma política flexível
    de absorver recursos e costumes das terras conquistadas para seu exército e deixava
    os nativos responsáveis pelos distritos recém-formados enquanto prosseguia em
    sua grande conquista. Essa era uma prática muito usual no mundo antigo; permitir
    com que um nativo governasse a região, ao invés de um estrangeiro, era o melhor
    modo de se evitar que surgissem rebeliões. Ele notou que os persas tinham seus
    governos provinciais e encorajava a incorporação de suas tropas as dele.
    Estimulava com que seus soldados se casassem com esposas persas. A estratégia
    de unir, aos poucos, as duas culturas abrandavam as possibilidades de estouro de
    uma guerra ou rebelião. Era um modo prático de unir dois Estados que guerrearam
    por séculos e que não tinham em comum fatores como linguagem, código civil, ou
    deuses. Mesmo assim, Alexandre não foi totalmente adorado pelos seus soldados
    durante a campanha, particularmente por sua tendência de apropriar cultura de
    fora. Alexandre acreditava no “realpolitik”, mas muitos dos soldados macedônios o
    viam como um oportunista sem princípios. Enquanto vencia nas questões do
    império, perdia nas da própria nação. Um número considerado de oficiais
    acreditava que ele

  40. ERIC CARVALHO disse:

    havia se esquecido da sua genealogia macedônica. É importante lembrar que as
    tropas de Alexandre, em sua maioria, não acreditava que seu líder era divino; mitos
    de seus contemporâneos que diziam ele ser filho de Zeus, só se espalharam depois
    de sua morte.
    Uma conspiração para retirar Alexandre do poder foi descoberta. Filotas,
    comandante da cavalaria, foi julgado e executado como sendo o líder do golpe,
    Alexandre então ordenou também a execução de seu pai, Parmênio, para que se
    prevenisse qualquer forma de vingança ou planejamento de um segundo golpe. Foi
    uma atitude audaz, uma vez que Parmênio era um general respeitado, e sua
    execução fez com que sua popularidade diminuísse ainda mais. Aqueles que
    conviviam com Alexandre ficavam cada vez mais temerosos e consideravam seu
    comportamento como sendo instável.
    Alexandre se casou mais de uma vez durante sua campanha, sendo suas
    intenções a de manter alianças. Em 327 a.C., casou-se com Roxana, filha de
    Oxiartes, uma de suas três esposas. Foi o único casamento abençoado pelo amor;
    se casou com Estatira, filha de Dario, e Parisátide II, por razões políticas. No ano
    seguinte, seu exército rumou a Punjab para expandir o império ao leste da Pérsia.
    As caravanas dos exércitos de Alexandre mais se assemelhavam a uma cidade
    móvel do que uma força militar dos dias de hoje. Alguns soldados viajavam com
    suas mulheres e crianças, ou com escravas concubinas que eram adquiridas ao
    longo do curso. Muitas pessoas de outras áreas seguiam junto. Alexandre viajava
    com engenheiros, poetas, historiadores, cientistas, médicos, mercadores de
    escravos, e seu cronista – o que explica as cópias gravadas de sua vida que foi
    deixada pra história. Uma cadeia de suprimentos era estabelecida com os estados
    conquistados, para que fosse possível providenciar os materiais necessários para
    seu exército. No entanto, eram geralmente ordenados a deixarem a terra e
    estabelecerem trocas com cidades pelas quais passassem devido ao longo período
    de duração da campanha.
    Alexandre chegou ao seu limite oriental quando encontrou caciques
    paquistaneses e os convocou para que se submetessem à sua autoridade. Em
    327/326a.C. foi instaurado um ataque contra aqueles que recusaram. Foram assim
    destruídos os clãs dos Aspasioi, Guraean e Assakenoi, juntamente adquiridos com

    ferimentos no ombro e no tornozelo. Então cruzaram o Rio Indo e guerrearam
    contra o governante de Punjab, o rei Poro, na famosa Batalha de Hidaspes.
    As manobras pré-conflito de Alexandre, são consideradas como sendo uma das
    suas técnicas de combate mais engenhosas. Ele e suas tropas tiveram de atravessar
    o rio Jhelum, que era rápido e profundo o suficiente para carregar qualquer um que
    tentasse atravessá-lo, enquanto Poro se posicionava na margem sul, impedindo
    qualquer travessia. Alexandre levou consigo uma pequena porção de uns 6.000
    homens rio acima e cruzou o rio discretamente utilizando “botes de pele enchidos
    de feno”. Ele surpreendeu o rei de Punjab com sua armada, que cruzou o rio apesar
    de qualquer explicação plausível.
    Para tornar este conflito entre os mais surreais da história, as tropas de
    Alexandre iniciaram a ofensiva durante uma tempestade e encararam o que
    nenhum europeu jamais havia visto na vida: uma infantaria rodeada por elefantes
    de guerra. Estes elefantes foram capazes de abalar as linhas de formação, causando
    um dano significativo à falange. Os soldados foram efetivamente capazes de reunir
    todos os seus temores e concentrá-los na ponta da lança. Os escudeiros
    pressionavam veementemente seus escudos contra os inimigos. No fim das contas,
    aproximadamente 1.000 do exército de Alexandre foram mortos contra 23.000
    indianos. A conquista fez com que Punjab se tornasse um território macedônico e
    deixou a Índia aberta para receber influências culturais e políticas helênicas.
    É nesse ponto onde a área dominada por Alexandre atingiu seu máximo. A
    extensão de suas conquistas envolveu mais de duas dúzias de nações atuais e todas
    as bases culturais que vão de Grécia a Egito, Pérsia, Índia, e todas as outras que se
    encontravam nesse meio. A famosa descrição acerca da carreira do conquistador
    feita por Plutarco, é marcada aqui com a frase “Quando Alexandre se deu conta do
    tamanho do seu domínio, ele se lamentou, pois não havia mais o que ser
    conquistado” – citação que foi imortalizada pelo vilão Hans Gruber no filme “Duro
    de Matar.”
    Alexandre queria continuar mais a leste, porém suas tropas começaram a se
    revoltar, se preocupando com os reforços de tropas e suprimentos indianos.
    Estavam exaustos de anos de batalhas e esperavam rever suas famílias. Relutante,
    Alexandre concordou. Os macedônios decidiram retornar pela rota ao sul, seguindo
    por Hidaspes e pelo Rio Indo. Foram construídos 1.000 barcos que carregavam os
    mantimentos. Em Mali, as tropas enfrentaram forte resistência dos clãs locais.
    Alexandre foi ferido gravemente por uma lança no peito. Apesar disso, as tropas
    conseguiram a vitória. Alexandre se recuperou e a jornada prosseguiu.
    Depois de passarem pela Índia, Alexandre fez alguns pronunciamentos
    controversos que aumentaram o facciosismo entre as tropas. Ele enviou parte do
    exército em direção ao sul do Irã junto com a frota de barcos para explorarem o
    Golfo Pérsico. O restante atravessou o deserto da Gedrósia e Makran, porém
    muitos morreram pelo caminho devido ao clima árido. A reação negativa do grupo
    frente às ordens de marcha só não era superada pela ideia de misturar as culturas
    helênicas e persas. Ao manter seu objetivo de unificar o império, Alexandre
    legitimou os casamentos entre seus soldados com mulheres persas. Cerca de 10mil
    soldados macedônios foram dispensados de seu dever, e os velhos e injuriados pela
    batalha retornaram à Macedônia, mas isso só depois que 30mil persas foram
    incorporados ao exército. Alexandre disse que sua intenção era a de dar um pouco
    de descanso aos que precisavam, mas foi interpretado por uns como uma tentativa
    de mitigar o poder de voz dos macedônios. Treze dos líderes que haviam rejeitado
    tropas persas foram presos e executados.
    Perto do fim de sua vida, Alexandre viajou até Ecbátana para recolher o
    tesouro persa. Em 324 a.C., seu amigo (e talvez amante) Heféstion morreu de
    febre. Este foi um fato marcante na vida do jovem imperador. Uma forte ligação os
    unia. Sua morte surtiu efeitos marcantes devido ao modo de como foi sentida por
    Alexandre. Cronistas dizem que as atitudes tomadas pelo general atestavam seu
    grave estado de melancolia, como, por exemplo, a ordem de tosquiar o rabo de
    todos os cavalos e o banimento de flautas ou qualquer outro tipo de música.
    Recusava a comer ou beber por dias e se encontrava em extremo ressentimento. O
    custo do funeral de Heféstion foi estimado em 12.000 talentos, o que alguns julgam
    ser o equivalente a 2 bilhões de dólares atualmente. Uma enorme pira de 60 metros

    de altura foi projetada pelo famoso artista Estasicrates e era adornada com ouro e
    alguns detalhes com cenas da mitologia grega.
    Após a morte de seu amigo, Alexandre organizou um banquete em homenagem
    a seu almirante Nearcos e “virou o caneco” junto de Medius de Larissa, parte por
    diplomacia, mas parte para afogar suas mágoas. Isso resultou numa forte febre que
    foi aumentando a tal ponto que ele foi incapaz de sequer falar pelas próximas duas
    semanas. Alexandre morreu pouco depois em 323 a.C. com a idade de 32 anos no
    palácio de Nabucodonosor II na Babilônia.
    Por conta de todo seu planejamento e série de vitórias, Alexandre não dedicou
    muita atenção sobre sua sucessão. Ele não tinha nenhum herdeiro legítimo, já que
    seu filho Alexandre IV nasceu logo após sua morte. Um documento diz que o
    general Crátero teria recebido instruções detalhadas sobre o que fazer após a morte
    de Alexandre, que incluíam a conquista da porção ocidental do Mediterrâneo,
    circunavegação da África, translocar algumas populações da Ásia e Europa para
    que houvesse mistura de raças, e a construção de um monumento para o seu pai
    Filipe que se equiparasse aos maiores encontrados no Egito.
    Essas ordens foram ignoradas pelos generais. Nos próximos 40 anos ocorreu
    uma série de lutas pela sucessão que acabou na formação de vários reinos filhos.
    Assim ocorreu o rápido fim da ascensão meteórica do Império Macedônio, mas
    apesar da cisão, quatro impérios surgiram, todos com claras raízes
    greco-macedônicas. A dinastia ptolemaica no Egito, o Império Selêucida na Pérsia,
    o reino Pérgamo na Anatólia, e a Macedônia.
    As lições que os generais atuais podem tirar de Alexandre são muitas, que por sinal
    ainda são ensinadas nas academias militares. Trate os soldados com respeito,
    mantenha os suprimentos em ordem,

  41. ERIC CARVALHO disse:

    crie um exército bem disciplinado com formações estratégicas, e saiba distinguir
    quando se utilizar da diplomacia ou da batalha armada. Ele recompensava
    altamente seus soldados, frequentemente andava pelos acampamentos e parava pra
    conversar com os grupos de homens. Ele os permitia que saqueassem o que fosse
    possível nas conquistas, o que os motivavam a vencerem as batalhas. Mas
    reservava um tratamento totalmente diferenciado para aqueles que fossem culpados
    de traição ou que planejavam algum golpe, estes eram quase sempre executados.
    Mais além, Alexandre era hábil em lidar com as diferenças culturais e capaz de
    liderar pessoas vindas de classes extremamente diferentes. Mostrava grande
    consideração pela cultura alheia a ponto de introduzi-la na sua própria. Era capaz
    de convencer administradores, líderes religiosos e fingir interesse em deuses
    estrangeiros para sempre ter a certeza de que os macedônios estavam sob controle.
    Ele era aclamado por diversas pessoas nos anos e séculos que se seguiram,
    principalmente pelos militares. Em 63 a.C., um jovem questor romano na Espanha
    se aproximou da estátua de Alexandre para prestar homenagem ao comandante que
    nunca perdeu uma batalha na sua carreira marcante. O rapaz de 30 anos de idade
    percebeu que os macedônios já haviam conquistado o mundo na sua idade,
    enquanto ele era apenas um mero administrador numa província romana e que
    havia desperdiçado toda sua juventude. A face de pedra da estátua deu sorriso de
    volta para ele, satisfeita com sua reputação colossal.
    Esse jovem rapaz, Júlio César, eventualmente encontrou seu caminho e seguiu
    para sua própria carreia de conquistador. Ele ergueria seu próprio império e
    lideraria exércitos para uma vitória extraordinária. Mas era Alexandre perante a
    quem ele se ajoelhava, talvez o único ser humano merecedor de tal ato vindo de um
    César.

    Capítulo 2 Aníbal de Cartago (247-182 a.C.): O Pai da
    Estratégia e da Desgraça da República Romana
    O inimigo mais temido da Roma antiga cresceu numa cultura alicerçada na morte.
    Aníbal Barca, cujo nome em púnico significa “Baal é piedoso comigo,” foi criado
    como adorador do antigo deus cananeu que requeria, para o seu contento, crianças
    como sacrifício. Quando tinha sete anos, Aníbal assistiu, da beirada do local onde
    se queimavam os sacrifícios, seus pais entregarem seu irmão mais novo a um
    padre. A figura que trajava um roupão o segurou diante de uma estátua em bronze
    com os braços abertos. Ele cortou a garganta da criança, causando uma morte
    rápida, e colocou o corpo nas mãos estendidas da estátua, que permaneceu ali por
    algum tempo antes de cair em direção ao fogo.
    O pai de Aníbal, Amílcar Barca, era um comandante cartaginês e líder na
    Guerra dos Mercenários e na conquista púnica da Ibéria. Ele criou seu filho de
    acordo com a cultura altamente religiosa da época, fundada em 814 a.C. como uma
    colônia de comércio fenícia. A adoração a Baal era tão intensa na sociedade norte
    africana quanto havia sido 1.000 anos atrás, quando os cananeus chacinaram
    brutalmente as crianças, para o horror dos antigos israelitas. Esta era uma prática
    abominável, até mesmo para os padrões do fim da Idade do Bronze; tanto o era,
    que no Antigo Testamento, Deus ordenou ao exército de Israel que destruíssem
    completamente a civilização dos adoradores de Baal para que pudessem entrar na
    Terra Santa.
    A prática, contudo, continuou a prosperar durante a vida de Aníbal. Cleitarco
    escreveu no século III a.C. que as famílias cartaginesas reservavam pelo menos um
    de seus filhos para os deuses de forma a obter suas graças. Plutarco destaca que os
    casais que não tinham filhos chegavam a comprar crianças de famílias pobres para
    serem utilizados com esse fim. Os romanos e gregos contemporâneos julgavam a
    prática igualmente barbárica. Acreditavam que esta era a prova de que aquela
    sociedade merecia ser conquistada, dominada, e se necessário, destruída.
    Ao contrário de seus vizinhos da Ibéria e da Gália, a tarefa de conquista
    Cartago não era tão simples. Sob o comando do brilhante estrategista Aníbal, esta
    representou a maior ameaça existente à jovem República Romana.

    Ele obteve sua maioridade quando as potências do Mediterrâneo disputavam
    para ganhar a supremacia sobre os países próximos, devido à ausência de um poder
    forte na região. Cartago se contentava com Roma, Siracusa, e os estados filhos do
    grande império alexandrino – Macedônia, o Império Selêucida e o Egito
    ptolemaico. Aníbal certamente tinha a inteligência e determinação necessárias para
    tornar a sua cidade-estado o estado preeminente do mundo antigo. Ele inclusive
    parecia destinado a este resultado no início de suas vitórias militares,
    particularmente na batalha de Canas, onde ameaçou desfazer a República Romana.
    Mesmo com todo seu sucesso no campo de batalha, Aníbal foi incapaz de obter
    sua vitória final sobre aqueles que também aspiravam à supremacia do
    Mediterrâneo. Isto se deve principalmente a sua inaptidão em vencer a longa
    disputa que foi a Segunda Guerra Púnica, apesar de seu sucesso em conflitos mais
    curtos. Além disso, mesmo sendo um grande estrategista, falhou em seu papel de
    estadista, isto é, o de converter suas vitórias militares em capital político e trazer a
    aristocracia cartaginesa ao seu lado. Porém, suas estratégias eram tão inovadoras
    que a ele é frequentemente reservado um lugar no panteão dos grandes generais da
    antiguidade, junto de Alexandre – o Grande, Cipião Africano, Júlio César e Pirro de
    Épiro. Ele é o santo padroeiro dos estrategistas da Idade Moderna, como Napoleão
    Bonaparte.

    O legado de Aníbal é também irreparavelmente distorcido devido às fontes
    tendenciosas que restaram sobre ele. Nenhum registro histórico de sua vida
    sobreviveu à Terceira Guerra Púnica e a destruição de Cartago. Nenhum de seus
    conterrâneos deixou qualquer documento sobre sua vida; nem panegíricos ou
    canções sobre sua glória militar sobreviveram. Tudo o que resta são anotações de
    cronistas romanos, que tinham o papel de mostrá-lo como um inimigo da
    civilização. Como resultado, mostravam aspectos de sua vida e seu tempo da
    maneira mais negativa possível. Dos 37 autores que o mencionam, sequer um
    comentário é positivo. Entretanto, eles tinham de concordar que ele possuía táticas
    extraordinárias, mesmo que esse fato fosse descrito para enfatizar que a sua derrota
    final tornou a ascensão de Roma ainda mais fantástica.
    Aníbal nasceu em 247 a.C. Seu pai Amílcar era o líder dos cartagineses no
    final da Primeira Guerra Púnica contra Roma. A guerra terminou quando Amílcar
    rendeu a Sicília a Roma e a paz foi negociada. Sem descansar nenhum minuto, ele
    rapidamente providenciou um modo de reverter as condições financeiras de seu
    estado. Amílcar primeiramente submeteu tribos da Península Ibérica sob seu
    domínio para que pudesse cobrar tributos sobre elas. Não foi uma tarefa simples de
    ser concluída por conta da miséria dessas regiões. A marinha cartaginesa estava tão
    escassa de recursos depois de sua guerra contra Roma que as tropas não
    conseguiam ser transportadas por navios por todo o caminho até a Ibéria; ao invés,
    eles marchavam até as Colunas de Hércules e chegavam até a Europa transportados
    pelo Estreito de Gibraltar. Ele levou seu pequeno filho na campanha, mas sob as
    estritas condições de que jurasse que nunca sentisse qualquer simpatia quanto a
    Roma.
    Em casa, Cartago continuava numa situação tênue. O estado sofreu ao abafar
    uma revolta entre seus antigos mercenários, grupo que reivindicava por não receber
    a compensação devida por seus serviços. Roma se aproveitou da situação para
    capturar as ilhas cartaginesas de Sardenha e Córsega. Seu olhar estava voltado para
    a expansão territorial às custas do inimigo.
    Amílcar morreu em 229 a.C. afogado durante uma batalha para a conquista da
    Hispânia. Ele foi sucedido por seu genro Asdrúbal, quem preferia se ajustar com
    Roma ao invés de partir para a agressão. Consolidou as porções ibéricas

    cartaginesas e assinou um tratado com Roma que dizia que ele não poderia
    expandir para o norte além do rio Ebro desde Roma não se expandisse para o seu
    sul.
    O tratado era um mero armistício. Asdrúbal trabalhava secretamente para
    conquistar apoio pelo continente europeu e formar um massivo exército para atacar
    Roma. Arranjou um casamento entre Aníbal e a princesa ibera, Imilce. Ele era um
    forte estrategista, e preparou a campanha estrangeira à Itália, a qual Aníbal
    executaria anos mais tarde. Porém não colheu resultado de nenhum de seus planos,
    uma vez que fora assassinado em 221 a.C. Aníbal foi indicado como seu sucessor
    quando tinha 26 anos de idade.
    O jovem comandante rapidamente retomou a abordagem militar agressiva de
    seu pai. Ele iniciou sua estratégia ao completar a conquista da Hispânia e ao vencer
    suas fortificações militares e guarnições. Em sua primeira campanha, derrotou a
    Alítia, o mais forte centro dos olcades. Ele então capturou os redutos váceos de
    Helmantica e Arbucala. Roma, temerosa de sua crescente força, se aliou à cidade
    de Sagunto, que se localizava ao sul do Rio Ebro. Aníbal viu isso como uma
    violação do tratado assinado após a Primeira Guerra Púnica. Ele então a pressionou
    com um cerco e capturou Sagunto depois de oito meses e só então voltou sua
    atenção à Itália.
    A captura de Sagunto foi mal vista pelos romanos. Eles ordenaram sua
    extradição por ter quebrado o contrato. Aníbal, no entanto, preferiu não esperar por
    seu destino marcado por encarceramento, deportação a Roma, tortura e morte. Ele
    consolidou as posses de sua família e nomeou seu irmão, também chamado
    Asdrúbal, como comandante. Ele atravessou o rio Ebro, e a Segunda Guerra Púnica
    contra Roma se iniciou oficialmente.
    Aníbal queria levar a guerra através da Hispânia e Gália até o centro da Itália.
    Seus inimigos esperavam uma vitória fácil sobre a pequena cidade-estado.
    Surpreenderam-se, porém, com uma prolongada batalha contra uma técnica militar
    nunca antes vista.

  42. ERIC CARVALHO disse:

    Uma das primeiras estratégias que o general empenhava, era a de não atacar
    diretamente a posição mais forte do oponente. Portanto, quando Roma preparava
    por um ataque cartaginês na Sicília, Aníbal estava determinado a não repetir os
    erros cometidos na Primeira Guerra Púnica. Ele preparou um ataque contra a Itália
    vindo do norte montanhoso, uma região de alta altitude e tortuosa travessia. Partiu
    de Cartago em 218 a.C.
    Aníbal marchou pelos Pirineus com 38.000 soldados, 8.000 cavalos e 37
    elefantes. Apesar da neve ter caído antes do previsto, o massivo exército de Aníbal
    se moveu rapidamente, transportando os elefantes pelo rio Ródano e então
    cruzando os Alpes. Foi uma manobra muito arriscada que expôs suas forças a
    morrer de frio, de fome, ou ataque numa passagem bloqueada. Apenas metade
    daqueles que partiram com Aníbal chegaram à Itália vivos. Não obstante, Lívio
    escreveu que ele liderou a travessia da montanha com ingenuidade frente aos
    problemas aparentemente intransponíveis. De acordo com um relato romano, ele
    usou vinagre e fogo para abrir passagens em meio às rochas que se encontravam
    caídas no caminho. A aposta eventualmente foi válida, uma vez que os romanos
    não conseguiram elaborar um modo de impedir seu avanço sobre a Gália. Aníbal
    firmou uma conciliação com os chefes gauleses para que pudesse passar e se
    preparar então para um ataque na Itália.
    O cônsul romano Públio Cornélio Cipião foi mandado para interceptar suas
    forças, mas seus comandantes erradamente acreditaram que ele entraria na Europa
    pela Ibéria. Ele interceptou Aníbal com uma pequena divisão da Gália após ouvir
    sobre sua travessia pelas montanhas. Se encontraram com Ticino na Batalha de
    Trébia, onde Aníbal venceu um decisivo confronto ao usar a força superior de sua
    cavalaria. Os resultados da batalha foram devastadores para os romanos: Cipião
    saíra intensamente ferido, e tiveram de abandonar as planícies da Lombardia. Os
    estados que foram absorvidos recentemente pela República Romana – os gauleses e
    lígures – juraram aliança ao nascente Estado europeu de Aníbal, fortificando assim
    sua tropa que já se encontrava abatida. Roma enviou um exército liderado por
    Tibério Semprônio Longo para que trouxesse suas tropas de volta da Sicília e se
    juntassem com as de Cipião Africano, o filho de Públio Cornélio Cipião, para que
    enfrentassem Aníbal.

    Mesmo Aníbal sendo incapaz de impedir a união dos exércitos de Semprônio e
    de Cipião, ele poderia tirar proveito dos métodos de ataque discordantes de ambos
    os generais. Enquanto Semprônio assumia o comando sobre o mais experiente
    Cipião, Aníbal planejava seu ataque. Enviou 2.000 soldados liderados por seu
    irmão Magão às escondidas para flanquear o acampamento romano e esperarem
    pela batalha. Ele então organizou um ataque para o próximo dia. Usando uma
    estratégia que ele empregaria diversas vezes em encontros subsequentes, colocou
    suas tropas mais fortes nos flancos, sabendo que o inimigo atacaria este ponto.
    Com o amanhecer, uma pequena parte da cavalaria foi enviada para atiçar os
    romanos. Quando estes morderam a isca, ele já estava preparado. Os romanos
    usavam a formação padrão de três colunas, flanqueados pela cavalaria.
    Eventualmente, os flancos romanos mais fracos começaram a sucumbir, momento
    quando as tropas de Magão atacaram e mataram aqueles que restavam enquanto as
    tropas de Aníbal os seguiam. É estimado que os romanos perderam cerca de 20.000
    homens.
    Depois da derrota em Trébia, os romanos mudaram a liderança na intenção de
    complicar a vida de Aníbal, que perceberam, fora perigosamente subestimado.
    Caio Flamínio substituiu Semprônio. Depois de uma complicada travessia em um
    terreno pantanoso no centro da Itália, chegou à Etrúria na primavera de 217 a.C.
    Aníbal criou tumulto na região rural e molestava os aldeões na tentativa de atrair os
    romanos em outra batalha. Ele apostava no medo que Flamínio tinha em ser
    julgado popularmente como covarde. Quando ele se recusou a enfrentá-lo, Aníbal
    desligou as tropas romanas de sua rede de suprimentos. Neste ponto, o Senado
    Romano exigiu ação. Flamínio se preparou para a batalha perto do Lago
    Trasimeno, onde Aníbal posicionou suas tropas para uma emboscada. Um estreito
    desfiladeiro era o único acesso à pequena planície próxima ao lago. Aníbal expôs
    suas tropas para o inimigo próximas ao desfiladeiro para forçar um ataque romano
    enquanto sua infantaria pesada escondia a infantaria leve.

    Mais a oeste, posicionou os cavaleiros e tropas adicionais para interceptar uma
    fuga romana, e para confundir ainda mais os romanos, deixavam fogueiras acesas
    na região desocupada de Touro. Flamínio chegou pronto para atacar antes que suas
    tropas, comandadas por Cneu Servílio Gêmino, se juntassem às dele. Sua
    impaciência foi recompensada proporcionalmente. Aníbal o atacou com um
    pequeno grupo que separou os soldados da frente de Flamínio do exército
    principal, e então os atacou com suas tropas que aguardavam nos morros. Os
    romanos lutaram com toda sua graça, porém não conseguiram armar um
    contra-ataque eficaz. As tropas mais a oeste foram jogadas no lago, a maioria da
    infantaria foi derrotada, e o restante recuou. Mais da metade dos 25.000 soldados
    romanos foram mortos. A manobra de Aníbal, na qual marchava ao redor do flanco
    esquerdo do oponente, foi o primeiro registro histórico de uma reviravolta militar.
    Flamínio foi morto, fazendo desta a pior emboscada da história militar de Roma até
    a Batalha de Carras contra o Império Parta.
    Depois dessa desastrosa derrota, Roma finalmente começou a encarar a ameaça
    cartaginesa mais seriamente. A única força que seria capaz de impedir o avanço de
    Aníbal fora destruída. O Senado indicou Quinto Fábio Máximo como ditador, o
    que lhe competia total controle executivo para que interrompesse a investida de
    Aníbal na Península Ibérica. Este, um esperto estrategista optou por um ataque
    direto às tropas cartaginesas. Seu plano consistia em explorar as duas maiores
    fraquezas do oponente. Quanto a primeira, Aníbal tinha uma fraca fonte de
    mantimentos que iam de Cartago à Itália; estes dependiam do apoio dos inimigos
    de Roma que lhes vendiam armas, roupas, equipamentos, entre outras provisões
    essenciais. Já a segunda, seu exército consistia principalmente de mercenários da
    Gália e Espanha que odiavam Roma mais do que amavam Cartago. Eles serviam
    para uma batalha direta e rápida, porém não para longos cercos que requeriam
    paciência e equipamentos que eles não tinham.
    Fábio explorou estas duas desvantagens. Ele então evitou iniciar uma batalha
    frente a frente com os cartagineses. O general mandava pequenas divisões para
    atacar os forrageadores de Aníbal, mas nunca o encarou num combate direto.
    Despachou vários exércitos romanos para as regiões próximas de Aníbal para
    limitar seus movimentos. Fábio conduziu Aníbal adentro do terreno acidentado

    italiano, anulando assim a vantagem de sua cavalaria. Os aldeões era instruídos a
    fugirem rumo às cidades fortificadas levando consigo todos os seus mantimentos e
    possessões, sob qualquer suspeita da aproximação do exército de Cartago,
    depravando-os assim de seus suprimentos e pilhagens. Nesta demorada guerra,
    Aníbal continuou sua jornada até o sudeste italiano, atacando cidades, cortando o
    fornecimento de suprimentos, e ganhando o controle dos armazéns em Canas.
    Invadiu a Apúlia e marchou pelas ricas e férteis províncias de Sâmnio e Capânia,
    mas para sua infelicidade, não teve a oportunidade de investir um pesado ataque
    contra o exército romano.
    A estratégia de Fábio foi inicialmente um sucesso, mas desagradou os seus
    superiores de Roma sendo considerada uma atitude muito passiva. Os senadores
    mais velhos apoiavam a campanha, mas os oficiais e soldados viram como uma
    manobra imprópria de um exército que estava acostumado a esmagar
    impiedosamente seus inimigos no campo de batalha. Apesar de frear a vitória
    cartaginesa e enfraquecer gradualmente suas forças, a estratégia foi interrompida
    devido à falta de apoio do exército. Eles estavam enfurecidos pelo fato de Aníbal
    saquear a Itália a torto e a direito sem nenhuma oposição. Marco Minucio Rufo,
    um inimigo político de Fábio, disse, “Viemos aqui para ver nossos inimigos serem
    abatidos, e suas propriedades queimadas, como um espetáculo a ser apreciado? E
    se não somos movidos pela vergonha, não seremos movidos pelos interesses dos
    cidadãos… um estrangeiro cartaginês, que passou pelos limites mais remotos do
    mundo, por causa de nossa lentidão e incompetência?”
    Em 216 a.C. o Senado substituiu Fábio pelo cônsul romano Caio Terêncio
    Varrão e Lúcio Emilío Paulo e montou um enorme exército de 50-80.000 homens.
    Prepararam-se para a batalha de Canas ao longo do rio Ofanto. O plano era atacar
    firmemente o centro com a forte infantaria, que era flanqueada pela cavalaria.
    Aníbal distribuiu seu exército colocando a infantaria leve flanqueada pela
    infantaria mais experiente junto da cavalaria. Quando a batalha começou, conforme
    as forças cartaginesas avançavam, a

  43. Eric Carvalho disse:

    onda de choque remanejou os exércitos de forma que assumissem uma formação côncava. A cavalaria do flanco esquerdo lidou rapidamente com seus inimigos e deram a volta por trás dos romanos para auxiliar seus companheiros do flanco direito. A infantaria central de Aníbal lentamente recuava enquanto aqueles que estavam do lado de fora mantinham a posição. Sob seu comando, eles avançaram junto da cavalaria que flanqueava.
    Essa manobra, conhecida como movimento de pinça, é considerada por muitos historiadores como a obra-prima de Aníbal. É uma forma de uma força inferior derrotar uma superior em campo aberto. O exército maior avança ao centro do menor, que por sua vez responde movendo-se para os lados, dessa forma cercando seus flancos. Uma vez que o exército maior foi dispersado, uma segunda fileira de pinças ataca os flancos mais extremos para prevenir reforços. No entanto, isso é bastante difícil de ser executado, uma vez que requer uma cavalaria muito bem treinada. É preciso também que o comandante tenha um altíssimo conhecimento sobre o terreno onde ocorre a batalha, uma vez que qualquer característica desconhecida do local pode lhe reservar surpresas do inimigo, que desmancharia a complexa sequência de eventos que são necessários para que a pinça seja executada.
    Aníbal completou o procedimento com sucesso, e os romanos estavam cercados. Ele havia acertado em cheio o tendão de Aquiles. Mesmo detentores de um número inferior dizimou as forças inimigas. Mais de 50.000 homens foram mortos e 5.000 foram levados como prisioneiros. Entre os mortos estavam três cônsules, os questores e 80 dos 300 senadores da República Romana, o que representou um choque tanto psicológico, quanto físico para os romanos. Roma havia perdido um quinto de sua população de homens maiores de 17 anos por causa dessa batalha e de três outras campanhas.
    A vitória de Aníbal trouxe para o seu lado várias cidades-estado romanas. Todavia, seus novos súditos não lhe forneciam tropas nem mantimentos o suficiente, problemas que o infernizavam desde o princípio de sua luta em solo estrangeiro. A Aníbal ainda lhe faltava recursos para cercar Roma, uma cidade excepcionalmente bem fortificada e que demoraria meses para ser capturada. Isso era válido mesmo para ele que conseguira capturar a segunda maior cidade da Itália, Cápua, a qual fora utilizada como base. Aníbal via que seus novos aliados italianos estavam pouco motivados a lutar, e ao mesmo tempo, a liderança de Cartago lhe oferecia pouco apoio. Maharbal, o comandante da cavalaria da Numídia, comentou uma vez, “Aníbal, você sabe como obter a vitória, mas não sabe como usá-la.”
    A decrescente situação da campanha italiana de Aníbal e a falta de uma resolução plausível sobre a guerra com Roma apontavam para uma conclusão inevitável. Ele era o melhor general, mas lhe faltavam recursos para conquistar o inimigo. Sendo assim, Roma buscava se ajustar de acordo. O Senado e o exército relutantemente admitiram a eficiência da estratégia de Fábio e pediram sua re-implantação. Ao conduzir Aníbal para uma segunda guerra de atrito, Roma foi capaz de reconquistar o controle da Cápua em 211 a.C. e de Siracusa depois de cercá-la. Ele ainda venceu algumas batalhas, como a destruição de dois exército romanos em 212 a.C. e matando dois cônsules num confronto em 208 a.C. Entretanto, seus aliados italianos pouco o apoiavam e o governo de Cartago havia lhe abandonado, seja por falta de suprimentos ou por inveja. Facções da oligarquia de Cartago que era a favor da paz, logo trataram de calar aqueles que defendiam a guerra.
    Seu exército foi forçado para fora da Sicília, e Roma ganhou novamente seu controle. Na Batalha de Herdônia e Locros, Aníbal pediu para que seu irmão trouxesse reforços da Ibéria. Porém, ele não conseguiu repetir sua travessia pelos Alpes e acabou sendo morto mais tarde em batalha. A cabeça de Magão Barca foi eventualmente entregue ao seu perturbado irmão. Finalmente, em 203 a.C., depois de 15 anos de guerra na Península Itálica, o general, contra sua vontade, retornou à Cartago para repelir uma invasão por Cornélio Cipião Africano.
    Aníbal entrou numa tênue negociação com Cipião. Cartago perderia suas posses europeias além de pagar uma indenização de guerra. Roma não estava confiante de que Cartago cumpriria os termos do tratado, mas havia conquistado concessões desejadas de um inimigo derrotado. A instável paz se viu
    ameaçada quando Cartago teve um novo surto de confiança com o retorno de seu líder e a derrota da marinha romana no Golfo de Tunes, porém essa sensação durou pouco. Cipião derrotou a cavalaria de Aníbal na batalha de Zama e neutralizou os efeitos de seus elefantes. O general romano usava as manobras cartaginesas contra eles mesmos, atacando o flanco traseiro de Aníbal, levando a um colapso da formação. Ele foi derrotado e seu exército rendido. Com a perda de 20.000 tropas, Cartago percebeu que a Segunda Guerra Púnica já não era mais vencível. O sonho do Império Cartaginês havia acabado.
    Mesmo sendo cortado de seu cargo pelos líderes políticos de Cartago, Aníbal foi capaz de encontrar um novo jeito de servir seu estado como sufete. Esta não era uma posição de prestígio, mas ele manejou incrementar os sistemas financeiros e judiciais cartagineses. O homem de 43 anos de idade instituiu reformas como a reestruturação do sistema econômico da cidade-estado e alterando o 104, um termo dos juízes do conselho de Cartago. A cidade-estado viveu um período próspero.
    Provando que toda boa ação tem sua recompensa, estas reformas representaram o último feito de Aníbal. A nova estrutura econômica fez com que os aristocratas no poder ficassem temerosos de perderem o posto. Sempre invejosos de Aníbal, informaram ao Senado Romano de que a nova aliança de Aníbal com o Império Selêucida era parte de um plano maior de invadir a Itália. Sendo verdade ou não, Roma ordenou a rendição de Cartago. Se recusando, Aníbal ficou exilado na corte do Rei Antíoco na Síria em 195 a.C.
    Os selêucidas decidiram invadir a Grécia como o primeiro passo da invasão em Roma. Aníbal se ofereceu para liderar o exército, mas foi colocado no comando de uma pequena frota de navios por indicações dos conselheiros de Antíoco. Ele então tentou convencer o rei selêucida a invadir a Itália com um exército sob seu comando. A ideia nunca seguiu adiante. Roma, temendo outro ataque à Itália, lançou uma ofensiva contra os selêucidas, derrotando-os nas Termópilas em 191 a.C. Eles foram decisivamente derrotados na Magnésia do Sípilo em 190 a.C. por Cipião Asiático.
    Para evitar os romanos, Aníbal teve de fugir mais uma vez. Buscou refúgio na corte armênica de Artaxias, depois Creta, e finalmente na corte do rei Prusias I da Bitínia. Ele serviu Prusias com a intenção de convencê-lo a atacar Pérgamo, aliada romana. Aníbal serviu como seu comandante naval e venceu o rei Eumenes II de Pérgamo. Em uma de suas vitórias navais, ele atirou grandes potes contendo cobras venenosas nos navios inimigos. Derrotou Eumenes em duas batalhas por terra, porém Roma interveio. Eles ameaçaram a Bitínia para que se desfizessem de Aníbal. Ao invés de se render, ele se envenenou em 182 a.C.

  44. Eric Carvalho disse:

    Mesmo tendo falhado em seus objetivos militares, o legado da resistência de Aníbal lhe é colocada como sendo um dos maiores estrategistas de todos os tempos. Sua vitória em Canas e a habilidade de atacar o flanco mais fraco do inimigo foram recriadas por vários generais nos tempos até mais recentes, como a operação Desert Storm, da guerra do golfo, em 1991. O general americano Norman Schwarzkopf empregou sua estratégia com sucesso, mesmo com suas vantagens tecnológicas como satélites e F-14s se comparada com a cavalaria, lanças e elefantes de Aníbal. Eles moveram as forças americanas de forma a cercar os iraquianos depois de uma guerra de 100 horas, ao conseguirem bem sucedidamente atacar o flanco de trás.
    Analisando o sucesso de Aníbal em batalha, é claro de que vencer a batalha não é o mesmo de que vencer a guerra. Sua falta de habilidade em formar uma aliança permanente com as cidades romanas acabou com a sua invasão.
    Mas talvez seu maior legado seja a esperança inspiracional entre aqueles que enfrentam confrontos impossivelmente longos. Quando foi dito pelos seus generais que atravessar os Alpes com elefantes seria impossível, ele respondeu com a frase em latim (“Ou eu encontro um jeito, ou invento um”). O historiador Theodore Ayrault Dodge credita esse atributo como sendo a principal fonte de seu sucesso e a parte mais distinguível de seu legado.
    Ele o vangloria como sendo o maior comandante militar, figura inspiracional, e, sobre tudo, patriota:
    “Aníbal se destacou com sua técnica. Nenhuma batalha na história nos fornece um melhor exemplo disso do que em Canas. Mas ele era também grandioso em logística e estratégia. Nenhum capitão jamais marchou por entre tantos exércitos com números de tropas e materiais superiores aos seus de uma forma tão destemida e habilidosa quanto ele. Nenhum homem jamais sobreviveu por tanto tempo ou tão habilmente em tais condições. Constantemente superado por melhores soldados, liderado por generais sempre respeitáveis, geralmente de grande habilidade, e que ainda assim dificultaram os esforços de sua ida até a Itália por meia geração. … Como soldado, no semblante que ele exibia para seus mais robustos inimigos e na firmeza que ele se mostrava mesmo na mais amarga adversidade, Aníbal permanece inigualável. Como homem, nenhum personagem na história representa uma vida mais pura, ou um patriotismo mais nobre.”
    Capítulo 3
    Júlio César (100-44 a.C.): O Maior Estadista da História e Pai do Poder Imperial
    Brutus e Cássio, os assassinos de Júlio César, aprenderam do jeito mais difícil que o pior lugar do inferno é ocupado por aqueles que desprezam o imperador. No Inferno de Dante, os dois senadores romanos são condenados a passar toda a eternidade no círculo mais baixo do inferno. Lá, junto de Judas Iscariotes, são mastigados cada um em uma das três bocas de Satã, para sempre sendo dilacerados, mas nunca mortos. As infelizes almas formam o triunvirato dos maiores traidores da história e constituem o pior de todos os pecados – traírem seus benfeitores.
    A referência de Dante aos romanos não foi feita por puro efeito literário. Ele e seus conterrâneos italianos ainda sofrem com a morte de Júlio César mesmo 1.300 anos depois. É suposto que caso ele não tivesse morrido, a Itália nunca teria se fracionado em pequenas cidades-estado como foi na Idade Média e talvez ainda tivesse o poder global em suas mãos.
    Júlio César o teve durante sua vida e recebeu a reputação de vencer praticamente todas as batalhas. Ele personificava a altura do poder militar e político. Seu sobrenome, César, que era comum naquela época não tinha nenhum significado especial até então; somente após sua morte é que se tornou sinônimo de “rei” e “imperador” em diversas línguas (“Kaiser”, em alemão, “Czar” em russo, “Qaysar” em árabe e “Sezer” em turco). Suas conquistas não mudaram só o Império Romano, mas também a história política e militar da civilização ocidental.
    Apesar do seu sucesso, César não era um homem da carreira militar, esta só começou bem depois como um produto de sua ambição e fidelidade a Roma. No entanto, sua abordagem implacável e superioridade estratégica foram continuamente comprovadas. O Império Romano se expandiu ao norte até a Inglaterra, e ao sul até o Egito. Ao contrário de Aníbal, sua perspicácia política se equiparava a sua habilidade militar. César foi capaz de transformar suas vitórias no campo de batalha em expansão política e um governo permanente que durou por séculos após sua morte.
    Júlio César veio de uma família patrícia, que alegava serem descendentes do troiano Eneias, que de acordo com a lenda era filho de Vênus. O pai de César governava a província da Ásia. Pouco foi guardado sobre sua infância, mas se sabe que quando tinha dezesseis anos, seu pai morreu e ele se tornou o cabeça da família. César obteve um poderoso apoio quando sua tia se casou com Caio Mário, um oficial de alta influência na República Romana.
    Uma guerra civil eclodiu entre Mário e seu rival, Lúcio Cornélio Sula. Assim que Mário subiu de cargo, nomeou César como o sacerdote chefe de Júpiter. Era uma posição religiosa que acompanhava um poder político significante, coisa comum na oligarquia romana que andava de mãos dadas com a teocracia. Casou- se com Cornélia, a filha do aliado de Mário, Lúcio Cornélio Cina. Esta incumbência de César foi curta; quando Sula levou a melhor sobre Mário, este perdeu seus dotes. Apesar de suas fortunas terem rapidamente se esvaído, o jovem sacerdote se recusou a largar sua esposa. Sua mãe estava disposta a intervir por sua família e salvá-lo da execução ajudando-o a fugir de Roma.
    César se juntou ao exército, pois era a forma mais simples de escapar. O início da sua carreira militar era respeitável, mas banal. Retornou a Roma depois da morte de Sula e assumiu uma carreira jurídica. César rapidamente passou a ser conhecido por um promotor talentoso, ao fazer uso de sua tremenda habilidade oratória para cumprir justiça aos governantes corruptos. Seu cargo requeria que viajasse, o que representava um perigo durante suas idas até os limites da República.
    Uma vez, César foi raptado por piratas e cruzou o Mar Egeu. Sua poderosa personalidade não diminuiu apesar da ameaça à sua pessoa. Quando seus apreensores pediram uma quantia de 20 talentos de prata, ele respondeu então que esse valor fosse aumentado para 50, desde que mantivesse sua estatura social. Em talvez um das histórias mais memoráveis de vingança na história, ele também prometeu aos piratas que depois que fosse solto, ele iria crucificá-los pessoalmente. Eles pensaram que fosse brincadeira. Quando o resgate foi pago, César organizou uma esquadra que perseguiu, capturou e aprisionou os piratas. Todos eles foram crucificados sob sua autoridade.
    Sua carreira militar mais uma vez se juntou de assuntos militares quando em 89 a.C., assumiu o cargo de tribuno militar e questor na Espanha. Sua mulher morreu no mesmo ano; dois anos depois, se casou com a filha de Pompeia, a neta de Sula. Em 63 a.C., após seu retorno da Espanha, participou de uma eleição romana e recebeu o posto de Pontifez Maximus, ou sacerdote chefe de Roma. Numa eleição calorosamente contestada, venceu dois grandes oponentes. Depois de terminado o seu mandato, retornou à Espanha onde foi governador. Mesmo com sua ascendência no meio político, a situação financeira de César ainda não era das melhores. Formou uma aliança com Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, que lhe pagou algumas de suas dívidas e foi seu fiador em troca de apoio político.

  45. Eric Carvalho disse:

    Ele retornou às províncias para completar seu mandato para evitar perseguição por conta de suas dívidas. Na Espanha, liderou tropas romanas que saíram vitoriosas contra tribos locais e reformou o sistema jurídico. Terminadas suas ações, retornou à Roma para ser cônsul, a mais alta magistratura da República. Divorciou- se de Pompeia e se casou com Calpúrnia, a filha de outro senador poderoso. Formou uma aliança conhecida como o “Primeiro Triunvirato” com Crássio e seu rival político, Pompeu. Era a camarilha que controlava as negociações públicas com seu dinheiro e influência. A aliança estava completa com o casamento de Pompeu com Júlia, a filha de César.
    César colaborou com Pompeu na concessão de terras como uma compensação dos antigos soldados de Pompeu na Ásia. Seu período como governador da EspO influência. Embora estivesse a caminho de assumir o governo novamente, a aristocracia queria limitar o seu poder. Os seus temores tinham fundamento; no entanto, a vontade de César prevaleceu e se tornou governador da Gália Cisalpina e Ilírico. A morte do líder da Gália Narbonense lhe rendeu uma área a mais.
    Como foi discutido no capítulo 1, César passou por uma crise existencial quando um grupo composto de cerca de 30 estadistas observava a estátua de Alexandre, o Grande e percebeu que o general macedônio tinha completado todos os seus feitos antes de chegar à idade de César. Como resultado, iniciou sua campanha na Gália em 58 a.C. na busca por ocupar um lugar no panteão dos maiores generais da história. Seus outros propósitos da campanha foram glória pessoal e fim de suas dívidas.
    A campanha não era uma tarefa fácil, uma vez que a área tinha suas instabilidades devido às guerrilhas das tribos germânicas. O primeiro combate de César foi contra os helvécios na Batalha de Bribacte. Os helvécios tentaram entrar na Gália Narbonense. Quando foram detidos, seguiram pelas terras dos éduos, aliados romanos. Quando os helvécios foram ordenados a se usarem como reféns, recusaram e continuaram adiante. Em Bibracte, os helvécios pensaram que os romanos tinham recuado para reabastecer. Na verdade, os romanos ocupavam um terreno mais alto e dali arremessaram diversas lanças sobre os helvéticos, seguido de um ataque da infantaria. Os helvéticos não tiveram escolha a não ser recuar depois que seus suprimentos foram capturados.
    No mesmo ano, a tribo dos suevos ameaçava cruzar o Reno e invadir os éduos, violando assim um tratado com Roma. César marcou um encontro com o comandante suevo, Ariovisto, para se garantir das suas intenções, mas teve pouca confiança em sua aparente honestidade. Este já tinha atravessado o Reno e suas tropas iniciaram pequenos conflitos contra os romanos. César se preparou para o ataque. Alinhou seu exército numa formação de três colunas. Assim que os germanos iniciaram a investida, a cavalaria romana liderada por Públio Crasso contra-atacou. Os germanos bateram em retirada imediatamente. Mais de 100.000 suevos foram mortos. E nunca mais cruzaram o Reno.
    Em 57 a.C., o próximo desafio de César era contra a Gália Bélgica, localizada atualmente entre a Bélgica e norte da França. Os belgas eram considerados guerreiros violentos e portadores de uma bravura incomum. As tribos se aliaram em unanimidade contra o exército romano, chegando a números superiores a 288.000 homens. César evitou um contato direto em batalha contra essa força massiva e preferiu se utilizar de pequenas lutas travadas entre a cavalaria e os membros da tribo. Sua estratégia era a de isolar as tribos e derrotá-las pouco a pouco.
    Os ataques iniciais de César envolviam infantaria, cavalaria, soldados rasos e arqueiros. Depois, vinham as torres de cerco. Assim que as tribos iam sido derrotadas pelos romanos uma a uma, a área logo foi conquistada. Os únicos restantes entre os belgas eram os nérvios. Eles sabiam que a campanha romana poderia ser paralisada caso as rotas de suprimentos fossem separadas da cavalaria. Os nérvios primeiro atacaram a cavalaria e depois os trabalhadores que montavam o acampamento. César percebeu que uma ação deveria ser rapidamente tomada e prontamente reuniu uma força de contra-ataque. Ele próprio liderou a investida, encorajando seus homens a darem tudo de si na batalha. Os romanos avançavam, mas os nérvios continuavam a se manterem firmes no flanco direito. Os valentes nérvios se deram conta de que o fim da batalha estava próximo quando avistaram duas legiões romanas saindo de trás dos comboios de carga. Estas tropas recém-chegadas se juntaram com as que já estavam ali e finalmente venceram.
    Se entender com os ferozes membros das tribos foi o feito mais notável da campanha na Gália. Em 56 a.C., mensageiros romanos foram até as tribos da Gália exigindo grãos e provisões para as tropas. Os mensageiros foram capturados pelos vênetos. Um povoado da costa marítima que vivia na atual Bretanha. Eles prometeram soltar os mensageiros somente quando fossem libertos os seus reféns. César não estava no clima de negociação nem de ver seus soldados sendo usados como instrumento de barganha. Ele invadiu as fortalezas e ergueu armas de cerco para passar pelas defesas. Os vênetos fugiram em seus barcos usados para comércio, que eram movidos a vela e não tinham remos. Júnio Bruto assumiu o comando da frota naval romana e destruiu as velas e os cordames dos vênetos. Quando os ventos repentinamente pararam de soprar, os vênetos ficaram encalhados. Renderam-se. César os usou como exemplo para as outras tribos da Gália o que acontece com aqueles que são desleais à República: todos os membros do governo foram decapitados; o restante foi vendido como escravo.
    Em 55 a.C., César fez a primeira de suas duas viagens pelo Cabo da Mancha em direção à Grã- Bretanha. A viagem, devido a uma forte tempestade, quase terminou em desastre. Na sua segunda excursão, derrotou a tribo dos catuvelanos, mas falhou ao penetrar mais a fundo na ilha, deixar tropas, ou dar algum passo em direção a anexá-la sob as ordens romanas. A ilha permaneceu independente por mais de um século depois.
    Sua reputação como um competente comandante em batalha não passou despercebida pelo Senado Imperial. Somada às suas próprias vitórias militares, César era frequentemente chamado para prestar auxílio em difíceis batalhas onde generais romanos encontravam problemas em silenciar rebeliões. Os gálicos se revoltaram em 54 a.C., liderados por Ambiorix, dos eburões. Eles venceram a batalha principal em Atuatuca Tungorum, onde hoje é a Bélgica. César foi até o local com a finalidade de impedir maiores perdas romanas. Ele, por sua vez, destruiu os eburões. Uma segunda revolta liderada por Vercingetórix, chefe dos arvernos, tentava cortar a rota de suprimentos do exército romano, obrigando César a retornar à Itália e liderar o ataque. Ele capturou a cidade de Avaricum (atual Bourges), mas falhou ao tentar o mesmo em Gergóvia. César então cercou Vercingetórix na Alésia, derrotando-o. Com esta decisiva vitória, as Guerras Gálicas finalmente tinham chegado ao fim. César havia se efetivado como sendo o comandante militar mais poderoso de Roma.
    O término da primeira guerra coincidiu com o fim do Primeiro Triunvirato. Crássio morrera em batalha, e Pompeu, o líder do Senado, havia se aliado com os oponentes de César. Pompeu ordenou que César retornasse à Roma em 50 a.C. devido ao fim de seu período como governante. César estava
    preocupado com as ações judiciais que poderiam recair sobre sua pessoa. No feito mais famoso de sua carreia, enquanto atravessava o Rio Rubicão com somente uma legião, proferiu em suas margens a célebre frase: “A sorte está lançada” (Alea jacta est). Isto significou o início da guerra civil. Pompeu e o Senado, apesar de terem mais tropas, escaparam rumo ao sul enquanto César foi declarado ditador.
    César foi primeiro à Espanha derrotar os tenentes de Pompeu, deixando Roma nas mãos de Marco Antônio. Ele os derrotou depois de 27 dias de caminhada. César depois foi atrás de Pompeu na Grécia e o venceu em Farsalos. Pompeu escapou, e César seguiu em seu encalço até o Egito. Eles finalmente se encontraram, mas não do modo que o novo imperador esperava; César se deparou com a cabeça do ex- aliado que havia sido morto há pouco tempo pelos conselheiros do rei Ptolomeu XIII. César encarou a morte de Pompeu como um insulto e fez com que seus assassinos fossem executados.
    Ainda no Egito, se envolveu numa guerra local para que pudesse estender sua influência política sobre este Estado. Aliou-se a Cleópatra VII, irmã do rei Ptolomeu XIII. Em 47 a.C., César foi cercado em Alexandria com uma pequena tropa de 4.000 homens. Ptolomeu, a criança faraó, fugiu de Alexandria e esperava acabar seu transporte de mantimentos. César convenceu seu aliado, Mitrídates de Pérgamo, a juntar-se a ele no Egito. Juntos, somaram forças de 20.000 que enfrentaram Ptolomeu na Batalha do Nilo. Seu exército usava piques, enquanto os romanos atacavam com lanças, escudos e espadas. César atacou os egípcios se utilizando de chuva de lanças e passando do limite do pique usando os escudos e matando- os com as espadas. Roma venceu uma decisiva batalha. César agora governava o Egito e colocou Cleópatra e seu irmão, Ptolomeu XIV, no trono. Permaneceu no Egito por vários meses e teve relações mais íntimas com a jovem rainha. Apesar de serem incapazes de se casar, de acordo com as leis romanas por ela não ser uma cidadã, os dois assumidamente tiveram um filho, Cesarião.
    As duas últimas vitórias militares de César foram contra Ponto no Oriente Médio, os filhos de Pompeu na Espanha, e os restantes de seus apoiadores na África. Ambas as vitórias foram executadas rapidamente e tomaram apenas alguns meses. Esta vitória lhe rendeu o reconhecimento de uma década como ditador. Ele se utilizou desse enorme poder político de seus anos finais para concluir assuntos mal resolvidos na periferia do império e fazer uma reforma política. César centralizou o governo com a finalidade de amenizar as resistências armadas nas províncias e os casos de corrupção e homogeneizar o império de Roma até as suas extremidades. A nova legislação abrangia tudo, desde reforma de débitos e períodos de regência dos governadores até compra de grãos. Substituiu o calendário lunar romano pelo solar, conhecido como calendário juliano. Foi-se estabelecida uma força policial. Cartago e Corinto foram reconstruídas. O Senado o nomeou censor vitalício e Pai da Pátria.
    Ele não se intimidava perante seus súditos que o idolatravam. Moedas eram cunhadas com sua imagem, e estátuas onde ele sentava numa cadeira de ouro eram erguidas no Senado. Quando voltou a Roma depois de suas últimas batalhas, a cidade sediava jogos que envolviam disputas entre gladiadores, uma batalha naval na bacia inundada de Campo de Marte, caça de animais que envolviam 400 leões e milhares de prisioneiros que lutavam até a morte no Circo Máximo.
    Mas ele não era universalmente adorado. Certos membros da aristocracia desprezavam seu novo papel como ditador e a destruição da República. Facções se formaram contrárias a ele. No dia 15 de março de 44 a.C., acordou se sentindo mal. Uma vidente lhe disse para tomar cuidado durante os idos de março. E para piorar, sua esposa sonhou que ele fora assassinado e pedia para que ele não deixasse a casa.
    Um grupo de senadores haviam lhe chamado ao fórum para que lesse uma petição que se tratava de devolver seu poder ao Senado. Quando chegou no saguão de encontro, ele se viu rodeado por um grupo de senadores. De acordo com a lenda, Tílio Cimbro se ajoelhou diante dele e agarrou seu roupão de cor roxa. Suetônio diz em seus relatos que ele clamou a Cimbro,”Por que, essa violência!” Casca então sacou seu punhal e rasgou o pescoço do ditador. César agarrou seu braço e disse, “Casca, seu patife, o que estás fazendo?
    Os outros membros da conspiração apoiaram Casca e atacaram César. Fincaram seus punhais nele, incluindo Brutus. Ao recair o olhar sobre seu amigo, César deu seu último suspiro, “Et tu Brute?” O comandante que havia dispersado suas ordens da Gália ao Egito morreu aos pés da estátua de Pompeu, seus 23 ferimentos derramavam o sangue que escorria sobre o chão de mármore.
    A vida de César terminou, mas o império perdurou por mais quatro séculos na sua forma unificada e catorze séculos na forma de seu Estado filho, o Império Bizantino. Seu legado como um comandante vitorioso é bem merecido, mas o interesse que desperta nos historiadores não é devido ao seu sucesso em batalha. A história é cheia de líderes corajosos, como Gengis Khan, Alexandre e Tamerlão, cujos impérios sucumbiram após suas mortes. O que distingue César é o fato de tornar estas conquistas vigentes, devido sua sensatez política, o que não foi um feito simples, como demonstrado na aliança do Primeiro Triunvirato. Mas este foi um legado que nem os mais hábeis comandantes atingiram.
    Foi reconhecido como um dos maiores estadistas romanos, mesmo entre as décadas seguintes. O biógrafo romano, Plutarco, diz que “se alguém compará-lo com homens como Fábio e Cipião e Metellus, e com os homens de seu próprio tempo ou um pouco antes como Sula, Mário, os dois Lúculos, ou até mesmo Pompeu, cuja fama de excelente militar estava desabrochando e chegando aos céus, César será capaz de superá-los todos em suas conquistas.
    Talvez, a sua maior indicação tenha vindo do próprio Jesus Cristo. No início do primeiro século, líderes religiosos judeus pregaram-lhe uma armadilha, com o intuito de calá-lo por estarem temerosos de que as palavras causassem uma rebelião dos israelitas contra os otomanos que terminariam por cortar- lhes a cabeça. Perguntaram-no se era apropriado o pagamento de taxas ao Império Romano, uma instituição política pagã que muitos israelitas julgavam desabar diante do Messias. Ele ergueu uma moeda para o povo, onde se via cunhada a imagem de César, e perguntava quem aquela figura representava. Ao receber sua resposta, Jesus disse “A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Tal é o legado de um homem cujo poder era tão amplo que até mesmo o fundador do cristianismo reconhecia que ele controlava os domínios políticos da Terra.

  46. Eric Carvalho disse:

    Capítulo 4: Khalid ibn al-Walid (592-642): “A Espada de Deus” e Comandante-chefe do Califado Muçulmano
    Khalid ibn al-Walid – apelidado de “Espada de Deus” por Maomé – teve um estranho relacionamento com a religião islâmica. Por um lado ele era diretamente responsável por sua explosão afora da Península Árabe no início do século VII. Liderou seus exércitos na conquista do Iraque, Jordânia, Palestina e Síria, na maioria das vezes contra inimigos maiores. Khalid nunca perdeu uma batalha em mais décadas, inclusive aquelas que destruíram o Império Persa e aleijaram o Império Bizantino.
    Seu sucesso tático na Batalha de Jarmuque e Walaja ao utilizar guerreiros montados lhe rendeu o título de um dos maiores comandantes da cavalaria da história. Foi nominado pelo príncipe Ukaid de Domat ul Jandal, que naquela época era conselheiro de um inimigo Khalid, que “Nenhum homem é igual numa guerra. Ninguém que enfrentou Khalid em batalhas, seja forte ou fraco, tem outro resultado a não ser a derrota. Aceite meu conselho e faça as pazes com ele.”
    E ainda, seu sucesso lhe tornou uma figura paradoxal no início da religião. O comandante foi o único general a vencer o exército de Maomé em combate. Essa derrota ameaçou o fim do islamismo já no seu surgimento, uma vez que Maomé costumava alegar que seu sucesso militar era uma prova da benção de Alá. Este paradoxo só foi resolvido com a conversão de Khalid para o Islã, seguido de uma trégua após a batalha de Uhud.
    No entanto, suas estonteantes vitórias sob o reinado dos califas abu Bakar e ‘Umar fez com que ambos temessem que aquele ganhasse apoio popular o suficiente para que fosse instaurada uma rebelião. ‘Umar solucionou suas preocupações ao retirar o general do comando e desligando-o de seus deveres militares. Khalid passou sua “aposentadoria” e o resto de sua carreira como um soldado raso, chocando sua espada contra seus oponentes na batalha em campo.
    Em seu histórico, constata-se que venceu mais de 100 batalhas e não perdeu nenhuma. Suas conquistas espalharam uma nova religião além de seu berço arábico, invadindo enormes espaços de terra da Pérsia e do Bizâncio, os dois maiores e mais poderosos impérios da época. Igualmente importante, Khalid ibn al-Walid era um ótimo estrategista que nunca hesitou em enfrentar um exército maior que o seu. Sem sua liderança, as tropas islâmicas poderiam ter sido destruídas e esta religião estaria confinada aos recônditos da história como mais um movimento heterodoxo que falhou. Suas conquistas mudaram a história do Oriente Médio e o destino do Islã; propelindo-o à sua atual posição.
    Khalid nasceu de uma família rica em Meca em 584. Pertencia à tribo dos coraixitas, a mesma onde Maomé se originou. Seu pai, Walid ibn al-Mughirah, era um líder respeitado e generoso que se opunha à nascente religião islâmica. Maomé sofreu um distanciamento de sua tribo após a morte de seu tio, Abu Talib, o líder de seu clã, em 619. A elite de Meca se opunha à sua carreira profética, particularmente depois que rumou a Medina. O pai de Khalid era um zelador assíduo da Caaba, um local sagrado no período pré-islâmico.
    Walid providenciou a Khalid uma educação militar, pois era o chefe do Banu Mahkzum, um clã dos coraixitas que era responsável por aquilo que remetia à guerra. Khalid era um jovem forte e seu treinamento o preparava para uma vida de soldado e guerreiro. De acordo com a lenda, ele chegava a tomar pequenas doses de veneno para fortalecer seu sistema imune.
    Era descrito pelos cronistas como sendo alto, forte, e de ombros largos. Exibia uma enorme força física e era um lutador campeão. Khalid era, como muitos nômades da tribo, um bom cavaleiro e tinha bons conhecimentos sobre armas. Era mortal com qualquer uma delas, seja com a lança, arco, e claro,
    com a espada. Além do mais, era incapaz de engolir uma derrota. Quando jovem, amargurou uma derrota dos coraixitas pelos exércitos de Maomé e jurou vingança.
    Khalid teve sua chance na batalha de Uhud. O pretexto da batalha era o contínuo desentendimento entre a recém nascida religião islâmica e as tribos da Arábia. A confederação coraixita lutou muitas batalhas contra a comunidade muçulmana em Medina, uma vez que várias caravanas de mercadores foram alvo de Maomé e seus seguidores. O exército muçulmano estava pronto para a batalha, mas os coraixitas tinham números superiores. No ano de 625, enfrentaram- se no Monte Uhud, noroeste da Arábia. Os coraixitas conseguiram abalar a formação do exército dos muçulmanos, mas estes reagruparam e contra- atacaram com seus habilidosos arqueiros. Os coraixitas persistiram, mas foram encurralados pelos muçulmanos.
    Os coraixitas temerosos em repetir a derrota como aconteceu em Badr em 624, bateram em retirada, deixando seus equipamentos pra trás. Os muçulmanos observaram os coraixitas deixando o campo de batalha e viram todo aquele material espalhado pelo campo esperando para ser saqueado. Violando as ordens de Maomé, os arqueiros muçulmanos abandonaram os seus postos para se juntarem à pilhagem. Khalid viu esta oportunidade e reuniu sua cavalaria. Contra atacou o preocupado exército muçulmano, trazendo caos entre seus soldados. Enquanto atacava, outros membros coraixitas se aderiram à causa, e juntos derrotaram seus adversários de Medina, chegaram inclusive a ferir Maomé. Em 627, lutou contra o mesmo exército na Batalha da Trincheira, sua última batalha contra Maomé antes de se converter ao Islã. Depois da Batalha das Trincheiras, um acordo de paz de 10 anos foi assinado entre muçulmanos e os coraixitas de Meca em 628. Com o fim do acordo, Khalid começou a conhecer mais a fundo a região islâmica. Seu irmão, Walid ibn Walid, fora capturado na batalha de Uhud e, após ter feito o pagamento para ser libertado, retornou à causa de Maomé e se converteu ao Islã. Walid por sua vez escreveu cartas à Khalid na tentativa de convertê-lo.
    Alguns aspectos da religião lhe agradavam, particularmente sua ênfase no monoteísmo. Mesmo antes de sua conversão, ele já era contrário à toda idolatria que era amplamente praticada na Arábia. Maomé estava confiante de que um homem com tamanha habilidade e temperamento acerado eventualmente apareceria. De acordo com um historiador, ele disse a Walid: “Um homem como Khalid não ficará distante do Islã por tanto tempo.” O profeta estava certo. Em 629, se juntou a Maomé em Medina e declarou sua fidelidade tanto como soldado, quanto como discípulo religioso.
    Ainda em 629, Maomé convidou o gassânida governante da Síria, um vassalo bizantino, a se converter ao islamismo. Enquanto seu emissário estava seguindo rumo à corte para entregar sua mensagem, um chefe dos gassânidas o matou, iniciando assim um incidente diplomático. Maomé mandou parte de suas forças para vingar o ataque, liderado por Zayd ibn Harithat.
    Na batalha de Mu’tah, Zayd seus dois comandantes foram mortos, deixando então suas tropas totalmente à deriva. Khalid recebeu uma promoção e agora liderava 3.000 homens contra uma tropa composta de 200.000 bizantinos e gassânidas. Liderou uma recuada estratégica, fazendo o inimigo acreditar que havia uma força muito maior esperando pelo ataque.
    Entre seus atos de guerra psicológica, ele colocava colunas atrás de seu exército principal e se juntava ao exército dos muçulmanos em pequenos grupos, criando a ilusão de que havia reforços chegando. Durante essa batalha, dizem que somente ele foi responsável por quebrar nove espadas em meio ao combate. Os bizantinos acreditavam que realmente estavam chegando reforços e eventualmente se retiraram. As forças muçulmanas, agora em segurança, retornaram a Medina. Maomé, percebendo a inteligência tática de Khalid, lhe conferiu o título de “A espada de Alá.”
    Um ano mais tarde, Khalid comandou um dos quatro grupos que invadiram e conquistaram Meca por quatro rotas diferentes. A invasão foi pacífica, apesar de Khalid ter encontrado alguma resistência. Também esteve envolvido na conquista de Tubak e duas expedições a
    ul-Jandal na Arábia; uma para converter o príncipe Ukaydir, outra para destruir o ídolo pagão Wad. Foi então enviado para converter a tribo Banu Jadhimah. Quando estes passaram a resistir, começaram a ser executados. Isso enfureceu Maomé, que não acreditava no mérito da violência, apesar de ter agido da mesma forma em circunstâncias similares, indenizando as vítimas como forma de oferecer alguma compensação. Em 631, participou da peregrinação de despedida de Maomé. O profeta do Islã morreu neste mesmo ano.
    Depois da morte de Maomé, uma rebelião entre as tribos da jovem religião ameaçava eclodir e envolvido nisso, estava Khalid. Ele por fim chegou a uma posição de poder dentro da facção vencedora. A comunidade muçulmana optou por uma substituição do líder de sua religião. A pessoa era conhecida como o califa (“sucessor” ou “representante” em árabe) e o domínio de sua influência era chamado de califado.
    Assim como o Papa na Idade Média, o califa detinha os poderes políticos e espirituais em suas mãos. Mas, ao contrário do Papa, o califa só foi reconhecido como o líder universal de sua religião apenas algumas décadas antes da comunidade se dividir. O primeiro califa foi Abu Bakr (632-634). Ele estava entre os primeiros convertidos do Islã, era o sogro de Maomé que havia se casado com sua filha A’ishah. O segundo foi ‘Uma (634-644), que lutou contra o Império Bizantino ao norte e rodeou completamente o Império persa em 636, que existia por mais de 1.000 anos. E na linha de frente desses exércitos estava Khalid.
    O califa Abu Bakr rapidamente silenciou as revoltas, que eram formadas por rebeles que alegavam terem se submetido apenas a Maomé como profeta, mas não seu sucessor. Khalid e seu exército foram enviados contra essas poderosas tribos da Arábia central numa série de batalhas conhecidas por Guerras Ridda. Para manter a paz, foi para Nejd, onde Banu Tamim vivia. A maioria das tribos dessa região era aliada de Abu Bakr.
    No entanto, Sheik Mlik ibn Nuwayrh, que detinha certo poder local, foi relutante em cooperar. Ele concordou em pagar tributos, desde que estive junto de Sajjah, que dizia ser uma profetisa. Sheik Mlik ibn Nuwayrh, desrespeitava abertamente Abu Bakr com atitudes irreverentes frentes às suas ordens. Khalid ordenou a execução do sheik, e, após concluída, casou-se com sua viúva, Layla. Abu Bakr achou detestável a atitude de matar um companheiro muçulmano e se casar com sua mulher. Ameaçou apedrejar Khalid, mas não passou disso . Em 632, todas as rebeliões haviam acabado.
    A Arábia agora estava unida sob a autoridade de Abu Bakr, o califa que agora olhava com olhos pretensiosos seus vizinhos poderosos. Em 633, apesar dos acontecimentos anteriores, colocou Khalid no comando de uma campanha do califado na Mesopotâmia, área pertencente ao Império Persa. Este liderou uma tropa de 18.000 soldados com a missão de capturar as províncias mais ricas do império. Khalid encontrou pouca resistência dos iraquianos, que os reconheceram como libertadores, pois rapidamente perceberam que seria mais vantajoso lutar ao lado dos muçulmanos que ao lado dos persas.
    Suas vitórias sobre os persas rapidamente aumentavam em número. Venceu, em abril de 633, a primeira batalha travada entre o califado Rashidun e o Império Persa, e a Batalha do Rio, poucas semanas depois. Nessa segunda batalha, muitos veteranos persas e sobreviventes da primeira abandonaram seu exército e se juntaram aos muçulmanos, lutando contra seus ex-companheiros.
    A vitória mais famosa de Khalid foi na Batalha de Walaja em maio de 633. Khalid e al-Muthanna ibn Haritha lutaram contra um exército persa reforçado por aliados árabes que somavam um número pelo menos três vezes maior que o deles. Ele implementou uma variação da técnica de Aníbal que consistia em rodear o inimigo enquanto este avançava esmagá-lo por ambos os flancos. Esta foi a segunda vez na história que essa manobra complexa foi bem executada. Historiadores acreditam que Khalid desenvolveu essa manobra por conta própria, uma vez que ele não era familiar com a história militar romana.
    Encarou os persas com 5.000 cavalos e 10.000 homens a pé. O comandante persa Andarzaghar confiava em sua superioridade numérica e permitiu que os muçulmanos iniciassem o ataque, na esperança
    de lançar uma potente contra-investida. A estratégia persa funcionou no começo da batalha, quando Andarzanghar conseguia substituir os homens do front com seus reforços, freando as tropas de Khalid.
    Os persas então contra-atacavam com sua cavalaria pesada o front muçulmano. Khalid permitia o recuo do centro da formação, enquanto os flancos se mantivessem firmes. Sob suas ordens, a cavalaria leve se juntava, atacava, recuava, reagrupava e atacava novamente. Sua crescente formação diminuía os números dos persas rapidamente, uma vez que a cavalaria pesada tinha uma resposta muito devagar. O exército muçulmano atacava seus flancos, formando um círculo em volta deles. Os persas estavam completamente cercados. Já não havia mais exército, os que não tinham sido mortos escaparam.
    O fato de Khalid ter efetuado essa manobra de forma tão eficiente logo no início da sua carreira, provou que era um estrategista promissor. Depois de Walaja, venceu a batalha de Ullais no meio de maio de 633. Mais tarde naquele mês, Al-Hira, a capital regional persa da Mesopotâmia, foi conquistada. Os habitantes concordaram em pagar impostos para os seus conquistadores. Depois sitiou Anbar, que não foi tão fácil de ser conquistada quanto as outras cidades por causa da grande resistência de seus habitantes. No final Khalid terminou o cerco ao utilizar arqueiros muçulmanos, forçando a cidade a se render.
    Ele conquistara a maioria das terras ao norte do Eufrates. Mas conquista não significa consolidação de poder. Khalid teve de responder ao pedido de socorro enviado do norte do Iraque no qual o general muçulmano Ayaz bin Ghanam estava aprisionado pelos rebeldes de seu exército. Ele foi ao seu resgate e derrotou os rebeldes em Daumat-ul-Jandal. Enquanto estava distraído abafando a revolta, forças persas se preparavam para lançar um ataque contra a crescente ameaça muçulmana. Essas forças incluíam persas e árabes cristãos, situadas em quatro campos em Hanafiz, Zumiel, Sanni, e Muzieh. Khalid, que mais uma vez liderava um número menor de tropas, preferiu atacar cada campo isoladamente a ter de enfrentá-los ao mesmo tempo. Ele separou seu exército em três unidades separadas e atacou cada exército persa. A estratégia funcionou. Depois de derrotar as forças combinadas de persas, bizantinos e árabes cristãos em Firaz, Khalid conquistou o Iraque.
    Khalid foi depois requerido a conquistar a Síria Bizantina. Esta foi de fato uma grande tarefa. A área histórica em questão é muito maior que a Síria dos dias de hoje e seus domínios incluíam as atuais nações da Jordânia, Israel, Palestina, Líbano e o sul da Turquia. Seu exército era composto de 23.000 soldados liderado por quatro generais. O exército marchou de cidade em cidade disputando pequenas batalhas. Khalid então iniciou uma marcha de três dias pelas montanhas em direção a Damasco. Porém teve de parar no meio do caminho para prestar assistência a Abu Ubaidah ibn al-Jarrah, o comandante chefe da fronteira síria-árabe, que pediu reforços de emergência.
    Entrar na Síria, vindo diretamente do Iraque, requer uma travessia pelo Deserto Sírio. O exército não teve tempo o suficiente para estocar as provisões necessárias para o trajeto. Conta a lenda que como resultado os soldados andaram por dois dias no deserto sem beber uma gota d’água. Eles finalmente chegaram a um oásis, mas não tinham como levar água consigo. Khalid, bom conhecedor da cultura beduína, usou um método conhecido entre os nômades do deserto para resolver esse problema.
    Os animais utilizados pelo exército eram em sua maioria camelos, que podem beber mais de 100 litros de água de uma só vez, e são capazes de estocar toda essa quantidade em seu estômago, o que os tornavam uma espécie de cantil ambulante. O exército retomou sua marcha no deserto, e quando tinham sede, abatiam os animais e bebiam o conteúdo de seus estômagos.
    O exército chegou na Síria em junho de 634 e imediatamente capturou as cidades da fronteira. Khalid então prosseguiu a Basra, onde ajudou os 4.000 soldados de Shari eel bin Hassana contra os 12.000 bizantinos. Quando o exército de 9.000 homens de Khalid chegou, os bizantinos se refugiaram no castelo da cidade. Depois de ficarem cercados por um tempo, eles retornaram à batalha onde foram derrotados. Mais de 90.000 tropas bizantinas se juntaram em Ajnadayn, onde perderam para uma força de 20.000 muçulmanos. Este foi o ponto crítico que marcou o fim do poder bizantino na Síria e o início da dominância islâmica.

  47. Eric Carvalho disse:

    Antes de começar a batalha, um bispo católico tentou estabelecer um acordo de forma pacífica. Khalid em resposta ofereceu seus tradicionais termos islâmicos: rendimento, conversão ao islamismo, ou concordar em pagar a jizya, um imposto per capita cobrado a não-muçulmanos. O bispo recusou. Enquanto ambas as forças se colocavam em formação, Khalid disse a suas tropas, incluindo seus arqueiros, para que fossem moderados.
    A batalha começou com pequenos conflitos entre tropas individuais, o que é uma vantagem para o exército muçulmano. Um soldado chamado Dharar ibn al Azwar, também conhecido por “guerreiro meio nu” – pelo fato de lutar sem camisa e escudo – seguia em frente usando equipamento tomado de um soldado morto. Enquanto retirava o equipamento e os bizantinos o reconheceram, vários oficiais o desafiaram para um combate. Durante este duelo, Khalid ordenou para que mais guerreiros de elite se juntassem à batalha e eventualmente lançou um ataque em larga escala. O primeiro dia terminou com um empate sem nenhum vencedor claro, mas com muitas perdas para ambos os lados.
    O segundo dia começou com o comandante bizantino Teodoro desafiando Khalid em um duelo. Assim que começou, Teodoro se agarrou a Khalid e chamou ajuda de suas tropas. As tropas chegaram e o líder foi despido até a cintura e se revelou sendo Dharar ibn al Azwar. Em choque, Teodoro foi morto. A batalha recomeçou, e Khalid utilizava de suas tropas reservas.
    Os bizantinos finalmente recuaram com a cavalaria muçulmana em seu encalço, o que acabou por matar mais soldados do que a própria batalha. A quantidade final de perdas foi de 450 muçulmanos e 70.000 romanos . O imperador romano de Heráclio percebeu que as forças locais não seriam capazes de repelir os muçulmanos e que precisaria de empregar o exército imperial de elite.
    Khalid continuou sua campanha na conquista do Bizâncio e retornou a Damasco. Ele derrotou o genro do imperador Heráclio, Tomas, na batalha de Yakosa e venceu a Batalha de Maraj-al-Safar. Em 20 de agosto de 634, chegou a Damasco onde derrotou os bizantinos em Sanita-al-Uqab. Depois de três ataques bizantinos, o exército de Khalid atacou Damasco e lhes deu três dias para decidirem entre se converter, se submeter à jizya, ou abandonar a cidade com suas famílias. Os bizantinos abandonaram a cidade, mas a cavalaria muçulmana os alcançou e os atacou. O exército muçulmano, no entanto, sofreu um leve contratempo quando o califa Abu Bakr morreu durante o sítio. O primo de Khalid, ‘Umar imediatamente o substituiu em 634.
    Talvez por inveja de seu fantástico sucesso militar, ou por pura rivalidade, ‘Umar colocou no lugar de Khalid um outro comandante como líder das forças islâmicas em 634. Houve uma animosidade entre os dois, então para que não houvesse maiores suspeitas do motivo, ‘Umar declarou que a retirada do general popular ocorreu para provar que o sucesso de Khalid não era por mérito próprio, e sim pelo trabalho de Alá. Esta atitude pode ter sido tomada para evitar uma preferência popular por Khalid. O comandante responsável pela demissão dizia: “Se Abu Bakr está morto e ‘Umar é o novo califa, então ouvimos e obedecemos.” ‘Umar nomeou Abu Ubaidah ibn al Jarrah como o novo líder do exército muçulmano. Este, por sua vez, indicou Khalid como conselheiro e comandante da cavalaria.
    Khalid aceitou. Abu Ubaidah o enviou para recuperar uma terrível situação em Zahlé, perto da atual Beirute. Abu Ubaidah enviou uma pequena divisão para uma reunião anual em Abu-al-Quds para realizar um ataque surpresa. O comandante muçulmano calculou mal o tamanho de seu inimigo. Lá, uma grande tropa de bizantinos e árabes cristãos estava responsável pela segurança, que rapidamente cercou a pequena força muçulmana. Quando Khalid chegou para auxiliar o comandante, iniciou a Batalha de Abu- al-Quds. Ele não apenas derrotou os bizantinos, mas levou com sigo uma grande quantidade de objetos saqueados, juntamente de centenas de prisioneiros capturados.
    O centro da Síria agora estava capturado, e a comunicação entre a Palestina e a capital bizantina Constantinopla havia sido interrompida. A Síria estava fragmentada, e agora era apenas questão de tempo até que os exércitos muçulmanos rodeassem completamente a mais próspera província do Império Bizantino. O próximo objetivo era o de destruir a guarda de Fahl, um importante centro fornecedor e a
    chave da defesa da Arábia e Palestina. Os bizantinos represaram o rio Jordão e assim inundaram a planície, localizada 150 metros abaixo do nível do mar. Isso fez com que os muçulmanos dessem uma desacelerada, mas mesmo assim saíram vencedores da Batalha de Fahl em janeiro de 635.
    Cada vez mais desesperado, o imperado Heráclito decidiu tomar vantagem sobre as forças muçulmanas que estavam menores em tamanho em Damasco, uma vez que metade do exército tinha rumado ao sul para capturar a Palestina. Heráclito enviou o general Teodras para retomar a cidade, enquanto metade do seu exército ia para Damasco para um ataque surpresa ao exército muçulmano. Khalid, no entanto, tinha uma excelente rede de espionagem e o ataque não foi tão surpresa assim. Ele atacou o general Teodras com sua guarda móvel e o derrotou na segunda batalha de Damasco.
    Abu Ubaidah o enviou então para capturar Emesa, que se rendeu, assim como Hama. Khalid continuava a conquistar cidades; no entanto, Emesa e Qinasareen romperam o acordo, e Abu Ubaidah despachou Khalid novamente para atacar as cidades. Depois de três batalhas e dois cercos, a cidade finalmente foi capturada em março de 636.
    No fim da primavera de 636, Khalid recebeu um aviso vindo de um prisioneiro bizantino capturado que o imperador Heráclito estava reunindo uma grande campanha para retomar a Síria com uma força de aproximadamente 2.000.000 de homens. O imperador tinha subestimado o exército de Khalid e muçulmanos, esperando evitar grandes batalhas a pequenas forças isoladas. Uma batalha em grande escala agora era decidida como sendo a única estratégia militar possível.
    Os líderes muçulmanos se juntaram para planejar uma estratégia oposta. Abu Ubaidah aceitou o conselho de Khalid para juntar as forças e se encontrar em Jarmuque, uma vez que isso permitia com que a mobilidade da cavalaria leve muçulmana se juntasse às vagarosas cavalarias pesadas dos bizantinos. O exército bizantino lhes encontrou em meados de julho.
    A Batalha de Jarmuque ocorreu no meio de agosto. A Khalid foi concedido o total comando do exército, que estava lutando contra o maior oponente militar de sua carreira. Os primeiros quatro dias foram passados na defensiva, rebatendo as forças estratégicas dos bizantinos. A batalha ia e vinha. Apesar de a cada momento cada lado
    mostrar uma vantagem, não tinha nenhum vencedor aparente. No quarto dia, um sucedido ataque dos arqueiros bizantinos resultou em perdas e numa retirada muçulmana, mas isso não alterou o rumo da batalha. No quinto dia, o comandante bizantino Vahan queria discutir uma trégua. Khalid decidiu que isso era uma demonstração da fragilidade dos bizantinos e optou por pressionar ainda mais.
    Ele garantiu que todas as rotas de saída do exército de Bizâncio fossem guardadas. Então bolou um plano de ataque para o sexto dia, que envolvia sua cavalaria empurrando a dos bizantinos completamente pra fora do campo de batalha, deixando a infantaria exposta para ser atacada pelos flancos e por trás. Simultaneamente, uma forte investida de seu exército iria empurrar o flanco esquerdo inimigo, levando- os em direção a um abismo a oeste. O último dia da batalha chegou em 20 de agosto de 636.
    Khalid ordenou que a infantaria atacasse o front bizantino enquanto a cavalaria atacava os flancos esquerdos e traseiros. A investida fez com que a ala esquerda inimiga entrasse em colapso, resultando em desordem. Vahan tentava reagrupar a cavalaria para contra-atacar, mas era tarde demais para impedir a cavalaria muçulmana. Khalid recuara sua cavalaria e concentrou nos esquadrões de cavalaria bizantinos. Estes escaparam pelo único caminho possível, deixando a infantaria exposta. Khalid focava no centro esquerdo do adversário, que resistia ao ataque vindo dos dois lados. Sua cavalaria atacou a parte de trás, desmanchando-a. Suas colunas ruíram e o general bizantino iniciou a recuada. O conhecimento topográfico de Khalid sobre o campo de guerra já o havia deixado preparado pra isso. Tomou sua cavalaria em direção ao norte para bloquear a rota de escape, forçando os bizantinos irem em direção à ponte de Ayn al Dhakar.
    Esta já estava tomada por soldados de Khalid desde a noite anterior. As tropas bizantinas estavam completamente cercadas. Alguns caíram no abismo, os que tentaram fugir nadando foram mortos ao serem
    esmagados pelas pedras que se encontravam no rio. Apesar de alguns soldados escaparem, os muçulmanos não fizeram nenhum prisioneiro. Eles deram ao exército cristão uma derrota esmagadora.
    A Batalha de Jarmuque é considerada uma das mais decisivas da história. O Império Bizantino estava fadado à destruição na região do Levante. Exércitos árabes estavam posicionados de uma forma que colocavam todo o império sob ameaça (exatamente o que fariam algumas décadas depois, quando sitiaram a própria Constantinopla). O islamismo havia permanentemente se estabelecido na província mais adorada de Bizâncio.
    Depois de Jarmuque, os muçulmanos se prepararam para conquistar a cidade sagrada de Jerusalém em 637. Mesmo se tratando de um exército que estava enfraquecido e desmoralizado, a cidade dos bizantinos tinha um sistema defensivo que tornou a conquista mais árdua. Muitos cristãos sobreviventes de Jarmuque estavam refugiados ali e lhes faltavam provisões. Depois de um cerco de quatro meses, os esfomeados refugiados e soldados eventualmente se renderam e Jerusalém foi conquistada. Os cidadãos aceitaram se render, mas só ao califa. Amr ibn al-Aas, um dos comandantes (uma figura histórica, por sinal, muito infame, acusado de mandar queimar a grande Biblioteca de Alexandria), sugeriu que Khalid se apresentasse como o califa, já que ele se parecia um pouco fisionomicamente com seu primo ‘Umar.
    Após a captura de Jerusalém, Khalid lutou muitas outras batalhas no norte da Síria, incluindo Hazir e Quasreen, antes de ir para Antioquia e Alepo. Na batalha de Hazir, o exército bizantino foi completamente destruído, o que levou ‘Umar a finalmente admitir a habilidade militar de Khalid. Abu Ubaidah e Khalid capturaram a maior parte do nordeste sírio. Seu ato final como comandante foi a conquista da cidade de Marash no sul da Anatólia.
    Sua carreira militar terminou quando ‘Umar o acusou de imoralidade religiosa e uso abusivo de fundos estatais. Em relação à primeira acusação, um dos espiões do califa informou que Khalid tinha se banhado numa substância especial preparada com uma mistura alcoólica enquanto estava em Emesa. Isso violava a proibição islâmica do álcool, apesar de esta ser excepcionalmente uma interpretação literal da lei que provavelmente deixaria os líderes religiosos coçando a cabeça. Segundo, Khalid presenteou um poeta persa com 10.000 dirham (a moeda persa) do tesouro estatal para que este recitasse um poema em louvor ao comandante depois da conquista. ‘Umar usou esse incidente como um pretexto para condenar Khalid de utilizar inapropriadamente o dinheiro do governo. Assim, o comandante de enorme popularidade foi forçado a se aposentar.
    Abu Ubaidah lhe indicou governador de Quasreen, mas não viveu tempo suficiente para ocupar o posto. Em 642, Khalid morreu na sua casa em Emesa, onde vivia desde seu afastamento do serviço militar. Ele não faleceu como mártir em batalha, como havia desejado, mas sim em sua cama. De acordo com historiadores, ele expressou seu arrependimento com a seguinte frase: “Lutei tantas batalhas em busca do martírio que não há um lugar em meu corpo que não haja cicatrizes ou um ferimento feito por uma lança ou espada. E ainda assim aqui estou, morrendo na minha cama como um camelo velho. Que os olhos dos covardes nunca descansem.”
    Seus assistentes olharam sobre o falecido comandante e ponderaram sobre as cicatrizes que envolviam sua imagem. Elas eram lembranças das dezenas de batalhas na qual ele lutara e sempre saíra como vencedor. Eram como se fossem pontos, a única coisa que mantinha unida sua pele desgastada pela batalha em seus anos finais.
    O legado de Khalid como comandante foi um dos maiores da história. Não só porque ele foi capaz de derrotar seus inimigos, mas também por adaptar sua estratégia em circunstâncias, terrenos e condições inesperados. Ademais, ele mostrou força ao perder uma batalha política ao aceitar a sua demissão humilhante com a obediência de um soldado. Colocando sua fidelidade à causa sobre todas as preocupações lhe encareceram as tropas de base.
    Khalid inspira comandantes militares até hoje pelo seu sucesso em batalha apesar da inferioridade numérica de suas forças. E ainda seus métodos, se usados atualmente, provavelmente levariam um
    general a responder por crimes de guerra no tribunal internacional em Haia. Para Khalid, a batalha não era meramente o meio para a vitória militar; era um método de total violência para aniquilar completamente as forças inimigas. O terror no coração dos inimigos sempre compensou qualquer desvantagem. Essa é mais uma das características de Khalid que outros generais, infelizmente, fizeram uso ao longo dos séculos.

  48. Eric Carvalho disse:

    Capítulo 5
    Gengis Khan (1162-1227): Inimigo dos Impérios—E do Carbono Atmosférico?
    Em 2011, um grupo de ecologistas do Instituto Carnegie fez uma descoberta surpreendente. Eles determinaram que um evento de nível planetário entre os séculos XIII e XIV causou a morte de grande parte da população e desse modo milhões de acres de terra voltaram a ser dominados por florestas, reduzindo assim a quantidade de dióxido de carbono da atmosfera. Este evento foi mais devastador que o acarretado pela Dinastia Ming ou até mesmo pela Peste Negra. O grupo disse também que o ocorrido não era resultado da natureza. Era de fato o primeiro, e único, caso de esfriamento global causado pelo homem. E não foi muito difícil adivinhar quem foi o responsável: Gengis Khan e seus descendentes causaram 40 milhões de mortes neste período, tornando-o um dos mais sanguinários, e ironicamente, o mais ecológico dos ditadores da história.
    Por meio de suas batalhas e matanças, removeu 700 milhões de toneladas de carbono da atmosfera, o equivalente à quantidade emitida por um ano de uso de gasolina dos dias atuais. Um despovoamento massivo dos domínios de sua conquista, que cobriam 22% da terra, resultou no retorno de florestas e na purificação do carbono na atmosfera. Enquanto a maioria dos ambientalistas de hoje não aprovariam seus métodos (exceto alguns neomaltusianismos como Sir David Attenborough, que em janeiro de 2013 denominou os humanos como “uma praga na terra”), também não poderia negar de que foram eficientes. Como um tirano cuja influência recaía sobre toda a atmosfera da Terra chegou ao poder e conquistou tamanhos resultados?
    Primeiramente era um eficaz comandante, embora sua reputação do uso massivo de brutalidade ofusque sua geniosidade militar. A crueldade de Gengis Khan se distinguia numa cultura definida por crueldade. Mas o principal de seu sucesso era um planejamento efetivo ao forjar alianças e manobras táticas. Fora do campo de batalha, reformou a sociedade tribal mongol, fundou as bases de um governo simples ,porém eficiente e providenciou a flexibilidade necessária ao seu Estado que permitiria sua rápida expansão pela Ásia. E como expandiu rápido: da Ásia Oriental à Europa, da Pérsia à Rússia, o império criado por Gengis Khan governou grandes porções da civilização conhecida. Ele era um conquistador e inovador cujas lições ainda são relevantes em discussões sobre formação de nações.
    Sua maquinaria militar era, intrinsecamente, uma extensão da vida nômade mongólica. O elemento mais fundamental do exército mongol era o cavalo. Um soldado tinha tipicamente 3 ou 4 cavalos, o que lhe permitia viajar a altas velocidades por dias sem cansar o animal. Na invasão húngara de 1241 o exército mongol percorria mais de 160 quilômetros por dia, uma distância extraordinária num tempo onde não se havia rodovias.
    O cavalo de um soldado significava muitas coisas para seu cavaleiro – era um meio de transporte, um veículo de guerra, um animal de carga, e fonte de comida e água devido ao apreço dos mongóis à carne de cavalo e kimis – leite de égua fermentado. Os cavalos mongóis eram menores que os europeus e mais lerdos em curtas distâncias. Entretanto, a cavalaria de Gengis Khan usava tão pouca armadura que ainda assim conseguiam ser mais velozes que a do inimigo. Além do mais, os cavalos eram melhores em longas distâncias, o que permitia ao exército obter vitórias em regiões longínquas.
    As provisões necessárias para que os mongóis se lançassem ao ataque era muito menor do que as requeridas por inimigos mais sedentários como China, Irã, Oriente Médio e Europa. Seus oponentes por serem mais pesados e vagarosos, dificilmente conseguiam executar qualquer contra-ataque. Como resultado, seus soldados eram bastante móveis e pouco necessitavam de recursos durante um ataque ou
    cerco. Eles realmente não dependiam de um aparato militar complexo, o que lhes dava flexibilidade, mobilidade e improvisação nos mais diversos tipos de domínios inóspitos.
    Os mongóis também eram ótimos arqueiros sobre os cavalos, devido ao fato de praticarem esta técnica desde quando muito jovens. Seus cavalos eram equipados com estribos, que permitiam com que os arqueiros girassem seu corpo para atirar em qualquer direção, até mesmo para trás. Com seus arcos recurvados e complexos, era possível atirar flechas a longas distâncias, que chegavam a quase 500 metros, e podiam acertar alvos a uma distância de 230 metros. Vários historiadores dizem que os arqueiros de base conseguiam acertar a asa de aves enquanto voavam.
    A cavalaria mongólica era a principal unidade da maquinaria militar. Seis de cada dez membros eram da cavalaria leve, arqueiros; os outros quarto compunham a cavalaria pesada com suas lanças. A cavalaria leve tipicamente rodeava o inimigo, atiravam arcos de uma distância segura, e recuavam. Eles então repetiriam o processo e atiravam mais flechas ou fingiam estar fugindo, o que levava seus inimigos a perseguir-lhes. Era uma manobra difícil de ser executada, uma vez que soldados inexperientes poderiam fazer esse fingimento se tornar numa fuga de verdade, desde que fossem pressionados por um inimigo agressivo. Mas o fracasso era uma coisa rara, devido à excelente implementação da técnica e o desconhecimento desta pelos inimigos mongóis. Seguido dessa manobra, a cavalaria pesada saía de sua posição de defesa e iniciava um ataque contra seus surpresos oponentes.
    Gengis Khan nasceu com o nome de Temudjin em 1162 em Deluun Boldog, próximo de Burkhan Khlaun, no norte da Mongólia. Quando nasceu, foi-se observada uma mancha de sangue no seu punho, o que de acordo com a tradição local, é o sinal de que a criança se tornará um grande líder. Seu pai Yesugei era o líder do clã Bojigin e sua mãe, Hoelun, era do clã Olkhunut. Por conta de seu pai ser poligâmico (comum na sociedade de clãs da Mongólia) ele teve três irmãos, uma irmã, e dois meio- irmãos.
    Quando ainda era um menino, Yesugei lhe arranjou um casamento com uma menina do clã de Onggirat chamada Borte. Como mandava a tradição, Temudjin foi morar com a família de Borte como servo de seu pai Dai Setsen quando tinha 9 anos. Ele seria um servo até que ele e sua futura esposa tivessem idade para se casar. No entanto, quando Yesugei voltava de quando foi entregar Temudjin, fora envenenado pelos Tártaros, inimigos dos mongóis.
    No dia seguinte da morte de seu pai, foi sua mãe quem lhe ensinou a importância de fazer alianças para suportar as circunstâncias difíceis e vencer importantes batalhas. Sua família acabou sendo excluída do clã e tiveram que sobreviver por anos por conta própria, vivendo da caça e colheita. Quando tinha 16 anos, Temudjin retornou para reencontrar sua esposa, Borte Ujin. Pouco depois do casamento, Borte foi sequestrada pelos merkitas, e oferecida para ser a nova esposa do chefe do clã. O evento se mostrou ser o catalisador da entrada de Temudjin na carreira militar. Numa curta aliança com Ong-Khan, um aliado de seu pai, e Jamuka, Temudjin organizou um grupo de homens que lhe ajudariam a derrotar os merkitas e recuperar sua esposa. A ele foi fornecido uma tropa de 20.000 homens, e a recuperação permitiu com que Temudjin construísse uma base suporte. Sua popularidade e reputação como comandante começou a crescer. Ao perceber o poder adquirido, Jamuka e Ong-Khan declararam guerra contra Temudjin, uma que foi facilmente vencida por ele.
    Mesmo jovem, foi capaz de observar que as tribos mongólicas eram vítimas de uma sociedade perpetuamente enfraquecida por conta das inúmeras guerras internas. Isso os tornava impotentes contra o Império Chinês ao sul, o mais avançado tecnológica e administrativamente da Terra. Ele havia aprendido com sua mãe que pequenas intrigas entre os homens da tribo eram facilmente vencíveis, porém o mesmo não era verdade contra exércitos imperiais. Isso talvez seja melhor explicado por um provérbio da Mongólia que diz: “quebrar uma única flecha é simples; quebrar múltiplas flechas é um desafio muito maior.”
    A força de Temudjin se resumia ao seu entendimento de que a união faz a força. Com 20 anos, ele utilizava sua inteligência para formar um exército que atacava pequenas facções individuais e clãs, o que logo deu origem ao Império Mongol. Quando conquistava uma terra, ao invés de expulsar os soldados dali e matar os sobreviventes, o que era comumente praticado, ele anexava cada território conquistado em seu domínio, deixando-o sob suas regras. Essa estratégia o ajudou a expandir o Império Mongol de foram rápida e eficiente, fazendo uso de todas as técnicas, habilidades e ideias oferecidas por aqueles conquistados.
    Ele agia sob dois princípios: domínio e unidade. Qualquer clã que se recusasse a se unificar sob seu regime era apagado. Temudjin, agora apelidado de “Gengis Khan” (Poderoso Rei), montou sua rede de informantes, espiões e estrategistas para descobrir o máximo sobre as facções rivais que pretendiam desafiar seu governo. Ele se utilizava dessas informações para organizar estratégias políticas e militares para acabar com a força dos adversários pela raiz.
    Enquanto fortalecia sua confederação de clãs mongóis, Gengis implementou outras reformas na prática militar tradicional. Passou a promover oficiais se baseando no mérito, e não mais por questões familiares. Era uma meritocracia na qual sucesso e lealdade eram recompensados. Esta foi uma quebra da tradição mongólica na qual as alianças familiares que determinavam o prestígio, um sistema que inevitavelmente levou ao nepotismo e não recompensava o sucesso nem punia os erros. Devido à sua política, divisões étnicas e tribais não eram mais partes da realidade, acabando assim com as alianças feudais que afundavam a Mongólia medieval. Ele oferecia incentivos aos guerreiros por sua aliança na forma de saques. E mais, quando Gengis capturava um clã, tornava-os parte de seu grupo e lhes oferecia proteção.
    Reformou o exército para um sistema simples, porém efetivo. Os soldados mongóis eram organizados de acordo com o sistema decimal: a menor unidade militar era composta de um grupo de 10 (arban), de 100 (zuut), 1.000 (mingghan), e 10.000 homens (tumen), todos liderados pelo quartel-mestre chamado de jurtch. Cerca de dois a cinco tumens eram organizados num ordu (exército), o que originou a palavra “horda”.
    Mas apesar de seu engenhoso programa de reforma, ele não é lembrado na história como sendo um administrador minucioso. Sobretudo, Gengis é conhecido como um comandante brutal que utilizava conflitos psicológicos para a conquista. Sua reputação é largamente merecida. Ele vingou a morte de seu pai ao dizimar o clã tártaro responsável e ordenando a morte de todos os homens menores que 90 centímetros – um massacre em larga escala de crianças. A lenda diz que após derrotar o clã Taichi’ut, ele cozinhou vivo todos os líderes inimigos. Ao conquistar o canato da Mongólia, implementou uma política na qual os soldados invadiam abruptamente as cidades com a finalidade de espalhar o medo entre os moradores. Às cidades cercadas era oferecida a oportunidade de rendição e pagamento de tributos ou serem destruídas. Aqueles que se rendiam deveriam apoiar o exército mongol fornecendo suprimentos ou homens. Já aqueles que se recusavam eram aniquilados, exceto por alguns habitantes que eram instruídos a deixarem a cidade e contarem sobre a destruição às populações vizinhas.
    Junto de sua reputação desumana, o sucesso de Temudjin era baseado num exército habilidoso e bem preparado, que dependia dos relatos de uma extensiva rede de espionagem. Anos foram gastos preparando a conquista do Leste Europeu reunindo informações sobre a topografia, a rede de estradas romanas e os assentamentos povoados. Apesar de básicas, os soldados recebiam generosas provisões. Todos os soldados eram equipados com o equipamento completo, incluindo espadas, lanças, escudos, além de grandes porções de comida e uniforme extra. A cavalaria carregava sua armadura, machados de guerra e suas lanças especiais. Os alforjes era a prova d’água e infláveis, o que prevenia que afundassem durante uma travessia de rio. Os mongóis tinham sistema complexo de sinais por tochas, fumaças e tambores. O grupo que seguia o exército era composto por inúmeros carros com suprimentos, médicos, contabilistas (de saque) e até mesmo guias espirituais.
    Temudjin aos poucos ganhou o controle de toda a Mongólia; parte por conquistas militares, parte por diplomacia. Depois de passar uma década consolidando seu Estado submetendo clãs rivais ao seu comando, a visão de Gengis Khan atravessava a fronteira da Mongólia e ia até a Dinastia Jin na China. Isto não era simplesmente por questões de ampliação de território, mas também para se obter provisões necessárias. A estepe mongol não era um local fértil e para a população nômade a fartura de alimentos não era algo comum.
    Logo, a China era um alvo importante por conta de suas extensas plantações de arroz. Quando estes exércitos se encontraram, o exército de Jin enviou um mensageiro que prontamente desertou. Em Badger Pass, os mongóis mataram milhares dos soldados de Jin e então saquearam a então capital Yanjing (atual Pequim). O imperador Xuanzong moveu-se para o sul, abandonando a parte norte de seu reino deixando-a livre para os mongóis.
    Uma revolta liderada pelo já deposto Naiman Khan Kuchlug, que havia fugido para Kara-Khitan, foi encontrado pelas tropas de Gengis. Isso já era após 10 anos de campanha na China e os mongóis estavam exaustos. Ele mandou um exército de apenas 20.000 homens, e ao invés de atacá-lo em batalha, esperou uma revolta das tropas de Kuchlug. Em 1218, Kuchlug foi capturado e executado, acabando assim com a revolta. A porção ocidental do Império Mongol se estendia até o Lago Balkhash. Agora Gengis estava disposto a adentrar territórios em direção ao Mar Cáspio e a Pérsia.
    Essa próxima etapa significava mais do que aumentar sua riqueza e o número de esposas; quanto a isso ele já tinha ambos de sobra. A meta era sempre a expansão de poder. Enquanto seu exército completava a conquista inicial de novos povos, era por sua influência, dominância e reformas legais que foi capaz de criar a paz no seu império, um período comumente referido como Pax Mongolica. A população teria de se submeter aos códigos criados por Khan, um sistema simples que propunha leis igualitárias.
    De acordo com seus estatutos, ninguém estaria permitido a participar de qualquer ato que pudesse comprometer o equilíbrio e integridade do império, mesmo que este ato se tratasse de algo mundano como um simples roubo, ou algo mais sério como poluir os suprimentos de água. Não se sabe se esta lei realmente entrou em vigor, mas pode-se dizer que Gengis, no mínimo, mudou o discurso legal em seu império. As leis morais e éticas foram estabelecidas, compreendidas por todos e se fizeram cumprir estritamente. Qualquer crime era intolerável e se cometido era brutalmente punido.
    Sua habilidade em adaptar tecnologias de outras culturas à sua era mais outra razão de seu sucesso, permitindo seu exército vencer oponentes maiores. Tecnologias de cerco emprestadas dos exércitos chineses e persas (e usados em batalha por engenheiros desses países que haviam se juntado ao exército mongol) permitiu a conquista dos mongóis sobre cidades bem fortificadas. Eles conseguiam construir as armas de cerco no lugar da batalha, ao invés de desmontá-las e carregá-las por cavalos como os europeus faziam.
    Um outro fato interessante é o de que a liberdade religiosa fora conquistada, o que permitia com que vários grupos religiosos ascendessem nas hierarquias militares e políticas. Dentro de sua corte, Gengis tinha budistas, muçulmanos e até mesmo adeptos do nestorianos como conselheiros; existiam também muitas concubinas das mesmas tradições. Gengis Khan também permitia a livre troca na Rota da Seda e providenciava segurança ao longo desta, onde posteriormente surgiu uma artéria que conectava o sudeste asiático à Europa central, fato que iria dar origem à primitiva economia global medieval. Esta era a rota que Marco Polo utilizava entre 1271 a 1295 para viajar da Itália até a corte de Kublain Khan, neto de Gengis.
    Durante sua campanha militar de 20 anos, muito foi-se dedicado à expansão a oeste. Primeiramente, Gengis tentou estabelecer uma relação de troca com os corasmos turcos, que foi rapidamente destruída quando o governador Otrar capturou seus diplomatas. Gengis ordenou com que o governador devolvesse os homens. Quando o comandante Shah Muhammad recusou, Gengis assumiu pessoalmente o
    planejamento do ataque. Em 1219, um exército de 200.000 homens marchavam em direção ao ocidente. Em cada cidade por onde passavam, eles destruíam completamente a população, não deixando sobrar nem prisioneiro, nem mulher, nem criança, nem animal. Os crânios eram empilhados formando uma pirâmide. Os mongóis mataram Shah Muhammad, dando o fim na dinastia em 1221.
    Quando Gengis conquistou a dinastia Corásmia, ele se viu forçado a retornar para o leste e reprimir uma rebelião entre os tanguts da Xi Xia. Eles se recusavam a participar da campanha e iniciaram a revolta. Gengis Khan e seu exército marcharam contra os tanguts, cidade por cidade, até a conquista da capital, Ning Hia. Como um aviso para qualquer um que ainda considerava uma revolta, todos da família imperial foram mortos.
    Pouco depois de outra incrível conquista, Gengis Khan se deparou com seu infame fim. O comandante que havia conquistado toda a Ásia ao norte da fronteira dos estados do Oriente Médio morreu, não por causa de um ferimento de batalha ou ação de um inimigo, mas por conta de lesões obtidas depois de cair do cavalo durante um acidente enquanto caçava. Seus generais estavam em choque, imaginando se tratar da retribuição dos deuses. Seguindo a tradição de seus antecessores, foi enterrado sem nenhuma marcação do local da cova.
    Gengis teve a visão de apontar seu sucessor antes de morrer para prevenir uma guerra civil entre seus filhos. Seu herdeiro designado era Ogedei, que ganhou a maior fatia de seus domínios, enquanto o resto do império foi dividido entre seus outros filhos. Eles expandiram suas conquistas e agora o império ocupava uma área que ia desde a Coreia ao leste até a Hungria a oeste e Rússia ao norte. Em sua maior extensão, o império mongol foi o maior império da história, quatro vezes maior do que o formado por Alexandre, o Grande e oito vezes maior que o romano.
    Tais feitos só foram possíveis à custa de milhões de mortes de cidadãos que foram infelizes o suficiente de estar no caminho do exército mongol. Historiadores estimam que durante seu governo, Gengis Khan e seus exércitos foram responsáveis pelo entorno de 10 milhões de mortes. Esta alta taxa era devido à sua política de conquista, onde as mulheres e crianças eram dadas aos seus soldados e todo o resto era exterminado. Em suas campanhas ocidentais, eliminou três quartos da população do platô iraniano, que só voltou ao normal no século XX. Na captura da cidade de Urgench, historiadores medievais estimam que 1,2 milhão de pessoas foram mortas. Seus descendentes imediatos mataram outros 30 milhões, resultando na variação de carbono atmosférico que foi descrito no início deste capítulo.
    Gengis Khan mostrou desde muito jovem o quão brutal poderia ser. Mais importante, foi um líder visionário que viu o potencial nas populações da estepe da Mongólia. Ele sabia a importância de estabelecer alianças e leis. Sua perspicácia militar lhe davam a visão necessária não só nas táticas de batalha, mas das necessidades de cada soldado. Sua visão impulsionou o império muito além das fronteiras tradicionais da Mongólia, deixando pra trás um legado em grande parte da Eurásia como reforma legal, comércio, conquista e brutalidade.
    Apesar de seus descendentes devastarem o Oriente Médio, Gengis Khan é ainda respeitado pelos muçulmanos como sendo um conquistador do mundo. Gengis é um nome popular entre os meninos da Turquia e outros países da Ásia Central. Também ocupa um lugar especial na história islâmica e é considerado um verdadeiro conquistador do mundo abençoado por Deus e equiparado apenas a Alexandre, o Grande e Tamerlão. Na Idade Média, incontáveis governantes muçulmanos aspiraram se igualar a Gengis Khan, acreditando que aquele que obtivesse níveis similares de conquistas seria escolhido por Deus para ser o conquistador do mundo e aquele que guiaria as pessoas no fim dos tempos. Gengis também é uma figura popular no quesito reprodução, tendo incontáveis filhos com suas muitas esposas e concubinas. Em 2003, um grupo internacional de geneticistas anunciou depois de 10 anos de pesquisa, que pelo menos um a cada 200 homens do mundo eram descendentes diretos de Gengis Khan.

  49. Eric Carvalho disse:

    Nos domínios do que era o então Império Mongol, esse número sobe pra um a cada oito. Essa enorme quantidade se deve aos seus vários filhos que mantiveram essa prática.
    Como exemplo, seu primeiro filho, Jochi, teve 40 filhos legítimos; seu neto Kublai Khan teve 22. Todos os seus descendentes diretos eram governantes do amplo território por direito, e sua progenia poderia imediatamente reivindicar seu prestígio como governante ao mostrar sua conexão com Gengis, levando assim a muitas mulheres e princesas da aristocracia a cuidarem de seus filhos e entrarem no círculo de poder por pertencerem à genealogia.
    Sua influência foi tão ampla que saiu da esfera militar e hoje vive tanto no sangue de milhões de descendentes quanto no registro de carbono do planeta Terra.
    Capítulo 6 John Churchill, Primeiro Duque de Marlborough (1650-1722): Um Verdadeiro Estrategista, Herói da Guerra da Sucessão Espanhola
    John Churchill, o primeiro Duque de Marlborough, foi um brilhante estrategista e político; sorte dele, pois se não tivesse sido os dois, muito provavelmente não teria se dado bem em nenhum. Surgiu de um início obscuro para se tornar um dos mais bem sucedidos comandantes da era do Iluminismo europeu e comandante-chefe da Inglaterra na Guerra da Sucessão Espanhola. Era leal ao trono inglês, mas sempre mantinha alerta o seu ocupante caso precisasse de auxílio político em seus objetivos militares. Era um dos integrantes do triunvirato que servia a Rainha Ana, juntamente com Robert Hartley e Sidney Godolphin. Apesar de não ter revolucionado o estilo de guerra utilizado no início da Idade Moderna, o legado deixado por ele alterou permanentemente a trajetória política da Grã-Bretanha.
    Seu pai Winston, o primeiro ministro que liderou a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, enalteceu seu filho com as maiores adulações possíveis: “Ele [John] liderou os exércitos da Europa contra a França por dez campanhas. Lutou contra quatro grandes generais… Nunca entrou numa batalha que não tenha saído como vencedor, não sitiou uma fortaleza que não tenha sido capaz de adentrar… Ele saiu da guerra invencível, e foi só suas mãos pararem de guiar o exército, que este sofreu com eventos desastrosos. Sucessivas gerações ainda o chamam de Aníbal e César.”
    Marlborough nasceu em 24 de maio de 1650. Seu pai, também chamado Winston, era um membro do Parlamento. Apesar de não ser rico, o Churchill mais velho era um grande adepto da monarquia que mantinha uma significativa influência com Carlos II, devido à sua lealdade durante a guerra civil inglesa. Ele se utilizada de seus contatos para colocar seus filhos em escolas prestigiosas e na academia militar. John foi educado na escola St. Paul’s em Londres e mais tarde na corte onde servia o Duque de York, futuro Jaime II, como pajem.
    John se casou com Sarah Jennings, uma mulher que igualmente se encontrava numa situação financeira precária, mas também tinha sorte de fazer parte dos altos círculos da sociedade. Ela era uma criada da Princesa Ana, a futura rainha. Marlborough era capaz de conquistar seus méritos, mas a influência de sua mulher com a Rainha Ana garantia seu papel militar e político.
    Após ser o pagem de Jaime, Duque de York, Marlborough recebeu a patente de “ensign” (algo semelhante a um porta-bandeira) em 1667. Isso provavelmente era devido à influencia de sua irmã Arabela, amante do duque. Ele então serviu três anos em Tânger, onde recebeu um treinamento prático em estratégia e tática enquanto os britânicos mantinham os mouros sob controle. Retornou a Londres três anos mais tarde para servir junto de Jaime na Guerra Anglo-Holandesa, especialmente no navio do Duque, na Batalha de Solebay como membro da primeira guarda. Esta feroz batalha resultou com uma perda de 2.000 homens, tanto para os britânicos quanto para os holandeses. Ambos os lados declararam vitória, apesar da história considerar como um empate.
    O resultado para Marlborough foi mais positivo. Devido às suas habilidades, foi promovido a capitão do Admiralty Regiment. Participou do sitiamento de Maastricht, onde foi um entre os trinta homens que compunham a tropa que conseguiu capturar e derrotar parte da fortaleza. Durante o incidente, salvou em batalha a vida do Duque de Monmouth. Assumiu então o posto de Coronel dos Ingleses e foi elogiado pelo próprio rei por conta de seus feitos. Em 1674, foi novamente reconhecido por sua liderança na Batalha de Enzheim e em 1675 na Batalha de Sasbach, onde Turenne foi morto.
    Sua genialidade militar rapidamente se tornou evidente. Enquanto no comando, arquitetou vitórias por toda a Europa, que estava de cabeça pra baixo devido às disputas entre catolicismo e protestantismo que ocorriam ao longo da Guerra dos Trinta Anos. Ele tinha uma extrema habilidade em compreender diversas questões militares em níveis locais, nacionais e internacionais; historiadores militares acreditam que logo após a eclosão da Guerra da Sucessão Espanhola, ele já tinha a visão completa do que estava prestes a acontecer.
    John preferia batalha corpo-a-corpo aos cercamentos e era um especialista em avaliar as características dos inimigos em batalha. O campo de batalha parecia um tabuleiro de xadrez onde ele brilhantemente movia soldados e artilharia, taticamente desmembrando seus oponentes. Marlborough coordenava o movimento das tropas, armas de fogo, e todos os tipos de ataque de uma maneira complexa, porém eficiente.
    Marlborough também era um bom logístico. Providenciava grandes linhas de suprimento para seus soldados enquanto lutava fora, garantindo-lhes que não faltassem armas, roupas, e comida até mesmo quando estavam muito adentro de um território hostil. Quando as tropas chegavam ao seu destino, todos os aparatos e suprimentos necessários já estavam à espera. Tais ações cotidianas aumentavam a confiança que era depositada pelos soldados, pois mostravam sua preocupação com o bem-estar deles, que por sua vez o vangloriavam, dizendo se tratar de um homem com princípios.
    Para completar o seu currículo, era um gênio político e grande homem do Estado. Marlborough manteve uma aliança política contrária à França, devido à sua força de vontade, autodisciplina e resistência. Também navegou nas traiçoeiras águas para a conquista do trono britânico, mostrando seu apoio às partes vencedoras. O primeiro teste veio em 1685, quando Jaime II, católico, se tornou rei.
    Não foi bem recebido pelos ingleses protestantes; Jaime Scott, duque de Monmouth, imediatamente contestou essa situação e uma rebelião se iniciou. Rei Jaime determinou Marlborough para ocupar o segundo maior lugar no comando do exército escolhido para silenciar a rebelião. Com o Duque de Feversham no comando, ele foi capaz de ir atrás do exército improvisado de Monmouth, e finalmente os derrotando na batalha de Sedgemoor. Marlborough foi promovido a major-general.
    Suas habilidades tanto diplomáticas de ficar a frente das intrigas da corte real quanto militares, foram testadas na Revolução Gloriosa. Em 1688, o reinado de Jaime II encerrou prematuramente, juntamente com sua promoção do catolicismo. Nisso, os ideais protestantes rapidamente se prevaleceram na corte na sociedade. Marlborough continuou leal a James, mas mesmo seu apoio se tornou tênue.
    Ele firmemente lembrou o rei de suas preferências na fé protestante e que não se converteria ao catolicismo, ao contrário de muitos da corte. Marlborough previu que o reinado de Jaime acabaria logo e procurou por meios de desassociar sua imagem à do rei.
    Um grupo de oficiais escreveu uma carta para Guilherme, Príncipe de Orange, que assumisse o trono para que apoiasse a causa protestante. Marlborough não estava entre os assinantes, mas mandou mensagens a Guilherme informando-o de que apoiava o plano e que “agradeceu a Deus por ter lhe concedido tanto a vontade quanto força para proteger.”
    Quando Guilherme invadiu Torbay, acompanhado das forças inglesas e alemãs, o agora tenente- general Marlborough estava novamente como segundo comandante dos Feversham na missão de defender a coroa. Ainda, ele encorajou abertamente uma deserção entre os oficiais e eventualmente acabou se retirando, junto de mais 400 homens. Escreveu ao rei que agia por um princípio maior. Mesmo que sempre desse sua vida à proteção da pessoa do rei e suas leis, ele não iria apoiar o seu mandato. Jaime II percebeu que sem Marlborough, suas chances de se manter no trono eram inexistentes. Acabou por abdicar e fugiu para a França.
    Guilherme de Orange assumiu o trono como Guilherme III e governou em conjunto de Maria, filha mais velha de Jaime II. As garantias de aliança feitas por Marlborough a uma monarquia protestante e Guilherme foram vistas sob certa suspeita, mas foi recompensado por estar do lado do novo rei contra
    Jaime e foi indicado conde de Marlborough, membro do Conselho Privado, e manteve sua patente militar. Ele imediatamente se prontificou a reorganizar o exército, incluindo as indicações oficiais, o que lhe rendeu uma grande vantagem politica.
    Guilherme se juntou à campanha para impedir as ambições do rei Luis XIV de conquistar a Europa. Ele almejava destruir a nação mais poderosa da Europa e combater o rei francês, cuja reputação era a de ostentar níveis obscenos de riqueza. Uma vez que a Inglaterra ainda era uma força regional e não capaz de derrotar a França com seus próprios recursos, estabeleceu-se uma aliança com a Holanda, o Sacro Império Romano, Espanha, Portugal, Suécia e o Ducado de Saboia; formando então a Liga da Grande Aliança.
    Marlborough não esteve no comando de nenhum grande ataque durante a Guerra dos Nove Anos, também conhecida como Guerra da Grande Aliança; ele foi deixado para proteger as terras inglesas. Porém, se destacou na guerra em Flandres, onde impressionou o Príncipe Waldeck, o comandante das tropas aliadas, ao levar as 8.000 tropas britânicas à vitória na Batalha de Walcourt em 1689. Marlborough também liderou sua primeira campanha independente na Irlanda em 1690, onde capturou as cidades de Cork e Kinsale. Os irlandeses eram simpáticos à possibilidade de Jaime retornar à sua posição de rei e que Marlborough fosse solicitado para acabar com qualquer força rebelde que ainda restava.
    A abalada relação entre Marlborough e Rei Guilherme continuava a se deteriorar, particularmente por ele e sua mulher influenciarem a Princesa Ana, uma potencial rival do trono. Em 1691, foi desligado de todas as suas tarefas. No próximo ano foi acusado de ser integrante de um grupo que planejava um golpe para recolocar Jaime II no poder. As acusações eram infundadas, pois mesmo que Marlborough mantivesse correspondências com Jaime, esta era uma prática política aceitável e entendível. As acusações de traição partiram de uma carta falsa na qual Marlborough era supostamente o remetente.
    Foi encarcerado na Torre de Londres por seis semanas, mas foi solto quando as evidências contra ele se mostraram insuficientes. Ele foi então acusado de avisar os franceses de um iminente ataque a Brest. Novamente, as evidências dessa informação passada à França não eram fortes; mais provavelmente, a carta teria sido escrita à Jaime II depois que os planos já tinham sido descobertos. Mesmo assim, sua sorte ainda não havia mudado. Seguindo a sua maré de azar, sua mulher Sara começou a ter certos desentendimentos com a Rainha Maria, o que levou a esta ordenar Princesa Ana a romper seu relacionamento com Sara.
    Rainha Maria morreu em 1695, o que trouxe um alívio nas tensões entre Marlborough e Guilherme. Mesmo assim não recebeu de volta seus cargos e foi acusado de estar envolvido em outra conspiração. Essa história foi inventada por Joseph Fenwick, sujeito leal a Jaime e que eventualmente foi pego e executado. Finalmente, em 1698, Marlborough reassumiu seu papel de Conselheiro do Estado e seu cargo militar. Foi declarado governador do ducado de Gloucester. Sua famosa carreira militar estava finalmente pronta para ser iniciada no seu melhor estado.
    Apesar das suspeitas sobre Marlborough, Guilherme recobrou sua confiança quando lhe concebeu a liderança militar na campanha para impedir Luis XIV. Quando o rei Carlos II da Espanha faleceu sem deixar nenhum filho em 1700, foi iniciada a Guerra de Sucessão Espanhola, uma vez que Carlos havia indicado o neto de Luis XIV como seu sucessor, fato que uniria França e Espanha, originando um Estado de poder avassalador, capaz de massacrar qualquer outro país europeu. Quando Guilherme morreu mais tarde naquele mesmo ano, Ana, que agora era a rainha, manteve a patente de Marlborough. Ele foi para a Europa como integrante da Grande Aliança (que se opunha a Luis XIV), juntamente da Holanda e do Sacro Império Romano.
    Marlborough liderou os ingleses, holandeses e outras tropas da aliança em batalha. Mas suas habilidades como estadista foram testadas para que fosse mantida a operacionalidade de seu exército heterogêneo: ele tinha sob suas mãos o comando dos holandeses somente quando estes estivessem lutando
    junto dos ingleses. Ele tinha de conseguir uma permissão do governo holandês para qualquer ação tomada sobre suas tropas em períodos que não estivessem ocorrendo combates. Essa permissão só foi conseguida quando a bravura de Marlborough se mostrou capaz para tal. Ele rapidamente capturou com sucesso a área entre os rios Reno e Mosa, um ponto estratégico para a movimentação de tropas.
    Em 1704, precisava posicionar seu exército próximo do rio Danúbio para auxiliar os austríacos, que estavam sendo ameaçados pelos franceses que vinham do oeste. A França tentou eliminar o Sacro Império Romano da guerra capturando Viena. Ele tentou marchar pra a capital para protegê-la mas sabia que os holandeses nunca aprovariam uma movimentação tão distante das suas tropas, nem qualquer outra coisa que pudesse enfraquecer suas forças nos Países Baixos Espanhóis. Enquanto tudo isso acontecia, ainda precisava manter a Áustria na guerra e afastar os exércitos franceses que vinham do leste. E foi em Blenheim que seu plano mais audacioso, decisivo, e bem elaborado de sua carreira foi executado.
    Marlborough bolou um esquema de movimento e desinformação para interceptar as tropas da França e da Baviera antes de que chegassem a Viena. Na intenção de confundi-los de suas reais intenções, marchou com 40.000 soldados para o Danúbio, fingindo uma campanha contra os franceses na cidade de Mosela. Esta foi uma massiva operação logística, uma vez que esta requiriu que movesse todo seu exército da Holanda para o Danúbio em apenas cinco semanas, fato que pode ser considerado como o nascimento das táticas de guerra moderna. Também foi capaz de enganar o inimigo ao forjar um ataque em Estrasburgo. Marlborough chegou a encomendar a construção de pontes sobre o Reno para confundir ainda mais os franceses.
    Depois de se unir com as tropas prussianas e dinamarquesas, encontrou-se também com a princesa de Saboia e Baden, formando um exército com 110.000 homens. Finalmente encontrou as forças Franco- Bávara no Danúbio, perto de Blenheim. O exército francês se estendia ao longo de 6,5 quilômetros que iam do Danúbio até os Alpes Suábios. Atacaram Blenheim no dia 13 de agosto.
    Os ataques foram inicialmente infrutíferos, mas o comandante francês Clérambault cometeu uma gafe astronômica ao entrar em pânico e ordenou que civis reservistas entrassem na batalha. O comandante francês Tallards já tinha enviado todos aqueles que podiam. Marlborough percebeu sua vantagem e seguiu pressionando, flanqueando e confinando Tallards. Assim, foi capaz de derrotar a cavalaria e infantaria francesas. Eles e os bávaros fugiram. O restante do exército de Clérambault, 10.000 homens, se rendeu.
    Ao término da batalha, a Grande Aliança sofreu 4,500 fatalidades e 8.000 baixas, uma grande quantidade, mas isso representava somente um terço dos seus oponentes. Os franceses arcaram com 20.000 mortes e 15.000 capturados. A Baviera estava fora da guerra, a ameaça francês sobre Viena estava encerrada, e Luis XIV agora percebia que precisava se preparar para uma longa guerra. Este foi o ponto decisivo e o não oficial fim da dominância militar francesa sobre a Europa.
    Agora agraciado como herói nacional, Marlborough ainda teve mais vitórias em Tréveris e Trimbach. Estas vitórias serviram não só para afastar ainda mais os franceses, mas também aumentou a reputação de Marlborough no continente. Ele recebeu o principado de Mindelheim do Sacro Imperador Romano como recompensa pelo seu sucesso. Os holandeses e espanhóis também se mostravam satisfeitos. Mas se tornar um herói internacional tem seu preço.
    Liderar a Grande Aliança significou ter algumas complicações nas políticas tanto nacionais quanto exteriores, particularmente quando seu apoio na guerra diminuiu. Os Whigs, partido mais influente do Reino Unido, não estava convencido de que a guerra valeu todo o seu esforço. O relacionamento da Rainha Ana com Sara se tornou ainda mais movimentado devido às fortes opiniões e insensibilidade de Sara.
    Os aliados também estavam se mostrando mais complicados nas etapas finais da Guerra de Sucessão. Quando viu uma oportunidade para atacar os franceses e pôr um fim decisivo às hostilidades, os

  50. Eric Carvalho disse:

    inamarqueses estavam relutantes. Isso mesmo com a guerra acontecendo em sua terra natal, como foi a Batalha de Reinheim de 1705.
    Apesar do apoio pouco entusiasmado, ele continuou seu circuito de vitórias; em 1706, venceu sem dificuldades os franceses perto de Ramillies. Seu exército de quase 60.000 quase sofreu uma derrota quando os esquadrões holandeses foram perdidos devido a um ataque da França, porém, reconquistou o controle da batalha quando liderou duas investidas nas quais a cavalaria acabou com os cavaleiros e o centro francês. A Liga perdeu apenas 1.000 soldados; os franceses, 13.000.
    Na sua nação, a situação política havia piorado. Ele era um aliado do parlamento junto de Tory Robert Hartley, mas foi substituído devido à crescente influência dos Whigs. Marlborough teve de se entender com eles para que o governo continuasse patrocinando a guerra. Em meio a tudo isso, a Rainha Ana finalmente cortou os laços com Sara, consequentemente enfraquecendo de modo drástico a conexão de Marlborough com a Coroa.
    Os franceses ocuparam uma região segura e recusaram se render. A Aliança se tornou ainda mais conturbada quando membros, como a Suécia, passaram a considerar vantajoso atacar alguns dos seus aliados. Marlborough, como sempre sendo diplomático, manteve os aliados em ordem e continuou recebendo recursos, mesmo que relutantes, dos Whigs. A maré mudou mais uma vez a seu favor em 1708 quando Marlborough obteve uma vitória principal na Batalha de Oudernaade. Todavia, um pacto ainda não poderia ser negociado, especialmente com a demanda dos Whig para que os franceses abandonassem suas pretensões de assumir o trono espanhol. O rei Luis recusava.
    Na batalha de Malplaquet, derrotou novamente os franceses, apesar de perder 25.000 tropas contra 12.000 deles. Era uma vitória, mas não das melhores. Em 1710, ressurgiram as ideias de acordos de paz, mas os franceses ainda não estavam dispostos a conceder. Marlborough ainda tinha mais uma grande batalha para derrotar a França. Em 1711, se encontrou com o comandante francês Villars, que estava presente em Malplaquet, em Avesnes-le-Comte-Arras. Ao invés de encarar suas tropas diretamente, efetivou um brilhante ataque surpresa, executando uma marcha secreta. Suas tropas percorreram 65 quilômetros em 18 horas. Tomaram a fortaleza de Bouchain sem sofrer grandes perdas.
    Nos momentos finais da guerra, Marlborough foi forçado a resolver alguns assuntos pessoais. Estava sendo acusado de corrupção e fraude durante seu comando por desviar 2,5% do pagamento de todo o dinheiro estrangeiro recebido para o exército. A acusação contra ele provavelmente se tratava de uma manobra política para destituir a figura mais visível de uma guerra cada vez mais impopular, uma vez que esta quantia havia sido gasta no Serviço Secreto, Rainha Ana já não era mais sua protetora, logo, tirou- lhe o cargo de chefe dos militares.
    No curso desses acontecimentos humilhantes, deixou a Inglaterra e terminou seu envolvimento com a política, retornando ao continente europeu com Sara. Lá, ele era recebido de braços abertos. O Sacro Império Romano o fez príncipe e lhe deu a soberania sobre Mindelheim, no sul da Alemanha. Os franceses, aliviados de que ele não estava mais no comando, continuaram com suas negociações.
    Mesmo Marlborough não estando mais na Inglaterra, nunca esteve longe de sua política, uma vez que trabalhava para que os alemães da casa de Hanôver entrassem na linha de sucessão inglesa com a morte da Rainha Ana. Ele ainda mantinha contato com ela, e apesar dos conteúdos de suas cartas não serem conhecidos, parece que ambos se reconciliaram, já que ele havia sido convidado a retornar para a Inglaterra.
    Marlborough aceitou o convite e chegou exatamente no dia em que ela viera a falecer. Mesmo assim, ele conseguiu recuperar a maioria de seus cargos. Inclusive, supervisionou sua última campanha militar e presidiu a derrota da revolta dos jacobinos em 1715, que exigiam a volta dos Stuarts ao trono.
    O Duque de Marlborough se aposentou no Palácio Blenheim, que ainda estava em construção. Ele, infelizmente, só foi capaz de desfrutá-lo por três anos. Sua saúde diminuía, e em março de 1716, sofreu
    um derrame que o deixou incapaz de falar. Sofreu um segundo derrame em 1722, que ocasionou sua morte no dia 16 de junho. Morreu em Windsor Lodge com 72 anos.
    Marlborough viveu um período de intrigas pelo trono inglês, onde facções continuamente usurpavam umas às outras na intenção de obterem poder. Ele demonstrou esplendor ao navegar estas águas turbulentas, mantendo um olho no ocupante do trono e outro naqueles que poderiam ocupar no futuro. Ele foi um comandante militar ambicioso que demonstrou a acuidade necessária para mudar o futuro da política na Inglaterra. Após conduzir seu país rumo à vitória na Guerra de Sucessão Espanhola, os ingleses passaram a compor o maior poder militar da Europa.
    Este foi um papel que lhe pertenceu, mesmo se tratando de um homem que tanto fora caluniado e incompreendido durante sua vida.
    Capítulo 7: Frederico II da Prússia (1712-1786): Santo Padroeiro da Genialidade Tática, Antecessor do Império Germânico
    Em 1730, encoberto pela sombra da noite, o príncipe herdeiro da Prússia, sob o risco de ser assassinado, fugia em direção à Inglaterra. O rapaz de 18 anos de idade viajou com seu tutor, Hans Hermann Von Katte, e um grupo de jovens militares. O grupo provavelmente chegaria em segurança na Inglaterra, caso não fosse um dos colegas do príncipe que dedurou o esquema quando estavam perto de Mannheim no Eleitorado do Palatinado.
    O rapaz então teve de voltar forçosamente à corte de seu pai e seu tutor foi executado. Ele fora sentenciado por seu pai e teria sido executado se não fosse a intervenção de Carlos VI, o Sacro Imperador Romano, alegando que o príncipe só poderia ser julgado pela Dieta Imperial do Sacro Império Romano. Ele ficou preso durante dois meses e depois foi exilado da corte por mais seis.
    Esse era o tipo de relação que Frederico II tinha com seu pai, Frederico Guilherme I da Prússia. O Frederico mais velho era um disciplinador e dos maiores, treinando seu filho para se tornar um soldado desde o seu nascimento. O jovem Frederico era acordado todas as manhãs com o um estampido de canhão. Quando completou 6 anos, passou por um regime de instruções militares e manuseio de armas, e no final daquele ano recebeu um arsenal em miniatura. O rei instruiu ao tutor de seu filho, que o batesse toda vez que caísse do cavalo ou quando cometesse alguma “effete”, tal como usar luvas no inverno.
    O jovem príncipe, no entanto, preferia levar a vida de uma forma mais quieta, com seus estudos. Ele se contentava com música, artes, filosofia francesa, e milhares de livros sobre a poesia grega e latina. Esta forma diferente de pensar é possivelmente a fonte sucesso de Frederico II como líder militar e um transformador da Prússia imperial. Ele reformou a burocracia do Estado e suas funções públicas.
    Ele se auto-intitulava como um déspota esclarecido e promoveu a tolerância religiosa entre católicos, protestantes e judeus. Foi um incentivador das artes, patrocinava músicos da corte como Bach e Johann Joachim Quantz. Frederico aspirava ser um rei filosofo como no livro A República de Platão e a vida de Marco Aurélio. Ele apoiava as corroborações filosóficas do Iluminismo francês e trocou por um longo tempo correspondências com Voltaire.
    Todos estes atributos o distanciava de seu pai, o rei que criou a massiva arma de guerra da Prússia, mas que não promoveu uma cultura unificada ou que fosse rica no aspecto civil dos diversos principados que compunham seus domínios. O exército era composto de 200.000 soldados que não compartilhavam da mesma identidade. É por essa razão que a Prússia, sob o reino de seu pai, era descrita pelo ministro Friedrich von Schrötter como sendo “não um país com um exército, mas um exército com um país.” Frederico filho não desejava viver uma vida de soldado ou general, mas quando as circunstâncias lhe forçaram, abraçou seu novo papel como poucos o fizeram.
    A ele foi dado um exército superior, cujas potencialidades foram aproveitadas ao máximo, incorporando o que alguns descreviam como “a mais elevada das conquistas militares que se era possível numa Europa em que prevaleciam as condições anteriores à Revolução Francesa.” Ele sabia como derrotar números, tropas e táticas superiores. Ele também sabia quando substituir beligerância por diplomacia. Apesar de relutantemente ter assumido seu cargo, Frederico construiu um legado que ainda se mantém vivo na Alemanha dos dias de hoje.
    Frederico nasceu em 1712 em Potsdam, perto de Berlim. Era o filho mais velho de Frederico Guilherme I da Prússia e da Princesa Sofia. Sobre sua falha tentativa de fugir da Prússia, seu pai acabou
    por não matá-lo, mas obrigou-o a assistir a execução Von Katte. Frederico foi perdoado, mas perdeu seu patente militar. Foi também forçado a aprender sobre educação militar e estadismo, coisas que evitava no passado.
    Frederico retornou à Berlim dois anos depois. Em 1733, depois de recusar alguns casamentos arranjados, acabou por aceitou se casar com Isabel Cristina de Brunsvique-Volfembutel, da dinastia Habsbugo. Isabel prestou suas dedicações a ele, que não estava feliz em se casar com ela; a infelicidade era tanta, que a maior fofoca que rolava na corte era a de que o casamento nunca havia sido consumado.
    Apesar de suas perturbações nupciais, ele aproveitou os primeiros anos de seu reinado. Frederico passava horas assistindo a peças de teatro, escutando musica, e dando continuidade a seus estudos de literatura francesa, começando inclusive a trocar correspondências com Voltaire. Também escreveu livros, em particular uma refutação de “O Príncipe”, intitulada Anti-Maquiavel.
    A tese levantada por Frederico defendia que os conceitos descritos no clássico sobre política não eram mais relevantes no século XVIII. Ele dissertou profundamente sobre as mudanças políticas que ocorreram na Europa, como a substituição da estrutura cidade-estado na época de Maquiavel por uma concentração do poder em um pequeno número de estados e impérios da época contemporânea.
    Além de suas buscas intelectuais, também se dedicou ao seu trabalho no governo, fato que impressionou seu pai. Também retomou o exercício militar e foi indicado comandante de um regimento de infantaria. Frederico foi parte de um contingente prússico que auxiliou a Áustria na Guerra de Sucessão da Polônia. Nesta posição, serviu ao príncipe Eugênio de Saboia em sua batalha contra os franceses. Além disso tudo, ainda fundou a Ordem Bayard, um grupo que estudava assuntos militares.
    Em 1740, Frederico Guilherme faleceu e Frederico II ascendeu ao trono da Prússia. Pouco depois, o imperador Carlos VI da Áustria também morreu. Antes de sua morte, Carlos refletiu bastante sobre sua escolha para sucessor, uma vez que estava preocupado que sua filha e herdeira, Maria Teresa, não fosse aceita como herdeira legítima do trono. As leis da dinastia Habsburgo não aceitavam mulheres como monarcas, mas Carlos VI não tinha um filho e portanto, nenhuma outra opção. Para evitar um confronto armado, criou a Pragmática Sanção de 1713, que permitia com que sua filha fosse a legítima herdeira das possessões dos Habsburgos.
    Entretanto, a França e a Baviera tinham planos na Áustria, assim com Frederico. Todos esperavam ansiosos por um momento de enfraquecimento Habsburgo, de modo que o império não pudesse mais defender suas valiosas terras; Frederico deixou claro para Maria Teresa de que tinha interesses em ajudá-la em questões militares, porém sua cooperação não sairia de graça. Ele exigiu que em troca de seu auxílio que a Província de Silésia se anexasse ao território da Prússia. Assim que Maria Teresa recusou, foi declarada guerra à Áustria, um conflito que ficou conhecido pelo nome de Guerra de Sucessão Austríaca. Na intenção de travar uma guerra considerada legítima na arena internacional, Frederico usou o Tratado de Brieg de 1537 como desculpa. Era dito que a Casa de Hohenzollerns – uma família prussiana real que incluía os imperadores – tinha o direito de herdar o ducado de Brieg, localizado em terras Habsburgas.
    A desculpa foi considerada suficiente pelos Estados vizinhos que também estavam dispostos a tomar algumas porções do Sacro Império Romano. Ambas, França e Baviera, juntaram- se à guerra.
    O exército prussiano não tinha muita experiência na prática, mas era o exército mais bem treinado e talentoso de toda a Europa. Ele herdou um exército de 83.000 homens; quando morreu, este número aumentou para 190.000. O exército recrutava camponeses dos campos e os pagavam com impostos financiados pelos que moravam nas cidades que por sua vez, eram liberados do serviço militar.
    Além disso, prevenia com que nobres interferissem em questões militares, criando um relacionamento mais pessoal entre o exército nacional e o recruta. Os nobres não eram mais o filtro pelo qual corriam as reformas militares; em 1749 e 1764, ele lançou decretos que limitavam as obrigações do camponês ao seu senhor.
    A primeira experiência como comandante de Frederico se deu na Batalha de Mollwitz em 1741, onde derrotou os austríacos. A cavalaria prussiana teve um péssimo desempenho no início, mas os corseiros, originalmente treinados em cavalos pesados, foram retreinados em cavalos mais leves e manobráveis. Seguindo essa vitória, atacou os austríacos mais uma vez na Batalha de Choyusitz depois de retroceder. Mais uma vez, a habilidade dos soldados prussianos mudou a maré. Frederico chegou a um acordo com Maria Teresa e se retirou da guerra em 1742, obtendo a maior parte da Silésia.
    No entanto, a Áustria teve um grande aumento no desempenho da guerra sem a Prússia. Percebendo que esse quadro poderia implicar em consequências adversas tanto para Prússia quanto para sua mais nova possessão, Frederico decidiu retomar a participação da Prússia no conflito. A guerra terminou em 1748 com o Tratado de Aquisgrão. A Áustria conseguiu manter todos os seus domínios, com exceção da Silésia.
    As nações europeias restantes suspeitavam das próximas intenções de Frederico em continuar aumentando suas extensões. Rússia, Áustria, França, Saxônia, e Suécia, todas se uniram contra ele. Áustria e França, que tradicionalmente eram inimigas, agora formavam uma aliança. Frederico, preocupado com a segurança da Prússia, entrou numa aliança com a Inglaterra e com a Casa de Hanôver no Tratado de Westminster. Em 1756, ele invadiu a Saxônia e assim iniciou a Guerra dos Sete Anos.
    Frederico tinha uma desvantagem numérica na guerra, mas ainda assim foi capaz de vencer devido ao melhor treino de suas tropas, que prevaleceu diversas vezes em batalha. Frederico também usou táticas superiores contra seu inimigo que era muito maior. Ele não daria a oportunidade de combinar suas forças e lançarem um ataque unificado às nações que compunham a aliança.
    Assim ele mitigou a força da aliança em números, atacando com menos, porém melhores soldados. Seu exército viajava em unidades menores que se juntavam e combinavam suas forças imediatamente antes da batalha. Adicionalmente, a confiança dos seus oponentes em formações tradicionais de batalha expunha suas vulnerabilidades.
    Frederico inspirava suas tropas através do seu envolvimento pessoal nas batalhas. Assim como Alexandre, Aníbal, e Khalid ibn al-Walid que vieram antes dele, ele frequentemente ia junto com suas forças militarem ao combate. Como resultado, seis cavalos foram baleados enquanto estavam sendo montados por ele ao longo de sua carreira.

  51. Eric Carvalho disse:

    Sua bravura e esplendor tático lhe renderam a reputação de gênio, particularmente pelo seu uso da técnica “oblíqua”, que consistia no exército atacante focar apenas em um flanco inimigo. Seu exército mirava no ponto fraco do inimigo, usando a sobra de seus homens para restaurar a linha do inimigo. Uma vez que havia efetivamente sido feito um buraco na defesa adversária, seu exército então criaria uma formação angular que tinha o potencial de concentrar as forças de ataque. Eles podiam envolver o flanco e derrotar o totalmente o inimigo. Era através desse método que ele garantia a vitória sobre forças mais fracas no campo de batalha.
    Para que fosse executada essa sequência eram necessárias três coisas. Primeiro, informações precisas eram indispensáveis. Cada oficial precisava saber como formar o batalhão de linha à coluna, manter seu lugar na coluna, e depois remanejar o escalão para um ataque. Segundo, os soldados tinham que marcham em formação, o que requeria formações estruturadas. E por último, seus inimigos não podiam saber qual era a formação, pois uma vez que soubessem, podiam contra-atacar de maneira mais rápida. Todos esses requisitos são difíceis de serem executados pelo comandante, mas não para Frederico, que era um aficionado pelos detalhes e talentoso na arte do subterfúgio.
    A obra prima de sua carreira militar veio no dia 5 de dezembro de 1757, na batalha de Leuthen. Ele tinha vencido recentemente a França em Rossbach no dia 5 de novembro, o que protegeu a Prússia de uma invasão francesa. Ele agora se concentrava no poderoso exército austríaco sob o comando do príncipe Carlos Alexandre de Lorena. Sob o comando de Frederico havia 35.000 homens, 133 esquadrões de cavalaria, 78 armas pesadas, e 98 batalhões de armas terrestres.
    Os homens sob seu comando estavam confiantes após a vitória, porém a outra metade que já tinham lutado em comandos diferentes estava desmoralizada após uma retirada estratégica da Breslávia. Esta era a soma de suas forças que tinham que atacar o exército austríaco em Silésia, que possuía 85 batalhões, 125 esquadrões, 235 armas, e 60.000 homens. Eles formavam uma equipe profissional que já tinha vencido os prussianos três vezes em batalha.
    Primeiramente, Frederico se concentrou em elevar a confiança de seus homens. Apesar de estar doente e exausto, ele se juntou às tropas e se aquecia à fogueira junto dos homens, ouvindo suas histórias, suas reclamações, e prometendo recompensas e promoções por aquele serviço valioso. Mostrava camaradagem para com os mais jovens e os inspirava ao invés de desmerecê-los: ”Levem sempre em suas mentes, senhores, que estamos lutando pela nossa glória, pela preservação de nossos lares, por nossas esposas e filhos,” ele dizia. Com essas palavras, ele instilava em seus homens a convicção de que iriam sair vitoriosos. Para aumentar ainda mais os seus ânimos, providenciava um aumento da porção de comida e licor.
    Frederico sabia que havia regiões austríacas próximas da Breslávia que estavam nas mãos de 1.000 croatas e dois governos. Sua primeira ação foi se livrar deles, antes que um exército maior chegasse para ocupar a área, prevenindo dessa forma com que colocassem infantaria na cidade e artilharia nos morros. Isso foi importante, pois tomou dos austríacos uma posição importante. Invadiu a Breslávia enviando uma parte de sua tropa para derrubar os portões da cidade, seguidos de uma cavalaria que investiria contra a cidade. Um terceiro grupo entrou na Breslávia pelo portão de trás, surpreendendo os austríacos. No total, 800 croatas foram capturados. O exército prussiano então avançou e ocupou vilarejos nas regiões próximas.
    De acordo com seus informantes, o exército austríaco criou uma linha defensiva de aproximadamente 6,5 quilômetros perto do vilarejo de Nippern. Seus planos de ataque iam de acordo com a seguinte ordem: primeiro o exército era precedido de uma vanguarda de 60 esquadrões e 10 batalhões, liderados pelo próprio Frederico. Quatro colunas do exército seguem atrás, com a infantaria compondo as duas do meio e a cavalaria, as laterais.
    Seu front era o primeiro grupo a encontrar a vanguarda da cavalaria austríaca, que não era parte do exército principal. Frederico ordenou sua cavalaria que investissem contra o front austríaco com o total suporte da infantaria. Essa estratégia desordenou os austríacos, forçando-os a recuarem de volta ao exército principal. Mais de 800 homens da infantaria austríaca e cinco oficiais foram capturados.
    Eles continuavam com o avanço prussiano até que estivessem ao alcance da visão do exército da Áustria. Agora que estava totalmente visível, ele poderia descobrir seus pontos fortes e fracos. Ele via as falhas na formação dos batalhões: um pequeno monte de terra mais elevado ao qual o flanco esquerdo estava ancorado, onde o terreno era desnivelado para baixo.
    Se essa porção fosse capturada, então seu exército teria uma grande vantagem ao longo da batalha. Para disfarçar seus movimentos em direção ao sul, Frederico usou o terreno para esconder seus soldados e ordenou que uma parte de duas tropas aparecesse atacando na direção do norte, enganando-os assim de sua real intenção.
    Ele executou essa manobra com sucesso e preparou para o ataque investindo na formação oblíqua com o flanco do sul. A força de ataque foi reforçada com uma bateria de canhões. O flanco esquerdo de Frederico, que fora usado para confundir os austríacos, prestou auxílio à cavalaria que tinha a missão de proteger uma recuada prussiana caso o primeiro ataque falhasse.
    Os prussianos rapidamente capturaram o outeiro, dando-lhes uma posição favorável sobre toda aquela planície. Eles preveniram um contra-ataque austríaco ao posicionar uma bateria de artilharia ali. O avanço foi lento, porém logo a cavalaria austríaca foi forçada a recuar. Foram forçados a retroceder às posições iniciais e voltaram ao vilarejo de Leuthen. Os austríacos atacaram para mudar sua posição e formaram uma nova linha paralela ao front prussiano.
    Os prussianos entraram em Lethuan e agora toda a batalha se concentrava num adro cercado por uma muralha de pedra. Invadiram a igreja, e os austríacos remanescentes na cidade tiveram de fugir mais ao norte. Tentaram efetivar mais um contra-ataque contra os prussianos pelo lado de fora da cidade. Mas Frederico ordenou com que seu flanco esquerdo atacasse o lado direito dos austríacos. Estes foram dispersos e fugiram em desordem, logo sendo atacados pelos três lados. Com essa investida, a Prússia conquistou a vitória. Sofreram um total de 6.382 perdas; já os austríacos tiveram 10.000 perdas e 12.000 foram capturados. Adicionalmente, 131 peças de artilharia austríacas foram capturadas.
    Apesar dessa vitória gloriosa, o tempo não estava do lado de Frederico. A aliança estava forte o suficiente para sugar todos os seus recursos e ameaça a Prússia de falência. A Rússia também tinha invadido Berlim, colocando mais pressão sobre ele para que tomasse uma decisão rápida. No entanto, sua sorte mudou quando a imperatriz Isabel da Áustria faleceu e foi sucedida por Pedro III. Este novo governante russo não tinha interesse em continuar a guerra contra a Prússia. Em 1763, a guerra foi terminada com a Paz de Hubertusburgo, com a Prússia ficando com seu território pré-guerra.
    Mesmo não conseguindo nenhum pedaço a mais de terra na guerra, Frederico conseguiu ter uma visão geral dos passos que seriam necessários para fazer da Prússia uma força com dominância política e militar no Concerto da Europa. Para isso, seria necessário mais do treinamento ou conhecimento tático; seria necessário também se utilizar de diplomacia. Também precisaria mudar seu método de atacar primeiro, e se concentrar mais na defesa de seus domínios. Ele assinou uma aliança com a imperatriz Catarina II da Rússia, que assumiu o trono após seu marido Pedro ter sido assassinado. Apesar de uma desconfiança mútua, a aliança foi efetivada e ambos os monarcas foram pragmáticos.
    A aliança foi colocada à prova quando a Rússia entrou na guerra contra o Império Otomano em 1768. Frederico estava preocupado com a expansão da Rússia, já que suas intenções na guerra era a de trazer as regiões do Cáucaso e da Crimeia para seu domínio, e posteriormente as terras otomanas. Henrique, o irmão de Frederico, propôs que as terras da Polônia fossem tomadas e repartidas entre Prússia, Rússia e Áustria. Frederico capturou essa área e rapidamente anexou essa área aos seus domínios.
    Renomeou este novo território de Prússia Ocidental. Ordenou que seus ministros aprendessem o polonês, mesmo que mostrasse certo desprezo pela nova província. Encorajou os alemães a se mudarem para a o território adquirido e reformassem o sistema de educação. O plano funcionou: cerca de 300.000 alemães foram morar na Prússia Ocidental, fato que trouxe um grande impacto na cultura e sociedade daquela terra.
    Quando José II da Áustria decidiu invadir a Baviera, Frederico se utilizou de vários artifícios diplomáticos e ameaças para pressioná-lo a desistir dessa ideia. Quando José optou por mesmo assim seguir adiante, Frederico entrou com pouco entusiasmo no conflito. Preparou seus exércitos para a batalha, mas nada ocorreu exceto uns conflitos ínfimos, que terminaram com o Tratado de Teschen. A Áustria ficou com Burgau, e a Prússia recebeu alguns principados francônios. Outro resultado desse tratado foi a criação da Fürstenbund, ou Liga dos Príncipes Germânicos, que tinha como fundamento proteger os germânicos contra ataques externos.
    As capacidades de Frederico iam muito além daquelas como líderes militar. Ele exigia trabalho duro e lealdade de seus nomeados, o que resultava num governo efetivo. Encheu os cofres do tesouro, mesmo com suas despesas de expansão militar, ao criar um sistema de impostos que funcionava tão bem, que era invejado pelo resto da Europa. Também construiu uma boa base industrial para a Prússia de forma que seu Estado pudesse manufaturar seus próprios bens. Ironicamente, uma área que ele não desenvolveu na sociedade prussiana foi a da arte e literatura, contrastando com sua grande apreciação pessoal por esse tipo de cultura.
    Nos anos que se seguiram, Frederico viveu mais solitário. Ele ficou menos interessado em fraternizar com a população de Berlim. Seu círculo de amigos que foi mantido ao longo da sua vida na corte morreu, e os membros mais jovens não os substituíram. Ele então passou a tomar posturas críticas e arbitrárias
    com aqueles à sua volta. Fato que incomodava os oficiais do alto escalão e os burocratas. Sua situação foi piorando e em 1786, morreu no palácio de Sanssouci no seu tão adorado quarto de estudos. Foi enterrado ao lado de seu pai na Potsdam Garrison Church.
    No seu reinado de 46 anos, Frederico levou a Prússia do posto de um pequeno Estado ao de uma das maiores potências europeias. Ele dobrou a área de seu território e fez a força dominante entre os estados alemães. Suas ações eventualmente levaram à unificação dos principados da Prússia, originando a nação alemã em 1871. O ensino básico e a codificação das leis ocorreram durante o seu reinado. As forças armadas, que antes era uma instituição aristocrática, agora era uma parte da sociedade relevante a todas as classes sociais, independente se fosse o nobre que liderava o exército, a classe média que o abastecia, ou os camponeses que compunham as tropas.
    Talvez o maior elogio ao seu governo viesse de um comandante militar tão ambicioso como ele e que também conseguiu elevar os poderes de sua nação a novos patamares. Poucas décadas depois da morte de Frederico, um influente general francês prestou homenagens ao governante prussiano e vangloriou que este foi o maior gênio das táticas de guerra de todos os tempos. Após uma vitória deslumbrante em 1807, o comandante fez uma peregrinação ao seu túmulo em Potsdam, prestando seu respeito ao não oficial santo padroeiro das conquistas militares inesperadas.
    Em pé, diante da sepultura de Frederico, Napoleão Bonaparte dizia aos seus homens, “Senhores, se este homem ainda estivesse vivo, eu não estaria aqui.”
    Capítulo 8 Alexander Suvorov (1729-1800): O Sun Tzu russo; Conquistador dos Turcos, Franceses e Poloneses
    Apesar de ser desconhecido pela maioria dos ocidentais, este general russo foi o único capaz de frear o avanço napoleônico pela Europa no século XVIII. Suas célebres frases e sabedoria influenciam várias gerações de comandantes militares. Em seu manual A ciência da vitória, dissertou sobre moral, treinamento, e a iniciativa dos soldados do front. Foi escrito para os camponeses russos que formavam o núcleo de seu exército para que se tornassem soldados propriamente ditos. Suvorov é uma figura complexa, mas sua filosofia é talvez melhor representada por sua frase que diz que para vencer, deve-se treinar pesado e lutar leve. Nesse quesito, Suvorov era um autêntico exemplo para suas tropas. Lutou quase 100 batalhas e venceu todas. Estas só foram obtidas por causa de suas estratégias não convencionais e a grande disciplina de suas tropas.
    Estas só foram obtidas por causa de suas estratégias nada comuns e a grande disciplina de suas tropas. Tudo isso foi conquistado enquanto evitava a decadente cultura de Moscou. Suvorov não via motivo em ficar bajulando os czares quem definiam o líder militar durante a Rússia Imperial do século XVIII.
    Num período onde os militares geralmente estavam mais interessados nos confortos da vida aristocrática, ele geralmente ignorava as intrigas na corte e focava no campo de batalha. As únicas pessoas que ele almeja o respeito eram seus soldados, com quem dividia o mesmo nível de conforto material.
    Suvorov nasceu em Moscou em 1730. Seu pai, Vasily Suvorov exercia função de general do exército russo e também de senador. Sua mãe era armênia. Ele era uma criança frágil, seu pai não tinha muita crença de que seu filho conquistasse algum nível significante de sucesso; julgava ele seria apto apenas para alguma ocupação civil qualquer.
    No entanto, o jovem Suvorov trabalhou duro, superando as poucas esperanças que seu pai havia depositado nele. Aprendeu por conta própria quatro línguas e estudou história militar, estratégias e táticas com auxílio da vasta livraria de seu pai. Engajou-se, num rigoroso exercício físico para fortalecer seu corpo.
    Sua dedicação impressionou tanto o seu avô, o general Ganibal, que acabou por convencer Vasily a colocar seu filho na carreira militar. Com 18 anos, Suvorov se juntou ao exército e assistia às aulas de cadete das forças terrestres. Passou seis anos no Regimento Semyonovsky.
    Sua primeira participação em batalha foi na Guerra dos Sete Anos contra a Prússia, entre 1756 e 1763. Nesta época, todas as dúvidas sobre sua capacidade foram encerradas. Suvorov foi elogiado por seu desempenho em campo e foi promovido a coronel. Foi neste momento que sua carreira decolou, pois em 1762 Catarina, a Grande, assumiu o trono.
    A Suvorov foi incumbida uma missão na Polônia, onde uma revolta estava eclodindo na Confederação de Bar. Ele derrotou o exército do general Pulaski, conquistando a Cracóvia. A guerra foi o princípio da primeira partição da Polônia, que dividiu o país entre Rússia, Áustria e Prússia. Depois de terminada a campanha, ele foi promovido a major-general.
    Ao longo dessas batalhas, Suvorov se utilizou de táticas de batalha que ele mesmo havia criado. Estas manobras evitavam instruções complicadas e enfatizava uma abordagem mais básica que se concentrava em precisão, agressividade e contato direto. Era uma abordagem não convencional, porém

  52. Eric Carvalho disse:

    vigorosa e efetiva contra as forças inimigas. Também priorizava um ataque rápido à paciência. “Velocidade e investida são as bases da vitória,” ele dizia.
    A próxima grande campanha de Suvorov foi na Guerra Russo-Turca de 1768-1774, lutada contra o Império Otomano, o arqui-inimigo dos russos. Ele não se aderiu à guerra até 1773, mas sua influência foi decisiva. Suas vitórias sobre o exército otomano lhe renderam a reputação de um extraordinário líder e comandante. No entanto, seu desinteresse pela política e pelo governo começou a ficar cada vez mais aparentes
    Ele lançou ações sem devidas autorizações sobre os turcos e por isso foi sentenciado à morte. Apesar de sua atitude desrespeitosa quanto à família real, seu sucesso militar lhe concebeu as graças da igualmente militar Imperatriz Catarina II. Ela declarou que os vencedores não poderiam ser julgados.
    Em 1774, depois de quebrados alguns tratados, ele assumiu o comando contra o Exército otomano na Batalha de Kozluca. Os turcos tinham uma grandiosa vantagem numérica com suas 40.000 tropas. Mesmo assim, os russos foram capazes de superá-los com seu poder de fogo maior e dividindo as forças otomanas, tornando-as mais fáceis de serem conquistadas.
    Nesta batalha, parte do exército turco foi pego enquanto tentava atravessar um afluente do Danúbio. Seu ataque contra o flanco de trás do inimigo causou-lhes um abalo que os levou a se juntarem ao exército principal, criando uma oportunidade para os russos invadirem seu acampamento. Os russos sofreram apenas 200 perdas contra 3.000 dos otomanos. Devido a esta perda, eles dominaram a maior parte da costa norte do Mar Negro, tornando-o agora um lago russo. A guerra terminou pouco depois e ele foi promovido a tenente-general.
    Conhecido como “O General dos Soldados,” Suvorov aumentou sua reputação em muitos aspectos. Ele respeitava suas tropas se certificando de que estas estavam devidamente pagas e equipadas, o que não era uma tarefa fácil num tempo de uma burocracia primitiva e redes de comunicação sustentadas apenas pelo correio.
    Os escritos de Suvorov formam uma espécie de acervo de citações sobre assuntos militares, por isso chamá-lo de Sun Tzu russo. Ele defendia a ideia de atacar na primeira oportunidade ao invés de ficar esperando pela oportunidade perfeita; ou, como ele dizia eloquentemente,”ataquem com o que tiverem à mão, com o que Deus mandar.” Apesar de não concordar com os prussianos sobre uma abordagem mais sucinta, ele acreditava na rígida disciplina de seus soldados, ou que “um treinamento duro torna uma batalha fácil”.
    Cada vez mais ou outros exércitos dependiam da artilharia para vencer o inimigo, mas Suvorov tinha uma confiança maior na baioneta e no combate cara a cara. Os rifles do século XVII tomavam um tempo considerável para recarregar, às vezes mais do que um minuto, então ele recomendava que suas tropas utilizassem a baioneta contra o primeiro inimigo que encontrassem e atirassem no segundo. “A bala é louca; somente a baioneta sabe o que deve fazer”, ele comentou em seu livro “A ciência da vitória.”
    Ele treinava seu exército para lutar com velocidade, mobilidade e precisão de tiro com a baioneta, tudo dentro de uma estratégia cuidadosamente planejada por ele. W. Lyon Blease escreve em sua biografia sobre Suvorov que ele se sentia mais confortável com um esquema operacional que lhe garantisse total poder e controle sobre qualquer decisão: “Os oficiais sabem que eu não me importo de trabalhar assim. …Suvorov era major, assistente, e todas as funções até cabo; eu mesmo estudei tudo e posso ensinar a qualquer um.”
    Sua determinação era a principal razão de nunca ter perdido uma batalha. Ao contrário de outros generais bem sucedidos da sua época, Suvorov nunca considerou o recuo como uma opção estratégica viável. Sua relutância em recuar não era por medo de ser punido; mas sim, era um modo de instaurar a confiança em suas tropas de que a vitória nunca é impossível. Sua terceira razão para o sucesso era a de limitar o número de oficiais, resultando numa maquinaria militar mais eficiente por ter menos intermediários entre os generais e os soldados.
    Suvorov acabou com os códigos e se comunicava suas tropas de uma maneira clara. Empregava a mesma logística de generais do passado como Frederico, o Grande e Marlborough, ou seja, tinha um zelo especial com o bem estar geral dos soldados ao cuidar de seus suprimentos de armas e condições básicas de vida. Isto levava a uma diminuição do número de doenças nos acampamentos.
    Depois de vencer pequenos conflitos, Suvorov assumiu o comando da Guerra Russo-Turca em 1787- 1792. Foi vitorioso nas batalhas de Ochakov e Kinburn. Em Kinburn em 1787, os turcos tentaram frear a tropa russa e impedir um cerco em Ochakov. Assim que os otomanos atacaram e Suvorov lançou seu contra-ataque.
    Durante a ofensiva, Suvorov foi ferido duas vezes. Ele não se importou com os ferimentos que eram apenas um preço a ser pago pela expulsão dos soldados turcos. Com este episódio em mente, ele é citado no livro “Princípios Básicos da Arte Operacional e Tática” de Savkin, como “Uma perseguição acirrada não deixa tempo para o inimigo pensar, deixa-o sem base, e lhe tira sua rota de fuga.”
    As perdas finais da batalha totalizaram 400 russos e 4.000 otomanos. A guerra continuou, e em 1790, atacou a força de Izmail na Bessarábia no Rio Danúbio, uma de suas mais famosas vitórias. A fortaleza era tida como impenetrável por causa de seu tamanho, mas mesmo assim os russos derrubaram-na com sucesso. Os soldados turcos tinham a ordem de assegurarem seu terreno e recusaram o ultimato russo de rendição.
    Este foi o marco militar, a catastrófica derrota dos otomanos, e a virada da guerra. A vitória representou um momento glorioso imortalizado no primeiro hino da Rússia. Devido aos serviços prestados durante a guerra, Catarina, a Grande lhe presenteou com o título de Rymnisksky.
    Em 1794, Suvorov foi chamado para acabar com uma revolta polonesa. Na Batalha de Maciejowice, os russos chegaram a tempo de atacar antes que os reforços poloneses aparecessem. Foi uma batalha brutal, onde o comandante polonês Taduesz Kosciuszko foi capturado. Os russos, em seguida, atacaram Varsóvia e a vizinha Praga.
    Durante o ataque a Praga, os cossacos mataram 20.000 civis. Resta ainda a dúvida se os cossacos agiam sob o comando de Suvorov durante o extermínio. De qualquer forma, ele foi parcialmente responsável pela atrocidade, uma vez que cedeu aos cossacos um tempo a mais na cidade para que a saqueassem.
    Esta campanha lhe rendeu o conhecimento pela Europa por sua tamanha brutalidade por ter permitido que tantos civis fossem mortos durante a pilhagem. De acordo com os cálculos militares de Suvorov, esta foi uma ordem justificável. Um fim rápido, porém violento da guerra resultaria numa quantidade menor de perdas de vidas humanas se comparada a um conflito mais prolongado, porém mais extenso.
    Ele disse, “É muito difícil cumprir o dever. Fui tido como bárbaro por causa da invasão à Praga onde 7.000 foram mortos. A Europa diz que sou um monstro. Eu mesmo li isso nos jornais, mas eu gostaria de conversar com as pessoas sobre este assunto e perguntá-las: não seria melhor terminar logo uma guerra com 7.000 mortes do que permitir que esta se estendesse e morressem 100.000?”
    Quando a guerra terminou e Varsóvia tinha sido capturada, ele compartilhou sua felicidade com a Imperatriz de sua maneira característica. Ele enviou esta simples mensagem à Catarina: “Viva!, de Varsóvia, Suvorov.”
    Depois de concluída a campanha polonesa, o comandante de 64 anos se aposentou em Konchansko. Assim como fazia com seus soldados, ele vivia do mesmo modo que os moradores da cidade e os ajudava com os trabalhos relacionados ao campo. Pouco depois do início de sua aposentadoria, Catarina morreu em 1796 e seu filho Paulo I se tornou o czar. Suvorov não aprovava as novas medidas implantada no exército, Paulo então decidiu cortá-lo juntamente de seus apoiadores do círculo militar.
    Ao contrário de sua mãe, a sua personalidade não era a que mais agradava ao general; Paulo gostava de toda a pompa, fazia desfiles, entre outras coisas que incomodavam o mais íntimo de Suvorov. O velho general rapidamente entrou em conflito com a corte e foi deixado de lado. No entanto, Paulo vivenciou
    uma abrupta mudança do cenário mundial quando a primeira guerra napoleônica iniciou, ameaçando a independência da Rússia. Suvorov foi convocado para liderar sua defesa na Itália em 1798.
    A Rússia fez uma aliança com a Áustria contra a França para tirá-los da Itália. Suvorov preparou suas tropas e foi nomeado marechal pelo imperador austríaco Francisco. Ele chegou ao norte da Itália quando Napoleão Bonaparte estava ocupado numa batalha no Egito. Seu exército de 45.000 homens teve suas vitórias em Cassano d’Adda, Trebbia e Novi. Nas duas primeiras, venceu os generais franceses Jean Moreau e Etienne MacDonald. Em Novi, Suvorov executou suas táticas de batalha que passou toda sua carreira aperfeiçoando. O comandante francês Barthélemy Catherine Joubert foi morto logo nos primeiros momentos da batalha. Esta última, expulsou as forças francesas da Itália.
    Porém, a Áustria e Grã-Bretanha temiam sua posição no sul europeu, uma vez que lhe fornecia um ponto ideal para atacar o centro do continente. Suvorov foi chamado para ir até a Suíça e reforçar o exército austríaco ao invés de rumar diretamente à França. Armamentos e outras provisões prometidas pelos austríacos não lhe foram entregues, então ele se viu obrigado a atacar as tropas francesas com seu abastecimento limitado enquanto segurava o Passo de São Gotardo, a mais rápida, porém mais difícil rota até a Suíça. Ele finalmente tomou o ponto francês depois de tê-los rodeado e atacado três vezes. No dia 25 de setembro, ele novamente rodeou e atacou os franceses, que estavam incumbidos de defender o túnel Lucerne-Lach e a Ponte do Diabo. Suvorov ao pisar na ponte durante a batalha, disse a seu exército “Vejam como um velho marechal encara seu inimigo!”
    No entanto, um segundo exército russo havia sido derrotado em Zurique e Suvorov não tinha como atravessar seu exército pelo lago. Os franceses se aproximavam da sua posição nos Alpes e os russos temiam estarem encurralados. Não tinham reforços e os estoques eram limitados. Estavam com pouco tempo.
    Para evitarem mais uma vez as forças francesas, Suvorov lançou uma expedição alpina que era similar àquela que Aníbal e suas tropas fizeram dois milênios antes. Ordenou que seu exército marchasse em direção aos montes de 2,7km de altitude do Panikh rumo a Ilands até que chegassem ao alto Reno. Os russos tiveram de negociar esta difícil travessia enquanto concediam aos franceses os maiores e melhores pontos.
    Entretanto, os russos, que estavam acostumados com o frio, atravessaram com sucesso os Alpes cobertos de neve mesmo sofrendo contínuos ataques. Contradizendo todas as expectativas plausíveis, eles conseguiram efetuar esta recuada estratégica. Perdeu um terço de seu exército, mas ganhou o respeito da elite europeia por ser capaz de executar a manobra com sucesso. Por esta vitória, Suvorov foi nomeado Generalíssimo da Rússia, o quarto e último detentor deste título na Rússia pré-revolucionária.
    Suvorov retornou a São Petersburgo em 1800, mas não recebeu as boas vindas como herói. Paulo havia prometido uma celebração para comemorar a vitória de Suvorov, porém sua patente e seus títulos lhe foram retirados devido uma suspeita de delito na administração militar. O general estava inconsolável e esgotado depois de uma vida inteira dedicada às batalhas. A aposentadoria não lhe caiu bem, uma vez que se tornara apático sem as suas raison d’etre de comandar as forças militares
    Além disso, sua carreira militar havia criado certas tensões em suas relações familiares, principalmente com sua esposa. Ele não era um marido muito afetuoso, nem tentava compensar sua longa ausência com qualquer gesto romântico: Suvorov uma vez lhe escrevera uma carta que dizia somente “Vivo. Saudável. Servindo. Suvorov.” Ela, como diziam os rumores, se envolvia com diversos amantes enquanto ele estava fora comprometido com suas campanhas militares. O estilo de vida ao qual ele havia retornado lhe oferecia muito pouco incentivo para que continuasse respirando. Ele morreu 18 de maio daquele mesmo ano. Condizente com seu jeito utilitarista, em seu túmulo encontram- se escrito apenas, “Aqui jaz Suvorov.”
    O general registrou 93 vitórias e zero derrota, algo não equiparável na história. Isto se deve às suas resoluções aceradas, ascéticas e determinadas. Foi capaz de vencer inimigos em número maiores. Sua
    estratégia não deixava espaço para recuadas. Quando ia à guerra, não tirava vantagem de nenhum privilégio especial; viva como um soldado comum, assim conquistava uma grande confiança de suas tropas.
    Seu estilo frugal foi lendário, uma vez que preferia viver como se estivesse num acampamento mesmo quando distante do campo de batalha, dormindo no feno e dispensando cobertores durante o frio. Diz a lenda que uma vez Catarina lhe ordenou que usasse um casaco de pele, porém ele se negava. Para que não descumprisse a ordem, ele carregava o casaco, mas não o vestia.
    Todavia, seu desgosto pela política pode ter limitado a velocidade de sua ascensão ao comando da hierarquia militar. Como foi discutida na introdução deste livro, a maioria dos generais famosos da história eram ovelhas negras, cujo brilhantismo também os tornava discrepante a ponto de não se adequarem de forma necessária para navegarem entre a diplomacia imposta pela elite. Mas independente disso, sua grande potencialidade militar lhe permitiu uma relação ao menos cordial com Catarina e, numa menor intensidade, com seu filho Paulo.
    Sua habilidade de deslocar as tropas no campo de batalha como se fosse um tabuleiro de xadrez era inigualável naquele tempo. Num nível operacional, ele concentrava suas forças para destruir os suprimentos dos inimigos e atacá-los no ponto mais fraco. Ele priorizava trabalhar com grupos menores em relação àqueles maiores. Suvorov enviava pequenas unidades às batalhas para que pudesse reconhecer o inimigo e assim era capaz de posicionar um exército mais rapidamente para atacá-lo nos pontos mais vulneráveis e assim criar uma investida contínua.
    Talvez a maior das honras à sua memória é a Ordem de Suvorov, uma decoração militar da Federação Russa. A cruz de 40 mm banhada a ouro é dedicada aos que demonstram liderança excepcional durante o combate e organização habilidosa das tropas e das unidades militares mesmo sob forte resistência do inimigo.
    De acordo com os historiadores e o povo russo, sua reputação como comandante é inigualável. O homem cujo pai julgava ser capaz de muito pouco se provou ser indispensável à sua pátria.

  53. Eric Carvalho disse:

    Capítulo 9 Napoleão Bonaparte (1769-1821): Imperador da França, Soberano da Europa, Exilado de Elba
    Em 1798, Napoleão chegou com suas forças no Egito, local que na época era uma província otomana. O propósito da campanha aparentemente era proteger os interesses comerciais franceses e impedir o acesso britânico à Índia, sua mais lucrativa colônia, para que se pudesse estabelecer uma iniciativa científica na região, o que era considerado por todos como um sucesso em expansão. Sua expedição incluía um contingente de 167 cientistas e acadêmicos. A Pedra de Roseta foi descoberta, o que permitiu a tradução dos hieróglifos egípcios, abrindo assim a oportunidade de estudo desta antiga civilização pelos pesquisadores que fundaram a ciência chamada de egiptologia. A utilização da imprensa chegou ao público na forma de jornais e periódicos publicados em francês e árabe. Ideais como nacionalismo e liberalismo foram promulgados. Outros valores iluministas foram propagados ao Egito através da fundação do Institut d’Égypte, um grupo de pesquisadores que acompanhavam a expedição. Este grupo também analisava os recursos naturais da região, como a flora e a fauna.
    Contraditoriamente, apesar de sua devoção aos princípios iluministas, muitos historiadores militares acreditam que a verdadeira razão pela qual foi trazido um contingente de savants foi a de mascarar suas reais intenções de aumentar o poder da França e preparar o terreno para a conquista do continente europeu. Napoleão também era conhecido por sua certa intolerância às outras culturas. Transformou algumas mesquitas em lanchonetes e ordenava para que a bandeira tricolor fosse colocada no topo dos minaretes. Geralmente, oficiais civis não cumpriam esta ordem, o que fazia com que cinco ou seis cabeças rolassem da guilhotina por dia. A situação dos franceses se deteriorava conforme o tempo que ficavam no Egito. As atitudes que tomava lhe rendiam certo desprezo dos grupos locais, que não se importavam com o seu poder militar nem suas visões iluministas.
    Estas são as contradições presentes no homem que é amplamente considerado como sendo um dos maiores comandantes da história. Ele desafiou os antigos regimes europeus e alterou permanentemente a ordem política do continente, colocando diversas nações numa trajetória rumo à democracia e direitos civis. Fez tudo isso mesmo assumindo um poder altamente autocrático e colocando rédeas em seus oponentes. Suas tendências megalomaníacas o fez desinteressado pelo sofrimento e morte de seus soldados; ele se interessava apenas pela contribuição destes para o seu engrandecimento, o que representava a única coisa que realmente lhe importava. No fim das contas, sua ambição política levou a França à falência e deixou o país permanentemente fora dos maiores colonizadores europeus do século XIX.
    Seu maior legado foram as estratégias de batalha copiadas por exércitos nacionais da Europa durante o final do século XVIII até a invenção do mosquete em meados do século XIX. O núcleo de suas táticas dependia de uma maquinaria militar de alta eficiência. Esta requeria um intenso treinamento dos soldados, rápidos movimentos em batalha, e uma ação combinada entre infantaria, cavalaria e artilharia, uso da baioneta, mosquetes de pederneira e um pequeno número de canhões. A invenção do mosquete raiado fez com que tais estratégias se tornassem tecnologicamente impraticáveis, mas foi Napoleão quem as inventou e alcançou sua apoteose. Seus métodos requeriam que suas tropas marchassem em colunas ao invés de linhas. Isso tirava o máximo de proveito dos mosquetes de curto alcance e abatiam as fileiras inimigas.
    Napoleão nasceu em 1769 em Ajaccio na ilha de Córsega. Era filho de Carlo Bounaparte, um advogado, e Leticia Ramolino Bounaparte. Sua família, mesmo não sendo muito rica, pertencia à elite
    corsa. A França havia recentemente adquirido a Córsega da cidade-estado italiana Gênova. Napoleão estudou na França, onde aprendeu a língua e prestou academias militares em Brienne e na Escola Militar de Paris, graduando em 1785. Foi nomeado segundo tenente da unidade de artilharia do exército francês. Seu pai morreu no mesmo ano.
    Ele não poderia ter ido à França numa época mais movimentada. A Revolução começou em 1789; dentro de três anos, o governo havia sido deposto, o rei Luis XVI fora morto e a República francesa estava instaurada. Bonaparte trabalhou para difundir os ideias revolucionários em sua ilha natal. Passou a maior parte de seus primeiros oito anos como oficial em Córsega, participando da política local. Juntou- se a um grupo pró-democracia e se aliou ao antigo conhecido de seu pai, Pasquale Paoli, governador da Córsega. Ele também se envolveu com uma facção jacobina revolucionária e se tornou tenente coronel da milícia corsa.
    Seguindo a fase otimista da Revolução, veio um obscuro capítulo da história francesa, conhecida como Reino do Terror. Maximilien de Robespierre, líder da revolução, se utilizava da “força compulsória universal” para matar todos aqueles que não concordavam com as metas extremistas da República francesa. Como resultado, ele e simpatizantes jacobinos usavam a guilhotina para matar nobres, clérigos e qualquer um que se opunha à política. Os apoiadores marchavam pelas ruas de Paris com as cabeças dos padres decapitados na ponta de piques. O Reino do Terror atingiu seu auge com as execuções de Luís XVI e Maria Antonieta em 1793, e não terminaria até a morte de Robespierre.
    Durante este tumulto, Napoleão foi indicado capitão do exército francês, mesmo estando por muito tempo distante do país. Sua aliança com o governador acabou em 1793 quando Paoli buscou a independência de Córsega da França. Napoleão e sua mãe foram à França e mudaram seus nomes para “Bonaparte”.
    A ele foi incumbido reprimir uma revolta em Toulon, que estava ocupada por tropas britânicas e francesas que reivindicavam contra o Reino do Terror. Napoleão bolou um plano para capturar a artilharia republicana localizada em l’Eguillete e dominar o porto da cidade, forçando a frota naval britânica a evacuar. Assim o fizeram, e os franceses pró-republicanos foram deixados vulneráveis. Napoleão foi ferido na coxa durante o assalto, mas seu comando na batalha lhe rendeu um louvor especial. Foi promovido a brigadeiro general e chamou a atenção de Augustin Robespierre, irmão de Maximilien. Esta relação foi crucial para sua futura carreira, mesmo que tenha terminado brevemente com a morte de Robespierre e 1794.
    Napoleão abafou outra revolta em 1795, dessa vez formada por contrarrevolucionários e realistas em Paris, ao preparar a artilharia para cessar o ataque. Por ter sucedido, foi recompensado pelo Diretório francês, até então o grupo que estava no poder, e recebeu um novo patrono, Paul Barras. Pouco depois, se casou com Josefina de Beauharnais.
    O jovem oficial escalava entre as patentes do exército francês, o que era bastante merecido por sua habilidade intelectual e poderosa memória. Uma história sobre sua campanha em 1805 diz que um de seus subordinados não conseguia localizar sua divisão e seus ajudantes tentavam encontrar uma solução procurando entre mapas e papéis. O imperador disse ao soldado a atual localização da sua unidade, onde estaria estacionada pelas próximas três noites, a quantidade de homens que lá estavam e toda a ficha militar do sujeito. Isso tudo mesmo com o rapaz sendo um entre 200.000 soldados e com as unidades em constante movimentação.
    Napoleão, um tempo mais tarde, era um comandante formado mesmo sem nunca ter mandado nenhuma tropa ao ataque; isso era pelo fato de ter passado horas estudando exaustivamente livros de história militar. Uma vez ele disse “Já lutei sessenta batalhas e nunca aprendi nada que eu já não sabia desde o princípio. Olhe para César; ele lutou a primeira como se fosse a última.”
    Em 1796, Napoleão liderou a primeira de suas campanhas internacionais na Itália. Seu exército estava fracamente equipado e totalmente desmotivado. Eles eram, no entanto, um grupo experiente, e
    Napoleão foi capaz de reverter a situação ao abastecer devidamente suas tropas. Mais importante, ele lhes deu maiores incentivos para a vitória.
    Nesta campanha, Napoleão teve de lutar contra dois grandes inimigos: os austríacos e as forças de Piemonte. Seu primeiro objetivo era o de manter os dois exércitos separados e prevenir a junção destes em Carcare. Enquanto se preparavam, os austríacos, liderados pelo general Beaulieu, decidiram atacar primeiro. Os franceses os venceram em Dega. Eventualmente, as tropas piemontesas concordaram em um armistício depois de terem recuado em direção ao oeste.
    Agora ele estava pronto para atacar o exército austríaco, o qual estava sendo perseguido ao longo da planície Padana. Estes foram derrotados em Lodi. A este evento, se seguiu a captura de Milão. Estas vitórias contribuíram para a solidificação de sua reputação como um comandante capaz de liderar campanhas em terras estrangeiras. Napoleão então expulsou os austríacos da Lombardia. Com a Itália vulnerável, conquistou os estados papais e saqueou Veneza, extraindo mais de 60 milhões de francos durante o saque.
    Napoleão introduziu muitas inovações nesta batalha. Ele fragmentou seu exército principal em várias divisões menores. Cada uma destas divisões eram uma espécie de exército em miniatura, com sua infantaria, artilharia e cavalaria. Estavam em números que iam entre 10.000 a 30.000 homens e permitiam um arranjo muito mais flexível do que se comparados aos massivos outros exércitos europeus. Tal distribuição permitia com que sustentassem um inimigo em maior número até que reforços chegassem. O exército inteiro não precisava marchar junto; portanto, as logísticas militares eram mais simples e permitiam ataques surpresa contra os inimigos. Cada divisão poderia rapidamente socorrer outra durante a batalha, ou rapidamente explorar um ponto fraco entre as linhas inimigas. O princípio era marcharem separados, mas lutarem juntos.
    Sua eficácia foi testada quando encararam um inimigo com exército forte e organizado. A forças do marechal austríaco Count von Wurmer vieram para se unir ao exército de Beaulieu. Os austríacos inciaram vencendo por conta do ataque efetuado contra uma guarnição na Bréscia. No entanto, Napoleão, rápida e bem sucedidamente contra-atacou, vencendo a Batalha de Loanto e a Batalha de Castiglione. Os franceses derrotaram a grande quantidade de austríacos na Batalha de Bassano e subsequentemente recuaram até Mântua. Eles finalmente se renderam depois de perderem a Batalha de Ravióli e perceberem que não receberiam reforços. Por estar repleto de entusiasmo e possíveis desilusões de grandeza, Napoleão autorizou os termos de rendição do Tratado de Campoformio mesmo sem ter a autoridade para isso. Entretanto, os o Diretório francês concordou com o trato, que incluía tomar o controle da porção holandesa que pertencia a Áustria e as partes conquistadas da Itália. Os franceses também assumiram o controle do Sacro Império Romano.
    Em 1798, os cinco diretores haviam decidido invadir a Inglaterra, porém Napoleão convenceu-os que ao invés de atacá-los diretamente, seria preferível atacar o Egito e assim acabar com suas rotas de comércio. Napoleão derrotou os mamelucos, uma dinastia provincial apoiada pelos otomanos que praticamente governava o Egito, na Batalha das Pirâmides. Infelizmente, ele percebeu que suas preocupações quanto aos britânicos estavam corretas quando sua frota fora derrotada pela Marinha Real Britânica no Nilo. Ele também invadiu a Síria para conquistar o Império Otomano, porém foi mal sucedido durante o cerco de Acre.
    Mesmo sem receber nenhuma ordem, Napoleão decidiu retornar à França depois de ter visto que seu substituto havia perdido a porção norte da Itália na Batalha da Segunda Coligação. Ele e o Diretório se preocupavam com uma possível invasão na França; no entanto, a sorte havia mudado de lado novamente e quando retornou, a segurança da fronteira já havia sido restaurada. Porém, o país estava falido e a popularidade do Diretório decaía. Napoleão era inquestionavelmente a figura mais popular no país devido a sua rápida ascensão na carreira militar. Foi recrutado por um dos diretores, Emmanuel Joseph Sieyès, para reanimar o governo.
    Bonaparte ficou incubido de proteger os conselhos legislativos e os convenceu a se mudarem para o Castelo de Saint-Cloud por questões de segurança. Na verdade, eles estavam sendo empurrados para fora do caminho para que uma assembleia entre Bonaparte e Sieyès, também teorizador político da Revolução Francesa, pudesse ser montada. Ele esperava se tornar o líder da França, mas Napoleão conseguiu ser eleito como o Primeiro Cônsul. Ele assumiu também o poder legislativo e escreveu a Constituição do Ano VIII. O general de Córsega era agora o líder da França.
    Napoleão foi responsável por amplas e drásticas reformas no governo francês, o qual já havia sido transformado consideravelmente durante as duas décadas anteriores. Criou um sistema centralizado de bancos, sistema universitário, reformas fiscais e serviços públicos. Também criou o Código Napoleônico, que institucionalizou muitos ideais da Revolução Francesa e enfraquecia o poder da aristocracia e das tradições feudais. Removeu os privilégios que alguns tinham de nascença, estabeleceu a liberdade religiosa no país dominado pelo catolicismo, e baseou a escolha dos membros do governo pelo mérito. Este código legal foi criado pelo segundo cônsul Jean-Jacques-Régis de Cambacérès, mas com a maior influência vinda do próprio Bonaparte.
    Napoleão também reconciliou as tendências seculares extremistas do país com o Papado. Durante a Revolução, o ideal do secularismo coincidiu com o desejo de destruir a influência da igreja católica na sociedade. Apesar de Napoleão não ser religioso, a maioria esmagadora dos franceses eram católicos. Ele negociou a Concordata que melhorava as relações, enquanto que ao mesmo tempo, teoricamente lhe dava uma maior influência sobre a Igreja dentro da França.
    Em relação às inovações trazidas para o campo de batalha, de acordo com Peter Dean, três principais estratégias militares amparavam a filosofia de guerra de Napoleão. A primeira era la maneuver sur les derrieres, na qual os inimigos eram enganados por um ataque falso enquanto que o exército principal passava por uma rota secreta e atacava o flanco inimigo. Os inimigos demoraram mais de uma década para conseguirem driblar a técnica. A segunda era favorecer uma posição central quando lutava contra dois ou mais exércitos inimigos. Esta posição permitia com que atacassem o inimigo separadamente, assim derrotavam duas forças menores. Durante a campanha em Waterloo, Napoleão atacou os prussianos de Blücher enquanto as tropas do marechal Ney lidavam com o exército anglo-holandês de Wellington. A terceira manobra foi uma penetração estratégica. Esta envolvia um massacre das defesas inimigas, seguida de uma rápida marcha ao centro do território inimigo onde as cidades eram destruídas e usadas como base de operação para a próxima campanha.
    Napoleão retornou à Itália mais uma vez em 1800 para derrotar os austríacos. Depois da Batalha de Marengo, os austríacos foram completamente expulsos da Itália. Assinou o Tratado de Amiens com os britânicos em 1801, estabelecendo a paz entre os dois países. No hemisfério ocidental, no entanto, os franceses se depararam com uma revolta inesperada do Haiti, ilha dominada por escravos africanos, em 1803. Napoleão decidiu que defender qualquer território francês na América do norte seria quase impossível; então decidiu vender o território da Louisiana aos Estados Unidos, aumentando assim o seu tesouro e prevenindo que seus recursos estivessem demasiado espalhados pelo globo.
    Em 1804, um golpe da Casa de Bourbon que planejava assassinar Napoleão foi descoberto. Ele decidiu então evitar qualquer disputa pelo trono ao se autonomear imperador. Napoleão foi coroado como tal numa elaborada cerimônia na Catedral Notre Dame de Paris com o Papa Pio VII presente e Josefina foi coroada como a imperatriz. O papa prometeu a Itália em retorno de sua benção, mas Napoleão se negou, declarando-se rei da Itália no ano seguinte.
    Napoleão decidiu que o momento para atacara a Inglaterra havia chegado. Eles estavam relutantes em lutar depois da desastrosa Guerra da Segunda Coligação em 1799-1802, mas reconheciam o perigo que o imperador francês representava para o resto do continente. Eles formaram a Quinta Coligação com a Rússia e Áustria. Napoleão sabia que não conseguiria atravessar o Canal da Mancha e atacar diretamente a Marinha Britânica, mas ele acreditava que poderia lançar uma isca que tornasse possível que estes
    atacassem longe de suas bases. Ele planejava atravessar o canal e atacar enquanto a frota britânica estivesse ocupada. Seu flano foi um fiasco, por pouco saber sobre estratégia naval e os recursos necessários para efetivar um ataque anfíbio. Os ingleses tiveram uma decisiva vitória na Batalha de Trafalgar e se estabeleceram como a maior potência marítima.
    Em continente, as experiências de Napoleão foram bem melhores. É aqui, em 1806, que muitos historiadores consideram como sendo o apogeu de sua carreira militar. Ele derrotou os austríacos em Ulm na Batalha de Austerlitz, também conhecida como a Batalha dos Três Imperadores, e os forçou a se renderem mais uma vez. Antes da batalha, Napoleão não estava confiante se seria capaz de vencer tamanha aliança entre os exércitos da Rússia e Áustria, comandados pelo czar Alexandre I e pelo Sacro Imperador Romano Francisco II. Ele só conseguiu reunir 72.000 homens e 157 armas, enquanto os aliados tinham 85.000 tropas e 318 armas. Os aliados planejavam se utilizar de sua superioridade numérica para atacar o flanco direito francês e um ataque diversionista no flanco esquerdo. O czar apoiou o plano e passou toda a autoridade do até então comandante Kutuzov para o general austríaco Franz von Weyrother.
    Napoleão surgiu com um incrível plano para combater esta estratégia. Ignorou todas as sugestões de seus marechais para recuar e incentivou para que a aliança atacasse o flanco direito, que estava propositalmente enfraquecido. Isso forçou para que os aliados saíssem das colinas de Pratzen, deixando- as vulneráveis. Eles então lançaram um contra-ataque surpresa concentrando suas forças num local onde não poderiam ser atingidos. Suas tropas logo recuperaram as colinas, iniciaram uma forte investida contra o centro do exército aliado e rodearam-nos por trás.
    A primeira coluna aliada atacou o vilarejo de Telnitz, onde as tropas francesas foram forçadas a retroceder e contra-atacar. Assim que chegaram os reforços, foram capazes de expulsar os aliados de Telnitz. As colunas aliadas lançavam seus ataques contra a direita francesa de uma forma vagarosa e pouco coordenada. Enquanto insistiam no flanco direito, o comandante Kutuzov IV parou diante das colinas de Pratzen e permaneceu ali, percebendo a importância que tinha aquela batalha.
    Napoleão ordenou que os ataques se iniciassem às 9 da manhã. Numa densa neblina, o general Louis de Saint-Hilaure liderou sua divisão morro acima. Eles emergiram da neblina para o espanto de muitos soldados russos. Os aliados rapidamente tentaram mover suas colunas para auxiliar na defesa; estas unidades foram rapidamente destruídas. Os homens de Hilaire os baionetavam para fora das colinas.
    Ao norte do campo de batalha, os aliados estavam sendo derrotados em Stare Vinohrady pelo general francês Dominique Vandamme, que acabou com diversos batalhões aliados. A Guarda Imperial Russa, comandada pelo grão-duque Constantino, irmão do czar Alexandre, numa tentativa desesperada, partiu para o ataque. A guarda de Napoleão repeliu a ofensiva. Os russos foram finalmente forçados a recuar. Suas fileiras haviam cedido e a cavalaria infligiu maiores danos durante o recuo, matando muitos mais. No extremo norte da batalha, a cavalaria leve francesa, liderada por François Kellerman, impediu com sucesso o avanço austríaco do príncipe Liechtenstein e da infantaria russa.
    O fim da batalha estava próximo. As tropas de Napoleão moveram-se à porção sul do território. Os franceses e aliados continuavam na disputa por Sokolnice e Telnitz. Num ataque de duas alas, as divisões de St. Hilaire e de Davout III invadiram Sokolnice. As primeiras duas colunas das forças aliadas fugiram. O exército aliado estava agora em pânico e abandou o perímetro. Numa história possivelmente apócrifa, os russos que haviam sido derrotados pelo flanco direito dos franceses tentavam fugir rumo à Viena correndo sobre os lagos congelados de Satschan. Uma vez que a artilharia francesa explodia à sua volta, o gelo se quebrou. Cerca de 2.000 russos se afogaram em frias águas, apesar de alguns terem sido resgatados pelos adversários franceses.
    Os franceses derrotaram os aliados e deram fim à Terceira Coligação. No final das contas, 27.000 dos 73.000 aliados foram mortos, e 180 das armas foram perdidas. Os franceses arcaram com o falecimento de 9.000 das suas 67.000 tropas. A França garantiu sua incrível vitória mesmo tendo
    oscilado à beira da falência alguns dias antes. O czar Alexandre lamentou o seguinte sobre a batalha: “Somos bebê nas mãos de um gigante.” Como resultado final, o Sacro Imperador Romano abdicou, o milenar império deixou de existir, e a Confederação do Reno, que abrangia os estados situados entre França e Alemanha, foi criada.
    Novamente com a pretensão de conter Napoleão, a Quarta Coligação se formou entre Estados europeus. No ritmo de suas vitórias, o imperador francês estava determinado em conquistar a Europa, independente das consequências. Derrotou a Prússia na Batalha de Jena-Auerstedt. A seguir, adentraram território polonês, local onde os franceses se encontraram com os russos, que seguiam rumo a oeste. Depois de um brutal confronto na Batalha de Ella, um tratado foi negociado entre o czar Alexandre I que dividia a Europa em dois poderes.
    Napoleão decidiu que iria cortar a influência da Inglaterra com um ataque econômico na forma de um boicote, que levou o nome de “Bloqueio Continental”. Esta política exterior afetou em larga escala o comércio inglês em 1806, era uma resposta ao bloqueio das costas francesas decretas pelo governo britânico. Entre seus participantes estavam os Estados satélites da França e suas áreas ocupadas: Espanha, Itália, Áustria, Prússia, Suíça, Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia. Este sistema prejudicou os ingleses, mas também afetou a economia francesa que era dependente de suas exportações. Rússia e Portugal abandonaram em 1807 devido aos danos que impedimento causou às suas economias. Napoleão pediu para que a Espanha se juntasse numa retaliação contra Portugal, mas quando esta se recusou, ele ordenou que seu exército atacasse toda a Península Ibérica no que ficou conhecida como a Guerra Peninsular. O exército francês não ia bem até a chegada do próprio Napoleão ao combate. A França derrotou Espanha, Portugal e seus aliados da Inglaterra. Ele então nomeou seu irmão, José, como rei da Espanha. Enquanto a Espanha buscava uma retaliação, a Áustria rompeu seu tratado com a França e Napoleão retornou ao seu lar. O disperso império que fora construído no inicio das Guerras Napoleônicas começava a ser desfeito.
    Em 1809, a Áustria se aliou à Inglaterra, forçando Napoleão a assumir o comando do seu exército. Na batalha de Aspern-Essling, apesar de seus números superiores, ele mal conseguia chegar numa situação de empate. Foi capaz de vencer a Batalha de Wagram, porém seus recursos estavam cada vez mais escassos. Napoleão buscava fortalecer seu apoio político em qualquer circunstância, incluindo casamentos. Ele havia se divorciado de Josefina, pois esta não conseguia lhe dar um herdeiro e se casou com a arquiduquesa austríaca Maria Luísa, duquesa de Parma, em 1810. Porém, ao criar uma aliança, outra relação complicada piorava cada vez mais. Ele anexou os Estados Papais depois que o Papa Pio VII havia se recusado a tomar parte no Bloqueio Continental. O papa, por sua vez, o excomungou. Napoleão, como resposta, mandou que sequestrassem o papa e que o mantivessem em cativeiro por cinco anos.
    Em todas as suas batalhas, Napoleão geralmente garantia sua vitória devida a sua tremenda influência. Sua enorme confiança era capaz de inspirar aos outros e ele sabia o impacto que isso tinha durante a guerra. Napoleão disse que, “…disposição é para o físico, assim como três é para um.” Para que chegasse a esse patamar, ele garantia a lealdade de suas tropas usando-se de seu carisma e dos princípios revolucionários como mérito, talento, e eleições para se definir as promoções ao invés dos velhos homens que serviam a velha nobreza e o conceito abstrato de aristocracia.
    Neste ponto de sua carreira, os pontos fracos de Napoleão como comandante militar se tornaram mais evidentes. Sua obsessão a respeito das questões militares o tornaram um micro empresário. Ele promovia homens que havia prosperado sob seu comando, mas atuavam mal quando independentes. A inabilidade de Napoleão em manter outras potências europeias divididas ou de se adaptar à natureza mais violenta das guerras do início do século XIX levou à sua eventual queda.
    Napoleão mantinha boas relações com o czar Alexandre da Rússia, porém em 1811, esta começou a se desfazer devido à pressão da aristocracia russa e por conta de uma diplomacia secreta que corria pela
    Europa com cuja intenção era a de derrubar o imperador francês. Em abril de 1812, Inglaterra, Rússia e Suécia assinaram acordos secretos contra Napoleão. Os russos juntaram um imenso exército de 300.000 homens ao longo da costa polonesa. Napoleão trouxe consigo sua Grand Armée até a fronteira da Rússia e decidiu invadi-la em junho de 1812, no auge de seu poderio militar. Estimativas do tamanho de sua tropa indicam que ele liderava mais de meio milhão de soldados.
    Ao contrário de sua brilhante e dinâmica vitória em Austerlitz, ele agora estava em meio a uma desgastante guerra de recuadas. Napoleão havia sido avisado a não atacar o vasto interior da Rússia, mas ele via esta conquista como sendo o próximo passo no estabelecimento de seu império. Os russos eram liderados por Mikhail Bogdanovich Barclay de Tolly. Eles inicialmente lutaram contra os franceses, porém, depois de algumas perdas, recuaram mais para o interior do país, destruindo plantações e criações de animais, cortando assim os suprimentos dos franceses.
    Em setembro, o imenso exército de Napoleão estava reduzido a 135.000 devido a doenças, abandonos e casualidades de batalha. Ele continuou marchando rumo a Moscou, na esperança de conquistar a capital e vencer a guerra. Depois de uma violenta batalha em Borodino, ele chegou até lá só para descobrir que os russos haviam saído da cidade que estava em cinzas. Em outubro de 1812, ele foi forçado a abandonar a Rússia e vagarosamente marchou de volta rumo à França, seu Grande Exército com agora somente 40.000 soldados.
    Em sua jornada de volta a Paris, Napoleão teve de lidar com uma nova aliança europeia. A Sexta Coligação consistia em Prússia, Inglaterra, Portugal e Espanha. Mesmo com esse histórico, Napoleão ainda não estava disposto a abandonar sua grande estratégia. Ele conseguiu reforços da França e Alemanha, derrotando a aliança na batalha de Dresden em agosto de 1813. Os aliados perderam 100.000 homens contra 30.000 de Napoleão. Para a infelicidade do imperador, Suécia e Áustria se juntaram posteriormente à aliança, e ele teve de continuar seu recuo depois da Batalha das Nações.
    Napoleão foi sugerido pelos seus conselheiros a abdicar; o que ele concordou nomeando então seu filho como novo imperador. Isto era inaceitável para os aliados, e ele eventualmente o fez incondicionalmente. Foi exilado em Elba, mas retornou à França em março de 1815 para reassumir o trono. Por 100 dias, ele mais uma vez deteve o poder. Liderou seu exército rumo à Bélgica, onde derrotou o exército da Prússia comandado por Gebhard Leberecht von Blucher. Então, mandou seu exército a Waterloo para que atacassem o exército britânico, liderado pelo Duque de Wellington.
    Napoleão atrasou sua ofensiva ao esperar com que o solo secasse por causa de uma tempestade. Isso deu o tempo suficiente para que as tropas de Blucher chegassem. Os reforços aumentaram o total das forças aliadas para 100.000 tropas contra as 72.000 de Napoleão. Apesar de sua desvantagem numérica, Napoleão notavelmente já não tinha mais as mesmas capacidades do passado. Suas estratégias até então revolucionárias agora eram familiares a seus oponentes, e suas manobras de flanco não eram mais capazes de dar o mesmo ataque surpresa ou vitórias rápidas. Quando a batalha terminou e sua devastadora derrota se manifestou, a carreira de Napoleão como comandante e imperador chegou ao fim.
    Napoleão abdicou mais uma vez e passou o resto de seus anos exilado na ilha britânica de Santa Helena, a mais de um quilômetro e meio da costa africana. Aqui, ele escreveu suas memórias e sofria com o pobre tratamento que recebia de seus capturadores. Muitos simpatizantes cogitavam um plano de resgate do imperador, mas a sua maioria consistia em ideias implausíveis. Alguns soldados de seu exército exilados no Texas queriam formar o Império Napoleônico da América. Outros diziam sobre regatá-lo numa espécie de submarino primitivo. Tudo em vão, uma vez que sua saúde ia se deteriorando por conta do tratamento de seus carcereiros. De acordo com sua autópsia, a causa de sua morte foi um câncer no estômago. O grande imperador morreu em 5 de maio de 1821.
    Seu legado é tão amplo que chega a ser difícil resumi-lo. Napoleão Bonaparte mudou para sempre o país e o continente em que viveu. Sendo um grande comandante e estrategista, estabeleceu um código de leis que ainda é utilizado atualmente; adotou o sistema métrico; acabou com a influência do Sacro
    Império Romano que já vigorava há mais de um milênio; implementou a emancipação religiosa; e permanentemente diminuiu o poder da aristocracia francesa em favor de seus cidadãos. No entanto, um feito que ele não alcançou foi o de construir o Império Francês que controlaria a Europa e Oriente Médio.
    Suas conquistas em vida são praticamente inigualáveis, mas estas jamais se comparariam com sua ambição do tamanho do planeta.

  54. Eric Carvalho disse:

    Capítulo 10: Robert E. Lee (1807-1870): Herói da Confederação e Grande Cavalheiro da América
    Mesmo não recebendo o prestígio que lhe cabia por não ter liderado as forças Confederadas a uma vitória sobre a União, Robert E. Lee provou equivocada a frase de Charles Dickens, a qual dizia que ele nunca havia encontrado um cavalheiro americano.
    O estudioso Brad Miner descreve Lee como sendo um dos principais membros do grupo conhecido por homens-gentis, uma confederação de indivíduos da aristocracia americana de meados do século XIX. Estes eram homens que possuíam “país, autocontenção, um grande apreço às normas de etiqueta, domínio de amplo léxico, vestuário elegante, uma familiaridade com os hábitos da classe ociosa, respeito pelas aparências, e um desejo de tornar agradáveis os momentos que vivem.”
    Lee era o estereótipo não só da classe alta sulista, mas como de todo os Estados Unidos. Como dito por Bertram Wyatt-Bown, ele era o exemplo dos “três pilares da nobreza”: sociabilidade, aprendizagem e piedade. Ele era um homem que desejava lutar por aquilo que julgava ser o certo. A ele foi oferecido o comando das forças da União, mas acabou por assumiu o controle do Exército dos Estados Confederados da Virgínia do Norte, uma vez que sua lealdade a este estado era maior que a lealdade pela nação como um todo (um sentimento comum numa nação americana com menos de um século de vida).
    A própria definição de Lee para homem-gentil continha forte traços da tradição medieval do cavalheirismo. Isso também influenciou os escritos de Sir Walter Scott, quem popularizou as noções românticas dos gregos e das Cruzadas na alta sociedade do século XIX. Estas focavam nos modos, respeito pelas mulheres, assuntos militares, o entendimento dos ideias da democracia, e oratória romântica. É importante contarmos aqui como Lee definia o cavalheirismo para que possamos entender o que o levou a tornar-se um general formidável:
    “Um cavalheiro não se lembra desnecessariamente de uma ofensa ou de um erro ao qual recebera. Ele não pode apenas perdoá-la, mas também esquecê-la; e ele progride nessa nobreza de pureza e brandura de caráter que lhe dá força o suficiente para deixar o passado para trás. Um verdadeiro homem honroso se humildece quando não pode ajudar a tornar os outros humildes.”
    A linhagem de Lee ajuda a explicar seu caráter refinado. Ele vinha de uma família americanas mais antigas e um homem de honra do mesmo modelo de seu amigo virginense George Washington. Devido à sua forte base educacional, começou sua carreira militar aplicando seu conhecimento matemático como engenheiro, mas também servindo como membro da infantaria e então como oficial. Com a eclosão da Guerra Civil, Lee continuamente demonstrava seu afinco como comandante contra os inimigos que tinham tropas e recursos em maior número.
    Ele é reconhecido, talvez, por sua habilidade estratégica de vencer batalhas aparentemente impossíveis mesmo com seu escasso abastecimento. Tinha a incrível capacidade de antever as ações inimigas e assim, pressionar suas fraquezas. Lee mantinha o front aberto e convexo frente ao inimigo, assim, os reforços, transferências e suprimentos tivessem de passar por uma rota mais curta e direta. Ele brilhantemente se utilizava de fortificações de campo para manobrar seu exército numericamente inferior. Se tal grupo era protegido pelos entrincheiramentos, então poderiam conter as forças inimigas maiores enquanto seu exército principal rodeava o adversário. Essa estratégia estava décadas a frente de seu tempo e foi usada com grande efeito em Antietam, Chancellorsville, Fredericksburg e Gettysburg. Lee nasceu em Stratford Planation, Virgínia em 1807. Ele foi o quinto e último filho de Henry “Lighthorse Harry” Lee, um herói da Guerra de Independência dos Estados Unidos. No período em que
    Lee nascera, no entanto, seu pai estava à beira da falência devido à sua imprudência com as finanças da família. A família se mudou para Richmond e o Lee mais velho foi para West Indies quando Robert tinha apenas 11 anos para escapar de seus credores. Ele nunca mais foi visto.
    Lee teve sucesso na Alexandria Academy, onde mostrou aptidão pela matemática e terminou sua educação secundária em apenas três anos. Em 1825, entrou na West Point Academy onde impressionou tanto seus instrutores a ponto de Lee ser o primeiro cadete a conquistar a patente de sargento logo no fim do primeiro ano. Ele se formou como o segundo da turma em 1829 e teve um histórico exemplar, sem nenhum demérito. Depois se tornou segundo-tenente brevê do Corpo de Engenheiros, o segmento mais prestigiado do exército, e foi designado a projetos na Geórgia e em Michigan. Em 1831, foi mandado à Fortress Monroe na Virgínia Península. Quando estava por lá, se reencontrou e casou-se com Mary Custis, a bisneta da esposa de George Washington, Martha Custis Washington.
    O conhecimento de Lee e sua utilização de barreiras quanto comandante em batalha vieram de suas primeiras missões no exército. Ele ajudou planejar a construção do Fort Pulaski na Geórgia (1829-1931) e o Fort Monroe em Old Point Comfort na Virgínia (1831-1834). Foi promovido a primeiro tenente em setembro de 1836 e passou a maior parte dos próximos quatro anos em St. Louis fiscalizando projetos de engenharia civil, particularmente protegendo o porto da cidade de mudanças no canal do Mississipi. Seu conhecimento da topografia se provou útil em seus próximos anos como general quando tinha de posicionar a infantaria e artilharia no campo de batalha.
    Seu valor se mostrou primeiramente na Guerra Mexicano-Americana, onde organizava a disposição dos soldados do brigadeiro general John E. Wool. Ele direcionou a construção e reparo de rodovias e pontes de San Antonio a Saltillo no México. Em 1847, se juntou ao general Winfield Scott como engenheiro chefe do exército da invasão. Scott lhe deu grande liberdade para tomar iniciativas no ataque anfíbio contra a costa do Golfo do México. O general comentou que Lee era o “melhor soldado que já vi em campo.”
    Lee viu mais acontecimentos em Veracruz, Churubusco e Chapultepec. Além de sua incumbência em batalha, ele também operava nos serviços secretos. Foi Lee quem penetrou a posição defensiva montanhosa do inimigo em torno de Jalapa. Lee descobriu uma rota pelos montes em volta do flanco esquerdo mexicano e persuadiu Scott a usá-la enquanto liderava a vanguarda. Os americanos venceram a batalha de Cerro Gordo em 17-18 de abril devido a esta estratégia. Ele também encontrou uma rota para atacar os inimigos quando estes recuaram para uma posição segura na frente de Churubusco ao irem beirando o tortuoso terreno forrado de lava conhecido como Pedregal, o que resultou como uma concisa investida derrotando rapidamente o adversário. Lee recebeu a promoção de coronel.
    Depois da Guerra Mexicana, Lee passou quatro anos no quartel general até que foi nomeado superintendente do West Point em 1852. Ele estava relutante em assumir tal posição devido à natureza política desta. Quando aceitou, melhorou as instalações e adicionou um ano ao currículo. Restaurou também a disciplina entre os cadetes, o que julgava estar faltando. Depois completada essa tarefa em 1855, Jefferson Davis enviou Lee ao Texas, onde ele se tornou o segundo comandante da cavalaria formada para aumentar o tamanho das forças que patrulhavam o vasto território a sudoeste obtido depois da Guerra Mexico-Americana. Essa mudança de deveres era rotineira, mas deu a Lee maiores experiências, particularmente em terrenos mais difíceis
    O sogro de Lee morreu em 1857. Como seu executor testamentário, teve de organizar toda a papelada deixada por ele. Lee passou um bom tempo viajando entre Virgínia e Texas para resolver esses assuntos. Durante uma das viagens, foi mandado pelo presidente James Buchanan à Harpers Ferry, Virgínia, para reprimir uma insurreição escravista liderada pelo abolicionista John Brown no arsenal militar. Lee capturou Brown e seus seguidores depois de ter mandado a marinha destruir seu abrigo. Brown foi levado em custódia, mas se tornou um herói popular entre os abolicionistas, e sua prisão serviu como
    combustível que alimentava as ardentes tensões internas nos Estados Unidos no que remetia a escravidão. Este foi um dos últimos prenúncios da Guerra Civil.
    Lee retornou então para o Texas onde testemunhou a secessão do estado em fevereiro de 1861. Ele largou sua posição na Segunda Cavalaria e retornou à Virgínia sob as ordens do tenente General Scott. Ele disse a Lee extra-oficialmente que no caso de uma guerra, ele seria o vice-comandante de Scott e líder no campo. Logo após, o recém eleito Abraham Lincoln ofereceu-lhe a patente de major general no Exército da União.
    Lee estava dividido entre o país que amava e o estado que considerava o seu lar por causa de algo que ele tinha suas dúvidas – Lee era dono de mais de meia dúzia de escravos, mas haviam os emancipado antes da Guerra Civil por não ser um grande adepto da escravidão. Ele não atacaria o sul, e prometeu defender a Virgínia, mesmo tendo escrito que a Confederação secessionista violava os princípios estabelecidos pelos Pais Fundadores, acreditando que uma conciliação entre o norte e sul era possível. Não obstante, recusou uma oferta para defender Washington por causa de sua preocupação de enfrentar a Commonwealth.
    Sua aliança com a Virgínia e a causa sulista não se repetiu entre os membros mais próximos de sua família, quase todos contrários à União. Porém, quando a Virgínia saiu da União em abril de 1861, Lee abandonou seu cargo no exército dois dias depois. Em 21 de abril, o governador da Virgínia, John Letcher, lhe enviou uma mensagem oferecendo uma vaga de oficial nas forças militares e navais do estado. Em 14 de maio de 1861, quando as tropas da Virgínia foram transferidas à Confederação, o Departamento de Guerra lhe conferiu o cargo de brigadeiro general dos Estados Confederados da América.
    Lee assumiu o comando na Virgínia ocidental para lutar contra a União numa porção montanhosa do estado, repleta de sentimentos a favor do norte. Lee foi enviado a Cheat Mountain, onde lutou contra o general da União George McClellan. Como faria no futuro, Lee delegou autoridade aos seus comandantes. Ele separou suas forças em três grupos, assim permitindo uma maior flexibilidade nas manobras devido ao terreno acidentado. No entanto, o ataque foi descoordenado e Lee foi derrotado.
    Seus esforços no oeste para consolidar seu estado sob a causa Confederada não foi bem sucedida, e o estado acabou por se dividir em dois: Virgínia e Virgínia Ocidental. Lee retornou a Richmond, onde se tornou conselheiro militar do presidente confederado Jefferson Davis. O novo presidente o enviou então para fortalecer as defesas da costa do Atlântico Sul. Ele se utilizou de sua experiência como engenheiro para prever a necessidade de uma reconstrução dos destruídos fronts em Savannah, Geórgia e Richmond, Virgínia – uma ação necessária desde quando a marinha federal havia capturado as baías e enseadas do sul de Charleston, permitindo com que fortalecessem o bloqueio no sul. Ele rapidamente foi chamado de volta por Richmond em março de 1862, quando a ofensiva da União ameaçava passar por cima das defesas do Tennessee e avançar pela capital dos Confederados.
    Lee chegou a conclusão em 1862 que se manter numa posição defensiva contra a União resultaria inevitavelmente em derrota; o norte simplesmente possuía maior número de recursos e mão de obra, o que lhes permitia uma leva de ataques sem fim. Se nada mudasse, eles sairiam vencedores dessa guerra de atrito. A única possibilidade de uma vitória dos Confederados era a de partir para a ofensiva e focar nos fracos redutos da União e nos pontos críticos de sua rede de abastecimento. Ele reforçou o exército do major general Thomas J. “Stonewall” Jackson para que conquistassem a vitória na campanha de Shenandoah Valley em maio e junho de 1862. Seu exército venceu inúmeras vitórias táticas e desviou a ofensiva da União para fora de Richmond, desacelerando o Exército do Potomac.
    Ele então liderou suas forças contra o avanço do exército do norte na capital Confederada, preparando-se para um choque direto. A isso, deu-se o nome de Campanha da Península, a qual culminou na Batalha dos Sete Dias que foi de 25 de junho a primeiro de julho. Lee enfrentou o general McClellan, conhecido por sua preferência por táticas ensaiadas à luta propriamente dita. Ele e seus comandantes
    atacavam agressivamente, concentrando suas forças no exército da União para compensar seu menor número. Stonewall Jackson e suas tropas se juntaram a eles fora de Richmond. Eles saíram vitoriosos, mas de um modo indesejado; o Exército do Potomac não fora completamente destruído, as batalhas foram desastres táticos, e as perdas dos Confederados foram extensas.
    Lee continuou a se propelir por convicção que uma perda devastadora da União era necessária para que os Confederados conquistassem a legitimidade e encerrando a guerra. Ele se moveu ao norte para confrontar o major general da União, John Pope, líder do exército da Virgínia. Lee dividiu seu exército em dois comandos, um sob Stonewall Jackson e major general James Longstreet. Em 28 de agosto, Jackson atacou as tropas de Pope em Brawner Farm, mas não saíram vencedores. No dia seguinte, Pope continuou sua investida contra as tropas de Jackson, não percebendo que o exército de Longstreet se aproximava do seu flanco direito. O exército de Longstreet com seus 28.000 homens derrotaram o ataque da União, empurrando-os de volta a Bull Run. Pope tentou amenizar os estragos ao defender sua guarda traseira, porém as forças da União continuaram a recuar. O norte sofreu 10.000 perdas comparadas às 1.300 dos Confederados. A Segunda Batalha de Bull Run foi uma tremenda vitória sulista.
    Os exércitos de Lee aproveitaram a situação para atravessar o rio Potomac em direção a Maryland no dia 5 de setembro. A guerra mudou para o norte, e no dia 16 de setembro de 1862, os dois lados se encontraram na Batalha de Antietam em Maryland. Lee comandou 34.000 homens contra 71.000 do norte; acabou sendo forçado a recuar depois de dois dias e ter perdido 10.000 soldados.
    Parte das razões da derrota se deve a McClellan tinha em mãos informações importantes da batalha recebidas do serviço secreto que consistiam numa cópia do planejamento detalhado da movimentação dos exércitos de Lee. O documento foi acidentalmente deixado para trás num acampamento dos Confederados e rapidamente disseminou entre o comando da União. Na posse desses dados, McClellan percebeu que as forças sulistas estavam divididas e que poderia atacá-las em Antietam. Entretanto, ele era um general cauteloso e muitos historiadores militares acreditam que ele não explorou completamente essas informações com medo de que se tratasse de uma armadilha.
    Lee começou a mover seu exército para o sul de Shenandoah Valley, mas McClellan não o perseguiu. Ele na verdade só utilizara três quartos de suas tropas na batalha. O primeiro dia de confronto foi o mais sangrento da história americana; o resultado final de Antietam foi de 12.100 perdas para a União contra 10.000 dos Confederados. De um ponto de vista militar, a batalha empatou, porém a União se considerou vitoriosa porque o sul havia se retirado do território que lhes pertencia. Depois da batalha, Lincoln tomou duas importantes decisões: substituiu McClellan pelo major general Ambrose Burnside como líder do Exército do Potomac e anunciou a Proclamação de Emancipação. Esta só foi efetuada no norte, porém reforçou para ambos os lados da Guerra Civil de que a vitória nortista traria consigo o fim da escravidão.
    Lee ficou sabendo que McClellan tinha os documentos e, seguindo sua recuada de volta a Potomac, ordenou Stonewall Jackson para marchar rumo ao norte e se juntar com a força Confederada principal. Ele agora lutava na defensiva tática. As tropas de Burnside atacaram em Fredericksburg, em 13 de dezembro de 1862.
    Ainda nesse mês, Burnside ocupou Falmouth, Virgínia, localizada próximo de Fredericksburg. O exército de Lee se preparava para atacar pelos montes sobre a cidade. O exército da União preparava pontes sobre o rio Rappahannock para que pudessem atacar. Burnside utilizou um massivo exército de 60.000 homens num ataque frontal , mas que só foi capaz de superar o flanco esquerdo de Stonewall Jackson. A União sofreu 13.300 perdas e Lee 4.500. Foi uma estrondosa estratégia militar, mas Lee foi cauteloso em não assumir a vitória à custa de negligência do grande número de vidas sulistas perdidas. É dito que logo após, ele teria dito, “É bom que a guerra seja algo tão terrível, ou cresceríamos muito afeiçoados a ela.”

  55. Eric Carvalho disse:

    O general da União Joseph Hooker assumiu então o comando e liderou um ataque contra o flanco esquerdo de Lee em Chancerllorsville entre 2 e 4 de maio de 1863. Em respostas, Lee e Jackson planejaram atacar o flanco esquerdo da União, uma vez que este não estava protegido. Aproximadamente 30.000 tropas Confederadas rodearam as forças da União e atacaram-na por trás. As tropas do front de Lee forjavam um ataque na intenção de manter as forças da União ocupadas. Porém, Hooker mostrou certa relutância para atacar. Os rebeldes dispararam contras as tropas da União com artilharia em terrenos mais elevados, estes retraíram e tentaram um ataque na retaguarda; no entanto, o próprio Lee foi até Salem Church se certificar de que a vitória estava completa. O exército da União teve 18.000 perdas contra 13.000 Confederados. Mesmo tendo vencido sua maior vitória estratégica, Lee sofreu uma grande perda quando Jackson foi atingido acidentalmente por um tiro de seu próprio exército. Ele morreu de pneumonia algumas semanas depois. As forças de Hooker estavam eventualmente capazes de romper as linhas dos Confederados, mas optou por não fazê-lo.
    O comando do exército Confederado estava dividido e deveria forçar mais uma investida contra o norte ou mandar reforços para auxiliar os exércitos ocidentais Confederados que estavam sendo massacrados pelo general da União Ulysses S. Grant. Lee convenceu Davis de que mais um assalto no norte era preferível, levando em conta que uma invasão bem sucedida significaria a captura dos suprimentos da União, assim como suas terras produtivas e a desmoralização de seus cidadãos. Para desempenhar seu plano, foi até o centro da Pensilvânia. Quando Lee chegou a Gettysburg, se deparou com forças da União comandadas pelo general George C. Meade. A Batalha de Gettysburg havia se iniciado. No primeiro de julho de 1863, as tropas Confederadas atacaram com números muito superiores e empurraram o exército inimigo até Cemetery Hill e Culp Hill, locais na parte sul da cidade. Este era um terreno pouco familiar para Lee impediu que efetuassem um ataque surpresa contra os flancos inimigos. No segundo dia de batalha, 90.000 soldados da União defendiam os morros no sul da cidade do ataque de 70.000 Confederados focados no flanco esquerdo. Conforme a batalha ia se intensificando, os Confederados ganhavam mais ímpeto, mas, mesmo assim, os soldados da União conseguiram se manter no mesmo lugar até o final do dia.
    No dia seguinte, contradizendo o general Longstreet, Lee ordenou um ataque direto contra o centro das forças da União em Cemetery Ridge. Este foi seu último ato que destruiria o exército inimigo. Este ataque, liderado pelo general George Pickett – que ficou eternamente conhecido como Pickett’s Charge – se deparou com uma barreira da artilharia. Isso terminou num desastre Confederado e alterou o rumo da batalha contra eles mesmos. Depois de ter sido derrotado no norte, Lee retornou à Confederação. Seu exército sofreu 28.000 perdas. Um terço de seus oficiais estava ferido, morto, ou capturado.
    A reputação de Lee como líder e estrategista foi severamente avariada em Gettysburg. Muito se deve ao fato de utilizar táticas que se tornaram perigosamente ultrapassadas, tornado-o assim muito previsível. Alguns se perguntam se a morte de Stonewall Jackson foi a causa de sua derrota, pela consequente falta das manobras de flanqueamento que eram lideradas por ele. Além de tudo disso, ele estava doente, e sua habilidade como líder havia diminuído. Ele sempre havia incumbido grande poder aos seus comandantes, mas suas mortes em batalha fizeram com que outros comandantes menos experientes e com menor autoridade os substituíssem.
    A infindável crença que Lee despejava em seus soldados os inspirava a grandiosos atos, porém suas habilidades eram limitadas, e Lee os havia forçado a ultrapassar os seus limiares físicos e emocionais. Eles nem sempre eram capazes de responder às grandes designações. Como um homem de honra, ele se ofereceu a ceder seu cargo, mas Jefferson Davis se recusou a aceitar. O Sul se encontrava ameaçado pelo avanço leste do general Ulysses S. Grant, seu inimigo mais formidável da época, junto do diminuto estoque de recursos. Na primavera de 1864, Grant assumiu o comando do exército da União. Ele estava determinado em acabar com a guerra expulsando o exército da Virgínia do Norte, fosse por atrito ou por uma destruição total.
    Grant se beneficiou de seu número superior de tropas e da base industrial nortista, a qual era fortemente ausente no sul, fazendo da estratégia fabiana um modo razoável de obter a vitória. Ele tinha a intenção de pressionar essa vantagem até que a Confederação estivesse completamente destruída ou exausta depois de consecutivas perdas. Lee havia tentado prevenir tal situação quando investiu em sua primeira campanha para o Norte, mas agora se deparava com esse cenário desfavorável. O auge da guerra havia se virado contra ele, e Lee estava sendo empurrado até Richmond. Em maio de 1864, a campanha de Overland começou, e Lee percebeu que estava lutando contra um novo general que não tinha nenhuma pretensão de recuar.
    Lee teve vitórias táticas na Batalha de Wilderness entre 5 e 7 de maio, na Spotsylvania Courthouse em 7-20 maio, e Cold Harbour no 3 de junho, resultando num total de 61.000 mortes para a União. Ainda assim, Grant continuou pressionando o sul. O exército da Virgínia do norte sofreu 25.000 perdas, mais de um terço das 61.000 tropas que havia no início da campanha. Grant manteve as tropas de Lee lutando de forma defensiva.
    Grant tentou capturar Petersburgo, Virgínia, que era vital para a rede de transportes da Confederação e conectava Richmond ao sul. O exército de Potomac de Meade atravessou o rio James nos dias 15 e 16 de junho para atacar o entroncamento da estrada de ferro. Sua tentativa fracassou e Lee construiu trincheiras como forma de defender a cidade, resultado numa guerra de trincheiras que duraria meses. Petersburgo foi então cerceada de junho de 1864 até março de 1865.
    A Lee só restara 44.000 homens e não era mais capaz de defender os 35 quilômetros de trincheiras que cercavam Petersburgo contra as forças de Grant, que somavam 128.000. Lee tentou uma investida contra o exército da União para que ultrapassasse as linhas federais e unisse suas forças com o general Joseph E. Johnston nas Carolinas, mas seu ataque ao Fort Stedman em 25 de março falhou. Grant finalmente abriu ofensiva em 2 de abril de 1865 e destruiu o flanco oeste de Lee em Five Forks. Lee abandonou Petersburgo. Seus últimos homens haviam falhado. Todas as rotas para recuo haviam sido fechadas. Não encontrando nenhuma alternativa viável, ele e o exército da Virgínia do norte finalmente se renderam no dia 9 de abril de 1865 em Appomattox Court House.
    A carreira militar de Lee na nascente Confederação havia chegado ao seu fim. Ele foi acusado de traição pela alta corte dos Estados Unidos, mas o processo nunca foi encaminhado. No entanto, por conta de sua renúncia à cidadania americana no começo da guerra, ele perdeu o direito a voto junto de sua reivindicação por alguma propriedade. Lee se aposentou, na esperança de ser esquecido.
    Porém, por causa de sua bravura e infatigável defesa do Sul, muitos de seus residentes lhe reservam a mais profunda consideração. Ao fim da guerra, ricos proprietários de terra e políticos lhe ofereceram um proeminente cargo na sociedade sulista. Ele se tornou presidente do Washington College, uma respeitada instituição que estava em ruínas depois que seus prédios e biblioteca foram saqueados em 1864. Ela carecia de recursos financeiros e um significativo corpo estudantil. Lee, sempre comandante, se encarregou de restaurar o status da escola como ícone da alta educação no sul. Ao fim de seu mandato, seu número de inscritos havia pulado de 50 para 400. Infelizmente, seu estado de saúde se deteriorava rapidamente devido a uma doença coronária que já se manifestava desde o fim da guerra. Lee morreu em 1870.
    Ele perdeu a casa de sua família em Arlington, Virgínia, quando a propriedade se tornou o local onde enterravam os soldados, conhecida hoje como Arlington National Cemetery. Mas nos anos seguintes à sua morte, a reputação de Lee melhorava, e ele se tornou uma figura amplamente reverenciada entre aqueles a parte da pequena nobreza sulista. No início do século XX, se tornou inclusive uma respeitada figura no Norte devido sua fama de ser galante, cavalheiro e ter obtido um brilhante sucesso tático. Sua cidadania americana foi restaurada postumamente pelo presidente Gerald Ford em 1975.
    Robert E. Lee é uma figura americana admirada pela sua notável liderança das forças Confederadas durante a Guerra Civil. Ele foi um homem respeitado por suas tropas, adversários e conterrâneos. Ele
    tinha sempre em mente a importância da engenharia aplicada e das redes de suprimento na guerra. Era capaz de inspirar suas tropas com perseverança mesmo quando estavam em número muito menor.
    Teorias acerca de sua derrota circulam em abundância entre os historiadores militares. Ele esperava demais de seus subordinados? Estaria ele tão disposto a colocar seus homens frente ao perigo? Pode ser difícil chegar a uma conclusão definitiva, mas como general, talvez seu maior sucesso só viesse anos depois da Guerra Civil. Ele converteu o sentimento sulista frente às perdas da Confederação para que curassem as feridas deixadas pelo território americano e unissem o Norte e o Sul formando assim uma união indissolúvel.
    Gerald Ford talvez seja quem melhor resumiu o caráter de Lee enquanto restaurava sua cidadania: “Ele buscou ser um exemplo para mostrar aos cidadãos do Sul que estes devem dedicar seus esforços na reconstrução daquela região do país como sendo uma parte forte e vital da União Americana. Como soldado, general Lee deixou sua marca na estratégia militar. Como homem, foi o símbolo da coragem e do dever. Como educador, insistiu no raciocínio e na aprendizagem como formas de conquistar entendimento e assim construir uma nação mais forte. O caminho que ele optou depois da guerra se tornou um símbolo para todos aqueles que marcharam com ele nos amargurados anos rumo a Appomattox. O caráter do general Lee é um exemplo para as gerações seguintes, fazendo que a restauração de sua cidadania seja um evento o qual todos os americanos devem se orgulhar.”

  56. Eric Carvalho disse:

    ESPÁRTACO

    O Gladiador que deixou Roma de Joelhos

    SPÁRTACO É SINGULAR entre os guerreiros do mundo antigo, e também da maioria dos outros mundos.
    Como afirmou Karl Marx: “Espártaco emerge como um dos melhores personagens da história Antiga”. A
    maioria dos grandes comandantes da história obteve suas conquistas em busca de poder, dinheiro, fama e
    riqueza. Alexandre, o Grande disse que se não houvesse mais mundos para conquistar, iria competir
    consigo mesmo. Em uma palavra, a egolatria é geralmente o caminho para a conquista militar. Mas
    Espártaco lutou para se livrar dos grilhões da escravidão, para ser um homem livre e permitir que outros
    miseráveis da Terra também se libertassem do jugo de Roma. E por isso que Voltaire proferiu a famosa
    frase, dizendo que a rebelião de Espártaco foi uma “guerra justa, na verdade a única guerra justa da
    história”. Também é por isso que Espártaco tem sido uma inspiração ao longo dos séculos.
    Os grandes conquistadores rivalizam entre si. Diz-se que Júlio César chorou aos 33 anos, quando parou
    para pensar que naquela idade Alexandre já havia conquistado o mundo então conhecido, enquanto ele
    mesmo mal tinha começado sua carreira. Napoleão também sonhou com as conquistas no leste, que iriam
    igualar seu nome ao de Alexandre. Contudo, aqueles que dirigem sua atenção para Espártaco são os que
    estão preparados para morrer pelos outros: Toussaint L’Ouverture, no Haiti; Nat Turner, no sul dos
    Estados Unidos; John Brown, na Balsa Harper; Che Guevara, na Bolívia. Assim como Espártaco, todos
    pereceram na tentativa de acabar totalmente com a escravidão ou com seu primo próximo, a servidão.
    ROMA: ESTADO CONSTRUÍDO COM BASE NA ESCRAVIDÃO
    No século I a.C., Roma dominava o Mediterrâneo. Já com o controle sobre a Itália, Espanha, Grécia e
    África do Norte, a República Romana e seu sucessor, o Império Romano, em breve acrescentaria para
    seu campo de influência a Grã Bretanha, a Gália (França), a Turquia moderna, o Egito, o Oriente Próximo
    e a Palestina. Quando eclodiu a revolta de Espártaco (73 a.C.), Roma era um cruel Estado militar
    devotado à guerra e a conquistas. Sua crueldade deixava para trás tudo o que havia existido antes, época
    em que as terras persas, gregas e macedônicas eram as grandes potências mediterrâneas. Acima de tudo,
    Roma era um Estado escravocrata: a península da Itália tinha talvez seis milhões de pessoas na época de
    Espártaco, das quais dois milhões eram escravos. De fato, contrariamente à servidão, Estados inteiros
    construídos com base na escravidão não são tão comuns na história: outros exemplos mais conhecidos
    são o sul dos Estados Unidos antes da Guerra Civil de 1861-1865, e o Império do Brasil antes de 1889.
    A escravidão se tornou um fetiche social em Roma, e a classe dominante competia pelo número de
    escravos. Os aristocratas romanos se orgulhavam de suas amplas propriedades de escravos, que eram
    consideradas como a indicação mais confiável de riqueza depois da terra em si. Para ser membro do
    Senado ou do órgão que governava Roma, exigia-se a título de qualificação a posse de um milhão de

    sestércios (antiga moeda romana), mas a maioria dos senadores possuía muito mais do que isso. Calcula-
    se, que o valor médio girava em torno de três milhões de sestércios e mais 400 escravos. Apuleius, autor

    de O asno dourado, casou-se com uma mulher que trouxe 600 escravos como parte de seu dote. Um
    multimilionário deixou em seu testamento 4.116 escravos e 60 milhões de sesterces em dinheiro. Embora,
    para fins legais, considerava-se que um escravo valesse dois mil sestércios, a maioria deles podia ser
    adquirida por algumas centenas; porém o preço mais elevado registrado para a compra de um escravo foi
    de 700 mil sestércios.

    A escravidão romana era um negócio complexo, mas a sociedade de Roma não era como outros Estados
    escravocratas conhecidos e talvez seja mais bem compreendida se tiver como referência a escravidão
    tribal da África, tal como foi descoberta pelos exploradores vitorianos. Enquanto no sul dos Estados
    Unidos a escravidão e a tecnologia avançada progrediam juntas, em Roma a escravidão atuou como um
    obstáculo para a tecnologia, de forma que em mais de mil anos de história o progresso técnico foi muito
    limitado; afinal, por que descobrir, inovar e ser engenhoso se era possível obter um saldo econômico
    positivo mais fácil só possuindo escravos?
    Havia três tipos principais de escravos em Roma e na Itália: aqueles que exerciam trabalhos domésticos;
    os rurais, que trabalhavam nos campos; e os acorrentados nas grandes propriedades (latifúndia) e nas
    minas. Naturalmente, o grupo de escravos domésticos era mais privilegiado e recebia melhor tratamento
    que seus irmãos mais desventurados, destinados ao trabalho pesado, mas não era apenas por causa da
    carga muito mais leve de tarefas. Tendo em vista que o prestígio de um romano abastado dependia do
    número de escravos, freqüentemente ele tinha mais de 200 em casa. Portanto, havia mais escravos que
    trabalhos a fazer e assim, a absurda divisão de trabalho costumava aumentar por meio de um sistema em
    que um escravo era responsável pela compra da comida, outro tinha a tarefa de cozinhar, outro calçava os
    sapatos em seu senhor, outro o vestia e ainda outro o acompanhava para atender a todas as suas
    necessidades.
    Os escravos urbanos eram encontrados em vários trabalhos, desempenhando tarefas de varredores de rua,
    operários da construção de termas e templos, operários de fábrica e de abertura de ruas e aquedutos,
    atendentes de loja, cozinheiros, barbeiros, cabeleireiros, enfermeiros, tutores, secretários, mordomos,
    lavadeiras, faxineiras, costureiras, professores. Em virtude do número excessivo de escravos masculinos,
    muitos deles desempenhavam tarefas domésticas que, na época, eram geralmente cumpridas por
    mulheres. Deve-se observar que a escravidão romana era muito diferente daquela do sul dos Estados
    Unidos antes da guerra civil. Com bastante freqüência, os escravos romanos tinham posições de grande

    responsabilidade e com uma perspectiva concreta de conquistar a liberdade. Nas grandes residências,
    alguns tinham de facto o controle de grandes riquezas, supervisionavam outros trabalhadores (tanto
    livres, como escravos) e (aqui a semelhança com a escravidão africana é mais acentuada) eram, eles
    próprios, servidos por outros escravos. Mesmo assim, apesar de seus poderes administrativos e,
    freqüentemente, de seu estilo de vida suntuoso, não possuíam nada legalmente e estavam sujeitos às
    extravagâncias arbitrárias de seus senhores; um aristocrata podia espancar um escravo até a morte, com
    imunidade. Havia punições pesadas para qualquer escravo que fugisse, incluindo ter a testa marcada por
    ferro em brasa. Existia sempre forte hostilidade entre os proprietários e os escravos (e vice-versa). O
    ódio pairava abaixo das aparências e a tensão era um tema que permeava a literatura didática, tal como
    as obras de Esopo, o famoso escravo responsável pelas fábulas.
    De onde vieram todos esses escravos? Durante a República Romana, a maioria foi adquirida em
    conseqüência das guerras de conquista, mas um grande número também foi comprado de piratas que
    infestavam o Mediterrâneo na época. A população escrava, então, era formada basicamente de povos
    derrotados, de filhos dos escravos e do produto do comércio escravo. Outros escravos podem ter vindo
    de fora das propriedades romanas, da Alemanha, digamos, ou Partia, no leste. Além disso, havia crianças
    abandonadas e, em algumas províncias, camponeses destituídos vendiam seus filhos para a escravidão;
    algumas raças, como os frígios, não consideravam a escravidão vergonhosa.
    Mas o número de escravos era sempre um problema para Roma, uma vez que eles não se reproduziam.
    Muitas das razões eram evidentes. Três quartos dos escravos domésticos eram homens, e essa categoria
    era a única a gozar de permissão para ter parceiras; aqueles que trabalhavam na agricultura, nas minas,
    nas docas, como carregadores, nos transportes e em outras tarefas não tinham essa permissão. Por outro
    lado, muitas escravas eram libertas de forma a poder se casar e gerar crianças livres – pois a taxa de
    natalidade geralmente baixa era uma das dores de cabeça permanentes dos governantes de Roma; a
    emancipação dessas escravas solteiras retirava do regime de escravidão só os indivíduos essenciais para
    a manutenção do número de escravos. Além disso, tudo indica que as escravas não eram particularmente
    prolíficas. Mesmo as pessoas livres em Roma encontravam dificuldades para manter o nível
    populacional, em virtude das ameaças de guerra, da fome e das epidemias, além da precariedade da
    alimentação, da medicina, da higiene e da obstetrícia. A expectativa média de vida dos romanos é uma
    questão muito debatida, mas mesmo se adotarmos uma estimativa otimista, seria em torno de 25 a 30
    anos, já no caso dos escravos não deveria passar de, no máximo, 20 anos.
    O INÍCIO DAS REVOLTAS DOS ESCRAVOS
    Sempre houve uma contradição na sociedade romana, entre a provisão excessiva de escravos domésticos
    em Roma e nas grandes villas e a escassez de mão-de-obra nos campos, nas grandes propriedades
    agrícolas e nas minas. Em virtude de os escravos representarem prestígio, os proprietários não
    libertavam os que eram excessivos para assim amenizar a falta de trabalhadores rurais, de forma que era
    preciso encontrar outras maneiras de superar o problema. A utilização crescente de criminosos
    condenados nas minas, por exemplo, deixava outros escravos livres. Havia ainda a escravização de
    crianças rejeitadas ou abandonadas – a exibição de crianças e o infanticídio eram comuns no mundo
    romano e as crianças, principalmente as meninas, eram freqüentemente abandonadas pelos pais sem
    recursos. Mas as diferenças entre os escravos domésticos e aqueles que exerciam trabalhos pesados
    faziam com que as rebeliões de escravos se ressentissem da falta de vontade dos domésticos em
    participar, exceto sob circunstâncias muito especiais.
    Roma já havia conhecido as revoltas de escravos: a primeira registrada aconteceu em 198 a.C., em Sétia
    e Praeneste, ao sul de Roma, e terminou com a execução de 500 escravos; houve outra na Apulia, em 188
    a.C. Mas as duas revoltas que realmente chocaram aconteceram na Sicília. Em 135-132 a.C. eclodiram

    duas diferentes insurreições, lideradas por escravos chamados Eunus e Cleon, que mais tarde juntaram
    forças; eles derrotaram vários exércitos romanos e reuniram uma multidão de 200 mil escravos antes de
    serem finalmente derrotados; os romanos crucificaram 20 mil prisioneiros para dar um alerta espantoso.
    Mas, 30 anos depois, aconteceu outra guerra de escravos na Sicília, desta vez liderada por um homem
    chamado Salvius. Quando esta também foi derrotada após quatro anos de combates (104-100 a.C.), os
    romanos resolveram enviar mil dos sobreviventes para serem treinados como gladiadores; mas os
    escravos derrotados frustraram aqueles que os capturaram, cometendo suicídio em massa.
    Todas as revoltas escravas anteriores foram diminuídas por aquela que eclodiu no ano de 73 a.C., sob o
    comando de um ex-gladiador chamado Espártaco. Natural da Trácia e, segundo alguns, oriundo da
    pequena nobreza ou herdeiro de uma família de pastores nômades, infelizmente pouco sabemos sobre
    Espártaco: desconhecemos como era sua aparência, qual sua idade (uma estimativa diria que ele teria
    cerca de 30 anos na época da rebelião) ou suas opiniões sobre qualquer assunto; nem uma única palavra
    de seus escritos ou de seus autênticos discursos nos foi transmitida. É certo que ele era um genuíno
    trácio, porque o nome Espártaco se origina de vários “reis” (ou seja, chefes de clãs) do Estreito do
    Bósforo, no Mar Negro. Alguns relacionam Espártaco à tribo Maedi, do Rio Strimon, aliados de
    Mitridates Eupator, da Bitínia, um monarca belicoso e famoso inimigo de Roma, mas isso parece
    demasiado evidente, uma tentativa de relacionar o herói de Marx (Espártaco) com o herói do poeta inglês
    A. E. Housman (“Mitridates, ele morreu velho”).
    Aqueles que conhecem mais sobre sua vida sugerem que ele serviu na fronteira, como auxiliar no
    exército romano, depois desertou e passou algum tempo como bandoleiro antes de ser capturado,
    escravizado e indicado para ser treinado como gladiador, em virtude de seu físico esplêndido e
    inteligência elevada, sobre os quais as antigas fontes estão todas de acordo. Há muitas coisas obscuras
    sobre o início de sua vida, e não está claro por que sua mulher teve permissão para acompanhá-lo a
    Roma, quando, pela primeira vez, foi levado para lá como escravo. Diz a lenda que um presságio
    maravilhoso veio à tona em Roma. Enquanto Espártaco dormia, sua mulher, uma vidente e profetisa
    trácia, notou uma cobra rastejando e se enrolando no rosto dele; ela interpretou o fato como um anúncio
    de grande poder e riqueza. De qualquer forma, sabe-se ao certo que Espártaco foi levado para ser
    treinado na grande escola de gladiadores de Cápua, dirigida por Lentulus Batiatus.
    ROMA GLADIADORA
    A origem do fenômeno dos gladiadores na sociedade romana parece estar ligada aos costumes funerais
    pagãos romanos. Nos primórdios de sua história, Roma praticava o sacrifício humano de prisioneiros de
    guerra para apaziguar o fantasma de seus guerreiros tombados, e essa superstição – de que os mortos
    precisavam ser apaziguados e se satisfazer com sangue — gradualmente deu origem ao combate
    gladiatório. Em vez de um holocausto de prisioneiros, considerava-se mais excitante colocar os inimigos
    ou escravos para combater uns contra os outros; daí o nome original para gladiadores – rustuari ou
    homens de funeral. Os homens que estavam morrendo freqüentemente expressavam sua vontade de
    participar dos jogos de gladiadores e serem celebrados em sua memória, e o hábito tornou-se tão
    enraizado que, às vezes, o público romano não permitia que o enterro acontecesse antes que os herdeiros
    dos mortos tivessem providenciado os jogos funerais.
    A festa de Saturnalia, no mês de dezembro, celebrada com banquetes, comilanças e orgias, tornou-se a
    data favorita no calendário para os espetáculos dos gladiadores. Aos poucos, os jogos deixaram de ser
    um assunto privado e se transformaram numa instituição de Estado: pela primeira vez, em 105 a.C., dois
    cônsules romanos, os mais graduados funcionários do Estado, ofereceram generosos jogos oficiais. Logo
    os gladiadores se tornaram parte da estrutura da sociedade e eram utilizados não apenas nos espetáculos,
    mas também como seguranças particulares e assassinos profissionais. Admirados por seu físico e valor

    militar, os gladiadores também eram temidos pela mesma razão, porém, mais que tudo, eram desprezados
    como os mais inferiores dos inferiores: um gladiador tinha o mesmo status social de uma prostituta.
    Na era de Espártaco, todos os gladiadores eram escravos; mais tarde, sob o Império, homens livres,
    aristocratas e até imperadores lutavam às vezes na arena. Já houve quem dissesse que na época do
    Império o alto prestígio conferido aos espetáculos e exibições dos gladiadores, e às corridas de bigas,
    era um tipo de compensação pela perda dos direitos políticos. Certamente, na época de Jesus Cristo, se,
    por um lado, os gladiadores ainda mantinham seu status inferior na escala social; por outro, tinham se
    tornado o equivalente a jogadores de futebol e estrelas de rock daquele período. O historiador romano
    Tácito observou essa tendência social e deplorou-a: “com que freqüência você encontra alguém que
    converse sobre outro assunto em casa? E quando você entra nos salões de conferências, sobre o que mais
    se escuta os jovens homens conversarem?”. Com certeza, as emoções subiam muito nos jogos e podiam
    degenerar em um tumulto generalizado. Mas na época dos imperadores, Roma já tinha aprendido a lição
    mais amarga que Espártaco havia lhes ensinado em 73-71 a.C. Combates marítimos rebuscados eram
    travados entre os gladiadores no Campo Máximo encharcado, mas tendo em vista os números elevados,
    os imperadores sempre temiam uma explosão de combates em massa. Por isso, eles deixavam, a postos,
    duplas de guardas pretorianos em volta da arena e tinham à mão um exército de atiradores e lançadores
    de pedras pelo sistema de catapulta, prontos para entrar em ação se os gladiadores dessem algum sinal de
    que iriam dirigir suas armas para fora. Para entender a era de Espártaco, devemos imaginar uma situação,
    na qual os gladiadores ainda não tinham se tornado verdadeiras “estrelas”, mas uma época em que a
    crueldade e o sadismo estavam tão em voga como continuaria a acontecer sob o Império que viria mais
    tarde. A principal diferença entre a Roma republicana de 73 a.C. e as eras posteriores foi o fato de a elite
    republicana ainda não estar ciente da alarmante ameaça em potencial que pulsava em meio dela. Todas as
    revoltas anteriores haviam sido comandadas por pastores ou criadores de rebanhos.
    A escola de gladiadores para a qual Espártaco foi levado em Cápua era a maior do país na época. Já
    existiam vários tipos de gladiadores e de estilos de lutas, e em Cápua o principal método usado era o
    samnita. Os samnitas eram o povo da região centro-sul da Itália, que havia oferecido a mais dura
    resistência à conquista romana e quase deixou Roma imobilizada em 50 anos de guerras selvagens (345-
    295 a.C.). Quando Aníbal invadiu a Itália no século III a.C., na fase mais aguda das guerras entre Roma e
    Cartago pela supremacia do Mediterrâneo ocidental, os samnitas se viraram contra Roma e se aliaram a
    Cartago. Quando as colônias italianas se rebelaram contra Roma na chamada Guerra Social de 93-91
    a.C., os samnitas estavam novamente no centro da conspiração. Os gladiadores da escola de Cápua,
    conhecidos como “os samnitas”, usavam uma armadura pesada no peito, um grande escudo alongado,
    outra armadura (de couro ou parcialmente de metal) na perna esquerda, um capacete com visor com um
    penacho de plumas no alto e uma espada ou uma lança. Embora os “samnitas” estivessem em maioria na
    escola de Cápua, tinham de ser treinados para combater vários tipos de gladiadores, dos quais os
    principais eram então os “gauleses” e os “trácios”. Os gauleses vestiam pesadas couraças, enquanto os
    trácios carregavam uma cimitarra em forma de curva, um pequeno escudo redondo, duas armaduras e
    faixas de couro em torno das pernas e das coxas. Já se sugeriu algumas vezes (uma especulação) que
    Espártaco era apenas um trácio no que diz respeito a seus dotes de gladiador, mas as provas mais
    contundentes indicam que ele era um genuíno homem do país da Trácia, que acabou treinado como um
    samnita.
    Os escassos testemunhos históricos não nos permitem traçar um quadro da evolução dos gladiadores com
    precisão anual, de forma que é impossível conhecer todos os tipos de combates nos quais Espártaco
    possa ter sido treinado em Cápua. Sabemos que os trácios lutaram contra os samnitas e os gauleses, e que
    estes lutaram contra os samnitas, e também sabemos que em algum momento surgiram novos tipos de
    gladiadores: o secutor, ou caçador; o mirmirillo, ou pescador, cujos capacetes traziam o emblema de um
    grande peixe do mar; e o retiarius ou homem da rede, que combatiam com uma rede, um tridente e uma

    adaga; sua arte consistia em trazer o inimigo para seu lado e então acabar com ele usando o tridente; a
    rede tinha uma corda, de forma que o retiarius podia puxá-la se não conseguisse segurar sua presa no
    primeiro arremesso. O retiarius combatia com a cabeça descoberta e, em geral, rivalizava com o
    secutor, mas com freqüência o secutor combatia um mirmirillo, ou este e o retarius participavam de uma
    disputa entre o peixe e o pescador. No entanto, geralmente o retarius não era considerado um gladiador
    de destaque e recebia acomodação inferior. Seguindo sua paixão de introduzir na arena estilos regionais
    de guerra, quando os romanos encontraram pela primeira vez os partos no leste ficaram tão
    impressionados pelos cavaleiros com armaduras de anéis de metal flexíveis (“catafractarii”) que os
    levaram para a arena. Também havia gladiadores com armaduras do tipo mais ortodoxo, velites ou
    gladiadores que combatiam de pé apenas com lanças; homens com armaduras que usavam capacetes com
    visores sem buracos para os olhos e eram treinados a atacar como se fossem cegos; homens com duas
    adagas que combatiam sem capacete como assassinos em uma taverna, e até arqueiros gladiatórios.
    Quando Júlio César fez sua breve pilhagem na Grã Bretanha, em 55-54 a.C., levou com ele gladiadores
    que combatiam em bigas.
    Se fosse samnita, Espártaco teria passado pelo mais rigoroso treinamento em Cápua. Os gladiadores
    novatos praticavam com espadas de madeira por horas a fio, atacando um homem de palha ou um boneco
    a partir de pontos de dois metros de altura, aprendendo a arte de dar investidas, defender-se, retorcer-se
    e dissimular. Havia entendedores da arte gladiatória que sabiam quais as jogadas a serem admiradas e
    aplaudidas – o orador romano Quintiliano disse uma vez que a estrutura de um discurso de advogados era
    muito parecida com as arremetidas, paradas e dissimulações de um gladiador na arena – embora já se
    tenha admitido que a maioria dos fãs vinha aos jogos movida pela ânsia primitiva de ver sangue e para
    ver o “seu” lado vencer, e não para apreciar os momentos mais elegantes da arte da esgrima.
    Os gladiadores ficavam solidamente robustos com as horas de prática e a insistência de seus instrutores
    para que, durante o treinamento, utilizassem espadas muito mais pesadas em relação às que realmente
    brandiriam na arena. A dieta deles era planejada com o mesmo objetivo, com feijões e cevada,
    considerados alimentos particularmente bons para o desenvolvimento muscular. Tinham massagistas e
    médicos de primeira linha: Galeano, o maior médico do mundo Antigo, começou sua carreira numa
    escola para gladiadores. Eram ensinados a nunca piscar quando uma arma fosse brandida diante de seus
    rostos, assim como um ator de hoje é ensinado a não piscar em frente à câmera quando as luzes da
    filmagem são acesas. As normas da arte da esgrima e a disciplina eram elevadas, e a segurança era
    imposta rigorosamente: não se permitia nenhuma arma nos dormitórios ou alojamentos da escola por
    medo de suicídio ou de rebeliões.
    NO ANFITEATRO
    Por fim, os gladiadores treinados tinham de enfrentar o momento da verdade e lutar por suas vidas no
    anfiteatro. Sob o Império Romano, que veio em seguida, os aristocratas e imperadores pagavam pelos
    jogos, mas na República isso costumava ser trabalho dos proprietários e empresários, em parceria com
    os “anistae” ou administradores do treinamento – outra linhagem, como os próprios gladiadores,
    considerados como os mais inferiores dentre os inferiores — normalmente comparados aos informantes
    profissionais, alcoviteiros e cafetões. Essa aliança profana entre o proprietário rico e o administrador
    cínico – que lembra tanto os nossos clubes de futebol atuais – vendia ingressos para as exibições e
    encorajava as apostas sobre o resultado das disputas entre indivíduos. No entanto, a analogia com o
    futebol de hoje não funciona, apenas parcialmente, porque a torcida verdadeiramente passional era
    reservada para as corridas de biga no Circo Máximo, em Roma, e em circuitos provinciais semelhantes;
    somente os Azuis e os Verdes do circo podiam oferecer aos fãs motivos para a torcida frenética. Era
    possível acompanhar um gladiador até o momento em que, inevitavelmente, ele se tornasse um

    combatente melhor. Aquele que oferecia exibições de gladiadores tradicionalmente dava uma grande
    festa na véspera dos jogos, na qual os gladiadores eram encorajados a comer e beber para satisfazer seus
    corações. Combatentes mais reflexivos meditavam sobre sua possível morte e simplesmente criticavam a
    comida, enquanto os esgrimistas tinham o costume de dar um adeus digno a seus companheiros. Os
    gladiadores da Gália ou da Trácia tinham a reputação de serem insensíveis, de se empanturrarem e de
    não pensar no dia seguinte.
    Os jogos em si começaram com gladiadores de segunda classe ou novatos, que atuavam em exercícios de
    aquecimento, sem derramamento de sangue. Houve então uma segunda fase, na qual os combatentes
    chamados “lusorii” lutavam bem, mas com espadas de madeira. Finalmente surgiram os jogos sérios, em
    que havia sangue derramado. Os gladiadores eram escolhidos por sorteio e começava o verdadeiro
    espetáculo sangrento. Se o derrotado iria sobreviver isso dependia inteiramente do capricho da multidão,
    e mesmo os imperadores pensavam duas vezes antes de se oporem ao desejo expressado verbalmente por
    uma multidão sedenta de sangue. Aqueles que combatiam corajosamente, mas eram derrotados,
    geralmente eram saudados pela multidão com os polegares para cima, desde que parecessem não temer a
    perspectiva da morte; mas qualquer sinal de covardia, hesitação ou de não se combater até o limite da
    própria capacidade fazia a multidão clamar por sangue. Por fim, quando todos os combates terminavam,
    um número menor de escravos saía para revolver a areia manchada de sangue e rebocar os mortos. Cápua
    tinha um anfiteatro enorme com capacidade para 20 mil pessoas, suas fundações tinham uma
    profundidade grande com uma fachada baixa, e com degraus externos que davam para o cume do
    auditório, tudo construído sobre uma depressão natural com terra empilhada em torno da circunferência.
    Fora de Roma, Cápua, Pompéia e de outros poucos locais, os anfiteatros costumavam ser de madeira e
    desabavam freqüentemente, causando muitas mortes.
    No anfiteatro de Cápua, Espártaco aprendeu sua profissão sangrenta, tornando-se habilidoso tanto nas
    armas e extremamente versátil como guerreiro. Embora geralmente os gladiadores lutassem homem a
    homem, às vezes os organizadores dos jogos resolviam exibir um combate em massa e cobrar ingressos
    mais caros. Normalmente, quem oferecia os jogos era o mais rico, os demais assistiam ao espetáculo. A
    fim de celebrar seu triunfo final contra todos os inimigos, Júlio César promoveu uma batalha na arena
    com 500 homens da infantaria, 30 da cavalaria e 20 elefantes de cada lado. Podemos deduzir que, depois
    de sobreviver o suficiente nas casernas de Cápua e emergir como o líder da revolta definitiva, Espártaco
    gozasse de prestígio elevado entre seus companheiros, por ser um veterano de muitos diferentes tipos de
    combate; em termos de brilhantismo e habilidade nos embates físicos, possivelmente tenha sido o maior
    comandante de todos os tempos.
    A atmosfera de crueldade e derramamento de sangue não parece tê-lo transformado num psicopata –
    sabemos que ele tinha um senso moral e quando alguém lhe fazia um favor, demonstrava gratidão.
    Também era corajoso e paciente, uma vez que resistira ao caminho do suicídio, seguido por tantos
    gladiadores. Não temos como saber se tinha permissão para receber visitas conjugais de sua mulher ou
    simplesmente sucumbia à atmosfera social de homossexualismo existente nas casernas. O romancista
    histórico Grassic Gibbon o retratou como bissexual, mas isso é pura especulação, e parece ser
    racionalização de dois fatos conhecidos: que o culto da perfeição física e da beleza corporal entre os
    gladiadores tinha um claro elemento homossexual e que as mulheres, mesmo algumas matronas romanas
    aristocráticas, se lançavam como gladiadoras. Uma das poucas tradições bem embasadas da época que
    ele viveu em Cápua foi a história de que, certa vez, Espártaco derrotou seu amigo Crixus na arena e
    depois se recusou a matá-lo.
    A GRANDE FUGA

    Em algum momento no ano 73 a.C., Espártaco, Crixus e outros esboçaram um elaborado plano para uma
    grande fuga que iria sacudir o mundo romano: mais de 200 homens altamente treinados iriam participar
    de uma rebelião e, em seguida, correr para a liberdade. Como é esperado para um plano envolvendo
    tantas pessoas, houve traição. Deveria ter havido uma punição exemplar, mas especula-se que Lentulus
    Batiatus estivesse preparando seus gladiadores para os grandes Jogos Romanos, que aconteciam todos os
    anos no dia 4 de setembro. Em outras palavras, parece que o temor de empresários gananciosos em
    perder os lucros sobre os jogos tenha sido a única razão pela qual toda a conspiração não fora cortada
    logo no início e seu grupo de líderes executado. Se assumirmos que essa suposição esteja correta, a
    época da rebelião seria o mês de agosto de 73 a.C., o que faz sentido porque com as colheitas em curso
    nos campos haveria comida em abundância. Espártaco e o círculo íntimo de conspiradores resolveram
    seguir adiante de qualquer maneira; eles simplesmente diminuíram a escala da operação para cerca de 70
    homens (pelo menos é isso o que dizem os historiadores Plutarco e Apiano, embora Florus, uma boa
    fonte, fale de apenas 30; enquanto Cícero, o famoso orador romano, afirmou que no início Espártaco só
    tinha 50 homens consigo). Embora os seguranças da escola tivessem garantido que não houvesse armas
    nas casernas, não tinham pensado na possibilidade de os gladiadores se armarem com outros apetrechos
    letais, que foi o que aconteceu. Equipados com facas de cozinha, cutelos de açougueiro e espetos de
    cozinha, o grupo da fuga matou os seguranças e alcançou a parte externa do edifício, onde encontrou um
    carroção cheio de armas. Mesmo numa escola para gladiadores, isso soa como uma descoberta de muita
    sorte, de forma que talvez a rebelião tenha tido uma longa preparação e os gladiadores contassem com
    assistentes fora da caserna, que os apoiavam de bom grado.
    Agora armados adequadamente, os gladiadores se dirigiram para o monte Vesúvio, de 1.300 metros. A
    sombra do grande vulcão, elegeram três líderes: Espártaco, Crixus e Oenosaurus (ambos gauleses). Os
    fugitivos eram principalmente gauleses e trácios, mas também havia alguns alemães. Inicialmente, as
    autoridades romanas não levaram o plano muito a sério: já haviam ocorrido algumas fugas nas prisões
    antes e, mais cedo ou mais tarde, os condenados tinham sido perseguidos e crucificados. O planejamento
    da captura requereu nada mais do que uma ação policial em grande escala, os magistrados locais
    enviaram primeiro milícias locais, que foram duramente derrotadas. Espártaco e seus homens tiraram
    então a armadura e providenciaram armas e equipamentos adequados; eles odiavam e desprezavam as
    espadas e lanças de gladiadores com as quais combatiam e jogaram-nas fora na primeira oportunidade.
    A derrota da milícia trouxe para Espártaco seus primeiros convertidos, e o exército escravo agora
    ampliado acampou no alto do Vesúvio, em um espinhaço chamado Monte Somma, a cerca de 600 metros,
    ou a meio caminho do cume. Desta vez, os romanos encararam a questão com mais seriedade e enviaram
    um magistrado chamado Gaius Claudius Gaber, com 3 mil soldados. Somente os cônsules precediam os
    magistrados (praetor) na escala social: havia seis deles todos os anos, exercendo funções como juizes
    civis, comandantes, governadores de províncias e legisladores; eram uma categoria acima da dos
    funcionários (quaestor), que desempenhavam tarefas administrativas e financeiras. Zombando da suposta
    estupidez e ingenuidade militar dos escravos, Claudius instalou um posto de segurança na estrada estreita
    e curva, a única que ia montanha acima. Parecia que os gladiadores estavam presos numa armadilha, uma
    vez que a única maneira de descer era pular nos precipícios íngremes.
    Ou Espártaco cometeu inicialmente um erro e depois se libertou brilhantemente da situação difícil ou, o
    que é mais provável, atraiu os romanos para uma armadilha. Enquanto Claudius e seus homens relaxavam
    aos pés do Vesúvio, confiantes de que a fome logo iria levar os escravos a se render ou lançar um ataque
    impossível estrada abaixo, Espártaco mostrou o brilhantismo que iria fazer dele o destruidor de Roma
    por dois anos. O Monte Somma tinha videiras nativas em excesso e então, Espártaco ordenou que os
    ramos mais robustos fossem cortados e em seguida entrelaçados, a fim de erguerem escadas firmes.
    Quando uma quantidade suficiente de parreiras foi entrelaçada, Espártaco e seus homens simplesmente
    desceram pelos precipícios íngremes até a planície ao pé da montanha, deixando um homem no alto. Uma

    vez que todos estavam a salvo lá embaixo, o que ficou em cima lhes jogou todas as armas e depois
    desceu. Em seguida, os gladiadores foram para a lateral do monte Vesúvio, fizeram um círculo em torno
    dos romanos, que estavam bêbados e excessivamente confiantes, os surpreenderam; muitos foram mortos,
    mas muitos mais fugiram em pânico. Essa proeza enfureceu tanto os romanos, que mais tarde os
    historiadores tentaram reduzi-la a um golpe de sorte em vez da arte do planejamento. Mas pode ser que o
    feito de Espártaco tenha sido ainda mais impressionante, se ele realmente se rebelou com 30 a 50
    colaboradores em vez de 70. Plutarco gostava de retratar Espártaco como alguém cujo papel foi
    crescendo à medida que a rebelião acontecia, quase como se não admitisse que um mero escravo pudesse
    ter planejado e conduzido empreendimento tão engenhoso.
    Espártaco era agora seguido por sua mulher, porém, mais importante ainda, por um grande número de
    escravos e até por “camponeses livres” (na verdade, servos em tudo, com exceção do nome), que
    começaram a se unir para juntar-se a ele. Muitos dos que entraram para suas fileiras depois da vitória
    aos pés do Vesúvio conheciam a região como a palma da mão; as escravas domésticas contaram aos
    homens de Espártaco onde estavam escondidos os objetos de valor nas casas — e freqüentemente onde
    ficavam os esconderijos de seus senhores. Os camponeses locais ensinavam aos escravos habilidades
    artísticas incomuns, como fazer cestas tecidas a partir de galhos, e sugeriam que os cavalos selvagens
    fossem domesticados de forma que o exército de gladiadores pudesse dispor de um regimento de
    cavalaria.
    À medida que crescia o nível de especialidade do exército nascente, os rebeldes aprenderam como
    confeccionar escudos rústicos a partir de galhos de uva cobertos por peles de animais, e espadas e lanças
    por meio do derretimento das pernas-de-ferro e de outras correntes usadas pelos escravos fugitivos. Os
    escravos dos latifúndios e minas eram recrutas particularmente valiosos, porque tinham sido afiados
    numa vida de trabalho duro. Mais uma vez, o capitalismo de Roma criava a oportunidade para um número
    excessivo de reféns. No latifúndio, onde era praticada uma nova agricultura orientada para o mercado, os
    escravos acorrentados trabalhavam em grupos de 12, sob o controle de um supervisor, confinados em
    alojamentos primitivos à noite e sempre algemados; Columella, uma famosa escritora romana que
    versava sobre agronomia, disse que era um erro tirar as pernas-de-ferro dos escravos em um latifúndio.
    Tinha-se toda razão em temer esses escravos, desumanizados por causa do tratamento brutal que
    recebiam, quando Espártaco finalmente os libertou.
    Recrutas ainda mais valiosos eram os escravos que trabalhavam como pastores de gado, guardadores de
    porcos e pastores de rebanhos – os mesmos homens que tinham sido a fonte das primeiras rebeliões de
    escravos na Sicília. Já se observou que, ao longo da história, as sociedades pastorais produzem uma
    tradição guerreira, porque a fonte básica de riqueza – manadas e rebanhos – é facilmente roubada e por
    isso precisa ser protegida pela força principal. Apenas os escravos mais fortes podiam ser empregados
    como pastores, de forma que, num certo sentido, Espártaco os recrutava junto à elite escrava. Esses
    homens precisavam ser capazes de resistir às adversidades dos rastros do gado, ser ágeis e de passo
    firme, e ter aptidão para acabar com bandidos e animais selvagens. Muitos dos pastores no sul da Itália
    foram transferidos da Gália e até tiveram permissão para trazer suas mulheres consigo, mas a lealdade
    que os ligava aos aristocratas romanos era pequena. Contudo, outra fonte inestimável de força humana
    para Espártaco eram os “vilici”, intendentes ou administradores de fazendas. Esses homens já estavam
    habituados a ter disciplina, de forma que ela se tornou o objetivo dos oficiais não comissionados e até de
    lugares-tenente. Além disso, tinham experiência em administração e contabilidade, e sabiam tudo sobre a
    área na qual estavam empregados: os recursos, os suprimentos e o terreno. Finalmente, não haviam sido
    originalmente recrutados entre os escravos domésticos, que eram mais ternos e efeminados, mas entre os
    homens com um passado duro marcado pela labuta.
    A ingenuidade e a insolência haviam caracterizado a luta de Espártaco até aquele momento e esses dois
    fatores tornaram-se cada vez mais a marca de sua campanha. A medida dos romanos foi enviar outro

    exército sob o comando de outro magistrado, Publius Varinius, auxiliado por dois subordinados, Furius e
    Cossinius. Eles ainda não tinham se dado conta da importância de Espártaco e agiram com total
    arrogância, comportando-se de forma descuidada, deixando de se cercar de seguranças apropriados,
    tentando subjugar o inimigo de maneira indolente e preguiçosa e – a pior de todas as falhas – dividindo e
    subdividindo suas forças, fazendo de si mesmos uma presa fácil para um inimigo esforçado. Publius
    Varinius parece ter deixado o combate em si para seus dois subordinados, porque sabemos que Espártaco
    caiu logo sobre Furius e matou dois mil romanos em um ataque surpresa.
    Cossinius provou que não era mais hábil do que seu colega: primeiro, foi surpreendido pelos gladiadores
    quando se banhava numa fonte nas terras de uma villa, em Salinae, conseguindo fugir por pouco, mas,
    logo depois, foi morto quando Espártaco atacou seu acampamento. Os sobreviventes dos desastres de
    Furius e Cossinius ampliaram sua desgraça ao se amotinarem e se recusarem a lutar contra inimigos tão
    perigosos. Então, o letárgico Varinius foi finalmente para o campo de batalha com quatro mil soldados de
    confiança. Agindo cuidadosamente, armou acampamento, fortificou-o com muralhas e fosso, e esperou
    que Espártaco engolisse a isca e lançasse um imprudente ataque frontal. Mas este identificou facilmente o
    perigo. Estabelecido perto do acampamento indestrutível de Varinius, fez com que os romanos
    acreditassem que um ataque era então iminente, lançando-lhes uma saraivada de pedras e gritando
    insultos e imprecações. Ele então fugiu à noite, deixando um vigia que os sentinelas pudessem ver,
    mantendo todas as fogueiras acesas e até espalhando suas trincheiras com cadáveres amarrados em
    estacas, de forma que parecessem ser corajosos defensores.
    Na manhã seguinte, os romanos não tiveram a costumeira enxurrada de pedras e de insultos. Varinius
    enviou cuidadosamente seus observadores, que logo voltaram dizendo que o pássaro tinha voado.
    Pensando que os gladiadores tivessem fugido, Varinius abandonou seu acampamento fortificado e partiu
    em busca do inimigo, justamente como Espártaco imaginou que ele faria. Deu de encontro com uma
    emboscada bem montada e foi obrigado a abandonar seu cavalo e seus lictores, os homens que
    carregavam as fasces — os símbolos da autoridade do magistrado. A temporada de campanhas de 73 a.C.
    terminou com a humilhação do poder de Roma, os símbolos de seu poder nas mãos dos escravos e o
    prestígio do Senado diminuído.
    ESPÁRTACO COMO ROBIN HOOD
    Os romanos concluíram que deveria ser feito um esforço total para eliminar aquela embaraçosa rebelião
    de escravos até o final de 72 a.C. A proporção da sua ansiedade podia ser constatada pelo fato de que,
    quase sem precedentes, eles mandaram ambos os cônsules para o campo de batalha contra o exército
    escravo; a última vez que isso ocorrera na Itália havia sido contra um inimigo externo, quando Aníbal
    estava agitado, quase 200 anos antes. Os dois cônsules do ano 72 a.C., Lucius Gellius Publicola e Gnaeus
    Cornelius Lentulus, receberam todos os poderes e homens necessários para destruir Espártaco.
    Nesse meio tempo, a série de sucessos de Espártaco gerou seus próprios problemas. Tantos escravos,
    camponeses e pastores haviam se juntado à sua bandeira, que agora comandava um exército de 700
    homens, muitos dos quais armados apenas com foices e facões de mato. Durante um bom período, todo o
    extremo sul da Itália – Campania, Lucania, Brutium – passou do controle romano para suas mãos.
    A lenda de Espártaco como uma espécie de primeiro Robin Hood tem origem nessa época. Ele dividiu
    todos os espólios meticulosa e igualitariamente; ninguém na divisão recebia tratamento diferenciado, algo
    que fosse proporcional a seu posto. As cidades ao longo do calcanhar e do bico da bota, como se
    desenha o território italiano, sentiram o impacto: Nola, Nuceria, Metapontum foram todas saqueadas. O
    porto de Thurii só ficou em situação melhor porque Espártaco precisava dele como posto comercial;
    mercadores estrangeiros mantinham ali um comércio próspero, trocando ferro e cobre pelos bens
    pilhados pelos gladiadores. Com a grande quantidade de metal comprado, aos poucos Espártaco

    aperfeiçoou seu armamento; as lanças, as espadas e os lancetes produzidos não eram em nada inferiores
    às armas das legiões romanas. O seu conhecido preconceito contra os metais preciosos e seu efeito
    corruptor veio pela primeira vez à tona nesse momento.

    Plínio, o Velho, que gostava de tecer contrastes moralizantes entre a riqueza ostensiva de homens como
    Marcus Licinius Crassus e a simplicidade e austeridade dos primeiros romanos, apontou o contraste do
    ascetismo de Espártaco em relação à decadência oriental de Marco Antonio, o amante de Cleópatra,
    zombando dele por ter um penico de ouro.
    Alimentar um hóspede desses estava além dos recursos — tanto do comissariado de Espártaco, quanto do
    saldo positivo da produção das fazendas do sul da Itália. Por isso, decidiu-se que o exército escravo
    deveria ser dividido, a fim de deixar a terra mais facilmente. Espártaco levou a metade do exército para
    o sul, para Brundisium (Brindisi), Consentia e Metapontum, enquanto Crixus, no comando da segunda
    divisão, foi em direção ao nordeste para as montanhas Garganus, que dão para o promontório da Cabeça
    de Garganus, projetando-se no mar Adriático. Os romanos perceberam que era a chance deles. Publicola
    foi para o leste, deu de cara com Crixus e destruiu seu exército depois de uma batalha feroz, na qual
    Crixus conseguiu ser inocentado; ele e dois terços de seus homens foram mortos. Parece que Crixus, sem
    a perspicácia de Espártaco, tenha sido levado a deixar posições bem entrincheiradas acreditando numa
    falsa retirada romana. Esperando fazer o mesmo com Espártaco, o outro cônsul, Lentulus, perseguiu-o e

    tentou cercá-lo, mas Espártaco, encontrando o ponto de ligação entre os dois setores do exército romano,
    ao contrário, derrotou-o.
    Com o que restava de sua tropa, Lentulus conseguiu se juntar a Publicola e aos soldados reunidos e tentou
    então deter o caminho do exército escravo em direção ao norte, quando, abruptamente, Espártaco mudou
    o trajeto de sua marcha. Parece que Lentulus tentou um movimento circular, deixando uma saída entre os
    dois exércitos, a fim de fazer Espártaco cair na armadilha, quando então o círculo seria fechado.
    Espártaco reconheceu a manobra e atacou Lentulus na outra ponta do “círculo”, investindo no meio, de
    forma a separar os dois exércitos. Fontes dispersas afirmam que Lentulus alinhou duas fileiras de
    soldados no cume da montanha, obrigando os gladiadores a subirem no topo para derrotá-los. Nesse meio
    tempo, Espártaco tinha deixado parte de sua força para cercar as legiões de Publicola; após derrotar
    Lentulus voltou para acabar com ele. Se pudermos confiar nas escassas fontes que existem a respeito
    dessa empreitada, parece que Espártaco levou adiante o estratagema “central” – dividindo um exército de
    número superior, de forma a ter superioridade local e então destruí-lo gradualmente. Os detalhes podem
    ser obscuros, mas o resultado não foi: mais uma vez, o exército de gladiadores varreu os romanos; em
    seguida, tomou os suprimentos deles e prosseguiu em direção aos montes Apeninos.
    Espártaco estava agora se dirigindo para o norte graças a marchas compulsórias. Qualquer euforia era
    amenizada pela percepção de que a disciplina estava se tornando um problema crescente em seu exército.
    As coisas começaram a sair do controle no extremo sul da Itália, quando seus homens começaram a
    saquear e estuprar, minando assim a cooperação por parte dos camponeses locais, da qual qualquer
    exército irregular dependia. Com freqüência, os acadêmicos refletem sobre a razão por que Espártaco
    dirigiu-se de repente para o norte, tendo antes louvado os méritos dos ranchos de gado do sul; mas quase
    certamente o motivo está no fato de ele ter percebido que apenas com marchas compulsórias seria
    possível controlar seu exército. Se parasse demais em qualquer área, as pilhagens e as queimadas
    começavam, uma vez que era impotente para deter os soldados.
    Pode ser que a epidemia de estupro, freqüentemente acompanhada de assassinato e destruição insensata,
    se devesse mais aos camponeses “livres” do que aos escravos – uma suposição reforçada pela
    experiência das guerras escravocratas na Sicília, 60 anos antes. Naquela ocasião, os escravos rebelados,
    conscientes do valor da produção agrícola — não só porque eles tinham suado para gerá-la – não
    destruíram os produtos, as colheitas e vilas, mas demonstraram um respeito sadio para com os resultados
    da agricultura e do trabalho honesto. Foram os camponeses ligados à terra pela servidão e débitos que
    cometeram as piores atrocidades, destruíram prédios e colheitas sem nenhuma outra razão a não ser por
    raiva e inveja.
    Espártaco tentou inspirar seus homens com ideais mais nobres e, é possível especular, tendo por base a
    proibição de se ter ouro e prata em seu acampamento, na convicção de que isso afastasse seus seguidores
    do amor pela pilhagem e criasse nele o devasso amor romano pela luxúria. As sementes de seu fracasso
    final estão no insucesso de Espártaco em dissuadi-los. Mas seria um erro enxergar Espártaco como um
    anacrônico “nobre selvagem”. Brutalizado por suas experiências, podia ser tão cruel quanto seu inimigo
    e, quando chegou a notícia da derrota e da morte de Crixus, sacrificou três mil prisioneiros romanos para
    apaziguar o fantasma vingativo de Crixus.
    A SELVAGERIA DAS GUERRAS ANTIGAS
    As modernas noções humanitárias são fora de propósito quando se considera a selvageria das guerras
    antigas e, especialmente, das revoltas de escravos, consideradas pelos romanos como um insulto à
    natureza em si. A história nos ensina que as piores atrocidades, as mais cruéis barbaridades e as punições
    de vingança mais chocantes, sempre acontecem quando não envolvem Estados-nações soberanos lutando
    uns contra os outros, mas, sim, quando a guerra civil mobilizava combates viscerais. Os piores de todos

    são aqueles conflitos em que pelo menos um lado (e com freqüência ambos) enxerga o outro como
    produto subumano ou como um povo distante da civilização: podemos observar essa síndrome na atitude
    dos políticos Whig em relação aos povos das terras altas (Highlanders); na insurreição jacobina de 1745;
    na burguesia francesa em relação aos comunas parisienses, em 1871; e nos nazistas em relação aos russos
    na guerra de 1941-1945. Atitudes semelhantes prevaleceram durante a revolta de Espártaco.
    Os romanos pilharam e abominaram os soldados escravos da mesma forma como algumas pessoas
    odeiam as cobras, e o ódio era recíproco. Espártaco gostava de promover jogos de gladiadores em
    homenagem a seus guerreiros caídos e ordenava que seus prisioneiros combatessem como gladiadores
    em torno das piras funerárias de seus heróis pranteados; certa vez, matou 400 prisioneiros dessa maneira.
    De um ponto de vista pragmático, era uma boa forma de se livrar de bocas não desejadas num contexto
    em que os próprios rebeldes ficavam freqüentemente sem comida. Deve-se assinalar que conquistadores
    muito mais “civilizados” do que Espártaco e os romanos agiram da mesma maneira, Napoleão e Ricardo
    Coração de Leão, são dois exemplos. Em defesa de Espártaco, pode-se afirmar que ele aprendeu a
    crueldade premeditada de seus mestres romanos, que eram adeptos de todas as formas de tortura,
    assassinato e mutilação. Eles gostavam de relaxar após o jantar com espetáculos particulares de
    gladiadores, nos quais um corte na garganta ou uma artéria rompida seriam considerados como um
    drinque digestivo e acolhidos com deleite. Na época de Augusto, um homem chamado Vedius Pollio
    costumava jogar escravos que o haviam irritado em um lago cheio de grandes piranhas famintas.
    O pior requinte de crueldade era a punição que os romanos aplicavam aos escravos que se rebelavam – o
    destino que os homens de Espártaco sabiam que teriam caso fossem derrotados. Os romanos empregavam
    quatro tipos de pena de morte: cortar a cabeça (a mais misericordiosa), jogar os criminosos para as feras
    selvagens na arena, morte na fogueira e crucificação (a punição mais vergonhosa, reservada aos
    estrangeiros e, sobretudo, aos escravos). Os romanos tiveram a idéia da crucificação a partir da prática
    persa de torturar ou matar, colocando a pessoa numa estaca de madeira, prática transmitida para os
    cartagineses por seus ancestrais fenícios e então para Roma. Mas, enquanto no Oriente apenas a estaca de
    madeira era usada, com os braços das vítimas pregados acima da cabeça ou amarrados atrás das costas,
    os romanos acrescentaram um pedaço de madeira atravessado na horizontal, no qual as armas eram
    amarradas. Um pedaço de pau vertical era fixado no chão e uma viga horizontal era acrescentada para
    parecer como um “T” maiúsculo; a idéia de que eles entrassem em intersecção, para criar o formato
    cristão do crucifixo, hoje familiar, foi uma invenção do século II da Era Cristã.
    A crucificação era uma tortura hedionda e martirizante, que ia além das noções mais normais de
    crueldade e punições incomuns, e não existe nenhum caso histórico autenticado no qual a vítima tenha
    morrido em menos de 48 horas. Geralmente, a morte acontecia como resultado de lentas câimbras de
    tétano trazidas por contrações musculares espasmódicas; as câimbras começavam nos músculos do
    antebraço e, em seguida, atingiam o braço inteiro, a parte superior do corpo, o abdômen e as pernas.
    Enquanto isso, a posição do corpo impedia a circulação do sangue, produzindo, para usar a terminologia
    médica, progressiva “carboxyhemia” e o bloqueio “asystolic” do coração. A morte era extremamente
    vagarosa, uma vez que a contração dos músculos e a conseqüente imobilidade representavam uma
    pressão enorme sobre o coração; o ritmo do pulso ficava mais lento e o sangue estagnava nas veias
    capilares. O coração não podia mais eliminar os resíduos, os músculos entravam em espasmo e o sangue
    parava de circular e levava cada vez menos oxigênio aos pulmões, contaminando-se mais e mais com o
    dióxido de carbono. Toda a pesquisa médica sugere que a vítima deveria sentir que estava sufocando.
    UM EXÉRCITO INVENCÍVEL DE ESCRAVOS?
    Com tão poucos recursos, é impossível ter certeza da rota exata de Espártaco em direção ao norte, mas
    parece provável que seu exército tenha contornado os montes Apeninos pelo leste, seguindo a estreita

    faixa da costa entre as montanhas e o mar Adriático, passando perto das atuais localidades de Pescara,
    Ancona e San Marino. Perto de Mutina (atual Módena), o governador da Gália Cisalpina, Gaius Cassius
    Longinus, fez uma corajosa tentativa de interceptar o invencível exército de escravos, mas encontrou o
    mesmo destino que os dois cônsules; ele próprio ou foi morto ou por pouco não conseguiu fugir com vida
    (as fontes não estão de acordo).
    À medida que o exército de Espártaco marchava para os Alpes, havia liberdade à vista. Uma vez do
    outro lado da fronteira, trácios, gauleses e alemães podiam debandar para suas terras natais e sua vida de
    escravidão ficaria para trás para sempre. Nesse exato momento, porém, de modo inexplicável, o exército
    escravo desviou-se subitamente para o sul e se dirigiu de volta à Itália. Esse foi o momento mais
    controvertido de toda a insurreição de Espártaco e, desde então, seu significado tem dividido os
    intérpretes. Alguns especularam que os gladiadores não podiam se sentir seguros mesmo de volta à terra
    natal, temendo que os romanos pudessem jurar vingança e que o longo braço do Senado chegasse até o
    Reno ou o Danúbio. Plutarco pensou que os próprios gladiadores do exército, principalmente os gauleses
    e os trácios, queriam realmente debandar para seus países, mas foram persuadidos a não fazê-lo ou foram
    alvo de uma tensão desmedida por parte da maioria italiana, que pode ter até ameaçado matá-los se não
    voltassem com eles e continuassem a prestar seus serviços especializados. Com certeza, nessa época
    havia uma grande maioria de italianos no exército, e a motivação deles era a pilhagem. Não tinham
    interesse em deixar a península, e as regiões frias e desconhecidas da Gália e Trácia não exerciam
    nenhuma atração sobre eles.
    Com relutância, Espártaco ordenou que voltassem e rumassem para o sul. O que ele estava pensando e
    qual foi sua estratégia é uma incógnita. Em seu coração, ele deve ter percebido que o melhor havia ficado
    para trás, que ele estava agora envolvido com uma busca desesperada. É impossível conjeturar o que
    Espártaco conhecia de história, mas entre seus 70 mil seguidores devem ter existido pessoas que lhe
    contaram sobre os feitos de Aníbal. De todos os guerreiros que já tinham se insurgido contra Roma desde
    sua ascensão, Aníbal de Cartago era o que chegara mais perto do sucesso, por meio de uma campanha de
    15 anos, em que perambulou pela zona rural italiana, justamente como Espártaco se propunha a fazer
    agora.
    Quando Aníbal deixou a África do Norte em sua grande façanha, no ano de 220 a.C., os romanos foram
    tão arrogantes e complacentes como quando Espártaco saiu da escola de Cápua. Prosseguindo para a
    Espanha, Aníbal sitiou Saguntum, no sudeste da península Ibérica, e tomou-a depois de um longo cerco.
    Ele não podia se permitir deixar uma fortaleza tão poderosa em sua retaguarda e precisava de um volume
    abundante de saques para manter seus homens (principalmente mercenários da África do Norte, Gália e
    Espanha) felizes. Aconteceu então a famosa passagem de toda a cadeia dos Alpes, com elefantes, no
    verão de 218 a.C.. Finalmente em solo romano, venceu uma primeira batalha no rio Ticinus, mas os ainda
    despreocupados romanos se concentraram numa revolta em Uíria, em vez de lhe dar atenção. Quando o
    cônsul Publius Cornelius Scipio teve ordens de rumar para o norte com 45 mil homens, Aníbal, com
    apenas 30 mil, destruiu-o em Trebia, provocando 20 mil baixas. Aníbal então marchou para o sul e
    derrotou novamente os romanos no Lago Trasimene, na Itália central (em junho de 217 a.C.); os romanos
    sofreram mais de 15 mil mortes e 15 mil capturas. Veio, então, o ano da famosa Estratégia Fabiana,
    quando o ditador romano Quintus Fabius tentou empurrar os cartagineses para fora, seguindo seus passos,
    mas evitando firmemente a batalha. Foi só quando os romanos ficaram impacientes com a lenta guerra de
    ataque e inação que Aníbal pôde conseguir seu maior sucesso. Em Cannae, no centro-sul da Itália, em
    agosto de 216 a.C., ele cercou e aniquilou um exército romano de 87 mil homens (sua própria tropa
    contava com 40 mil soldados). Matou pelo menos 50 mil romanos contra um custo de 6 mil mortos e 10
    mil feridos em seu próprio exército. Na teoria, Cannae foi a batalha mais decisiva de toda a história e
    deveria ter dado a vitória completa a Aníbal.

    Os romanos, contudo, recusavam-se a admitir a derrota. Lentamente, mas com firmeza, conseguiram
    vantagens, embora Aníbal continuasse a vencê-los em batalhas combatidas intensamente. Usando
    recursos que pareciam nunca acabar, evitaram que Aníbal tomasse Nola, no sul da Itália, eles próprios
    sitiando e derrotando o chefe de seus aliados samnitas, em Cápua, contendo a invasão de um novo
    exército cartaginês em Beneventum, e assim abrindo duas novas frentes, na Espanha e na Sicília.
    Primeiro sitiaram e derrotaram Siracusa, o grande aliado de Aníbal, em seguida livraram a Espanha dos
    exércitos cartagineses numa longa série de batalhas. Finalmente derrotaram Asdrúbal, irmão de Aníbal,
    em Metaurus (207 a.C.) e o novo exército que ele estava trazendo para fortalecer Aníbal. Cada vez mais
    isolado e com números em queda, Aníbal tentou de tudo para recuperar a iniciativa, até marchando sobre
    a própria Roma em 211 a.C., a fim de fazer com que os romanos levantassem o cerco a Cápua.
    Confiantes de que Aníbal desconhecia os mecanismos do cerco para tomar sua grande cidade, os
    romanos se trancaram dentro de suas muralhas e mantiveram o cerco a Cápua. Finalmente, quando Aníbal
    ficou sem nenhuma opção na Itália, os romanos lançaram sua jogada de sorte, enviando para a Tunísia e
    levando a guerra para a própria Cartago àquele que estava cuidadosamente esperando para jogar seu
    trunfo, o general Scipio Africanus, com um grande exército. Em pânico, as autoridades de Cartago
    chamaram novamente Aníbal para a África do Norte. Sem um exército de cavalaria adequado, Aníbal
    rumou para a região e foi derrotado por Scipio, em Zama (202 a.C.). A causa de Cartago estava perdida
    para sempre. Existe aqui um claro precedente histórico. O inimigo mais mortal que Roma já enfrentara
    havia derrotado seus exércitos em sete batalhas, devastara a
    Itália ao longo de 16 anos, mas ainda assim acabou perdendo a guerra. Roma havia provado que seus
    recursos eram inexauríveis, sua força de vontade indomável e sua confiança era tal que poderia levar
    outras campanhas adiante até mesmo enquanto estivesse contendo Aníbal, reconhecido como o maior
    gênio militar de todos os tempos, depois de Alexandre, o Grande. Qual era, então, a esperança de que
    Espártaco podia se sair melhor?

  57. Eric Carvalho disse:

    UMA CONJUNTURA PARTICULAR
    Os otimistas no acampamento de Espártaco exortaram a conjuntura particular dos acontecimentos
    históricos no ano de 72 a.C. Quando Roma enfrentou Aníbal, a cidade estava unida por um objetivo
    comum. Mas agora estava arruinada pelas facções, a República estava se recuperando de uma guerra
    civil de dez anos entre os generais Marius e Sulla, cujos seguidores passaram matando-se entre si durante
    a maior parte da década dos anos 80 a.C.; os aliados italianos estavam distantes, tal como demonstrado
    pela chamada Guerra Social de 91-88 a.C., para não dizer do apoio dado à sua própria revolta e, nesse
    exato momento, Roma estava ocupada com outras três grandes campanhas. Havia algo nesse raciocínio. A
    questão da terra e as grotescas desigualdades de riqueza haviam feito de Roma uma sociedade frágil,
    onde ainda havia indícios da iminência de uma subguerra civil entre a velha facção aristocrática patrícia,
    conhecida como os “optimates” – basicamente homens que não queriam nenhuma mudança na estrutura
    social – e os “populares” — também formada por homens ricos, mas que desejavam atrair as pessoas
    comuns para seus programas, em troca de um volume mínimo de distribuição de terra.
    A maioria dos populares não estava tão interessada na massa de pessoas, assim como os optimates, mas,
    ao contrário deles, considerava corretamente, que afastar-se delas e desprezá-las abertamente fosse ruim,
    consistindo numa política perigosa. Embora Roma fosse oficialmente governada pelo Senado, o órgão
    soberano de 600 legisladores, na verdade, esse organismo geralmente aprovava sem muita discussão as
    decisões do homem mais poderoso: nos anos 90 a.C, Marius; e nos 80 a.C., Sulla. Na época da revolta de
    Espártaco, o verdadeiro poder estava nas mãos de três homens: Lucius Licinius Lucullus, o campeão dos
    optimates; C. Pompeius Magnus (Pompei), herdeiro de Sulla, oficialmente um optimate, mas totalmente

    despreocupado em relação às pessoas a não ser consigo mesmo; e o populista demagogo e plutocrata
    Marcus Licinius Crassus.
    Os dois grandes líderes guerreiros, Lucullus e Pompei, já estavam engajados em guerras além-mar. No
    ano 74 a.C. Nicomedes IV, rei de Bitinia, na Ásia, deixou seu país como legado para Roma, e o Senado
    enviou os dois cônsules Lucius Licinius Lucullus e M. Aurelius Cotta para administrá-lo. A presença dos
    romanos na soleira de sua porta inflamou o rei Mitridates de Pontus, um antigo inimigo de Roma que
    combateu longas guerras contra Sulla nos anos 80 a.C. Mitridates atacou Cotta, mas foi obrigado a se
    retirar quando Lucullus, mais enérgico, cortou sua rota de suprimentos. Lucullus era um bom general, mas
    Mitridates era um opositor astuto que continuava a lhe dar trabalho, e, quando Lucullus o derrotou,
    atravessou a fronteira leste e entrou no reino independente da Armênia, governado por seu amigo
    Tigranes, e desafiou os romanos a ampliar a guerra para tão longe, no leste. Enquanto isso, na Espanha,
    Pompei ainda estava engajado em uma luta implacável contra Quintus Sertorius, herdeiro do manto de
    Marius, e que tinha, portanto, o mesmo tipo de relação com Marius que Pompei havia tido com Sulla.
    Sertorius era outro general talentoso, e Pompei era já terceiro no escalão, de forma que o solo espanhol
    viu uma implacável luta de vaivém que se prolongou por cinco anos (76-71 a.C.), com nenhum dos lados
    obtendo uma vantagem clara.
    Como se essas duas guerras não fossem suficientes, Roma também estava envolvida num confronto sem
    fim com os piratas do Mediterrâneo, um tormento nas rotas dos navios ao longo de mais de uma geração.
    Ainda em 78 a.C., o Senado indicara P. Servilis para um posto de comando de três anos com vistas a
    acabar com a pirataria, mas ele não teve nenhum sucesso e, em 74 a.C., foi substituído por M. Antonius,
    que parecia ter mais firmeza. Infelizmente, num revés para a esperança cultivada pelos romanos, Antonius
    foi duramente rechaçado pelos piratas de Creta, no ano de 72 a.C. Assim, quando Espártaco retornou da
    Gália, Roma estava na defensiva na Espanha e no alto mar, com a perspectiva do vulto de uma possível
    guerra contra a Armênia, no leste.
    Espártaco, porém, sabia que o moral era importante. Percebeu que se seu vasto exército simplesmente
    voltasse para a Itália a fim de fazer pilhagens, logo se desintegraria, uma vez que os bandos de
    saqueadores se dividiam para estuprar e pilhar; toda a disciplina estaria perdida e ele próprio teria
    dificuldades para impor sua autoridade, que já tinha recebido um golpe quando seus homens se recusaram
    a segui-lo para os Alpes. Assim, decidiu anunciar que a volta à Itália era parte de uma grande estratégia:
    tendo mostrado aos romanos que, tal como Aníbal, eles podiam subir e descer a Itália, agora ia
    conquistar as mesmas proezas dele, marchando sobre Roma e conseguindo tomá-la onde os cartagineses
    haviam fracassado. Ele sabia, no entanto, que teria de satisfazer os caprichos de seus homens e ficar
    atento para o que estava deixando para trás.
    A MARCHA PARA O SUL: A ESTRATÉGIA FINAL?
    Desesperado por nunca derrotar Sertorius no campo de batalha, os romanos finalmente ofereceram uma
    recompensa de 100 talentos (uma das unidades de peso da Antigüidade) de prata e 20 mil acres de terra
    para qualquer um que o entregasse a eles, vivo ou morto. A isca foi fisgada por Marcus Perperna, o
    próprio oficial de Sertorius, em 72 a.C., que o matou e assim pôs fim à guerra espanhola. Estava claro
    que o mesmo destino poderia ter tido Espártaco, e as evidências sugerem que ele tentou afastar seus
    homens desse tipo de pensamentos nocivo com um programa de atividades constantes e marchas
    obrigatórias. Falou-se de mais prisioneiros romanos sendo oferecidos como sacrifício humano para
    apaziguar os deuses da guerra. Espártaco partiu então em direção ao sul, pelo lado oeste dos Apeninos,
    dirigindo-se para Roma, queimando tudo que encontrava pelo caminho, matando todos os prisioneiros
    para não precisar alimentá-los e abatendo seus animais aos poucos, para comer a carne, usando a
    desculpa de que o peso das feras estava retardando o ritmo da marcha.

    Mas quando o exército alcançou a latitude de Roma, de repente rumou para o leste, em direção aos pés
    dos montes Apeninos, antes de desviar de Roma e acelerar o passo em direção ao sul, para o leste de
    Cápua, cruzando finalmente a trilha onde o desafortunado Crixus havia deixado Campania, para em
    seguida fazer sua última parada nas montanhas Garganus. Podemos apenas conjeturar sobre as decisões
    do exército de escravos na marcha para o sul: será que os gladiadores concluíram, sabiamente, que Roma
    era invencível, exceto para um exército equipado com poderosos mecanismos para impor cercos e
    habituado a essa técnica? Será que o moral subiu até o ponto de Espártaco, mais uma vez, sentir-se
    seguro e ressuscitar a estratégia de deixar a Itália? Já havia discórdia e partidarismo fatais em seu
    exército?
    É certo que o exército de Espártaco finalmente começou a se dirigir para Brundisium (Brindisi) com a
    suposta intenção de chegar à Sicília e incitar os escravos de lá, onde havia uma velha e sólida tradição
    de revoltas dos servos. Será que, nos Alpes, o exército recuou com medo do desconhecido, não
    apreciando o clima do norte, mais frio, mas agora, quando tinha adiante a perspectiva da quente Sicília,
    que lhe era familiar e onde podia estar entre amigos e aliados confiáveis, finalmente admitia a sabedoria
    da estratégia de saída de Espártaco? Talvez, ainda teria sido preciso outra marcha ao longo da espinha
    dorsal da Itália antes que o curto período de estupros e pilhagem se enfraquecesse e o exército estivesse
    então finalmente preparado para escutar a sabedoria de seu grande líder. Porque, à primeira vista, há algo
    mais do que absurdo em retornar ao lugar onde eles tinham estado 12 meses antes. Ou Espártaco estava,
    no início, incerto em relação à sua estratégia final ou, o que é muito mais provável, ele não havia sido o
    senhor em sua própria casa e foi obrigado a acompanhar, por mais que estivesse relutante, a opinião da
    maioria.
    O que é absolutamente certo é que Espártaco, a despeito daqueles que o defendem, nunca foi um
    revolucionário social ou um dos pioneiros na defesa da igualdade social ou um dos primeiros líderes
    jacobinos, comunistas ou proletários. Ele simplesmente queria voltar para sua terra natal e à
    simplicidade do começo de sua vida. A marcha sobre Roma talvez tenha sido um truque para manter seu
    exército unido; Espártaco não tinha nenhum interesse ou negócios urgentes lá, e os únicos analistas que
    imaginaram o contrário foram aqueles que, incorretamente, viram-no como um ideólogo ou alguém que
    queria transformar a raiz da sociedade romana e seus frutos. Essas idéias estavam provavelmente além da
    tendência observada até mesmo entre os mais avançados e revolucionários pensadores do mundo Antigo;
    os cristãos, os mais originais teóricos da Era Romana, continuavam a acreditar na escravidão e a manter
    escravos.
    Crassus Versus o “Demônio” Espártaco
    À medida que se aproximava o terceiro ano da guerra, mesmo os romanos, que eram cruéis e estóicos e
    estavam acostumados a sofrer, começaram a entrar em colapso; Plutarco fala de medo e desespero
    porque ninguém podia exorcizar o demônio Espártaco. Lentulus e Publicola foram novamente degradados
    e confinados aos assuntos civis pelo resto de seus consulados, enquanto o comando dos exércitos
    romanos na Itália foi dado a Marcus Licinius Crassus, o terceiro homem em ascensão na luta pelo
    domínio de Roma, depois de Lucullus e Pompei. Crassus, já um homem rico, se tornaria uma alcunha
    para riqueza; “tão rico quanto Croesus” era a frase grega, mas a equivalente em Roma bem poderia ter
    sido “tão rico quanto Crassus”. Tendo começado a vida como um homem rico (com uma fortuna de 300
    talentos ou 7 milhões e 200 mil sestércios), mas sem ser ainda um plutocrata, construiu um tesouro de
    7.100 talentos (216 milhões e 800 mil sestércios até o final de sua vida).
    Com 42 anos, quando eclodiu a rebelião de Espártaco, Crassus inicialmente ganhou dinheiro com a
    especulação imobiliária em Roma. A cidade da República, e até mais durante o Império, era literalmente
    inflamável, com seus prédios de sete andares e favelas formadas por choupanas crescendo num inferno

    abrasador – resultado de farras de bebedeiras, malignidade, negligência, desordem, aquecimento
    primitivo e ausência total de orgulho cívico. A especialidade de Crassus era comprar edifícios que
    estavam em chamas por um preço muito baixo; os proprietários, sem seguro, enfrentando a ruína ou os
    custos exorbitantes da reconstrução, ficavam assim felizes de reaver alguma coisa do investimento que
    haviam feito. A engenhosidade de Crassus era que ele havia formado um quadro de especialistas em
    construção – escravos especializados em arquitetura, encanamento, saneamento, obras e todos os demais
    ofícios e habilidades da construção civil; além disso, ele tinha a sua própria brigada particular contra
    incêndios, pronta para acabar com um incêndio rapidamente, depois que Crassus fechava um negócio.

    Mesmo se um prédio fosse completamente devorado pelo fogo, Crassus acreditava que podia reconstruí-
    lo e vendê-lo fazendo um grande lucro. Naturalmente, seus inimigos sussurravam que eram o “exército

    secreto” de escravos de Crassus quem dava início à maioria dos incêndios, e as suspeitas parecem ser
    bem fundamentadas.
    Embora a imagem que a história nos transmitiu dele é a de um locador de barracos de favela, na verdade,
    ele era demasiado sagaz do ponto de vista financeiro para apoiar sua fortuna sobre uma base tão frouxa.
    As incertezas do mercado imobiliário romano, a dificuldade em impor julgamentos civis contra as
    pessoas sem recursos e a população flutuante de Roma indicavam que, para qualquer empreendedor que
    quisesse entrar no ramo, seria tolo empatar capital nos aluguéis de imóveis.
    A especialidade de Crassus não é desconhecida no mundo atual: a compra, a reforma ligeira e a venda
    rápida de propriedades compradas por uma bagatela. Logo ele diversificou suas atividades e entrou para
    a agricultura — a única forma respeitável de investimento na antiga Roma – mineração (principalmente as
    minas de prata de Roma), impostos agrícolas e bancos. Utilizava seus agrupamentos de escravos
    treinados como mão-de-obra particular a ser alugada, e empregava-os como leitores, copistas, garçons,
    condutores de bigas – qualquer coisa que o mercado demandasse. Também se tornou um grande chefe
    político, dispensando favores e proteção, levando as pessoas a criarem laços indissolúveis com ele por
    meio de empréstimos, estabelecendo uma poderosa rede de clientelismo e deveres. Em breve, estava em
    posição de desafiar politicamente Lucullus e Pompei, mas algo o atormentava: sua falta de glória militar.
    Com suas proezas, Pompei e Lucullus conquistaram o prestígio que nenhum mero capitalista jamais
    poderia conseguir, pois a cultura romana exaltava o poder militar acima de qualquer outra coisa, até da
    riqueza. É lógico que os dois caminhavam lado a lado, pois, para seu desalento, Crassus descobriu que
    Pompei estava logo mais rico que ele, apesar de seu talento ínfimo para os negócios. Os lucros das
    conquistas militares, os frutos das pilhagens e os tesouros que um general vitorioso podia levar para
    Roma superavam os lucros que até o mais inspirado capitalista podia obter. Já era hora de Crassus
    diversificar sua atuação e entrar para a guerra.
    “Suficientemente Rico para Comprar uma Legião”
    O novo chamamento direcionado a Lentulus e Publicola trouxe nova chance a Crassus. Enquanto os
    cônsules degradados trabalhavam, salvando as aparências no escritório do “censor” (responsável pelos
    cadastros eleitorais), que havia voltado a funcionar e, ao mesmo tempo, tentavam levantar dinheiro para
    as guerras com medidas duvidosas e claramente a favor de Pompei, Crassus colocou sua vasta fortuna à
    disposição do Senado, desde que ele fosse indicado comandante supremo. Os romanos gostavam de
    debater o que significava ser realmente rico, e o escritor latino Plínio, o Velho afirmou que não se podia
    chamar nenhum homem de rico se ele não pudesse pagar e equipar uma legião de cinco mil homens. Os
    romanos eram muito bons em se exceder uns aos outros com hipérboles, e essa antiga tradição sobre ser
    “suficientemente rico para comprar uma legião” logo foi transformada pelo princípio multiplicador em
    “suficientemente rico para comprar um exército inteiro”. Em uma palavra, Crassus oferecia equipar e
    pagar por seis legiões, cuja força variava entre cinco mil e seis mil homens. Prometeu queria entrar no

    campo de batalha contra Espártaco, com 40 mil dos melhores combatentes que jamais houvessem portado
    o uniforme romano. Vale a pena fazer uma pausa para refletir sobre aquilo com o que ele estava se
    comprometendo.
    As seis legiões custariam 450 talentos no que se refere ao pagamento anual de salários para a infantaria,
    mais 37-38 talentos para a cavalaria e a mesma quantia para os auxiliares. Levando em conta o salário
    mais elevado dos oficiais e adicionando todas as demais quantias, chegaria-se à soma de cerca de 600
    talentos. Se supusermos que, até o ano 72 a.C., Crassus já estivesse a meio caminho dos 7.100 talentos
    que, indubitavelmente, possuía em 55 a.C., pouco antes de sua morte, pode-se considerar que ele podia
    confortavelmente se permitir gerir um exército inteiro e, ainda assim, ter dinheiro de sobra.
    O primeiro problema, para Crassus, era avaliar por que Espártaco tinha obtido tantas vitórias, porque, na
    teoria, parecia improvável que um exército de escravos pudesse derrotar legiões romanas, ou pelo menos
    não mais de uma vez. As descrições de batalhas dos antigos historiadores não nos permitem resolver esse
    conundrum, mas a riqueza de material disponível acerca dos métodos de combate romanos e seus
    embates com outros exércitos irregulares, como os alemães, nos possibilitam traçar um quadro bem
    delineado. Normalmente, as legiões romanas combatiam em três frentes de batalha, dispostas sobre uma
    formação de tabuleiro de xadrez. Na primeira estavam os “hastati” (literalmente, os “homens de lança”),
    os soldados mais jovens, e atrás deles, mas de lado, de forma a deixar um espaço, estavam os “príncipes”
    (os “chefes”); e atrás destes, alinhados na mesma posição da primeira frente, estavam os reservas ou
    “triarii”: o ditado latino “estar de volta aos triarii” significava “encontrar-se numa situação
    desesperadora ou quase sem recursos”.
    Os romanos combatiam em fileiras compridas e estreitas, permitindo-lhes atacar de flanco o inimigo que
    usava formações extensas. Em uma batalha típica, as escaramuças (velite) primeiro envolviam o inimigo
    e tentavam romper sua formação, para, em seguida, quando pressionados, recuarem através dos espaços
    deixados no tabuleiro de xadrez; se houvesse uma fileira contínua em todas as três frentes, começava o
    caos. A medida que o inimigo se aproximava, os príncipes arremessavam lanças leves nas cabeças das
    primeiras fileiras e, então, os hastati lançavam o dardo mais pesado, ou pilum. A primeira frente de
    batalha desembainhava suas espadas e entrava em combate cerrado; o impacto dos exércitos que se
    confrontavam era tão grande que freqüentemente os legionários se jogavam nos escudos do inimigo para
    cortá-los. A inteligência das três frentes de batalha dispostas sobre a formação de um tabuleiro de xadrez
    residia em permitir aos romanos combater em sistema de revezamento. Em virtude de o trabalho e o
    estresse do combate ser tão grandes, os homens só conseguiam lutar com intensidade durante períodos
    curtos, antes de se retirarem exaustos, quando então as frentes da parte traseira iam para a dianteira e
    preenchiam os espaços. O combatente descansado voltava em seguida para a luta, substituindo o outro, e
    assim por diante. Se a batalha estivesse indo mal, o hastati ia para a segunda frente e, então, em
    dificuldades, ambos iriam de volta para os triarii.
    Saber administrar o tempo era tudo na batalha. Se a segunda frente fosse enviada cedo demais, podia
    permanecer emaranhada no combate frontal e ficar exausta; se fosse enviada tarde demais, podia ser
    varrida no caminho. Como as três frentes ofereciam uma resposta flexível ao inimigo, era difícil para
    uma única frente de combatentes, como na tradicional falange, abrir caminho. Mas se fosse enviada com
    velocidade e braveza suficientes, uma única investida podia mandar os hastati para trás rápido demais, a
    fim de permitir que a segunda frente fosse disposta com eficiência. Sabemos, com base nas campanhas
    alemãs, que os exércitos bárbaros gostavam de lutar em formações de falange, com escudos que se
    sobrepunham, ou naquelas baseadas no formato da cunha, destinadas a adentrar no exército inimigo como
    um abridor de latas gigante. Para vencer as legiões, o inimigo precisava geralmente de uma combinação
    incomum de superioridade numérica, velocidade, surpresa e terreno favorável.

    MOTIVAÇÕES DIFERENTES: LIBERDADE E DIZIMAÇÃO
    Espártaco era brilhante em empurrar os romanos para territórios que o favoreciam, o que é
    surpreendente, uma vez que as legiões costumavam lutar apenas em terreno de sua própria escolha; se
    eles não pudessem encontrá-los, gostavam de se abrigar atrás de seus acampamentos fortificados, quase
    impenetráveis. Os livros didáticos descrevem a localização na qual um comandante romano dispunha
    suas tropas como o cume de uma montanha, com um riacho embaixo, de modo que o inimigo precisasse
    seguir seu curso e subir montanha acima. Com exceção de um único caso, no qual parece que Espártaco
    realmente teve de subir, mas ganhou assim mesmo, ele era ótimo em conseguir fazer as legiões
    abandonarem suas táticas habituais. Certamente, é possível entender por que os comandantes romanos
    partiam de seu próprio terreno quando combatiam os rebeldes. A flexibilidade na tática era sempre
    importante, como demonstraram suas grandes vitórias do passado, e eles estavam combatendo um inimigo
    que não empregava os métodos habituais; o hábito de desqualificar o opositor e de demonstrar total
    arrogância também contribuiu. Mas talvez a carta vencedora que Espártaco tinha era a motivação de seus
    homens.
    Desde que Marius aboliu a qualificação de propriedade para servir nas legiões, o exército romano era
    uma força profissional formada por cidadãos sem terra, interessados nas aposentadorias, na terra e nos
    pagamentos em dinheiro com os quais seria recompensada uma campanha vitoriosa, e não em matar o
    maior número possível de inimigos. Os gladiadores e escravos, por outro lado, lutavam porque estavam
    desesperados para receber o fruto das pilhagens e permanecerem livres; se eles perdessem não havia
    nenhum “travesseiro protetor” financiado pelo Estado sobre o qual cair. Esse deve ter sido, algumas
    vezes, o fator decisivo para que os dois exércitos entrassem em confronto. No longo e traumático
    trabalho do combate frente a frente, a resistência e a força de vontade também eram importantes, assim
    como a energia exigida para desfechar mais um golpe, e mais um; todos sabiam que o lado que desistia
    primeiro seria desbaratado e massacrado.
    Crassus concluiu que a maneira de derrotar Espártaco não seria se precipitando em batalhas prematuras,
    mas mantendo seus soldados treinados para uma investida desafiadora e esperar pela oportunidade certa.
    Deixando o grosso de seus soldados baseados em Picenum e Picentia (Vicenza, perto de Amalfi), enviou
    seu legado Mummius para o sul com ordens estritas de imitar o exemplo de Fabius contra Aníbal: nunca
    empenhar tropas em combate, seguir o inimigo, mas se ele avançar, retirar-se imediatamente.
    Naturalmente, Mummius, um homem interessado em tirar proveitos pessoais, inspirado pela ânsia de
    glória, desobedeceu as instruções quando percebeu a oportunidade para uma vitória fácil. Mas Espártaco
    estava apenas brincando com ele e infligiu mais uma derrota dura sobre os romanos. A derrota de
    Mummius provocou comoção, porque testemunhas oculares relataram que seus homens entraram em
    pânico quando os “bárbaros” surgiram entre eles; aqueles que conseguiram escapar da carnificina foram
    os que abandonaram as armas e fugiram.
    Crassus era tão meticuloso com relação à disciplina quanto Espártaco, mas enquanto o líder dos
    gladiadores tinha de liderar para dar o exemplo, por lisonja e carisma pessoal, Crassus usava o poder da
    brutalidade. Resolveu trazer de volta a antiga prática romana da dizimação, reservada para aqueles que
    tinham sido covardes na batalha. Se uma unidade do exército fosse considerada problemática,
    desobediente ou com falta de coragem, um soldado em cada dez seria escolhido por acaso e espancado
    até a morte por seus antigos colegas. Parece mais provável que tenham sido escolhidos 500 homens das
    unidades derrotadas do exército e 50 “cabeças de motim” tenham sido espancados até morrer. A
    dizimação é uma daquelas práticas que, assim como o canibalismo, não perdeu nada de seu significado,
    mas que, novamente como o canibalismo, foi uma experiência histórica real e terrificante.
    A dizimação foi exercida nos exércitos romanos com a freqüência suficiente para não ser considerada
    uma prática extraordinária, embora tenha começado a acabar sob o Império – a engenhosidade romana

    encontrou outras formas de crueldade mais interessantes para perpetrar. Ao lado da execução pública de
    prisioneiros, ensinou à juventude romana a lição sobre o que aconteceu àqueles derrotados na guerra e
    incutiu a noção de que era melhor morrer honrosamente na batalha do que ter uma morte de covarde mais
    tarde. Era um sistema rudimentar e veloz de reforçar o terror nos recrutas inexperientes, como admitiu o
    historiador romano Tacitus: “quando cada décimo homem de um exército derrotado é espancado com
    porretes, o destino também recai sobre os corajosos. Dar um exemplo em grande escala implica
    inevitavelmente alguma injustiça. O bem comum é adquirido com o sofrimento individual”.
    DESEJO DE PAZ NEGADO
    Espártaco logo percebeu que a era dos combates contra os romanos de segunda classe estava no fim. A
    fim de sentir a reação, fez propostas de paz para Crassus, totalmente rejeitadas pelo romano, que nem se
    dignou a responder às ofertas de um escravo bárbaro, considerado por ele um subumano. Mesmo que ele
    fosse humanitário, disposto a levar a sério a proposta de paz de Espártaco, politicamente Crassus não
    tinha escolha. O simples fato de abrir conversações destruiria sua credibilidade. Teria ficado
    desacreditado e desapontado por não conseguir todos os objetivos pelos quais havia tomado o comando
    para si. Além disso, naquele momento Crassus estava muito preocupado com sua própria imagem.
    Tentando ser um homem do povo por meio da velha tática de conhecer os homens pelo nome e assim
    chamá-los pelos seus próprios nomes de batismo, onde quer que estivesse Crassus fazia questão de
    convidar as pessoas simples do povo para seus generosos banquetes, em vez dos oligarcas das antigas
    famílias, embora não tivesse nenhum verdadeiro interesse no homem comum, posando como seu salvador
    simplesmente para construir uma base de poder político. Seus críticos aristocratas disseram que Crassus
    nutria simpatias suspeitas, que ele era mole demais para lidar com firmeza com Espártaco e seu “exército
    do povo”. Por isso, Crassus partiu deliberadamente para provar que era um homem de ferro; como disse
    Plutarco a respeito dele: “Era forte porque era popular e temido – particularmente porque era temido”.
    Crassus estava determinado a não demonstrar clemência alguma a Espártaco. Continuando sua política de
    sair à caça daqueles que vagueavam, dos sentinelas que ficavam na retaguarda ou de qualquer unidade de
    escravos que cometia um erro, e de desferir golpes contra eles, obteve uma primeira grande vitória
    montando uma emboscada e aniquilando uma coluna de dez mil homens que operavam de forma
    independente de Espártaco. Eles devem ter levado o exército escravo a saquear por causa da escassez de
    comida, ou, mais provável, eram um grupo dissidente liderado por homens que pensavam ser tão bons
    quanto Espártaco e não queriam mais obedecer às suas ordens.
    Naquela época, parte do problema para os gladiadores era o fato de seus planos de fuga estarem sendo
    revelados. Tendo originalmente planejado para embarcar com a frota do pirata cilício em Brindisi,
    Espártaco recebeu um comunicado de que o local de embarque tinha sido transferido para os Estreitos de
    Messina; eles não se importaram em ficar tão perto de onde o exército de Crassus estava operando.
    Depois de ter entrado em acordo em relação às altas tarifas cobradas pelos piratas, Espártaco e seu
    exército atravessaram a Lucania para o norte do peito da “bota italiana”, como é conhecido o território, e
    alcançaram o mar pelos estreitos próximos da moderna Reggia di Calabria. Um choque terrível os
    aguardava ali: não havia navios para eles. O corrupto C. Verres, governador da Sicília, que dirigia a ilha
    como um feudo pessoal ou (oportunamente) como um dos primeiros mafiosos, ficou alarmado quando
    soube que Espártaco e seu terrível exército de escravos queriam atravessar a Sicília e instigar os
    despossuídos e ressentidos que ainda se lembravam das primeiras revoltas escravas. A última coisa que
    Verres queria era Espártaco e, em seguida, depois dele, presumivelmente, Crassus, intrometendo-se com
    suas operações lucrativas e esquemas de extorsão. Verres sabia como chegar até o coração dos piratas.
    Ele simplesmente lhes fez uma oferta muito mais elevada que a de Espártaco: entregou ouro para os
    piratas e os convenceu a partir com os navios na hora do pôr-do-sol.

    A atitude de Verres foi um golpe de mestre e, provavelmente, arruinou Espártaco de forma mais eficiente
    do que qualquer outra coisa. Quando Verres foi levado a julgamento, em 70 a.C., por extorsão, o
    conselheiro da promotoria, Cicero, negou que Verres tivesse alguma coisa a ver com a destruição dos
    gladiadores. Mas Cicero, um bajulador, alguém que gostava de reclamar, além de ser um mentiroso
    patológico e também um grande orador, na época estava se aproximando de Pompei, que ele identificava
    como a estrela ascendente, e certamente não ia dar nenhum crédito para Verres.
    UM EXÉRCITO DE ESCRAVOS EM DESESPERO
    Pode-se imaginar o desespero nas fileiras do exército de escravos. Inicialmente, os combatentes
    desorientados tentaram se transformar em marinheiros e fuzileiros navais, construindo embarcações feitas
    de vigas de madeira, amarradas a barris, para que flutuassem, embora sacudissem como cachos de uva;
    mas, depois de várias tentativas de levantar âncora e de muitos afundamentos, concluíram, com razão,
    que só com embarcações resistentes e maiores conseguiriam seguir adiante e superar as correntes
    traiçoeiras. Os estreitos de Messina eram conhecidos por suas contracorrentes rápidas. Os antigos
    navegadores achavam a passagem por essas águas tão difícil a ponto disso ter dado origem à lenda de
    Scilla e Charibdis, segundo a qual não importava para qual lado dos estreitos a embarcação se dirigisse,
    a situação era de perigo mortal, provocada por um monstro do mar ou por um redemoinho que tragava
    tudo. Com desolação, Espártaco levou seu exército mais para o norte, ao longo da costa do mar Tirreno,
    e montou acampamento no promontório de Scillaeum (perto da moderna cidade de Scilla). Crassus
    pensou que essa era a sua chance e se lançou. Contudo, outra razão para que ele deixasse a cautela de
    lado foi ter tomado conhecimento que Pompei, vitorioso na Espanha, estava voltando para Roma.
    Crassus conhecia de longa data os métodos de Pompei e sabia que a última vez que ele tinha voltado com
    um exército conquistador havia até enfrentado o terrível ditador Sulla, conseguindo triunfar.
    Na pior das hipóteses, a volta de Pompei podia implicar uma guerra civil, mas mesmo na leitura mais
    otimista das runas, certamente ele exigiria ser designado cônsul para o ano 70 a.C.. Embora, segundo o
    princípio de “rodízio de Buggins”, usado em Roma para as carreiras da elite, Crassus deveria ter sido o
    candidato a cônsul com mais chances de vencer, uma vez que havia concluído o período exigido desde
    que se tornara magistrado, mas o risco era ver um dos insípidos prediletos de Pompei ser eleito como o
    outro cônsul. A única maneira de Crassus garantir a sua própria eleição e fazer Pompei pensar duas vezes
    antes de usar suas legiões vitoriosas para interceptar as facções políticas em Roma era conseguir uma
    vitória esmagadora sobre Espártaco.

  58. Eric Carvalho disse:

    A LENDA DA MURALHA DE CRASSUS
    Nada ilustra mais claramente como a história de Espártaco foi impregnada de lendas do que a história da
    Muralha de Crassus. Plutarco nos conta que Crassus resolveu bloquear o exército escravo, construindo
    uma muralha com fosso e cerca (muito parecida com a Muralha de Adriano), que deixaria os gladiadores
    isolados do restante do território italiano e iria matá-los de fome. De acordo com Plutarco, Crassus
    escavou um fosso de 4,5 metros de profundidade ao longo de 55 quilômetros, no bico da “bota italiana”,
    chegando até Thurii. Surpreendentemente, a maioria dos historiadores modernos aceitou essa história,
    embora seja evidente que não é plausível. A Muralha de Adriano, com pouco mais que o dobro de
    comprimento, levou dois ou três anos para ser construída. Além disso, esse traçado não teria nenhuma
    utilidade, uma vez que Espártaco teria se tornado senhor de 4.150 quilômetros de território – uma área
    maior que a área do atual território do Estado brasileiro do Rio Grande do Norte, para se ter uma idéia –
    e Crassus não conseguiria assim levar os gladiadores à morte por fome. Uma muralha de 55 quilômetros
    teria deixado o exército de Crassus esparso, de forma que os escravos não teriam dificuldade para

    penetrar. E, finalmente, o conjunto de muralha e fosso implicaria o deslocamento de centenas de milhares
    de metros cúbicos de terra e pedra, que podia variar, dependendo de onde colocarmos o traçado da
    suposta muralha, entre 31 mil e 44 mil metros cúbicos; até os engenheiros atuais, com a tecnologia e as
    máquinas modernas, teriam achado a tarefa assustadora e impossível de ser realizada no prazo exigido.
    Os historiadores romanos eram estimulados pelo exagero ridículo, a fim de mostrar que Roma podia se
    erguer em qualquer circunstância; em termos psicológicos, essa hipérbole se assemelha a uma
    “compensação” pelo medo terrível que Espártaco lhes havia incutido. O melhor historiador romano de
    Espártaco, cuja obra infelizmente sobrevive apenas em fragmentos, Sallust, conta-nos a verdade sobre
    essa questão. Crassus realmente encurralou Espártaco no promontório de Scillaeum, uma área grande o
    suficiente para acomodar o exército de escravos, mas pequena para ser sitiada com eficiência. Crassus
    pôde confinar Espártaco porque a lateral do promontório que cai em direção à terra já estava separada
    do terreno a leste e a oeste pelos profundos desfiladeiros da Torrente Livorno e de Vallone d’Ângelo;
    uma muralha e um fosso relativamente pequenos e não o monstro descrito por Plutarco teriam facilmente
    dado a rolha para a garrafa.
    Espártaco perdeu uma chance ao não atacar os homens de Crassus enquanto eles estavam construindo a
    muralha. Percebeu o perigo tarde demais, e agora o exército de escravos enfrentava um sério dilema,
    pois suas provisões estavam acabando e não podiam ser reabastecidas em uma área tão pequena.
    Espártaco ordenou um ataque à muralha, mas os romanos recuaram facilmente, infligindo pesadas perdas.
    Tentou então explorar vários pontos, supostamente fracos, ao longo do traçado, experimentando ataques
    dissimulados e retiradas, arremessando pedaços de ferro em brasa e galhos em fogo no fosso, para tentar
    assustá-los. Por fim, crucificou um homem na frente dos homens de Crassus, em parte para aterrorizar os
    romanos, porém, supõe-se que mais ainda para advertir seus homens sobre o destino que os aguardava se
    eles não seguissem adiante.
    Em condições desesperadoras, finalmente foi salvo pelo clima do inverno. Numa noite clara, com flocos
    de neve sujos e meio derretidos, acompanhados de chuva, competindo por superioridade, correu para um
    trecho da muralha mal defendido e encheu o fosso com qualquer coisa que os escravos tivessem à mão –
    lama, pedras, madeira, gado abatido, prisioneiros mortos -, para assim criar uma barragem de proteção
    para a qual os gladiadores corriam a fim de se sentirem seguros. Espártaco usou um terço de seu exército
    para lançar o primeiro ataque e, então, quando a “barragem de proteção” estava pronta, levou o restante
    adiante.
    Os romanos não ousaram ficar em seu caminho, cientes de que um terço do inimigo já estava na
    retaguarda, e simplesmente abandonaram a muralha. Cansados, desmoralizados, mas contentes de ter
    escapado do que parecia ser a destruição certa, os homens de Espártaco prosseguiram em direção a um
    ponto já estabelecido para o encontro das tropas, na floresta aos pés do monte Sila.
    Eles ficaram divididos
    O moral no exército escravo caiu vertiginosamente, em parte, porque eles tiveram perdas tão grandes
    quando foram encurralados no promontório Scillaeum, embora a estimativa do historiador Ápio, de 12
    mil mortos, seja um cálculo excessivo e absurdo. Faminto e desmoralizado, Espártaco concordou em
    dividir seu exército a fim de facilitar os saques e partiu em direção ao norte, ao longo da via Popilia,
    levando a menor das duas forças; o contingente maior, de galeses e alemães, era comandado por Castus e
    Cannicus. Na altura do lago Paio (perto da atual cidade de Buccino), saindo da Via Popilia, Castus e
    Cannicus montaram acampamento, pensando que Crassus não poderia estar atrás deles. O lago Paio tinha
    cerca de cinco quilômetros e era cercado por declives montanhosos; o nível da água mudava de acordo
    com as estações, a água não era potável e era salobre no verão, mas agora (no inverno) tinha um gosto
    doce por causa da neve que derretia das montanhas. Castus e Cannicus pararam lá a fim de conseguir um

    bom suprimento de água fresca. Mas Crassus apressou seus soldados que estavam resolutos à procura
    dos dois homens e eles então atacaram os escravos acampados.
    Antes de determinar o ataque, Crassus enviou 12 coortes (seis mil homens) rodear o outro lado das
    montanhas, com ordens para subir e, em seguida, descer e atacar a partir do outro lado. Castus e Cannicus
    não foram aniquilados por um triz quando Crassus deu o sinal para atacarem. Seu estratagema funcionou
    perfeitamente e os rebeldes entraram em pânico, houve confusão com o som dos gritos na retaguarda
    deles, assim que os coortes enviados começaram a descer das montanhas em disparada. Teve início a
    batalha, mas não se sabe quanto tempo durou, embora algumas fontes falem de muitas baixas. De repente,
    como se tivesse saído do nada, Espártaco surgiu na retaguarda romana e Crassus, temeroso de ser
    derrotado na confusão, interrompeu o ataque. Evidentemente, o outro exército fez chegar uma mensagem a
    Espártaco – uma versão diz que duas escravas subiram a montanha para se lavar e viram os romanos
    descendo em bandos, permitindo que os galeses enviassem um pedido de ajuda -, e essa visão
    aparentemente milagrosa na hora exata não prejudicou sua reputação; ele parecia ser realmente
    indispensável e sem sua presença os escravos estariam perdidos.
    Depois de salvar os gauleses e os alemães, Espártaco concordou com seus líderes que eles deveriam
    continuar a operar separadamente, a fim de melhorar a situação da comida e dos suprimentos; eles
    continuaram a se dirigir para o norte, ao longo da Via Popilia, como se estivessem indo para Roma,
    enquanto Espártaco tomou a direção do leste. Parecia que a iniciativa não havia sido notada por Crassus.
    O Senado, inicialmente impaciente com o cerco de Scillaeum e agora completamente alarmado com o
    fracasso de Crassus em trazer Espártaco para uma batalha decisiva, parecia ter perdido a coragem,
    principalmente agora que o exército de escravos estava mais ao norte de Crassus e a caminho de Roma.
    Enviaram ordens para que Pompei retornasse imediatamente com suas legiões da Espanha, enquanto
    Marcus Lucullus, irmão do grande Lucullus que ainda combatia perto do mar Negro, deveria estacionar
    outro exército em Brundisium. A ordem para Lucullus era o resultado de uma manobra dos optimates.
    Tendo perdido a confiança em Crassus, e temendo que um Pompei vitorioso se tornasse poderoso demais,
    chamaram o irmão de Lucullus de forma a ter um exército pronto para se opor a Pompei, caso necessário.
    A chegada de Marcus Lucullus em Brundisium diminuiu as opções de Espártaco, pois impedia a volta ao
    domínio romano – sua opção preferida. Marchando em direção ao norte, pela estrada que saía da Via
    Popilia, em Eburum, ele seguiu os Nares rio acima, em direção a Aquilonia, onde havia uma intersecção
    com a Via Appia. Ali ele podia observar a chegada do exército de Lucullus, que precisaria percorrer
    esse caminho de Brundisium. Se ele tivesse sorte, poderia encontrar e derrotar Crassus antes de dar de
    encontro com Lucullus. O cenário parecia factível, uma vez que Crassus, por sua vez, tinha sido obrigado
    a dividir suas forças, com uma divisão (sob seu procurador Tremellius Scrofa e seu legado L. Quinctius)
    seguindo Espártaco enquanto ele perseguia Castus e Cannicus. Crassus estava escolhendo a opção mais
    fácil; até essa fase, ele não tinha verdadeira disposição para um confronto direto com o grande líder
    escravo.
    Partindo de sua prática habitual de se retirar antes da chegada dos romanos e, em seguida, voltar
    inesperadamente a fim de pegá-los, como se fosse um contra-ataque, Espártaco resolveu pôr mãos à obra
    em um acampamento entrincheirado esperando a vinda deles. Fez seus preparativos no Rio Silarus (não
    distante da moderna cidade de Capo Sele), onde, 140 anos antes, Aníbal derrotara os romanos. Era a
    primavera de 71 a.C., Espártaco estava confiante de que, se a disciplina fosse mantida, ainda poderia
    derrotar Crassus e enfrentar então Lucullus; parece que ele não tinha se inteirado do chamamento dirigido
    a Pompei. Sua confiança em suas próprias habilidades tinha justificativa, pois quando Scrofa e Quinctius
    surgiram, agiu com ambos da mesma forma como havia feito com Lentulus e todos os demais. Mais uma
    vez os romanos foram totalmente derrotados; Scrofa ficou ferido e por pouco conseguiu escapar com
    vida.

    Crassus, Conquistador dos Escravos Bárbaros
    Enquanto isso, porém, Castus e Cannicus demonstraram novamente sua incompetência militar, e dessa vez
    não havia nenhum Espártaco para salvá-los. Crassus planejou um chamariz bem arquitetado, a fim de
    atrair os incautos galeses para sua ruína. Primeiro, construiu dois acampamentos e fincou paliçadas
    fortificadas em torno, mantendo os equipamentos de seu pessoal e de seus assistentes em ambos, de forma
    a iludir os espiões gauleses quanto à sua intenção final. Enquanto eles estavam perturbados pelo enigma
    dos dois acampamentos, Crassus avançou com o grosso de sua infantaria e escondeu-os nos pés das
    montanhas de Cantina. Enviou em seguida uma grande força de cavalaria para provocar os gauleses, com
    ordens de atrair o inimigo para a batalha e levá-lo aos poucos até a emboscada aos pés das montanhas.
    Embora a falsa retirada fosse uma tática conhecida, quando a cavalaria romana se retirou depois de ser
    inundada com flechas, Castus e Cannicus resolveram segui-la, imaginando que agora Crassus estava
    apostando tudo na cavalaria, tendo em vista força tão grande. No momento adequado, o grupo dianteiro,
    que protegia os demais, correu de repente para as alas da força principal. A armadilha veio à tona e para
    o horror deles, Castus e Cannicus perceberam que haviam se deparado com uma emboscada habilmente
    montada. Os escravos combateram com a coragem que lhes era habitual, mas foram totalmente
    eliminados. Como produtos de sua vitória, Crassus pôde enviar para Roma cinco águias legionárias, 26
    estandartes (hastes com símbolos, espécie de bandeiras das tropas romanas), e os fasces e lictores, ao
    lado de muitos outros despojos, todos recapturados junto aos escravos.
    A notícia do desastre foi levada a Espártaco, que resolveu abandonar de vez seus planos de uma batalha
    decisiva com os romanos e adotar a guerra de guerrilha. Crassus estava a apenas um dia de marcha deles
    e, a não ser que eles levantassem acampamento imediatamente e fossem embora marchando a toda
    velocidade, ele os alcançaria. Mas agora seus homens, sem dúvida animados com a vitória sobre os
    assistentes de Crassus, disseram a Espártaco que estavam cansados de correr e não iriam se retirar ainda
    mais. Entristecido, Espártaco enfrentava o inevitável. Com um número de soldados muito menor que o
    adversário e sem um exército de cavalaria para competir com os cavalos de Crassus, ele devia saber que
    suas esperanças eram reduzidas. Num gesto melodramático, levou sua guerra de cavalos à frente de seu
    exército; esse corcel confiante foi para ele o que o famoso monte Bucefalus havia sido para Alexandre, o
    Grande. Sacou sua espada e disse a seus homens, em voz alta, que agora a situação deles era conseguir a
    vitória ou morrer: se vencessem a batalha, teriam um monte de cavalos, mas se perdessem não
    precisariam mais de nenhum. Assim, matou o cavalo imediatamente; era um gesto tradicional dos chefes
    guerreiros antes de uma grande batalha e assim seria entendido por seus soldados.
    A batalha que se seguiu foi um desesperado combate corpo-a- corpo, com ambos os lados lutando pela
    vida, os romanos cientes de que se não fossem corajosos teriam de enfrentar Crassus e sua prática de
    dizimação. Testemunhas oculares disseram que Espártaco tentou irromper através da multidão de
    combatentes de forma que pudesse entrar em combate pessoal com Crassus, mas foi seriamente ferido
    durante a tentativa. Golpeado com uma lança na coxa, continuou a combater enquanto tinha forças, caindo
    finalmente sobre um dos joelhos, embora ainda brandindo sua espada até que a onda de romanos
    vitoriosos derrubasse-o. É evidente que eles não o reconheceram, uma vez que, para a fúria de Crassus, o
    corpo de Espártaco nunca foi recuperado, e assim também foram poupados os atos indignos que os
    romanos certamente tinham preparado para ele. Talvez tenham tombado entre cinco mil e seis mil
    soldados escravos – os romanos perderam mil mortos. Crassus conquistara sua ambição.
    Embora os rebeldes tenham perdido a batalha, não estavam eliminados. Alguns contingentes fugiram e
    estabeleceram uma base nos campos em torno de Thurii, onde entraram para a bandidagem e

    atormentaram a zona rural até serem finalmente extirpados pelo pai do homem que se tornaria o primeiro
    imperador romano, Augustus. Menos sorte teve a outra divisão de cinco mil homens que foi para Roma,
    ao norte, apenas para dar de encontro com as legiões espanholas de Pompei. Chegando a Roma em março
    de 71 a.C., Pompei imediatamente partiu para o sul para tentar obter mais glória e teve suficiente sorte
    para poder pegar essas migalhas da mesa marcial de Crassus. O arrogante Pompei, que nunca era alguém
    que ocultava sua luz atrás de um arbusto ou desempenhava seu dever patriótico às escondidas, escreveu
    então para o Senado dizendo que, embora Crassus houvesse derrotado os escravos numa batalha feroz,
    tinha sido ele que finalmente havia acabado com a guerra. Isso naturalmente enfureceu Crassus e aguçou a
    já ardente rivalidade e inveja existente entre as duas estrelas ascendentes.
    Mas Crassus tinha seus motivos para se sentir satisfeito consigo mesmo. Em seis meses, na qualidade de
    cidadão para quem o Senado encarregou uma tarefa extraordinária, ele conseguira o que os praetores e
    cônsules não haviam sido capazes de fazer em mais de um ano. Inadvertidamente, Espártaco atuara como
    a escada para sua ambição. Depois de sair à caça dos infelizes que buscaram refúgio nas montanhas mais
    próximas do campo de batalha Silarus, Crassus crucificou seis mil deles. A Via Ápia de Cápua para
    Roma estava cheia de cruzes com os corpos pútridos dos escravos crucificados, colocados a cada 35
    metros ao longo de 200 quilômetros até a capital. Os romanos pensaram que isso era um fim justo e
    adequado para aqueles que tentaram derrubar a “ordem natural”. Nem Crassus e nenhum outro aristocrata
    romano sentiam um lampejo de pena pelos derrotados, uma vez que toda sua sociedade e seus próprios
    privilégios eram baseados na escravidão. Afinal, todos os regimes se baseiam na força, mas poucos o
    fizeram de forma tão nua e crua quanto o romano; segundo a cultura romana não impor punições
    exemplares terríveis era simplesmente encorajar os escravos a se rebelarem novamente.
    Avaliando a Revolta de Espártaco
    Crassus e Pompei chegaram a um acordo e dividiram o consulado no ano de 70 a.C. Ao contrário de
    Pompei, vitorioso numa guerra estrangeira contra um inimigo reconhecido, Crassus, como conquistador
    de escravos bárbaros detestados e que não eram vistos como seres humanos, para não dizer opositores
    ferrenhos, não mereceu um triunfo total. Precisou marcar uma ovatio ou aclamação, uma distinção em
    escala menor, mas usou seu pulso político para conseguir que o Senado lhe distinguisse com a coroa de
    louros, uma honra geralmente reservada para um triunfo formal, em vez da coroa de murta habitualmente
    oferecida para a ovatio.
    Durante o ano do consulado de Crassus-Pompei, aconteceu algo que levou obrigatoriamente os romanos a
    se lembrarem de Espártaco. O jovem Júlio César, um dos 20 procuradores daquele ano, estava viajando
    para Rodes quando foi capturado e feito refém pelos piratas, que demandavam resgate para libertá-lo.
    Uma vez solto, exigiu ação contra os piratas. O governador romano da Ásia era alguém com quem se
    podia negociar, então César incorporou uma unidade de defesa na costa, perseguiu seus captores e
    crucificou-os – uma ação controvertida, uma vez que ele não tinha autoridade legal e, na qualidade de
    questor, não tinha interesse em buscar vingança pessoal. No entanto, o incidente lembrou as autoridades
    romanas que elas não haviam ainda ajustado contas com os piratas, que poderiam ter transformado a
    revolta de Espártaco num verdadeiro pesadelo para eles se Verres não os tivesse subornado.
    No ano 67 a.C., o Senado concedeu plenos poderes a Pompei para que ele livrasse os mares dos piratas,
    que naquela época já estavam interrompendo o suprimento de milho da África do Norte. Dotado dos mais
    extraordinários recursos – 120 mil soldados de infantaria, cinco mil do regimento de cavalaria e 500
    navios – Pompei deixou o Mediterrâneo limpo, começando pelos mares ocidentais e, em seguida,
    apertando gradualmente o cerco em torno dos piratas em seus covis preferidos no Mar Egeu. Depois de
    subjugar o antigo inimigo marítimo, Pompei se absteve da crucificação, mas instalou os saqueadores em

    colônias agrícolas território adentro. No ano 66 a.C., Pompei já havia substituído Lucullus na guerra
    contra Mitradates, conseguindo resolver esse conflito com sucesso.
    No ano 60 a.C., Crassus, Pompei e a estrela ascendente Júlio César tinham se tornado tão poderosos que
    concordaram em governar Roma num triunvirato, sob a soberania formal do Senado. Podiam se permitir
    olhar para a revolta de Espártaco e se confortar pensando que sua derrota era inevitável. A realidade era
    que os acontecimentos de 73-71 a.C. eram muito mais sérios, e por um longo período a revolta de
    Espártaco havia sido liderada por punhos firmes. Crassus tinha a superioridade numérica na batalha final
    quando realmente importava, mas as coisas poderiam facilmente ter sido diferentes, principalmente se
    Espártaco tivesse conseguido chegar à Sicília e levantar a bandeira da rebelião lá. O exército de
    Espártaco na Sicília, uma ilha densamente povoada, que não recebia a atenção devida, com uma história
    de rebeldia em relação a Roma e grandes suprimentos de comida, um dos celeiros de grãos do Império,

    teria sido um osso duro de roer. Teriam sido necessárias pelo menos oito legiões para uma invasão bem-
    sucedida e, com tantos soldados ausentes da península italiana, para os samnitas e outros escravos a

    vontade de tentar a sorte seria enorme. Mas uma aventura siciliana iria requerer a cooperação dos piratas
    e um exército escravo íntegro.
    A incapacidade de conseguir que seus próprios homens formassem uma frente unida foi a ruína de
    Espártaco, assim como tem sido para muitos movimentos populares da história, mas talvez um gênio
    político (que Espártaco não era) poderia ter chegado lá. Se, mais adiante, ele tivesse sido capaz de
    empreender uma causa comum com os piratas, contra Roma, as coisas teriam sido realmente sérias. Por
    outro lado, a experiência de Aníbal sugere que, nessa fase de sua história, Roma fosse provavelmente
    invencível e seus recursos, inesgotáveis. A solução mais provável para o cenário “e se?” de uma
    campanha siciliana é aquilo que os historiadores chamam de uma segunda seqüência, contrária aos fatos
    registrados. Em outras palavras, a guerra escrava provavelmente teria se prolongado por outros dez anos,
    mas no final Roma ainda iria prevalecer. A longo prazo, a capacidade de adaptação e a flexibilidade de
    Roma, a disciplina, organização e a logística de seus exércitos, o vigor de combate e de esprit de corps
    mais duradouros, o fato de os soldados poderem receber terra, cidadania e pagamentos em dinheiro e,
    talvez acima de tudo, de Roma ter uma capacidade infinita de absorver e substituir os efetivos militares
    perdidos ao longo do tempo, com certeza teriam sido decisivos.
    EXÉRCITOS IRREGULARES CONTRA O ESTADO-NAÇÃO
    A história revela que os exércitos irregulares têm poucas chances quando se confrontam com o aparato de
    um Estado-nação, a não ser que partam para uma investida breve. A Insurreição Jacobina de 1745
    oferece muitos indicadores instrutivos e analogias diretas para a revolta de Espártaco. Ambas tiveram
    início em agosto e terminaram em abril, mas vacilaram quando seus líderes deixaram de atacar as
    capitais do inimigo (respectivamente Roma e Londres), porque um golpe de Estado breve era a única
    maneira de seguir adiante. Os irregulares como os montanheses escoceses ou o exército de gladiadores
    podem obter vitórias estonteantes sobre soldados profissionais a curto prazo, usando táticas como o
    impacto do grande volume de combatentes, mas, no final, a falta de suprimentos, de dinheiro e de
    equipamento os colocam em grande desvantagem em relação ao aparato estatal. Se for necessário, um
    Estado-nação pode organizar um exército mercenário, levantar empréstimos – e mesmo sob o estado
    primitivo do sistema bancário romano, as grandes propriedades da elite ofereciam quantias ilimitadas -,
    pode se sustentar crise após crise, enquanto os irregulares, dependentes dos despojos, do suprimento
    precário de comida e de um exército que encolhe cada vez mais, estão destinados a perder.
    Os historiadores romanos ridicularizaram Espártaco porque os escravos urbanos não se levantaram para
    defendê-lo, da mesma forma que os propagandistas Whig, no século XVIII, zombaram dos jacobinos por
    eles não terem obtido apoio massivo. Em seu romance sobre Espártaco, o escritor Arthur Koestler até

    comparou a falta de “revolução espontânea” nas outras regiões da Itália com a falácia do “socialismo em
    um país” de Lênin. Mas a maioria dos seres humanos não é herói e, cientes da reação violenta caso
    apoiem o lado perdedor, ficam quietos até que os vencedores venham à tona claramente. Espártaco
    entendeu esse aspecto da natureza humana, por isso recusava-se aceitar desertores do exército romano em
    sua própria força. Longe da suspeita natural de que esses homens pudessem ser agentes duplos, Espártaco
    raciocinava que os desertores eram egoístas que lutariam por uma causa, mas só até quando ela se
    enquadrasse em seus interesses; era melhor não ter de lidar com esses vira-casacas e reincidentes
    naturais.
    Em termos militares, a reação a Espártaco como guerreiro tem sido sempre ambivalente. De um lado,
    estão aqueles para quem um “simples” escravo não poderia derrotar o poder de Roma e especulam,
    inutilmente, que Espártaco devia ter um posto elevado no exército romano, possivelmente como
    centurião. De fato, como veterano de todo tipo de combate na arena, a sós ou em grupo, ele já teria
    familiaridade com a maioria das táticas e a mentalidade militar romana.
    Espártaco foi mal acolhido como general, sem dúvida porque os historiadores profissionais
    antipatizassem com o culto dele como herói revolucionário. Assim como no caso de Marx, que o
    chamava de “um grande general (ao contrário de Garibaldi), um caráter nobre e um autêntico
    representante do antigo proletariado”, os críticos modernos argumentam que Espártaco não conseguiu
    impor muitas derrotas em termos militares, apesar de suas nove vitórias sobre os romanos; para usar a
    linguagem popular, lutou apenas contra patetas. Fala-se sempre que Crassus não correspondia às
    expectativas quando deveria enfrentar um opositor militar digno de crédito. Sua campanha contra os
    partos em 53 a.C., travada para tentar conseguir a paridade militar com Pompei e César, acabou com uma
    das piores derrotas da Roma republicana, em Carrae, e com a sua morte degradante.
    É verdade que, em 73-71 a.C., os soldados romanos de categoria superior estavam com Lucullus, na
    Ásia, e os de qualidade um pouco inferior com Pompei, na Espanha, deixando apenas os que eram
    realmente ruins com a tarefa de enfrentar a rebelião escrava. Mas Espártaco tinha de liderar um exército
    poliglota e multicultural. Não podia empregar táticas de batalha que exigissem uniformidade de idioma,
    mas, no lugar disso, tinha de utilizar sinais e símbolos. Precisava usar seu prestígio e carisma pessoais
    para seduzir e adular; não podia simplesmente emitir uma ordem e apoiá-la com a ameaça de dizimação.
    Espártaco pode não ter sido um dos grandes capitães da história, mas era um general melhor do que
    sustentam seus críticos. É difícil imaginar que teria cometido os erros estúpidos e arrogantes que seu
    velho inimigo Crassus se permitiu cometer na terra do Tigre e do Eufrates.

  59. Eric Carvalho disse:

    CAPÍTULO 2
    ÁTILA, O HUNO
    O Guerreiro Mafioso

    ÁTILA, o HUNO, de forma direta e indireta, acabou com o Império Romano, que durou mais de mil anos,
    mas que no início do século V d.C. já estava em declínio final. O Império atingiu seu apogeu no século II
    d.C., mas depois foi arruinado por muitas crises provocadas por pestes, pelo declínio da produção de
    metais preciosos, impostos elevados, queda da base agrícola e até falta de efetivos militares. Os
    historiadores ainda se debatem sobre as causas fundamentais do declínio de Roma, e um acadêmico
    alemão, nos anos 1980, elaborou uma lista famosa com 600 importantes fatores. Contudo, foi sem dúvida
    a invasão dos “bárbaros” nas fronteiras do norte de Roma que deu o coup de grâce ao Império. Tribos
    germânicas, levadas por uma série de diferentes motivos — superpopulação, inveja, privação relativa,
    crise agrícola – penetraram no Império e poderiam dar ordens de ataque a exércitos gigantescos e
    temíveis se os romanos ousassem se opor a eles. Por uma razão ou outra, muitos dos nomes tribais
    ficaram famosos – alanos, burgundianos, vândalos e, principalmente, godos, que se dividiram em um
    ramo ocidental (visigodos) e oriental (ostrogodos).
    Na mesma época em que esses “bárbaros” faziam pressão sobre a fronteira romana, o Império implodia,
    dividindo-se em dois no início do século V, com dois imperadores: um instalado em Constantinopla (a
    moderna Istambul), e o outro, na Itália. A divisão do Império tinha sido planejada desde o ano 286,
    quando o imperador Diocleciano introduziu a “tetrarquia” – dividindo o Império em quatro, com quatro
    imperadores. Isso deveria facilitar a resposta às ameaças bárbaras em várias regiões, mas simplesmente
    levou à fragmentação, com nenhum dos imperadores morando em Roma. O imperador Constantino reuniu
    o Império sob um único imperador, mas, ao longo do século IV, cada vez mais ele se dividia em dois. O
    imperador Teodósio (379-395) foi o último a governar um Império romano unido. Sem confiar em seus
    filhos, deixou como legado o oeste para Honório, e o leste para Arcádio. Todo o talento e a habilidade
    de Teodósio foram para sua filha Galla Placidia, uma das grandes figuras femininas da Antigüidade. Em
    395, a divisão entre o Oriente e o Ocidente tornou-se permanente. Daí em diante, haveria um Império
    Ocidental sediado na Itália, com controle sobre a África do Norte, a Grã Bretanha e partes da França e
    da Espanha, e um Império Oriental com a capital em Constantinopla, dominando a Ásia Menor (atual
    Turquia), aTrácia (atual Bulgária), o Egito e grandes regiões do Oriente Médio. Mas as tribos germânicas
    já tinham penetrado em boa parte da França e da Espanha e ameaçavam tomá-las completamente.
    UMA NOVA SEITA DE BÁRBAROS
    Átila, o Huno é um daqueles raros fenômenos históricos que aparecem de repente como um raio,
    provocando danos terríveis e depois se enfraquecendo tão rápido quanto surgiu. É isso que dificulta tanto
    o debate sobre o seu caso. Os hunos em si são historicamente problemáticos, uma vez que existiram como
    um fator significante durante, no máximo, cem anos. Nada se sabe deles antes do século IV d.C.: as
    tentativas de identificá-los com os nômades Hsiung-nu, que devastaram as fronteiras da China em uma
    época anterior, não são convincentes. Provas históricas verdadeiras sobre a história dos hunos são quase
    nulas.
    Eram analfabetos e não conheciam os primórdios de sua história. Não cunhavam moedas e, como eram
    nômades, as provas arqueológicas são frágeis. Tudo o que se pode afirmar ao certo é que surgiram de um
    notório limbo, a “Ásia central”.

    Corria o ano 376 quando invadiram o Ocidente pela primeira vez, pois naquele ano o Império Romano
    teve conhecimento de que um novo clã de bárbaros, os hunos, havia conquistado os inimigos até então
    mais terríveis que os romanos tinham, do outro lado do Danúbio, os godos e alanos. Roma temia
    particularmente o Reino Ostrogodo, uma confederação de tribos germânicas que se estendia do rio Don
    até o Dniester e do mar Negro até os pântanos Pripet. Agora vinha à tona que os godos haviam sido
    aniquilados e que seu rei (Ermanarich) cometera suicídio. A vitória dos hunos sobre os alanos foi ainda
    mais completa. Tendo subjugado os godos orientais (ostrogodos), os hunos começaram a atacar seus
    primos ocidentais, os visigodos. Empurrados adiante com esse ataque repentino, tomados pelo pânico, os
    visigodos atravessaram o Danúbio em grande quantidade. Cerca de 200 mil desceram para Adrianópolis,
    desbarataram um exército romano e devastaram a província romana de Panônia. Calcula-se que a
    cavalaria huna, recrutada pelos visigodos, forneceu o poder de fogo que fez de Adrianópolis (376) uma
    derrota tão significativa para os romanos.
    Em 395, os hunos atravessaram o Danúbio congelado e invadiram a Trácia e a Dalmácia. Ao mesmo
    tempo, invadiram o Império Oriental e devastaram as áreas de Capadócia, a Síria e a Armênia. Mas, por
    enquanto, concentraram-se no Império Ocidental: em 405, penetraram no norte da Itália; em 406
    atravessaram o Reno e entraram na Gália (França) e, em 408, atacaram as províncias do Danúbio da
    baixa Moesia. Havia pilhagens ocasionais no Império Oriental: um ataque de surpresa levado à cabo
    pelo primeiro rei huno conhecido, Uldin, obrigou Constantinopla a concluir a construção das muralhas da
    cidade no ano 413. Parte da extrema complexidade desse período da história é que não havia verdadeiras
    superpotências, mas uma abundância de poderosos reinos e impérios muito pequenos que surgiam de vez

    em quando para participar do espetáculo. Em 415-420, foi a vez do poderoso Império Persa, estendendo-
    se dos rios Tigre e Eufrates para o leste, até o Afeganistão, conhecer a fúria dos hunos, mas dessa vez

    eles foram severamente derrotados e se retiraram. Em 420, a Pérsia e o Império Romano Oriental
    entraram em guerra; os hunos aproveitaram a oportunidade para atacar a Trácia mais uma vez. Até o
    início do século V, os hunos nunca haviam sido inimigos implacáveis dos romanos e algumas vezes até
    foram aliados. Nas sucessivas lutas que se travavam em ambas as partes do Império, a fim de decidir
    quem seria o próximo imperador, tanto o Oriental quanto o Ocidental usaram os hunos como mercenários;
    às vezes, a guerra civil jogou os romanos orientais contra os ocidentais e os hunos também empenhavam
    tropas para participar desses conflitos. Àquela altura, eles eram combatentes que careciam de um
    objetivo estratégico ou global; eram técnicos de guerra qualificados que se satisfaziam em empregar suas
    habilidades para o contratante.
    Os hunos foram os primeiros nômades montados a cavalo da Ásia Central a aterrorizar o mundo, em certo
    sentido foram os precursores dos mongóis, que vieram mais tarde e eram muito mais temíveis. Como
    eram pastores nômades, praticavam a caça e não exerciam a agricultura. A lenda fala de “hordas” de
    hunos, o que nos faz imaginar centenas de milhares de guerreiros, mas a verdade é que a base do efetivo
    militar dos hunos sempre foi limitada; eles devem ser contados em milhares e, no máximo, dezenas de
    milhares, em vez das miríades de imaginação mítica. Determina-se sempre o tamanho da população de
    acordo com a disponibilidade de comida, e seria necessária uma área muito grande de terra para a
    pastagem e para sustentar mesmo um número pequeno de hunos e seus cavalos; devemos pensar em
    muitos grupos pequenos cruzando as planícies da Ásia Central nos primórdios. Em virtude dos problemas
    de comida e da pastagem, um destacamento huno de ataque tinha apenas cerca de 1.200 soldados.
    As construções dos edifícios da sociedade huna eram de fácil identificação. Cada família morava em uma
    barraca, entre seis e dez barracas formavam um acampamento; vários acampamentos, por sua vez,
    formavam um clã – a unidade social básica da sociedade huna. Havia dez clãs para cada tribo, portanto,
    uma tribo tinha talvez cinco mil pessoas (que poderiam ser transformadas em 1.200 guerreiros), mas a
    tribo precisava sempre se dividir em acampamentos de cerca de 50 pessoas, a fim de sair à caça de
    pilhagem e espaço para a pastagem. Os hunos tinham fama de não respeitarem acordos, mas os romanos

    cometeram o erro de pensar que eles eram um Estado-nação normal. O problema era que um tratado
    assinado com uma tribo de cinco mil hunos não incluía de nenhuma forma as outras tribos. A fome era
    uma característica constante dos primeiros tempos da sociedade huna, e não havia excedente econômico
    que permitiria a ascensão de uma classe desocupada de nobres. Nem havia qualquer escravidão
    doméstica; os únicos escravos que os hunos tinham eram aqueles capturados em campanha. Os hunos
    tinham líderes apenas nos períodos de guerra, pessoas que dispunham da maior reputação militar. Os
    hunos tinham uma particularidade: faziam todas as discussões e conselhos montados em seus cavalos.
    OS TEMÍVEIS HUNOS
    Por que os hunos tinham uma reputação tão assustadora, ultrapassando de longe a dos godos ou a de
    outros bárbaros? Em parte porque sua quantidade era superestimada. Em virtude da sua velocidade e
    mobilidade, podiam percorrer, montados a cavalo, vastas distâncias em pouco tempo, de forma que
    parecia haver milhares deles em todos os lugares; freqüentemente a mesma tribo reaparecia em diversas
    localidades. A habilidade que tinham com os cavalos e sua assombrosa equitação, que os fazia parecer a
    Centauro, contribuía para uma reputação de eficiência não verdadeiramente humana. Os romanos os
    temiam porque, com seu poder extraordinário, eles atraíam os escravos, bandidos e outros quinta-coluna
    que viviam no Império Romano e odiavam seus amos e senhores, enxergando os hunos como salvadores.
    E havia ainda as histórias terríveis sobre eles, trazidas da fronteira: dizia-se que sacrificavam os idosos
    e até os próprios pais para os deuses, de forma a não ter bocas inúteis para alimentar. Mas parte do terror

    irracional provocado pelos hunos deve ser atribuída à sua aparência física. Os romanos achavam que vê-
    los era repugnante e pensavam que fossem feios como as gárgulas; tanto sua aparência física como suas

    roupas com a cor da pele da marmota assustavam os “civilizados” italianos, para quem os inimigos
    deveriam se vestir e parecer com eles próprios.
    Contudo, o que mais assustava os romanos era a surpreendente habilidade dos hunos com o arco. Uma
    flechada dos pesados arcos que usavam — e que requeriam uma força excepcional e anos de prática -, a
    uma linha de tiro de 45 a 90 metros, poderia penetrar bem mais do que muitas balas modernas. Os
    arqueiros hunos montados a cavalo podiam lançar uma flecha a cada dois segundos e os melhores deles
    eram capazes de dar mil flechadas durante uma batalha de 12 horas. Os hunos empregavam gigantescas
    carroças puxadas a cavalo para levar centenas de milhares de flechas para cada batalha – cada carroça
    tinha cerca de 100 mil delas. Seus arqueiros atiravam três salvas de artilharia; a primeira, a uma
    distância de 140 metros; a seguinte, a 90 metros, e a última, a 45 metros. Já se calculou que a cavalaria
    huna podia lançar mil flechas nos primeiros cinco segundos, e outras mil nos cinco seguintes, sendo que
    12 mil flechadas por minuto têm o poder de matar equivalente ao de dez metralhadoras.
    Um exército huno no ataque podia inundar uma frente de batalha com 50 mil flechas em dez minutos.
    Além disso, seu estilo de vida nômade fazia com que não precisassem ficar parados no inverno e
    pudessem combater o ano inteiro, embora os romanos pensassem que a melhor época para atacá-los fosse
    entre fevereiro e março, quando seus cavalos estavam enfraquecidos pelo inverno.
    No entanto, antes de Átila, não havia uma confederação huna permanente, de forma que, após uma
    campanha militar, os hunos costumavam se dividir em tribos, clãs e acampamentos. A grande
    confederação dos anos 370, que derrubou os alanos e os godos, desintegrou-se depois. A ameaça huna
    era desconectada, descontínua e intermitente, razão pela qual as explosões de campanhas enfurecidas
    eram seguidas de longos períodos de inação; em outras palavras, a tendência natural dos hunos
    costumava ser a desorganização. Uldin, por exemplo, não comandou todos os hunos, mas apenas uma
    divisão, tendência que persistiria até a época de Átila. Mas Uldin deu início a um processo importante na
    história dos hunos, pois obrigou os ostrogodos a se tornarem, de fato, seus servos.

    O primeiro acontecimento decisivo na história dos hunos foi a mudança dos mares Aral e Cáspio para as
    terras a oeste do mar Negro; antes eles tinham dominado os alanos ao leste do mar Negro, mas, desde o
    início do século V, os ostrogodos na Ucrânia eram seus subalternos. O segundo foi quando deixaram
    essas regiões e fizeram sua base nas planícies da Hungria. Como eram bons combatentes e exímios
    agricultores, os ostrogodos eram decisivos para a supremacia dos hunos. Por um lado, portanto, os hunos
    resolveram seu problema de escassez de homens utilizando os ostrogodos nos combates de infantaria,
    enquanto apareciam como força de elite de arqueiros montados a cavalo, prontos para desfechar o ataque
    decisivo que venceria as batalhas. Por outro, obrigaram os ostrogodos a trabalhar para eles nos campos,
    extraindo um excedente para alimentar seus exércitos e permitir o surgimento de uma classe de guerreiros
    nobres desocupados. No início da década de 420, os hunos estavam dando sinais de que seriam capazes
    de se reunir numa confederação duradoura, capaz de fazer deles uma ameaça permanente e mortal para
    ambas as partes do Império Romano. Os irmãos Rua e Octar lideraram juntos uma poderosa aliança de
    hunos, mas, como acontecia muitas vezes na história desse povo, um dos dois governantes desapareceu
    convenientemente. Octar morreu em 432, deixando Rua como o único governante.
    ÁTILA E FLAVIUS AÉCIO
    Octar e Rua tinham outro irmão chamado Mundiuch, inferior na hierarquia social. Mundiuch se tornou
    importante porque foi o pai dos dois futuros governantes hunos, Átila e Bleda. Não se sabe quase nada a
    respeito da infância de Átila, embora se suponha que tenha nascido em 406. O que se sabe é que, na
    adolescência, teve um amigo romano que mais tarde seria seu rival, e essa é uma história fascinante.
    Flavius Aécio nasceu em 396. Chamado por historiadores mais recentes de “o último dos romanos”,
    Aécio era um homem que nasceu fora do tempo, um idealista que alimentava a antiga glória de Roma,
    mas precisou tomar decisões pragmáticas num mundo muito diferente, no qual eram os bárbaros e não os
    romanos que davam o tom. Os romanos tentaram dividir e governar com os hunos e os godos, usando uns
    como aliados para combater os outros e vice-versa. Para consolidar essas alianças ad hoc, era comum
    oferecer reféns bem nascidos como garantia contra a traição. Como parte de um desses negócios, Aécio,
    então com 12 anos, foi enviado como refém para Alarico, o formidável líder visigodo que saqueou Roma
    em 410. Logo depois disso, Roma fazia uma aliança com os hunos e Aécio foi novamente enviado, desta
    vez para o acampamento huno.
    Muito inteligente, Aécio usou bem o período que passou com os hunos, aprendendo seus segredos, seu
    jeito de ser, encontrando brechas em sua couraça militar. A lenda diz que ele agia como irmão mais velho
    do jovem Átila e que os dois caçavam juntos nas florestas da Hungria. Aécio ocupou pela primeira vez o
    centro da cena política quando o imperador Ocidental Honório morreu em 423. No vácuo político,
    quando os pretendentes lutaram entre si pelo trono imperial, Aécio apostou no homem errado. Seu
    candidato, João, parece ter oferecido a batalha prematuramente, antes que Aécio pudesse se juntar a ele.
    Foi derrotado por seu rival Valenciano e executado. Aécio então travou contato com a segunda grande
    personagem em sua carreira, a irmã de Honório, Galla Placidia, que estava determinada a instalar seu
    filho Valenciano como imperador no Ocidente. Aécio havia feito planos para ganhar o trono para João e
    chegou à Itália com um exército enorme de hunos, embora o número de 60 mil, mencionado nas antigas
    fontes, seja um grosso exagero. Galla Placidia não queria empenhar um exército de hunos e então
    “perdoou” Aécio, sob a condição de que ele se afastasse para suas propriedades na Gália. Valenciano
    ficou como o imperador testa-de-ferro, mas o verdadeiro poder no Ocidente, entre os anos 425 e 450,
    estava com a própria Galla Placidia. Reconhecendo o talento de Aécio, Galla Placidia sugeriu uma
    divisão de poderes na qual ela tomava, na verdade, todas as decisões administrativas e políticas,
    enquanto Aécio ficava a cargo das militares.

    AS BASES PARA A AUTOCRACIA DE ÁTILA
    Não temos histórias ou outros testemunhos sobre a carreira de Átila antes de 434, mas é razoável supor
    que ele tenha treinado para ser um guerreiro poderoso e hábil no manuseio das armas. Podemos, até certo
    ponto, entrar em sua mente, fazendo uma leitura de trás para frente, a partir dos acontecimentos mais
    recentes em direção aos prováveis processos mentais durante seus anos de formação. Sob o governo de
    Octar e Rua, aconteceram mudanças significativas que fincaram as bases para a posterior autocracia de
    Átila. Primeiramente, a multiplicidade de chefes de clãs abriu caminho para a idéia de um governante ou
    uma dupla de governantes no comando da confederação. Átila percebeu como esse sistema era frágil e
    como os distantes chefes hunos do mar Cáspio poderiam ser arruinados pelo ouro romano, de forma que
    qualquer movimentação feita propositalmente pelos hunos de sua nova base na Hungria poderia gerar
    uma resposta dos romanos, passando a incitar uma revolta no Oriente. Em segundo lugar, estava claro que
    os hunos não eram mais tão dependentes dos rebanhos e os dias em que comercializavam peles, carne e
    animais, tinham dado lugar a uma nova era “monetária”, em que recebiam dinheiro para oferecer ajuda
    militar e servir como mercenários. Em terceiro lugar, era evidente para Atila que o Império Huno,
    estendendo-se do Cáucaso até a Dinamarca, era demasiado grande para ser efetivamente controlado; a
    eterna falta de efetivo militar entre os hunos significava que as áreas distantes, aquelas que tinham mais
    probabilidade de se rebelar, não poderiam ser defendidas por hunos leais, mas por tropas aliadas –
    justamente aquelas que apresentavam mais possibilidade de revolta. A comida também era um problema.
    Rua e Octar tentaram resolver essa escassez seqüestrando camponeses e agricultores de suas terras
    nativas e colocando-os para trabalhar na nova região central dos hunos, ao norte do Danúbio. Alguma
    coisa de mais permanente também era necessária naquela área. Por fim, Átila tinha consciência das
    limitações da Hungria como base dos hunos. A planície húngara (cerca de 42.400 quilômetros quadrados)
    oferecia menos de 4% dos pastos disponíveis na Mongólia. Para se ter uma idéia, oferecia terras de
    pastagem para 320 mil cavalos, mas para dar lugar a outros animais, o verdadeiro número era de 150 mil.
    Se cada guerreiro precisasse de dez cavalos para uma campanha militar – o que era comum – isso
    significava que a Hungria podia agüentar apenas dez mil guerreiros.
    Foi o gênio de Átila a determinar que ele superasse Octar e Rua e percebesse que empregar os hunos
    como mercenários era um jogo insensato a curto prazo. A fim de fornecer o contingente excedente para
    um grande número de guerreiros, os cavaleiros que antes eram nômades teriam de se tornar um
    empreendimento permanente obrigatório, que não podia funcionar nas estepes com sua economia de
    subsistência. No entanto, fincados entre os Impérios Ocidental e Oriental, o que poderia evitar que os
    hunos exigissem dinheiro com ameaças de ambas as partes do Império? Se Átila pudesse fazer uma
    grande “reviravolta”, teria os recursos para erguer o poderio huno e elevá-lo a superpotência. Ele
    poderia ainda subornar toda a oposição dos chefes de clãs hunos rivais, cooptá-los e também atrair seus
    seguidores mais poderosos na Hungria, com prêmio em ouro. Apesar de ele próprio não nutrir interesse
    por dinheiro, conhecia o seu poder de deixar os homens presos a um governante. Ele poderia construir
    um tipo de feudalismo, em que os chefes subsidiários seriam generosamente pagos a fim de trazer a
    quantia arrecadada com os tributos para uma campanha de grande escala, recebendo por isso ainda
    grandes feudos. Octar e Rua só tinham feito dinheiro empregando o efetivo militar para os interessados.
    Ele ganharia com um gigantesco esquema fraudulento de proteção.
    Átila é certamente a primeira manifestação clara da mentalidade mafiosa na história. Da maneira como
    enxergava as coisas, os romanos não tinham escolha a não ser pagá-lo. Para eles, organizar operações
    militares eficientes contra os hunos era simplesmente difícil demais. Havia vários motivos para isso. Em
    virtude de os hunos se deslocarem freqüentemente de um lugar para outro, nunca podiam ser pegos e
    poderiam simplesmente sair do raio de ação do anfitrião inimigo. Além disso, não havia incentivo para
    que os romanos fizessem um esforço total. Os hunos não tinham utilidade enquanto escravos, pois não

    dispunham de conhecimentos agrícolas e não tinham valor comercial – por esse motivo, os romanos
    costumavam matar qualquer prisioneiro huno que estivesse em seu poder. Acima de tudo, o custo de
    enviar uma expedição contra os hunos era proibitivo; não havia saque ou pilhagem que compensasse as
    despesas, uma vez que, por definição, os nômades não moravam em cidades e nem acumulavam riquezas
    e posses que pudessem ser tomadas.
    Átila previu que poderia conseguir que os romanos pagassem dinheiro de proteção desde que ele não
    fosse demasiado ávido. A chave seria espalhar o terror do nome dos hunos por meio de atrocidades bem
    escolhidas e divulgadas, de forma que o inimigo se desse por vencido sem combater. Átila conhecia a
    escassez de combatentes entre os hunos e percebeu que ele simplesmente não podia se permitir enfrentar
    muitas batalhas intensas; seja vencendo ou sendo derrotado, perderia guerreiros demais.

    O ANTECEDENTE DE ÁTILA COMO “SENHOR DOS SOLDADOS”
    Átila ascendeu ao poder em meados de 430, mas, para dar um sentido aos acontecimentos daquela
    década, é preciso voltar brevemente para Aécio. Ele desejava ser o “senhor dos soldados” (comandante
    supremo), mas Galla Placidia favoreceu primeiro um general chamado Felix, que foi assassinado em
    circunstâncias obscuras em 428. Havia agora apenas um homem que poderia deter a ascensão de Aécio
    ao poder supremo no Ocidente: o conde Bonifácio, governador da importante província da África do
    Norte. Era ele quem Galla Placidia, que nunca estava totalmente à vontade com Aécio, claramente
    favorecia. Conquistando uma posição proeminente por trazer seu exército da Gália para a Itália, Aécio
    convenceu a imperatriz regente de que Bonifácio estava preparando um golpe de Estado. Propôs que ela
    o trouxesse de volta para Roma a fim de ser investigado. Ao mesmo tempo, escreveu para Bonifácio
    advertindo-o a não vir, dizendo que Galla Placidia planejava assassiná-lo. Aécio era um mestre
    maquiavélico.
    Preocupado com sua posição instável na África do Norte, Bonifácio cometeu talvez a pior asneira já feita
    em toda a história de Roma. Na Espanha, a tribo germânica dos vândalos estava sendo fortemente
    pressionada pelos visigodos, mais poderosos e numericamente superiores. Seu governante altamente
    talentoso, Geiserico, há muito tempo pensava em emigrar com todo seu povo, a fim de ficar fora da órbita
    dos visigodos. De repente chegou o convite de Bonifácio para ir para a África do Norte como seu aliado.
    Numa proeza assombrosa, Geiserico transportou todo seu povo – 80 mil pessoas – através dos Estreitos
    de Gibraltar para a África do Norte. Mas ele não tinha nenhuma intenção de ser subserviente a Bonifácio,
    que lhe sugeriu dividir a África do Norte entre ambos; mas Geiserico a queria toda para si. Bonifácio
    percebeu tarde demais que tinha criado uma versão anterior do monstro de Frankenstein. Pediu ajuda a
    Constantinopla e os líderes de lá enviaram um guerreiro veterano, Aspar. Mas em 432, Geiserico
    derrotou de vez Aspar e Bonifácio. A África se tornou uma causa sem esperanças, perdida para o império
    simplesmente por causa da estupidez de Bonifácio. Aspar, Bonifácio e os romanos derrotados partiram
    para a Itália. Percebendo que Aécio a tinha enganado, Galla Placidia nomeou Bonifácio comandante
    supremo. Aécio marchou para combatê-lo, mas foi duramente derrotado; Bonifácio acabou morrendo dos
    ferimentos recebidos na batalha.
    Aécio fugiu para seus amigos hunos e conseguiu o apoio de Rua depois de oferecer entregar-lhe a
    província de Pannonia Secunda. Rua era agora o único rei, uma vez que Octar havia morrido em 432.
    Com o apoio dos hunos, Aécio era invencível, e assim finalmente Galla Placidia, relutante, aceitou-o

    como o verdadeiro poder no Império Ocidental. Aécio passou os anos 430 defendendo o domínio gaulês-
    romano na Gália central, onde enfrentava três grupos de inimigos. Em cada lado do Reno havia a

    poderosa tribo dos burgundianos, com 80 mil pessoas e a capital em Worms; no noroeste (onde,
    aproximadamente, fica a moderna Bretanha) estava o reino bagaudae, um tanto bagunçado, um tipo de
    refúgio de todos os despossuídos do Império: bandidos, brigantes, escravos fugitivos liderados por um
    homem chamado Tibatto, um certo tipo de Espártaco mais recente; finalmente, no sudoeste, sediados em
    Toulouse, estavam os extremamente poderosos visigodos, que tinham vindo para o norte, procedentes da
    Espanha.
    Rua permitiu que Aécio recrutasse hunos aos milhares e, usando-os como linha de frente, conseguiu
    abater seus inimigos na Gália. Os burgundianos pareciam imaginar que poderiam fazer com Aécio o que
    Geiserico fizera a Bonifácio na África do Norte. Penetraram na Bélgica em 435, mas foram detidos por
    Aécio. Determinado a acabar com eles de uma vez por todas, ele lançou, em 437, um poderoso exército
    de mercenários hunos contra os burgundianos. Os hunos acabaram com eles, os quais, segundo se afirma,
    perderam 20 mil de seus combatentes naquele ano. No final de 437, Aécio mandou os hunos atacarem os
    bagaudae, mas essa campanha foi gradualmente se enfraquecendo até virar um xeque-mate. Por fim,
    Aécio se concentrou em seus inimigos mais terríveis, os visigodos do sudoeste, sob seu rei Teodorico.
    Ferozes combates travados em 439 resultaram na derrota dos hunos, mas o histórico de suas batalhas
    contra os visigodos nunca tinha sido bom. No entanto, Aécio efetivamente usou os hunos entre 433 e 439
    para apoiar a posição dos gauleses e dos romanos na Gália, que não era das melhores. A amizade de Rua
    com Aécio era maior que o interesse próprio dos hunos, que tinham poucas chances de demonstrá-lo, com
    exceção do pagamento mercenário. Foi esse aspecto da política huna praticada por seus antecedentes que
    deixou Átila tão enfurecido.
    Enquanto Aécio se tornou de longe o poder dominante no Império Ocidental, Rua começou a ameaçar
    Constantinopla, sabendo que o grosso de suas forças tinha sido destinado a um empreendimento conjunto
    dos Impérios Ocidental e Oriental para reconquistar a África do Norte dos vândalos. Ambos os
    imperadores Oriental e Ocidental, concordaram que a ameaça de Geiserico era séria e quando ele
    consolidou suas conquistas na África do Norte, tomando o último baluarte imperial em Cartago, o sentido
    da urgência se intensificou. As exigências de Rua a Constantinopla eram modestas: simplesmente o
    retorno de várias tribos que tinham preferido a proteção e os serviços imperiais sob o manto bizantino
    (Império Oriental) ao seu próprio governo. Mas Rua morreu de repente em 440, e Átila aproveitou a
    oportunidade. Embora Rua e Octar tivessem um quarto irmão (não era o pai de Átila), que supostamente
    seria o aparente herdeiro do Império Huno, Átila e seu irmão Bleda tomaram o poder.
    A ASCENSÃO DE ÁTILA AO PODER
    Os detalhes sobre a ascensão de Átila sob Rua, no final dos anos 430, não são claros, mas parece que
    Rua tenha dado considerável liberdade de movimento ao mais jovem, para que ele expandisse e
    consolidasse o Império Huno, que agora se estendia dos Alpes ao Báltico e do leste do Reno até o mar
    Cáspio. Os detalhes sobre Bleda são ainda mais escassos, mas parece que tenha sido um blefe, um
    homem alto, beberrão e hedonista, enquanto Átila era baixo, calculista e enxergava longe; o prazer contra
    os negócios. Também ouvimos falar de diferenças em relação à política externa, com Bleda contrário à
    “política avançada” de Átila, o que fazia sentido, porque um hedonista não tem tempo para promover
    campanhas militares sempre. Como era o irmão mais velho, Bleda tinha uma leve precedência, embora
    oficialmente os dois irmãos fossem reis associados. É evidente que, sob vários aspectos, Átila achava
    maçante o gosto de Bleda pela bebida; sabemos de sua antipatia em relação ao anão mouro Zerco,
    mantido por Bleda como um tipo de comediante da corte – ou, como diriam alguns, um mascote muito
    torturado. Dizia-se que só a visão de Zerco já enojava Átila, que o via como a visível tradução da
    estupidez e insignificância de Bleda.

    Naquela época, o imperador em Constantinopla era Teodósio, um apaziguador natural, mas traiçoeiro,
    que prometia coisas em tratados e depois não os cumpria. Átila cismou com a falta de retaliação de Rua,
    quando Teodósio deixou de cumprir um tratado que havia assinado com os hunos, em 435. Ele deveria ter
    pago um tributo em ouro e mandado de volta todos os refugiados que Rua requeria. De fato, ele enviou de
    volta alguns prisioneiros sem importância, reteve todos os que tinham valor e não pagou nenhuma onça de
    ouro. Átila estava determinado a mudar as coisas quando ele fosse rei. O ano de sua ascensão, 440, foi
    sensacional, com acontecimentos arrebatadores desde o mar Cáspio até os Estreitos de Gibraltar.
    Naquele ano, Roma e Constantinopla colaboraram para formar uma grande força de 100 mil combatentes,
    para a reconquista da África do Norte das mãos dos vândalos. Quando esse exército ainda fazia os
    preparativos finais para embarcar da Sicília, espalhou-se o boato de que os persas tinham invadido a
    Armênia, no extremo leste do Império Bizantino. Um ponto de interrogação pairou inicialmente sobre a
    expedição siciliana, pois provavelmente os romanos não poderiam lutar em duas frentes, mas então veio
    a ajuda da região mais inesperada.
    Os chamados hunos brancos, aqueles que originalmente derrotaram os alanos, eram independentes de
    Átila e viviam em torno do mar de Arai, eles então lançaram um ataque contra o Império Persa que
    obrigou os persas a abandonar correndo a Armênia. Inacreditavelmente, o ataque dos hunos brancos foi
    uma incursão espontânea e não um divertimento comprado pelo ouro bizantino. Pensando que estavam
    acidentalmente fora de perigo, os comandantes da expedição africana retomaram seus preparativos de
    última hora na Sicília.
    Desejoso de estabelecer seu modo de agir e mostrar ao Império Oriental que uma nova era estava por
    começar, de repente, Átila teve um pretexto quase milagroso para ir à guerra. Ele e seu irmão se reuniram
    com os representantes de Constantinopla para conversações fora da cidade de Margus, no Danúbio (na
    alta Moesia). Como era de costume, os hunos fizeram todas as reuniões montados sobre seus corcéis, de
    forma que os irmãos negociaram a cavalo; para salvar as aparências, os bizantinos fizeram o mesmo. No
    tratado de 435, Teodósio prometeu a Rua pagar-lhe 350 libras de ouro anuais, mas, na prática, nunca
    pagou um centavo. Átila explicou que os tempos estavam mudando, dobrando o “imposto” para 700 libras
    e advertindo que a mais leve falta de pagamento significaria fogo e espada. Também sublinhou que a
    questão dos refugiados teria de ser resolvida rapidamente e que não toleraria uma solução conciliatória
    para o problema; por fim, os mercados romanos deveriam ser abertos para os hunos. Átila queria
    pressionar para obter termos ainda mais duros, mas Bleda passou por cima dele. Foi então que Átila teve
    seu golpe de sorte.
    O bispo de Margus, um desses prelados do mundo que colocam o ouro em primeiro lugar e Deus em
    segundo, entrou no território huno e profanou alguns túmulos em sua busca insana pelo metal dourado. Em
    retaliação, no inverno de 440-441, os hunos, admitidos em um mercado romano, tomaram de repente suas
    armas, mataram os sentinelas e todos os negociantes romanos e apossaram-se da fortaleza próxima. Átila
    e Bleda anunciaram então que, a não ser que todos os refugiados, mais o bispo de Margus, não fossem
    imediatamente entregues, isso constituiria uma declaração de guerra por parte dos romanos. O bispo de
    Margus, temendo com razão que Constantinopla fosse sacrificá-lo para evitar a guerra com os hunos,
    negociou seu próprio acordo com Átila: em troca de sua vida e segurança, ele lhe entregaria sua cidade.
    Isso foi aceito e Margus cumpriu devidamente o que havia negociado, mas Átila estava agora numa
    posição hostil, determinado a fazer pressão sobre a questão dos refugiados.

  60. Eric Carvalho disse:

    Guerras Napoleônicas

    (português brasileiro) ou Guerras Napoleónicas (português europeu) foi uma série de conflitos colocando o Império Francês, liderado por Napoleão Bonaparte, contra uma série de alianças de nações europeias. Essas guerras revolucionaram os exércitos e táticas das nações da Europa, com grandes tropas sendo deslocadas para o combate de forma nunca antes vista no continente, acontecendo devido a algumas das primeiras conscrições em massa modernas. Este conflito foi uma continuação direta das chamadas Guerras Revolucionárias, que começaram em 1792 durante a Revolução Francesa. Inicialmente, o poderio da França cresceu exponencialmente, com os exércitos de Napoleão conquistando boa parte da Europa. No total, o imperador francês lutou em mais de sessenta batalhas e perdeu muito poucas, a maioria no fim da sua carreira.[1] O poder francês no continente foi quebrado logo após a desastrosa invasão da Rússia em 1812. Napoleão foi derrotado em 1814 e enviado para o exílio na ilha de Elba, na costa da Itália; ele, contudo, alguns meses mais tarde, conseguiu escapar, marchou em Paris e retomou o poder na França, apenas para ser novamente deposto, em 1815, após a fracassada Batalha de Waterloo. O imperador francês foi novamente exilado, desta vez na distante ilha de Santa Helena, onde viria a morrer em 1821.

    O conflito viu uma série de Coalizões anti-Bonapartistas, formadas por diversas nações europeias como o Reino Unido, a Áustria, a Rússia e a Prússia, se erguendo contra o Império Francês. Os franceses, contudo, foram capazes de vencer cinco das sete coalizões que se levantaram contra eles. As primeiras duas aconteceram ainda no contexto das guerras revolucionárias francesas e terminaram como uma vitória da França. Já a terceira, a quarta e a quinta coalizões foram derrotadas por Napoleão com ele já no comando total do país. Estas vitórias deram ao Grande Armée francês e ao seu imperador uma fama de invulnerabilidade, especialmente quando estes marcharam até Moscou, antes de ter que abandonar esta cidade. Com a derrota sofrida na Rússia, em 1812, onde os franceses foram sobrepujados pelo poderoso inverno russo, o exército napoleônico não conseguiu se erguer novamente e se tornou uma sombra do seu antigo poderio. Então a sexta coalizão europeia se levantou novamente contra a França e derrotou Napoleão na decisiva Batalha de Leipzig e depois avançaram sobre o norte e leste da França, marchando em Paris em meados de 1814. No ano seguinte, durante a Guerra da Sétima Coalizão, os franceses foram derrotados, desta vez de forma definitiva, na Batalha de Waterloo. Vitoriosas, as potências europeias começaram a redesenhar o mapa do continente com as fronteiras de antes de 1789, através do Congresso de Viena.

    As guerras napoleônicas tiveram um impacto significativo no cenário geopolítico europeu, como no dissolvimento do Império Romano-Germânico, e fez ascender novas ondas de patriotismo e nacionalismo pelo continente, que ajudaram os processos de reunificação na Alemanha e Itália ao final do século XIX. O outrora poderoso Império Espanhol entrou em rápido declínio após a ocupação francesa, abrindo caminho para revoluções por independência em toda a América espanhola. Assim, o Império Britânico se tornou a maior potência mundial, de forma incontestável, pelas próximas décadas, dando início a chamada Pax Britannica.[2]

    Há discórdia entre acadêmicos e historiadores a respeito de quando as guerras revolucionárias francesas terminam e as Guerras Napoleônicas começam de fato. A chegada de Napoleão Bonaparte ao poder na França aconteceu em 9 de novembro de 1799 e em 18 de maio de 1803 a guerra entre franceses e britânicos recomeçou a todo vapor, após um período de curta paz firmada no Tratado de Amiens. Grandes combates pelo continente europeu terminaram após a derrota final de Napoleão em junho de 1815, embora algumas lutas de pequena intensidade ainda estivessem acontecendo. O Tratado de Paris formalmente encerrou as guerras em 20 de novembro de 1815.

  61. Eric Carvalho disse:

    ntecedentes (1789–1802)
    Ver artigos principais: Revolução Francesa, Guerras revolucionárias francesas, Primeira Coalizão e Segunda Coalizão
    Notícias dos acontecimentos da Revolução Francesa de 1789 foram recebidas com grande alarde pelas lideranças políticas nos países pela Europa, o que só piorou quando eles souberam da prisão e execução do rei Luís XVI de França. A primeira tentativa de esmagar a recém nascida República Francesa veio em 1793 quando o Império Austríaco, o Reino da Sardenha, o Reino de Nápoles, o Reino da Prússia, Espanha e o Reino da Grã-Bretanha formaram a chamada Primeira Coalizão. Os franceses tomaram várias medidas, incluindo conscrições em massa (levée en masse), reformas militares e uma política de guerra total, que acabaram contribuindo para a vitória e sobrevivência da República. Ainda assim, o conflito interno persistiu e se tornou uma guerra civil aberta. A Guerra da Primeira Coalizão terminou quando o jovem general Napoleão Bonaparte derrotou os austríacos na Itália e chegou as portas de Viena, impondo a Áustria o Tratado de Campoformio. Em 1797, apenas a Inglaterra continuava oficialmente em guerra contra a França.[3]

    Porém, em 1798, a Segunda Coalizão foi formada contra a França e era composta novamente pela Áustria, Reino Unido, Nápoles, o Império Otomano, os Estados Papais, Portugal, o Império Russo, a Suécia e alguns outros países. Durante a Guerra da Segunda Coalizão, a República Francesa sofria com corrupção e divisões internas sob o governo do Diretório (cinco directeurs que detinham o poder executivo total). A economia francesa estava em frangalhos e não tinha mais os serviços de Lazare Carnot, o ministro da guerra que havia supervisionado as campanhas bem sucedidas no exterior após uma reforma nas forças armadas na década de 1790. O general Bonaparte, principal arquiteto da vitória contra a primeira coalizão, lançou uma incursão militar no Egito. Na Europa, a França sofria com derrotas e privações. O principal instigador e financiador da guerra era a Inglaterra, velha rival do país.[3]

    Bonaparte retornou do Egito em 23 de agosto de 1799 e tomou controle do governo a 9 de novembro do mesmo ano no Golpe de 18 de brumário, que derrubou o Diretório e formou o chamado Consulado, liderado por Napoleão. Sob sua liderança, o exército francês se rearmou e foi reorganizado. Uma força de reserva também foi mobilizada para futuras campanhas além do Reno e na Itália.[4]

    Em todas as frentes, os franceses, sob a liderança de Napoleão, começaram a avançar e empurraram os austríacos para longe do seu território e também afastaram a ameaça da Rússia. Na Itália, Bonaparte derrotou os austríacos novamente nas batalhas de Marengo e Hohenlinden em 1800. Derrotada, a Áustria assina o Tratado de Lunéville (9 de fevereiro de 1801). Agora isolado, o Reino Unido foi forçado a assinar o Tratado de Amiens com a França.[4]

    Data de início e nomenclatura
    Não há consenso sobre quando as guerras revolucionárias francesas terminaram e as guerras napoleônicas começaram. As datas para o começo do conflito são debatidas entre 9 de novembro de 1799, quando Napoleão tomou o poder no 18 de brumário;[5] ou em 18 de maio de 1803, quando a Grã-Bretanha encerrou o período de paz que firmou com a França. Outra data debatida é 2 de dezembro de 1804, quando Bonaparte se coroou imperador.[6]

    Historiadores britânicos se referem ao período quase contínuo de guerras de 1792 a 1815 como a “Grande Guerra Francesa”, ou como a fase final da Segunda Guerra dos Cem anos, que teria ido de 1689 a 1815.[7]

    Na França, as Guerras Napoleônicas são geralmente integradas com as Guerras Revolucionárias Francesas (Les guerres de la Révolution et de l’Empire).[8]

    Táticas de Napoleão
    Napoleão foi, e ainda é, reconhecido por suas vitórias nos campos de batalha. Historiadores e analistas militares há muito tempo estudam seus feitos.[9] Em 2008, Donald Sutherland escreveu:

    “A batalha ideal Napoleônica era manipular o inimigo a uma posição infavorável através de manobras e ardis, forçando ele a mandar suas principais forças e reservas para a batalha principal e depois realizar um ataque envolvente com as tropas não comprometidas ou reservas no flanco ou por trás. Tal ataque surpresa ou daria um duro golpe na moral inimiga ou o forçaria a quebrar suas linhas. Ainda assim, a própria impulsividade do inimigo começava o processo onde um pequeno exército francês poderia derrota-los um a um”.[10]

    Após 1807, Napoleão criou uma força de artilharia bem armada e altamente móvel. O imperador francês, ao invés de contar com sua infantaria para enfraquecer as linhas inimigas, ele agora usava artilharia pesada para enfraquecer o inimigo. Uma vez que a posição inimiga estava amaciada, a infantaria e a cavalaria avançavam em peso.[11]

  62. Eric Carvalho disse:

    O Reino Unido não estava feliz com várias ações tomadas pela França após a assinatura do Tratado de Amiens. Napoleão Bonaparte havia anexado Piemonte e a Ilha de Elba, e se proclamou presidente da República Italiana, um Estado criado pela França. Os franceses também interferiam bastante nos assuntos comerciais britânicos, apesar dos acordos de paz. Paris também reclamava que a Grã-Bretanha ainda dava abrigo a certos indivíduos e não calava a imprensa antiFrança do país.[12]

    A ilha de Malta havia sido capturada pelos britânicos durante a Guerra da Segunda Coalizão e esse assunto foi tratado em um complexo acordo estipulado pelo 10º artigo do Tratado de Amiens onde a Ordem de São João foi restaurada com uma guarnição napolitana. Contudo, o enfraquecimento da Ordem através do confisco de seus bens na França e Espanha, além de outros atrasos, evitaram que os britânicos pudessem se retirar da ilha nos três meses estipulados pelo tratado.[12]

    A República Helvética foi estabelecida pela França quando eles invadiram a Suíça em 1798. Os franceses retiraram suas tropas, mas violentas revoltas aconteceram contra o governo, que muitos suíços viam como centralizado demais. Alarmado, Bonaparte reocupou o país em 1802 e impôs um acordo de mediação. Esta ação causou ultraje na Grã-Bretanha, que protestou afirmando que este ato violava o Tratado de Lunéville. Embora as potências continentais não estivessem preparadas para agir, os britânicos decidiram enviar um agente para ajudar os suíços a obter suprimentos e deu ordens para as suas forças armadas não devolverem a Colônia do Cabo para a Holanda, como eles haviam prometido no Tratado de Amiens. Contudo, a resistência suíça acabou entrando em colapso antes de qualquer mudança significativa nas políticas internacionais e depois de um mês os ingleses decidiram revogar a ordem de não entregar a Colônia do Cabo. Ao mesmo tempo, a Rússia também entrou nas discussões sobre a ilha de Malta. Preocupada com a possibilidade de recomeço das hostilidades quando Bonaparte descobrisse que a Colônia do Cabo não havia sido retida, os britânicos começaram a deliberadamente procrastinar sua evacuação de Malta. Em janeiro de 1803, um artigo oficial do governo francês publicou um relatório de um agente comercial que dizia com quanta facilidade a França havia conquistado o Egito. Os britânicos usaram isso como motivo para exigir algum tipo de satisfação e segurança antes de evacuar Malta, que podia ser usado como rota para o Egito. A França negou qualquer intenção de tentar anexar o Egito e perguntou que tipo de garantias os ingleses precisavam, mas estes não responderam. Ainda não havia um interesse das partes em recomeçar as hostilidades, com o primeiro-ministro Henry Addington afirmando publicamente que a Grã-Bretanha estava em um profundo estado de paz.[12]

    No começo de março de 1803, o governo de Addington recebeu a notícia de que a Colônia do Cabo havia sido reocupada pelo Exército Britânico, de acordo com as ordens dadas. No dia 8, novas ordens foram passadas aos militares para se prepararem para uma retaliação francesa, mas a propaganda estatal afirmou falsamente que isso era uma resposta as preparações que os franceses estavam fazendo e que negociações com Paris estavam sendo feitas. Napoleão reagiu repreendendo o embaixador britânico na frente de 200 espectadores a respeito das preparações militares não justificadas do seu país.[12]

    O governo do primeiro-ministro inglês, Henry Addington, sabia que haveria uma investigação para saber se o motivo das recentes preparações militares eram justificadas ou não. Durante o mês de abril ele tentou, sem sucesso, buscar apoio de William Pitt para se blindar de qualquer dano político.[12] Nesse mesmo período, o governo britânico fez um ultimato a França, exigindo a retenção de Malta por pelo menos dez anos, a permanente aquisição da ilha de Lampedusa do Reino da Sicília e a evacução da Holanda. Em retorno, eles reconheceriam as conquistas territoriais francesas na Itália, se Napoleão se retirasse da Suíça e recompensasse o Reino da Sardenha por suas perdas territoriais. A França ofereceu, em contra partida, colocar a ilha de Malta em mãos russas, para aliviar as preocupações britânicas, se retirar da Holanda, uma vez que a saída inglesa de Malta estivesse concluída, e formar uma convenção para dar satisfação ao Reino da Grã-Bretanha em outros temas. Porém os britânicos falsamente afirmaram que a Rússia nunca se ofereceu e o seu embaixador deixou Paris.[12] Ainda tentando evitar uma guerra, Bonaparte tentou fazer um acordo secreto com os ingleses onde estes poderiam se manter em Malta se aos franceses fosse permitido ocupar a península de Otranto, em Nápoles. Porém todos os esforços foram infrutíferos e a Inglaterra oficialmente declarou guerra a França em 18 de maio de 1803.[13]

    Em 1804, Napoleão foi coroado Imperador dos Franceses. Sua ascensão não foi diretamente reconhecida por nenhuma potência europeia.[14]

    Guerra entre o Reino Unido e a França (1803–1814)
    Motivações britânicas
    Os britânicos terminaram sua paz fraca criada pelo tratado de Amiens quando declarou guerra a França em maio de 1803. O governo do Reino da Grã-Bretanha estava ficando cada vez mais irritado com Napoleão alterando a ordem política na Europa Ocidental, especialmente na Suíça, na Alemanha, na Itália e na Holanda. O acadêmico Frederick Kagan diz que os britânicos estavam insultados e alarmados com o controle de Napoleão sobre o território suíço. O líder francês falou que os ingleses não tinham nada a dizer a respeito dos acontecimentos na Europa continental e queria interromper a circulação de jornais ingleses que difamavam Napoleão.[15]

    A Grã-Bretanha imaginava estar perdendo o controle político e sua hegemonia, além da perda de mercados, e se preocupava que Napoleão iria tentar ameaçar suas colônias fora do continente europeu. O autor Frank McLynn afirma que a decisão britânica de ir a guerra contra a França em 1803 foi uma “mistura de motivações econômicas e neurose nacional – uma ansiedade irracional sobre os motivos e intenções de Napoleão”. Contudo, McLynn argumenta que, no longo prazo, a decisão de fazer guerra foi correta, pois as intenções de Napoleão eram hostis e iam de encontro aos interesses britânicos. Além disso, Bonaparte não estava preparado para a guerra naquele momento e era o melhor período para os britânicos irem a ofensiva. A Inglaterra então tomou conta de Malta, se recusando a acatar os termos do tratado de Amiens.[16]

    O maior medo dos britânicos era que Napoleão estaria tomando controle da Europa, tornando o sistema internacional instável e excluindo a Grã-Bretanha do cenário político.[17][18][19][20]

    Muitos acadêmicos afirmam que a postura agressiva de Napoleão fez dele inimigo de muitos países e lhe custou aliados.[21] Em 1808 os franceses já estavam em controle de boa parte da Europa continental, mas o conflito constante com a Inglaterra levou a Guerra Peninsular e a Campanha da Rússia, onde muitos afirmam que foram erros de cálculo de Napoleão.[22][23][24][25][26]

    Nunca houve uma tentativa séria de encerrar um conflito por meio de um acordo de paz. O pedido mais relevante foi feito por Charles James Fox, secretário de relações exteriores inglês, em 1806 e terminou em fracasso. Os britânicos queriam reter suas possessões coloniais no exterior e ainda manter Hanôver sob seu controle, e em retorno reconheceriam as conquistas territoriais francesas. Os franceses aceitaram deixar aos ingleses Malta, Colônia do Cabo, Tobago e a Índia Francesa, mas queriam a Sicília em troca da restauração de Hanôver, uma condição que os britânicos recusaram.[27]

    Ao contrário dos seus aliados nas Coalizões, o Reino da Grã-Bretanha esteve sempre em guerra contra a França no curso das Guerras Napoleônicas. Protegidas por sua superioridade naval, os britânicos travaram poucas batalhas terrestres contra a França no curso da década, preferindo travar guerra por procuração. O governo britânico gastou enormes quantidades de dinheiro para apoiar outros Estados europeus guerrearem contra Napoleão, chegando a pagar por exércitos inteiros. Foi dinheiro inglês, por exemplo, que manteve viva a rebelião espanhola na Guerra Peninsular (1808–1814), apoiando os guerrilheiros. Uma força Anglo-portuguesa, liderada por Arthur Wellesley, apoiada pelos espanhóis, realizaram uma campanha bem sucedida por terra para expulsar os franceses da Espanha, dando a Inglaterra a oportunidade de invadir a França pelo sul. Em 1815, o exército britânico venceu as tropas de Napoleão em Waterloo.[28]

    Além de algumas pequenas batalhas navais travadas em alguns cantos do império colonial britânico, as guerras napoleônicas tiveram um aspecto global bem menor se comparado com a Guerra dos Sete Anos (1756–1763), que foi o primeiro conflito a ser caracterizado como uma “guerra mundial”.[29]

    Guerra econômica
    Em resposta ao bloqueio naval imposto pelos ingleses contra a costa francesa iniciado em maio de 1806, Napoleão firmou o Decreto de Berlim, em 21 de novembro do mesmo ano, que iniciou o Bloqueio Continental.[30] O objetivo era isolar a Grã-Bretanha economicamente ao tentar encerrar o seu comércio com o continente. O Reino Unido manteve um exército de 220 000 soldados profissionais no auge das Guerras Napoleônicas, onde apenas metade estavam disponíveis para campanhas, com o resto sendo alocado na Irlanda e em outras possessões coloniais inglesas pelo mundo para garantir sua proteção e que estas próprias não tentassem se rebelar. Cerca de 2,5 milhões de homens serviram nos exércitos napoleônicos (incluindo milícias e guardas nacionais). Muitos desdes soldados eram fornecidos pelos países satélites de Napoleão. O maior exército que ele conseguiu mobilizar para uma campanha foi de 685 000 homens para lutar na Rússia (em 1812), sendo que metade desta tropa eram franceses.[31]

    A marinha real britânica conseguiu impedir o comércio extra-continental francês — ao atacar navios franceses em alto-mar e até tomando pela força possessões coloniais francesas no exterior — mas não pode fazer muita coisa com as relações comerciais dentro do continente europeu. Além disso, a França tinha uma população bem maior que a do Reino Unido e também tinha uma agricultura muito maior. Contudo, a Grã-Bretanha tinha os maiores parques industriais da Europa e sua dominância militar nos oceanos garantiu que o país manteria sua riqueza através do comércio marítimo. Isso garantiu que a França não conseguiria manter a Europa sob seu controle pela paz, pois os países de lá sempre precisariam de bens e matérias primas encontradas fora do continente. Ainda assim, o governo francês acreditava que conseguiria enfraquecer a Inglaterra ao isola-la do continente e acabar com sua influência econômica na região.[32]

    Financiando o conflito
    Um fator importante para o sucesso britânico foi sua habilidade de mobilizar todos os recursos financeiros e industriais da nação para derrotar a França. O Reino da Grã-Bretanha tinha uma população de 16 milhões de pessoas, metade da população francesa (que era de um pouco mais de 30 milhões). Então, com uma população maior, é natural que a França tivesse um exército maior. Contudo, os britânicos compensavam isso ao subsidiar, através de empréstimos, as forças armadas de países como Áustria e Rússia, que tinham pelo menos 450 000 homens em armas em 1813.[31][33] Pelos termos do tratado Anglo-Russo de 1803, os britânicos pagariam ₤1,5 milhões de libras por cada 100 000 soldados que a Rússia conseguisse mobilizar.[34]

    Mais importante, a produção nacional britânica manteve-se forte e seu setor bem organizado de negócios canalizava a produção para as necessidades militares. O Reino Unido usou seu poder econômico para expandir a marinha real, dobrando o seu número de fragatas e aumentando em 50% o seu inventário de navios de linha, enquanto aumentava o número de marinheiros de 15 000 para 133 000 em oito anos após o começo das guerras contra a França em 1793. Os franceses, enquanto isso, viram sua marinha ser reduzida pela metade.[35]

    O Bloqueio Continental, que visava isolar a Inglaterra economicamente do restante do continente europeu, acabou fracassando devido a corrupção, contrabando e da dificuldade de impôr tal bloqueio a todos os portos da Europa continental. No final, a economia britânica sofreu pouco. Os subsídios britânicos a Rússia e a Áustria mantiveram estes países na guerra. O orçamento do governo britânico em 1814 chegou a £66,000,000 de libras, incluindo £10 milhões para a marinha de guerra, £40 milhões para o exército, £10 milhões em empréstimos aos aliados e £38 milhões em juros da dívida nacional. De fato, a dívida pública subiu para £679 milhões, o dobro do PIB nacional na época. Fundos vinham de investidores privados e impostos sobre os cidadãos. Um imposto que viu um acentuado crescimento foi o de terras e sobre novas rendas. O custo total da guerra foi estipulado em £831 milhões de libras. Em contraste, o sistema financeiro francês era inadequado e Napoleão se viu forçado a adquirir fundos e requisições nas novas terras conquistadas.[36][37][38]

  63. Eric Carvalho disse:

    uerra da Terceira Coalizão (1803)
    Ver artigo principal: Terceira Coalizão

    O navio britânico HMS Sandwich disparando contra o navio-almirante francês Bucentaure durante a Batalha de Trafalgar. O Bucentaure também parece lutando contra o HMS Victory e o HMS Temeraire. Na verdade, o HMS Sandwich não lutou em Trafalgar e sua presença nela foi um erro por parte do pintor Auguste Mayer, autor desta famosa imagem.[39]
    Em 1803, o Reino Unido reuniu seus aliados pelo continente para formar a Terceira Coalizão contra a França.[40][41] Em resposta, Napoleão contemplou invadir a Grã-Bretanha[42] e reuniu um efetivo de 200 000 homens na cidade de Bolonha para a operação.[43] Contudo, antes que ele pudesse autorizar uma invasão, ele precisava conquistar superioridade naval ou pelo menos afastar a esquadra britânica do Canal Inglês. Um complexo plano para distrair a marinha inglesa foi feito ao ameaçar as possessões coloniais britânicas nas Índias Ocidentais, mas fracassou quando a frota Franco-espanhola, sob comando do almirante Villeneuve, foi forçada a recuar após a mal sucedida batalha de Cabo Finisterra, a 22 de julho de 1805. A marinha britânica então bloqueou Villeneuve em Cádiz, na costa de Andaluzia (sul da Espanha), até ele partir para Nápoles em 19 de outubro. Por fim, a esquadra combinada da marinha francesa foi derrotada na decisiva batalha de Trafalgar, em 21 de outubro. O comandante da frota britânica, o almirante Horatio Nelson, morreu no combate. Napoleão então não veria outra oportunidade de desafiar o poderio inglês no mar, nem ameaçaria mais uma invasão das ilhas britânicas. Ele então voltou sua atenção para os inimigos no continente, que naquela altura estavam se mobilizando contra ele.[44]

    Situação estratégica na Europa em 1805 antes da Guerra da Terceira Coalizão.
    Em abril de 1805, a Rússia e o Reino Unido assinaram um tratado que visava remover a França da República Batava (atual Holanda) e da Confederação Suíça. A Áustria se juntou a aliança após a anexação da cidade de Gênova pelos franceses e a proclamação de Napoleão como Rei da Itália em 17 de março de 1805. A Suécia, que já havia concordado em emprestar a região da Pomerânia sueca como base militar para que as tropas britânicas atacassem a França, se juntou a coalizão em 9 de agosto.[45]

    Os austríacos foram os primeiros a partir para a ofensiva na guerra ao invadir a Baviera com um exército de 70 000 homens sob comando de Karl Mack von Leiberich. Napoleão então moveu seu exército, que estava estacionado na Bolonha, para confrontar os austríacos. Em Ulm (25 de setembro – 20 de outubro) Napoleão cercou as forças de Leiberich e forçou sua rendição, sofrendo pouquíssimas baixas no processo. Com o principal exército austríaco ao norte dos Alpes derrotado, os franceses marcharam em Viena. Então, afastado de suas linhas de suprimimento, Napoleão teve que enfrentar agora uma força austro-russa comandado pelo marechal Mikhail Kutuzov, acompanhado pelo imperador russo Alexandre I em pessoa. A 2 de dezembro, ele esmagou essa tropa, nas cercanias de Morávia, na Batalha de Austerlitz. Mesmo em menor número, Bonaparte infligiu cerca de 36 000 baixas ao inimigo (entre mortos, feridos e capturados), sofrendo apenas 9 000 dentre a sua própria tropa.[45]

    A rendição da cidade de Ulm aos franceses, em outubro de 1805.
    Derrotada, a Áustria não teve escolha se não sair da Coalizão e buscar a paz com a França. A 26 de dezembro de 1805 foi firmado o Tratado de Pressburg, que forçou os austríacos a ceder a região de Vêneto para o Reino de Itália (governado por Napoleão) e Tirol para a Baviera. Com a saída da Áustria da guerra, um impasse apareceu. Napoleão venceu diversas batalhas, mas o poderio completo do exército russo não havia sido testado, com o grosso de suas tropas ainda em seu território. Bonaparte agora tinha comando absoluto da França e havia expandido seu novo império ao conquistar a Bélgica, os Países Baixos, a Suíça e boa parte da Alemanha ocidental e o norte da Itália. Seus apoiadores afirmam que Napoleão pretendia encerrar suas conquistas ali, mas sua mão foi forçada a continuar lutando e ganhar novos territórios para o país a fim garantir a segurança nacional diante de países que se negavam a aceitar os seus feitos.[45] O escritor Esdaille, contudo, discorda e afirma, ao fim da terceira coalizão, as potências europeias estavam dispostas a aceitar Napoleão como ele era. O autor afirma:

    “Em 1806, tanto a Rússia quanto o Reino Unido possivelmente estava ansiosos para fazer paz e eles podiam até concordar com os termos apresentados e deixar intacto as conquistas de Napoleão. Já a Áustria e a Prússia queriam simplesmente serem deixadas em paz. Para firmar uma paz sólida, então, poderia até ser fácil. Mas… Napoleão não estava preparado para fazer concessões”.[46]
    Guerra da Quarta Coalizão (1806–1807)
    Ver artigo principal: Quarta Coalizão

    Napoleão em Berlim (Meynier). Após derrotar as forças prussianas em Jena, o exército francês marchou em Berlim em 27 de outubro de 1806.
    Alguns meses após o término da Terceira Coalizão contra a França, iniciou-se a Guerra da Quarta Coalizão (1806–07) formada pelo Reino Unido, Prússia, Rússia, Saxônia e Suécia para, novamente, lutar contra Napoleão. Em julho de 1806, Bonaparte formou a Confederação do Reno que firmou uma aliança entre vários pequenos Estados no coração da Alemanha, na região da Renânia, e no oeste do país. Ele amalgamou muitos pequenos países em um conjunto de ducados e reinos para fazer a governança de países na Alemanha não prussiana mais fácil. Napoleão elevou os governantes dos dois maiores reinos da Confederação, a Saxônia e a Baviera, para os status de rei.[47]

    Em agosto de 1806, o rei prussiano, Frederico Guilherme III, decidiu fazer guerra contra a França, independente da ajuda das outras potências. O exército russo, principal aliado da Prússia, em particular, estava longe demais. A 8 de outubro, Napoleão avançou com suas tropas para o leste do Reno e sobre a Prússia. Napoleão pessoalmente derrotou um exército prussiano na Batalha de Jena (14 de outubro de 1806), enquanto o marechal Louis Nicolas Davout também os derrotou na Batalha de Auerstedt no mesmo dia. No auge, cerca de 160 000 soldados franceses participavam da campanha contra a Prússia, usando sua mobilidade para derrotar o inimigo. Os prussianos conseguiam mobilizar até 250 000 soldados, sendo que eles sofreram 25 000 baixas, com outros 150 000 sendo feitos prisioneiros. Pelo menos 4 000 peças de artilharia e 100 000 mosquetes foram capturados. Em Jena, o combate não foi tão significativo. Mas em Auerstädt o grosso do exército prussiano foi destruído. Então, a 27 de outubro de 1806, Napoleão marchou em Berlim. Lá ele visitou a tumba de Frederico, o Grande e ordenou que seus marechais removessem seus chapéus quando entraram na tumba para reverencia-lo.[47]

    No total, levou apenas 19 dias para Napoleão subjugar a Prússia e entrar em Berlim. O ponto decisivo da campanha foi sua vitória nas batalhas de Jena e Auerstädt. A Saxônia decidiu então se afastar dos prussianos e, junto com vários Estados menores alemães, se aliaram de vez a França.[47]

    O ataque da Guarda Imperial Russa contra a infantaria francesa na Batalha de Friedland, em 14 de junho de 1807.
    No próximo estágio da guerra, os franceses lutaram para forçar os russos para fora da Polônia. Os nacionalistas poloneses imediatamente se levantaram em favor da França. Soldados alemães também ajudaram as tropas de Napoleão, principalmente em cercos militares nas regiões da Silésia e Pomerânia, com assistência também de soldados holandeses e italianos. Napoleão então virou-se para o norte para confrontar o que sobrou das tropas russas e para capturar a capital nova da Prússia em Königsberg. Após uma vitória contestada em Eylau (7–8 de fevereiro de 1807), Bonaparte conseguiu forçar a rendição da cidade de Danzig após um curto cerco (24 de maio de 1807). Outra vitória contestada veio na Batalha de Heilsberg (10 de junho de 1807), onde forçou os russos a recuar novamente. Uma vitória mais definitiva veio na Batalha de Friedland (14 de junho de 1807), onde conseguiu derrotar o grosso do exército imperial russo. Após esta derrota, o Czar Alexandre I da Rússia decidiu buscar a paz com a França e firmou então o Tratados de Tilsit (7 de julho de 1807). Na Alemanha e na Polônia, novos estados satélites de Napoleão, como o Reino de Vestfália, o Ducado de Varsóvia e a República de Danzig, foram estabelecidos.[47]

    Em setembro de 1807, o marechal Guillaume Brune completou a ocupação da Pomerânia sueca, permitindo ao exército sueco, contudo, fugir com toda a sua munição.[47]

    Impossibilitado de invadir a Inglaterra devido a superioridade naval desta, Napoleão impôs o Bloqueio Continental, proibindo os países do continente europeu de comercializar com o Reino Unido. Os britânicos responderam lançando uma grande ofensiva naval contra o aliado mais fraco da França, a Dinamarca. Apesar de declaradamente neutros, os dinamarqueses eram pressionados pelos franceses e russos para apoiar a frota de Napoleão. Londres não podia simplesmente ignorar a ameaça dinamarquesa. Em novembro de 1807, a marinha real britânica bombardeou a cidade de Copenhague, capturando a frota dinamarquesa, garantindo o fluxo de navios ingleses na região. A Dinamarca não lutou na guerra ao lado da França e agora com a perda de suas bases navais ficou ainda mais irrelevante no conflito.[48][49]

    Cavalaria polonesa atacando durante a Batalha de Somosierra, na Espanha, em 1808.
    No Congresso de Erfurt (setembro–outubro de 1808), Napoleão e Alexandre I concordaram que a Rússia deveria forçar a Suécia a se unir ao Bloqueio Continental, o que levou a Guerra Finlandesa de 1808–09 e a divisão do território sueco em duas partes no Golfo de Bótnia. A parte leste se tornou o Grão-Ducado da Finlândia, pertencente a Rússia.[47]

    Polônia
    Ver artigo principal: Ducado de Varsóvia
    Em 1807, Napoleão fortaleceu sua base de poder na Europa oriental. A Polônia sempre fora dividida pelos seus três vizinhos, mas Bonaparte criou o chamado Ducado de Varsóvia, mas este Estado se tornou muito dependente da França. O Ducado incorporava territórios que outrora pertenciam a Áustria e Prússia. Sua população era de 4,3 milhões e em 1814 enviou 200 000 homens para lutar ao lado de Napoleão, incluindo 90 000 que marcharam com ele até Moscou (a maioria não retornou).[50] Os russos fortemente se opuseram a ideia de uma Polônia soberana e independente, e isto foi um dos motivos que levou a França a invadir o Império Russo em 1812. O Ducado polonês foi dissolvido em 1815, após a queda de Napoleão. A Polônia só voltaria a ser um Estado independente em 1918.[51]

    A influência de Napoleão no território polonês (assim como em outros territórios ocupados e vizinhos) foi imensa, incluindo a implementação do código napoleônico, a abolição da servidão, e a introdução das burocracias que firmaram a classe média local.[52]

    Guerra da Quinta Coalizão (1809)
    Ver artigos principais: Quinta Coalizão e Guerra Peninsular

    A Rendição de Madri (Gros), 1808. Napoleão entrou na capital espanhola perto do auge da Guerra Peninsular.
    A Quinta Coalizão (1809) começou com uma aliança entre o Reino Unido e a Áustria contra a França, enquanto os ingleses instigavam a Guerra Peninsular com Portugal e a Espanha contra as tropas francesas de ocupação. Mais uma vez, os britânicos se tornaram a principal figura do conflito, tomando as maiores ações já que o principal teatro de operações contra Napoleão foi, inicialmente, no mar. A marinha do Reino Unido liderou uma série de operações bem sucedidas contra os franceses em suas colônias ultramarinas.[53]

    Em terra, a guerra da Quinta Coalizão viu menos movimentações militares que as anteriores. Uma delas foi a Expedição de Walcheren de 1809, que envolveu um esforço duplo do exército e marinha do Reino Unido para distrair as forças francesas no leste e aliviar a situação dos austríacos. Esta operação terminou em desastre quando o comandante, John Pitt, falhou em capturar seu objetivo, a base naval francesa na Antuérpia. Durante boa parte da guerra, as operações militares britânicas em terra (com exceção da Península Ibérica) viraram apenas ações isoladas executadas pela marinha real, que dominava os mares após ter derrotado boa parte da oposição naval por parte da França e seus aliados, bloqueando seus portos e bases navais e outras fortificações costeiras. Estas ações isoladas visavam interromper o trafego naval (civil e militar) francês, atrapalhando suas linhas de comunicação e suprimentos. Quando os países da coalizão tentavam lançar expedições perto da costa, a marinha britânica os ajudava pelo mar ou desembarcava tropas e suprimentos para eles.[47]

    Declaração de guerra feita por D. João a Napoleão Bonaparte e todos os seus vassalos, 1808. Arquivo Nacional.
    A guerra econômica continuava com o Bloqueio Continental imposto pela França contra o Reino Unido, proibindo o comércio da Europa com as ilhas britânicas. Devido a falta de suprimentos militares e má organização nos territórios controlados pela França, muitas brechas foram encontradas no bloqueio e muitos líderes em nações dominadas por Napoleão toleravam e até encorajavam o comércio contrabandista com os ingleses. Em termos de danos econômicos a Grã-Bretanha, o bloqueio foi majoritariamente ineficiente. Na verdade, implementa-lo era mais dispendioso para a França. Assim, Napoleão rapidamente percebeu que países como Espanha, Portugal e Rússia abertamente desrespeitavam seu bloqueio e invadi-los seria a única opção. Essas acabaram sendo decisões táticas erradas, pois o custo da ocupação do território espanhol e da ofensiva contra o Império Russo foram astronômicos e comprometeram um elevado número de vidas francesas e de aliados, o que acelerou a derrota de Napoleão.[54]

    Ambos os lados lançaram dispendiosas campanhas militares para forçar os seus bloqueios. Os britânicos travaram um conflito contra os Estados Unidos na Guerra anglo-americana (1812–15), enquanto os franceses travaram a Guerra Peninsular (1808–14) para manter a Espanha sob controle e impedir o comércio da Península Ibérica com a Inglaterra. O conflito ibérico começou quando Napoleão invadiu Portugal pois estes se recusaram a tomar parte do Bloqueio Continental e continuaram a comercializar com o Reino Unido. Quando o governo espanhol falhou em manter o sistema continental, a tênue aliança entre a França e a Espanha acabou terminando. Tropas francesas avançaram e tomaram grandes porções do país, incluindo a capital Madri, e instalaram um novo rei no poder, o próprio irmão de Napoleão, José Bonaparte. Isso levou a revolta da população local e uma onda de nacionalismo tomou conta da nação. Os britânicos intervieram, apoiando o movimento de guerrilha espanhola contra a ocupação francesa.[47]

    A situação estratégica na Europa em fevereiro de 1809.
    A Áustria, que estava em paz com a França, aproveitou-se do fato que os franceses estavam voltando sua atenção para a Espanha, decidiu reivindicar seu território perdido na Alemanha após sua derrota em Austerlitz (durante a guerra da terceira coalizão). O Império Austríaco conseguiu avançar bem inicialmente, já que as tropas do marechal Louis Berthier estavam espalhadas pela frente leste. Napoleão deixou cerca de 170 000 homens sob comando de Berthier para defender toda a Europa Oriental.[47]

    Após ver seu exército sofrer diversas derrotas na Espanha, Napoleão decidiu pessoalmente tomar conta da situação e liderou a contra-ofensiva, conquistando algum sucesso. Ele retomou Madri, derrotou o grosso do exército rebelde espanhol e forçou a retirada dos britânicos da Península Ibérica (Batalha de Corunha, 16 de janeiro de 1809). Mas quando Bonaparte partiu, uma campanha de guerrilha contra a ocupação francesa recomeçou em larga escala, terminando em milhares de mortos e forçando Napoleão a deixar para trás uma grande tropa (soldados que seriam úteis em outras frentes). Enquanto isso, o ataque austríaco no leste forçou Napoleão a desviar o olhar das forças britânicas devido a sua necessidade de partir para enfrentar a Áustria no coração da Alemanha. Os britânicos então enviaram Sir Arthur Wellesley com um novo exército para a Espanha, garantindo que a luta na região não parasse.[55]

    A guerra na Península Ibérica foi desastrosa para a França. Enquanto Napoleão comandava as tropas pessoalmente, a luta esteve bem. Mas quando ele deixou a Espanha, a situação voltou a desandar e o número de mortos se multiplicou. Bonaparte subestimou a quantidade de tropas que seria necessário para manter aquele país sob controle. No final, o território espanhol se tornou um beco sem saída, drenando dinheiro, recursos e soldados da França. O historiador David Gates chamou a Guerra Peninsular de a “Úlcera Espanhola”.[56] Uma vez afastado em definitivo do trono da França, Napoleão teria dito: “Aquela malfadada guerra me destruiu… Todas as circunstâncias dos meus desastres estão unidos por aquele fatal nó”.[57]

    Enquanto isso, os austríacos avançavam sobre o Ducado de Varsóvia (atual Polônia), mas acabaram sendo derrotados na Batalha de Raszyn em 19 de abril de 1809. O exército polonês, aliados dos franceses, tomaram então de volta a Galícia ocidental, após conquistarem mais sucessos.[53]

    De volta da campanha na Espanha, Napoleão então tomou controle das tropas no leste e levou seu exército para lançar uma contra-ofensiva ao Império Austríaco. Depois de algumas batalhas de intensidade baixa, os austríacos começam a recuar, abandonando a Baviera. Bonaparte então lançou-se sobre a Áustria. Tentando atravessar rapidamente o rio Danúbio ele enfrentou os austríacos na Batalha de Aspern-Essling (22 de maio de 1809). Os franceses não conquistaram seus objetivos e ambos os lados sofreram pesadas baixas. Mas o comandante austríaco, o arquiduque Carlos, não se aproveitou do cenário favorável e permitiu que Napoleão se reagrupasse. Em julho, o exército imperial francês marchou em Viena novamente. Napoleão então infligiu uma grande derrota aos austríacos na Batalha de Wagram, no começo de julho de 1809. Foi nesta batalha que o marechal francês Carlos Bernadotte foi privado do seu comando quando ele recuou, contrariando as ordens de Napoleão. Um tempo depois, Bernadotte aceitou a oferta de se tornar o príncipe herdeiro da Suécia. Ele mais tarde se tornaria um dos maiores incentivadores dos suecos para se voltar contra os franceses.[47]

    A Guerra da Quinta Coalizão terminou com a assinatura do Tratado de Schönbrunn (14 de outubro de 1809). No leste, apenas rebeldes, liderados por Andreas Hofer, na região alemã de Tirol, continuavam a lutar contra os exércitos franco-bávaros até novembro de 1809. Enquanto isso, a guerrilha na Península Ibérica continuava.[47]

    O Império Napoleônico Francês em 1812, atingindo sua extensão territorial máxima.
    Em 1811, o Império Francês de Napoleão chegou ao auge de sua extensão territorial. No leste, a Áustria e a Prússia, cansadas de lutar, tiveram de firmar a paz com Bonaparte novamente. No oeste, britânicos e portugueses permaneciam restritos em uma área ao redor de Lisboa (atrás das inexpugnáveis linhas de Torres Vedras) e resistindo no Cerco de Cádis. Na Espanha, a situação ainda não se acalmara, com os rebeldes lutando contra as tropas francesas por todo o território.[58]

    Para tentar sedimentar a paz, Napoleão desposou Maria Luísa, uma arquiduquesa austríaca e filha do monarca Francisco I. Bonaparte esperava firmar um boa aliança com a Áustria, ao mesmo tempo que segurava sua própria posição como imperador ao gerar um filho e herdeiro (algo que sua primeira esposa, Josefina, não conseguiu). Além do Império Francês, Napoleão controlava a Confederação Suíça, a Confederação do Reno, o Ducado de Varsóvia e o Reino da Itália. Outros territórios aliados a França eram:

    o Reino da Espanha (governado por José Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão)
    o Reino de Vestfália (governado por Jerônimo Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão)
    o Reino de Nápoles (governado por Joaquim Murat, marido da irmã de Napoleão, Carolina)
    o Principado de Luca e Piombino (governado por Elisa Bonaparte, irmã de Napoleão, e seu marido Félix Baciocchi);
    Guerras subsidiárias
    Os acontecimentos na Europa durante as Guerras Napoleônicas influenciaram conflitos militares e eventos que aconteceram fora do continente, como nas Américas e em outros lugares pelo mundo.

    Guerra de 1812
    Ver artigo principal: Guerra anglo-americana de 1812
    Ao mesmo tempo que acontecia a Guerra da Sexta Coalizão, apesar de tecnicamente não ser considerada parte das Guerras Napoleônicas, aconteceu também a Guerra de 1812, com os Estados Unidos declarando guerra contra a Grã-Bretanha. Uma das principais causas do conflito entre essas nações foi a constante interferência britânica em assuntos navais americanos, com embarcações dos Estados Unidos sendo atacadas pelos ingleses e seus marinheiros capturados sendo alistados a força na marinha real britânica. Os franceses também interferiram (em um ponto os americanos cogitaram declarar guerra a França por isso). Esta guerra acabou terminando em um impasse militar e não houve mudanças territoriais. A paz entre o Reino Unido e os Estados Unidos foi formalmente acertada no Tratado de Gante de 1815. Naquela altura, Napoleão já estava no seu primeiro exílio em Elba. O efeito maior da Guerra de 1812 no contexto dos conflitos na Europa da época foi que os americanos conseguiram distrair a marinha inglesa o suficiente para dar uma pequena vantagem aos franceses. A compra da Luisiana em 1803, por sua vez, foi pacífica com Napoleão desistindo da ideia de construir um império colonial nas Américas. Ele então tomou a Luisiana dos espanhóis e vendeu a terra para os estadunidenses por US$ 15 milhões de dólares, incluindo US$ 11 milhões em ouro.[59]

    Revoluções na América Latina
    Ver artigo principal: Independência da América Espanhola
    Com a abdicação dos reis Carlos IV e Fernando VII e a instalação de José Bonaparte como novo rei da Espanha por Napoleão, guerras civis e revoluções nas Américas acabaram por acontecer. Entre 1808 e 1833, as colônias espanholas no continente latino-americano começaram, uma após a outra, a se separar do Império Espanhol. Enfraquecida pelas questões internas, a Espanha não teve como resistir por muito tempo

  64. Eric Carvalho disse:

    A invasão francesa da Rússia (1812)
    Ver artigo principal: Campanha da Rússia (1812)

    A Batalha de Borodino, pintado por Louis Lejeune. A batalha foi uma das maiores e mais sangrentas das Guerras Napoleônicas.
    O Tratado de Tilsit de 1807 resultou na Guerra Anglo-Russa (1807–12). O imperador da Rússia, Alexandre I, declarou guerra ao Reino Unido após um ataque inglês contra a Dinamarca em setembro de 1807. Os ingleses apoiavam a frota sueca durante a Guerra Finlandesa e conseguiram vitórias contra os russos no Golfo da Finlândia em julho de 1808, e novamente em agosto de 1809. Contudo, o sucesso do exército russo em terra forçou a Suécia a assinar a paz, em 1809, e com a França, em 1810, se juntando então ao Bloqueio Continental contra a Grã-Bretanha. Ainda assim, após 1810, as relações entre os franceses e os russos começaram a se deteriorar. Em abril de 1812, o Reino Unido, a Rússia e a Suécia assinaram um pacto secreto contra Napoleão.[61]

    Um dos assuntos centrais na tênue paz que se seguiu ao tratado de Tilsit foi a questão polonesa. Napoleão e Alexandre I divergiam sobre a forma como o país deveria ser, tornando-se uma nação semi-independente sob controle de ambos. Como o autor Charles Esdaile notou, “havia a ideia implícita de que uma Polônia russa seria, é claro, uma guerra contra Napoleão”.[62] O historiador Paul Schroeder diz que a questão polonesa foi “a causa maior” da guerra de Napoleão contra a Rússia, mas ele completa afirmando que o fato do governo russo passar a se recusar a se unir ao Bloqueio Continental também foi um fator importante.[63]

    Em 1812, no auge do seu poder e influência na Europa, Napoleão invadiu a Rússia com seu Grande Armée (o exército imperial), apoiado por milhares de soldados de Estados satélites e aliados. A sua força de invasão consistia em quase 650 000 homens (incluindo 270 000 franceses e os demais sendo de nações subservientes ao Império, como alemães, poloneses e italianos). Os exércitos napoleônicos cruzaram o rio Neman, em 24 de junho de 1812. A Rússia convocou então a “Grande Guerra Patriótica” para resistir a invasão estrangeira. Napoleão afirmou que o motivo central da guerra era pela Polônia. Assim, os poloneses, em apoio, forneceram 100 000 homens a Bonaparte. Apesar das expectativas polonesas, Napoleão não fez concessões para a Polônia, pois ele queria usar aquele território para futuras negociações com a Rússia.[64]

    O exército francês na Rússia, em 1812.
    O Grande Armée de Napoleão foi avançando pela Rússia, enfrentando pouca resistência e travando batalhas de pequena intensidade. O primeiro grande confronto, a Batalha de Smolensk, ocorreu entre 16 e 18 de agosto, resultando em uma contestada vitória francesa. Durante esse período, o marechal Nicolas Oudinot foi detido na Batalha de Polotsk por uma tropa russa comandada pelo general Peter Wittgenstein. Isso impediu que os franceses chegassem a São Petersburgo. A principal coluna do exército francês, liderado por Napoleão, marchava até Moscou.[65]

    Os russos implementaram táticas de terra arrasada, importunando o Grande Armée com a cavalaria leve cossaca. O exército francês não conseguiu se adaptar ao novo cenário adverso.[66] Assim, logo nas primeiras semanas, os franceses começaram a sofrer pesadas baixas.[67]

    Ao mesmo tempo, o exército russo recuou por pelo menos três meses. A tática de retirada era liderada pelo marechal Michael Andreas Barclay de Tolly e o príncipe Mikhail Kutuzov, feito comandante-em-chefe pelo czar Alexandre I. A política de evitar combates e destruir o terreno, era interrompida por batalhas pequenas. Porém alguns confrontos de grande intensidade aconteceram, como a Batalha de Borodino, em 7 de setembro de 1812.[68] A luta aconteceu nas cercanias de Moscou e foi uma das mais sangrentas das Guerras Napoleônicas, envolvendo 250 000 homens e resultando em 70 000 baixas. Seu resultado foi, no quadro geral, indecisivo, mas deu uma leve vantagem a Napoleão. Bonaparte terminou controlando a região, mas não destruiu o exército russo e nem capturou seus líderes. Longe da França, Napoleão foi forçado a esticar suas linhas de suprimento e ele não tinha como receber reforços, fazendo com que cada perda fosse sentida. Já a Rússia, com uma população enorme, podia repor suas baixas rapidamente.[69]

    Napoleão entrou em Moscou a 14 de setembro de 1812, após uma nova retirada por parte do exército russo.[70] A população de Moscou já havia, na sua grande maioria, seguido o governo e abandonou a cidade. Então, o governador da cidade, Fyodor Rostopchin, ordenou que Moscou fosse queimada.[71] Alexandre I se recusava a capitular e qualquer proposta de paz feita pelos franceses era recusada. Em outubro, sem possibilidade clara de uma vitória, Napoleão começou a desastrosa retirada do seu exército da Rússia.[72]

    Napoleão se retirando da Rússia, pintado por Adolph Northen.
    Na Batalha de Maloyaroslavets, em outubro de 1812, os franceses tentaram chegar à cidade de Kaluga, onde poderiam encontrar comida e outros suprimentos. Mas o exército russo bloqueou o seu caminho. Napoleão foi forçado a se retirar pela mesma rota que o levou a Moscou, indo pelas áreas destruídas nas estradas próximas a Smolensk. Nas semanas seguintes, o Grande Armée de Napoleão foi pego no meio do inverno russo, sofrendo com, além do frio, a falta de suprimentos e as constantes ações de guerrilha das milícias russas.[72]

    Quando o que sobrou do exército de Napoleão cruzou o rio Berezina em novembro de 1812, apenas 27 000 retornaram em boa ordem, com outros 380 000 sendo mortos ou dados como desaparecidos, além de outros 100 000 capturados.[73] Bonaparte foi direto para Paris, para preparar sua defesa contra os russos e a campanha se encerrou formalmente em 14 de dezembro, quando os últimos soldados franceses retornaram da Rússia. Os russos também sofreram, perdendo 210 000 homens, mas eles podiam repor essas baixas rapidamente, algo que os franceses não conseguiriam.[72]

    Guerra da Sexta Coalizão (1812–1814)
    Ver artigo principal: Sexta Coalizão
    A França estava aparentemente exaurida após a fracassada invasão da Rússia, com Napoleão perdendo mais da metade do seu exército. Vendo nisso uma oportunidade, a Prússia, a Suécia, a Áustria e vários Estados alemães decidiram reiniciar as hostilidades e declaram guerra a França.[74] O imperador francês afirmou que ergueria um novo exército, tão grande quanto aquele que havia levado à Rússia. Bonaparte rapidamente recrutou entre 30 000 e 130 000 homens de nações do leste que ainda eram leais a ele. Conscrições também começaram na França e depois de alguns meses, ele já tinha 400 000 soldados (a maioria com pouca experiência em combate). Os franceses eventualmente fizeram avanços na Europa oriental, infligindo aos aliados 40 000 baixas nas batalhas de Lützen (2 de maio de 1813) e Bautzen (20–21 de maio de 1813). Estas batalhas envolveram mais de 250 000 soldados, fazendo desta uma das maiores fases das guerras. O ministro de relações exteriores da Áustria, Klemens von Metternich, propôs, em novembro de 1813, uma oferta de paz a França. Seria permitido a Napoleão reter o título de imperador, mas o país teria que restaurar suas “fronteiras naturais”, abrindo mão das suas possessões na Itália, Alemanha e Holanda. Napoleão ainda tinha esperanças de vencer a guerra e rejeitou os termos apresentados. Em 1814, contudo, os franceses estavam recuando em todas as frentes. Os aliados da Coalizão agora avançavam rumo ao norte da França e ameaçavam flanquear a cidade de Paris (a capital do império). Napoleão teria então aceitado as propostas de Metternich para paz, mas já era tarde demais e os aliados rejeitaram qualquer acordo para cessar as hostilidades que não envolvesse sua abdicação.[75]

    A Batalha de Leipzig envolveu mais de 600 000 soldados de diversas nacionalidades, fazendo desta a maior batalha na Europa até a Primeira Guerra Mundial, no começo do século XX.
    Enquanto isso, na Guerra Peninsular, Arthur Wellesley lançou novamente os exércitos anglo-portugueses em ofensivas pela Espanha após o ano novo de 1812, cercando e capturando as cidades fortificadas de Rodrigo e Badajoz. Em julho, uma tropa francesa foi derrotada na importante Batalha de Salamanca. Enquanto os franceses tentavam se reagrupar, os aliados entraram em Madri e depois avançaram sobre a cidade de Burgos, antes de ter que recuar de volta a Portugal após os franceses ameaçarem um grande contra-ataque. Uma consequência da campanha em Salamanca, a França teve que encerrar seu longo cerco a Cádis e recuar das províncias Andaluzia e Astúrias.[76]

    Em um movimento estratégico, Wellesley planejou mover a sua base de suprimentos principal de Lisboa até a cidade de Santander. Tropas anglo-portuguesas, apoiadas por rebeldes espanhóis, avançaram então pelo norte da Espanha e tomaram o estratégico município de Burgos. Em 21 de junho, na Batalha de Vitória, tropas inglesas, portuguesas e espanholas venceram as forças de José Bonaparte, encerrando de vez o poder francês na Espanha. Os franceses então recuaram para fora de praticamente toda a Península Ibérica, indo além da região de Pireneus.[77]

    Os beligerantes declararam então um armistício a 4 de junho de 1813 (que continuou até 13 de agosto) onde ambos os lados usaram o período para recuperar suas perdas e se reorganizar. Neste meio tempo, a Áustria se comprometeu a se unir na sua totalidade à Coalizão contra a França (mesmo com a filha do imperador Francisco I sendo a esposa de Napoleão). Os austríacos mobilizaram dois grandes exércitos, adicionando 300 000 homens às forças da Coalizão na Alemanha. No total, os Aliados mobilizaram 800 000 soldados no teatro de operações alemão.[78]

    A Batalha de Hanau (30–31 de outubro de 1813) foi travada entre uma força Austro-Bávara e soldados franceses.
    Napoleão reuniu as tropas imperiais, recrutando soldados de todas as regiões subordinadas a ele, chegando a 650 mil homens — porém apenas 250 mil estavam sob seu controle direto, com outros 120 mil liderados por Nicolas Charles Oudinot e 30 mil com Louis Davout. A maioria de suas tropas não francesas vinham dos Estados alemães da Confederação do Reno, especialmente da Saxônia e da Baviera. Além disso, ao sul, na Itália, havia Joaquim Murat no comando dos exércitos de Nápoles e Eugênio de Beauharnais, rei da Itália, que comandavam mais 100 mil homens. Na Espanha havia mais 150 mil a 200 mil tropas francesas fatigadas, que recuavam da luta na Península Ibérica e com 100 mil tropas inglesas, espanholas e portuguesas no seu encalço. No geral, as forças aliadas tinham mais que o dobro de tropas do que os franceses. Após os Estados alemães desertarem Napoleão, a sua desvantagem numérica passou a ser superior a 4 para 1.[79]

    Após o fim do curto armistício de junho-agosto de 1813, Napoleão retomou a iniciativa e partiu para a ofensiva, derrotando uma tropa russa, austríaca e prussiana na Batalha de Dresden (Agosto de 1813). A vitória foi importante, com os franceses vencendo uma luta contra um inimigo numericamente superior e sofrendo poucas baixas no processo. Contudo, a segunda parte da ofensiva, que estava nas mãos dos seus marechais, acabou fracassando e assim Bonaparte não conseguiu capitalizar em cima desta vitória. Napoleão recuou para além do rio elba e se posicionou ao redor da cidade de Leipzig, no leste da Alemanha, para proteger sua principal rota de suprimentos. As forças da Coalizão convergiram sobre ele, com as tropas prussianas vindo de Wartenburg, e os russos e austríacos vindo de Dresden (que havia sido reconquistada após a vitória aliada sobre os generais de Napoleão na Batalha de Kulm), além de reforços vindos do norte constituído majoritariamente por militares suecos. Na subsequente Batalha das Nações, travada no norte da Saxônia (entre 16 e 19 de outubro de 1813), 191 000 soldados franceses lutaram contra mais de 430 000 soldados da Coalizão. O combate foi violento, com quase 100 000 homens perecendo (somando as baixas de ambos os lados). Os franceses acabaram sendo superados pelo absurdo número de tropas dos aliados e Napoleão foi forçado a recuar até a fronteira franco-alemã. Uma série de batalhas de média e pequena intensidade foram travadas (incluindo a Batalha de Arcis-sur-Aube, lutada em solo francês), mas a desvantagem numérica era demasiada grande e Napoleão não conseguiu montar uma defesa coesa. Após a sua derrota em Leipzig, os Estados alemães da Confederação do Reno (outrora seus aliados) se voltaram contra a França e passaram a apoiar a Coalizão. Seu último aliado significativo era o Reino da Dinamarca e Noruega, mas estes estavam isolados e preferiram fazer a paz com as demais potências europeias, firmando o Tratado de Kiel de janeiro de 1814.[80]

    O exército russo entra em Paris, em 1814.
    Ao fim de março de 1814, após uma curta batalha, as tropas da Coalizão marcharam sobre Paris. Antes disso, Napoleão travou, no nordeste da França, a chamada Campanha dos Seis Dias, onde tentou desesperadamente deter o avanço aliado sobre a capital do seu império. Apesar de ter conquistado algumas vitórias estratégicas, ele não cumpriu o seu objetivo maior de salvar Paris. Naquele momento, ele tinha pelo menos 70 000 homens, contra mais de 500 000 soldados da Coalizão que invadiam a França pelo leste. Nesse meio tempo, pelo Tratado de Chaumont (9 de março de 1814), as potências europeias da Coalizão se comprometeram a continuar lutando até que Napoleão estivesse derrotado totalmente.[81]

    Mesmo com a derrota iminente, a queda de Paris e o colapso do seu exército, Napoleão estava determinado a continuar lutando. Ele continuou a convocar o povo francês a lutar e chamou suas tropas e conscritos a se apresentar, mas o retorno foi pouco. Os seus marechais também não tinham intenção de seguir com a guerra, reconhecendo que a situação havia chegado a um ponto sem retorno. Finalmente, a 6 de abril de 1814, Napoleão abdicou do trono. Contudo, ainda havia combates de pequena intensidade acontecendo na Itália, Espanha e Holanda durante a primavera daquele ano.[82]

    As potências aliadas da Coalizão decidiram exilar Napoleão na ilha de Elba, garantindo a ele soberania sobre o lugar mas sob vigilância marítima da esquadra inglesa (que patrulhava a região) do Mediterrâneo. Foi decidido também restaurar os Bourbons no trono francês, colocando no poder Luís XVIII. Tudo foi formalizado pela assinatura do Tratado de Fontainebleau, em 11 de abril de 1814. Representantes das principais potências europeias então se reuniram no Congresso de Viena e começaram a trabalhar no processo de reconstrução do mapa político da Europa.[83]

    Guerra da Sétima Coalizão (1815)
    Ver artigos principais: Governo dos Cem Dias e Guerra Napolitana

    Napoleão retornando a França, em fevereiro de 1815, sendo aclamado por suas tropas.
    Ao fim da Guerra da Sexta Coalizão a paz veio a Europa novamente, mas não por muito tempo ou da forma desejada. As potências que outrora lutaram juntas contra Napoleão começaram a bater boca no Congresso de Viena a respeito do novo mapa do continente. Na França, o novo governo de Luís XVIII se tornava cada vez mais impopular. Percebendo a situação agora mais favorável, Napoleão Bonaparte planejou sua fuga da Ilha de Elba, que ficava a apenas dois ou três dias pelo mar da costa francesa. Com pequenos barcos e acompanhado de um pequeno destacamento de membros da sua Guarda Imperial, ele desembarcou em Golfe-Juan, na Costa Azul da França, em 28 de fevereiro de 1815. Tropas reais francesas foram enviadas para intercepta-lo mas estas mudaram de lado ao vê-lo e marcharam com Bonaparte até Paris.[84]

    A notícia que Napoleão regressara ao poder na França, em fevereiro de 1815, varreu a Europa e logo uma nova Coalizão antiBonapartista (a sétima) foi formada, composta pelo Reino Unido, a Rússia, a Prússia, a Suécia, a Suíça, a Áustria, a Holanda e vários pequenos Estados alemães. A restauração de Napoleão foi curta (período conhecido como o Governo dos Cem Dias). As potências Europeias rapidamente reuniram um gigantesco exército de mais 700 000 homens inicialmente, com mais reforços a caminho. O imperador francês conseguiu apenas 280 000 soldados. Ele tentou convocar uma conscrição em massa, mas não foi muito bem sucedido. Veteranos também foram chamados de volta ao serviço. Mesmo assim, a desvantagem numérica era demasiada grande. A Coalizão pretendia unir suas tropas e marchar juntos com um poder avassalador e superar os franceses com seu grande número.[84]

    Wellington em Waterloo, por Robert Alexander Hillingford.

    A batalha de Waterloo, em 1815.
    Napoleão sabia que suas chances de vitória eram pequenas se enfrentasse de frente os exércitos unidos da Coalizão. Ele preferiu pega-los separadamente e derrota-los um a um, antes que pudessem combinar suas forças. Bonaparte tomou 124 000 homens do Exército do Norte e atacou as tropas aliadas estacionadas na Bélgica.[85] Ele pretendia investir sobre as tropas inglesas e separa-las dos prussianos, inutilizando seus exércitos. Seu ataque inicial pegou seus inimigos de surpresa, forçando o recuo das tropas anglo-holandesas. Os prussianos haviam sido mais cautelosos, concentrando boa parte dos seus exércitos ao redor de Ligny (nas província de Namur). Eles então lutaram para tentar deter ou ao menos atrasar o avanço francês, com o objetivo de dar tempo para as demais tropas aliadas se reagruparem. A 16 de junho de 1815, prussianos e franceses se enfrentaram na Batalha de Ligny, vencida por Napoleão. No mesmo dia, a ala esquerda do exército imperial da França, comandada pelo marechal Michel Ney, foi bem sucedido em deter o avanço do Duque Wellington, comandante das tropas inglesas, que pretendia se unir ao marechal Blücher e os prussianos. Os britânicos, apoiados por holandeses e alemães, acabaram não resistindo ao avanço francês na Batalha de Quatre Bras. Ney não conseguiu cortar a retirada de Wellington, mas estes foram forçados a recuar, junto com os prussianos. Os ingleses montaram uma nova posição defensiva, no meio de uma escarpa, em terreno elevado, a alguns quilômetros das vilas de Waterloo, na Bélgica.[28]

    Napoleão levou então suas tropas para o coração da Bélgica, reunindo seus homens com os de Ney, para perseguir o exército britânico de Wellington. Ao mesmo tempo ele ordenou ao marechal Emmanuel de Grouchy para pegar a ala direita do exército e detivesse os prussianos enquanto estes estavam se reagrupando. Após uma série de erros de cálculos, tanto Grouchy e Napoleão falharam em perceber que os prussianos já haviam conseguido se reorganizar e já estavam se reagrupando perto do vilarejo de Wavre, mais perto de Wellington do que o antecipado. O sucesso dos exércitos da Prússia em se reagrupar rapidamente foi na falha de Napoleão em não conseguir quebrar sua retirada. Grouchy também não conseguiu persegui-los adequadamente. Assim, enquanto três corpos do exército prussiano marchavam rumo a Waterloo para apoiar os britânicos e seus aliados, a outra metade da tropa prussiana conseguiu segurar por um tempo as forças francesas do marechal Grouchy antes de recuar (batalha de Wavre, 18-19 de junho de 1815). No final, os 17 000 prussianos (comandados pelo general Johann von Thielmann) mantiveram ocupados 33 000 franceses por tempo suficiente para que estes não chegassem a tempo em Waterloo para ter um papel importante. Napoleão poderia ter sido bem sucedido se esses homens tivessem chegado antes e reforçado suas linhas.[28]

    Mapa da campanha em Waterloo (1815).
    Os franceses evitaram por um tempo avançar contra as posições britânicas em Waterloo, mas a 18 de junho de 1815 foi iniciada a batalha decisiva da Guerra da Sétima Coalizão. As tropas imperiais francesas atacaram logo pela manhã, avançando lentamente pelo terreno ruim (havia chovido na região durante toda a noite anterior). Ao fim da tarde, apesar de terem feito alguns progressos, os franceses falharam em expulsar as forças de Wellington das regiões elevadas de Waterloo. Quando os reforços prussianos chegaram e atacaram o flanco direito francês, ficou claro então que a estratégia de Napoleão deu errado. Os franceses tiveram de bater em retirada em desordem. Agora unidas, as tropas da Coalizão lançaram-se sobre a França. Bonaparte sabia que desta vez, o golpe proferido havia sido fatal.[28]

    O marechal Grouchy conseguiu recuar de forma organizada e levou seus soldados até Paris, onde o também marechal Davout tinha reunido 117 000 soldados prontos para enfrentar os 116 000 homens sob comando de Blücher e Wellington. Davout acabou sendo derrotado na Batalha de Issy (na região de Île-de-France) e decidiu então negociar sua rendição com a liderança das tropas da Coalizão.[84]

    Três dias após o fracasso em Waterloo, Napoleão chegou a Paris. Ele ainda tinha esperanças de conseguir montar uma nova defesa e se segurar no poder. Contudo, a Assembleia Nacional, e até mesmo a população francesa em geral, já não lhe favorecia mais. Sem apoio político, Napoleão foi forçado a abdicar do trono uma segunda vez em 22 de junho de 1815. A 15 de julho se rendeu aos britânicos em Rochefort. Para evitar de cometer os mesmos erros do ano anterior, os Aliados desta vez exilaram Bonaparte na ilha de Santa Helena, milhares de quilômetros de distância da Europa. O antigo imperador francês ficaria lá, solitário, até sua morte em 5 de maio de 1821. Na França, os Bourbon foram novamente restaurados no trono. As potências regionais então começaram o chamado “Concerto da Europa”, para restabelecer o balanço do poder no continente e garantir a velha ordem.[86]

    Enquanto isso, na Itália, a Joachim Murat, marechal e aliado de Napoleão, foi permitido que ele mantivesse o título de rei Nápoles. Percebendo porém que sua posição era precária ele partiu para lutar por seu trono na chamada Guerra Napolitana (março–maio de 1815). Murat esperava conquistar apoio de nacionalistas italianos que temiam o aumento da influência dos Habsburgos na península itálica. Murat fez então a Proclamação de Rimini incitando o povo italiano a guerra. Contudo, ele conseguiu pouco apoio popular e seu exército foi esmagado pelos austríacos na Batalha de Tolentino (2–3 de maio de 1815), forçando Murat a fugir. O ramo italiano da Casa de Bourbon foi recolocada no trono de Nápoles, com a ascensão de Fernando I em 20 de maio de 1815. Murat ainda fez outra tentativa de recuperar seu poder, mas foi preso e executado em outubro do mesmo ano. Este foi o último grande confronto instigado pelo legado direto de Napoleão na Europa.[87]

    Efeitos políticos

    Napoleão Bonaparte, imperador dos franceses, em 1806.
    As Guerras Napoleônicas trouxeram mudanças radicais a Europa, mas forças reacionárias voltaram ao poder no continente e tentaram reverter o legado da Revolução Francesa e do reinado de Napoleão. Em poucos anos, o imperador francês conseguiu trazer quase toda a Europa ocidental ao seu controle. Contudo, as guerras constantes de quase duas décadas contra a França feita pelas maiores potências do continente acabaram por colocar o país no chão. Ao fim dos conflitos, a França já havia perdido boa parte do seu poder e influência na Europa continental. Já o Reino Unido emergiu como a principal e inquestionável maior força do continente, com sua marinha de guerra alcançando supremacia naval pelo globo até meados do século XX.[88]

    Para muitos países europeus, ser subjugado pela França significou acesso a várias políticas liberais que ganharam notoriedade durante a Revolução Francesa, como democracia inclusiva, acesso ao devido processo legal nas cortes, abolição da servidão, redução do poder da Igreja Católica e exigência de alterações das monarquias para uma face mais constitucional e democrática. O clamor da emergente classe média, esta que cresceu através do comércio e da indústria, fez com que fosse difícil as classes dominantes restaurar as monarquias absolutistas. Assim, muitas nações conquistadas por Napoleão tiveram que manter várias reformas impostas a eles. Legados institucionais persistem até os dias atuais como os sistemas legais de códigos civis, baseados no chamado Código Napoleônico.[89]

    Durante o período napoleônico, o sentimento de nacionalismo, um movimento relativamente novo, se tornou mais significativo pelo continente. Isso moldaria o futuro da Europa pelo próximo século. Esse sentimento acabou com alguns países e fez outros surgirem, redesenhando drasticamente o mapa político europeu no século posterior a era Napoleônica. Governos de feudos e aristocracias foram substituídos por ideologias nacionais baseadas em culturas em comum e origens. Mais importante, o reino de Bonaparte sobre a Europa plantou as sementes para as fundações das nações-estado da Alemanha e Itália, consolidando a identidade nacional dos povos, reinos e principados que formavam esses países, facilitando sua unificação. Ao fim das guerras, a Dinamarca teve que ceder a Noruega a Suécia, mas como os noruegueses haviam assinado sua própria constituição em 17 de maio de 1814, os suecos tiveram que lutar pelo direito de ter a Noruega. O resultado da união da Suécia com a Noruega deu mais independência aos noruegueses do que quando estavam sob o jugo dinamarquês. A Noruega se tornaria uma nação completamente independente em 1905.[89] Outro país criado foi o Reino Unido dos Países Baixos, feito com o propósito de ser um Estado tampão contra as pretensões da França. Esta nação foi dissolvida em duas quando a Bélgica se tornou independente em 1830.[90]

    O mapa da Europa após o Congresso de Viena de 1815.
    As guerras napoleônicas também influenciaram acontecimentos na América Latina, nas colônias da Espanha e Portugal. O conflito enfraqueceu a autoridade e poder militar espanhol, especialmente após a sua marinha ter sido destroçada na batalha de Trafalgar. Várias revoltas aconteceram na América espanhola como consequência da deterioração política na metrópole. Na América portuguesa, o Brasil experimentou pela primeira vez uma maior autonomia política após a transferência das cortes de Lisboa para o território brasileiro, que posteriormente recebeu os status de reino unido. Após a ocupação francesa de Portugal, as ramificações políticas se espalharam e levaram a chamada Revolução Liberal de 1820. Com o retorno da Corte real para Lisboa, o Brasil não aceitou retornar aos status de colônia, declarando sua independência em 7 de setembro de 1822.[91]

    Após as guerras, foi instaurado o Congresso de Viena (1814–15) para restaurar as velhas fronteiras e restabelecer governos que haviam sido depostos, tentando formar um novo equilíbrio de poder no continente. Este novo balanço garantiu umas décadas de paz pela Europa entre as nações (mas não internamente, com revoluções ainda acontecendo). Houve também mais integração política e econômica, além de novas ondas migratórias.[92][93] A instabilidade política instigou, principalmente, a imigração europeia para as Américas, especialmente para os Estados Unidos,[94] que recebeu mais de 30 milhões de imigrantes europeus entre 1815 e 1914.[95]

    Outro conceito que emergiu do Congresso de Viena foi a noção de uma Europa mais unificada. Após sua derrota, Napoleão se remoeu com o fato de que sua ideia de uma “Associação Europeia” pacífica e livre não aconteceu. Contudo, as guerras Napoleônicas de fato empurraram esta noção para a realidade, trazendo uma maior padronização entre os países em relação a formas de governo, moedas e sistemas legais. Mais ou menos um século e meio depois, contudo, a ideia de uma maior unificação no continente novamente ganhou força e em 1957 foi criada a União Europeia.[96]

    Legado militar

    Em 1800, Bonaparte levou o exército francês além dos Alpes, eventualmente derrotando os austríacos na Batalha de Marengo.
    As Guerras Napoleônicas tiveram um grande impacto militar. Antes de Napoleão, os países europeus tinham exércitos regulares relativamente pequenos, composto de soldados nacionais e mercenários. Os militares regulares eram bem profissionais. Os exércitos dos Antigos Regimes podiam apenas colocar pequenas quantidades de tropas em campo de uma vez, com uma logística limitada. Assim, era difícil reunir exércitos maiores que 30 000 homens sob um único comando em uma batalha.[97]

    Contudo, foi na segunda metade do século XVIII que os visionários militares começaram a reconhecer o potencial de todo um país em guerra: a chamada “nação em armas”.[97]

    A escala do tamanho dos conflitos na Europa aumentou consideravelmente no período das guerras revolucionárias francesas e no subsequente conflito na era Napoleônica. Antes disso, era incomum ver em batalha mais do que 30 000 soldados em cada lado. A inovação francesa de dividir o exército em corpos (permitindo a um único oficial comandar mais do que 30 000 homens de uma vez) e também viver da terra (o que permitia aos exércitos convocar mais homens sem ter que igualmente pedir por mais suprimentos através de reservas e cargas) permitiu a república francesa a conseguir reunir mais tropas em campo do que seus tradicionais oponentes. Napoleão subsequentemente assegurou que as divisões no exército fossem separadas de forma eficiente nos tempos em que a República operava como um único exército quando ficaram sob seu comando direto, como imperador, permitindo que ele reunisse um exército maior que os seus oponentes. Isso forçou seus adversários a reunir tropas cada vez maiores, inovando também, forçando as tradicionais nações europeias a iniciar conscrições em massa, que tiveram enormes consequências políticas.[97]

    Napoleão nos campos de Eylau.
    Na batalha de Marengo, a luta final que encerrou a Guerra da Segunda Coalizão, foi travada com pelo menos 60 000 homens em cada lado. Na batalha de Austerlitz, que encerrou a Terceira Coalizão, envolveu mais de 160 000 soldados. Na batalha de Friedland, que levou a paz com a Rússia, em 1807, envolveu 150 000 homens. Esses tipos de batalhas, com um número tão grande de combatentes, eram raros em conflitos anteriores.[97]

    Com as derrotas sofridas em terra para Napoleão, as potências europeias tiveram de se renovar e convocaram conscrições em massa para que eles pudessem superar o exército francês no campo. Já na batalha de Wagram de 1809, cerca de 300 000 soldados se digladiaram. Em Leipzig, pelo menos 500 000 homens lutaram no geral, sendo que 150 000 terminaram mortos ou feridos.[97]

    Durante as guerras napoleônicas, pelo menos um milhão de soldados franceses foram mortos ou feridos (ou sofreram alguma invalidez), uma proporção maior para o país, se comparado com o tamanho da população, do que durante a Primeira Guerra Mundial. No geral, pelo menos 5 000 000 de soldados europeus foram mortos (incluindo por doenças).[98][99]

    A França tinha a segunda maior população da Europa (atrás da Rússia) no fim do século XVIII com seus 27 milhões de habitantes (comparado com 12 milhões do Reino Unido e 30 a 40 milhões do Império Russo). Os estrategistas militares franceses então se aproveitaram do levée en masse (as conscrições em massa). Antes dos esforços de Napoleão, Lazare Carnot foi um dos líderes na reorganização dos exércitos franceses de 1793 a 1794. Neste período, a situação da França nas guerras revolucionárias havia melhorado, com os exércitos republicanos avançando em todas as frentes.[100]

    Napoleão se retirando da Rússia, em 1812. Seu Grande Armée sofreu pesadas perdas na campanha e nunca se recuperaria.
    O tamanho crescente dos exércitos europeus sinalizava uma mudança nítida na história militar do continente. Durante os conflitos nos séculos anteriores, como a Guerra dos Sete Anos (1756–1763), poucos países tinham exércitos superiores a 200 000 no total, com as nações não conseguindo reunir mais do que 30 000 soldados no campo. Em contraste, o exército francês recrutou, durante a década de 1790, cerca de 1,5 milhão de homens, apesar de não conseguir manter todos ao mesmo tempo no serviço ativo. Problemas com suprimentos e doenças impediam que exércitos grandes fossem postos em campo. Na verdade, a França não tinha condições financeiras de recrutar grandes quantidades de tropas.[97]

    Nas guerras napoleônicas, cerca de 2,8 milhões de franceses lutaram no solo e outros 150 000 no mar. Assim, no geral, 3 milhões de cidadãos franceses serviram nas forças armadas nos vinte e três anos de guerra desde a fundação da República (em 1792) até a queda do Império (em 1815).[101]

    Frota francesa e inglesa se combatendo na decisiva Batalha de Trafalgar. A Inglaterra se saiu vitoriosa deste confronto.
    O Reino Unido tinha 750 000 homens em armas entre 1792 e 1815, uma grande expansão considerando que eles tinham apenas 40 000 soldados regulares em 1793. O auge chegou em 1813, quando 250 000 soldados estavam no serviço ativo.[102] No decorrer desta guerra, pelo menos 250 000 marinheiros serviram na Royal Navy (a marinha de guerra britânica). Em setembro de 1812, a Rússia tinha mais de 900 000 homens em sua infantaria. Entre 1799 e 1815, cerca de 2,1 milhão de homens serviram no exército. Outros 200 000 estavam na marinha. Na época, havia uma discrepância entre o tamanho dos exércitos no papel e a força que os países realmente podiam colocar em campo. Os russos, por exemplo, tinham uma tropa de 900 000 homens, mas dificilmente poderiam recrutar mais do que 250 000 para campanhas.[103]

    Não há números consistentes para o tamanho dos exércitos dos outros beligerantes. No auge do conflito (na Sexta Coalizão), os austríacos tinham pelo menos 576 000 nas forças armadas e praticamente nenhuma marinha. Porém, não conseguiam reunir mais do que 250 000 em campo. Depois da Grã-Bretanha, a Áustria foi o inimigo mais persistente da França no decorrer da guerra, com mais de um milhão de soldados servindo no exército durante o desenrolar do conflito. Seu maior exército operacional foi uma força homogênea e sólida reunida em 1813 quando conseguiram colocar 140 000 homens em campo durante campanhas na Alemanha e 90 000 na Itália e nos Bálcãs. Contudo, a Áustria começou a sofrer enormemente devido a falta de pessoal. Assim, seus generais e oficiais começaram a adotar táticas mais conservadoras e não tomar tantos riscos, em uma tentativa de limitar suas perdas.[103]

    Militares (de origem escocesa) do exército britânico lutando contra Napoleão, em 1815.
    A Prússia tinha um dos melhores exércitos da Europa. Contudo, eles não conseguiam mobilizar mais que 320 000 soldados em um determinado tempo. Entre 1813 e 1815, enquanto o grosso do seu exército (cerca de 100 000 homens) era de fato conhecido por sua determinação e competência, o resto não era uma força estável, composto por milicianos e voluntários de talentos variados. Ainda assim, a maioria destas tropas se saiam bem e mostravam bravura diante de situações adversas, mesmo que as vezes faltasse profissionalismo e bons equipamentos, se comparado aos soldados regulares. Durante as campanhas feitas em 1813, 130 000 homens estavam envolvidos nas operações militares, sendo 100 000 atuando na Alemanha e os outros 30 000 sendo usados para cercar as guarnições francesas perto das fronteiras.[104]

    Já a Espanha não conseguia recrutar mais do que 200 000 soldados no exército, além de 50 000 homens que lutavam nas guerrilhas. Além disso, o Império Otomano (que se envolveu muito pouco neste conflito), a Itália, o Reino de Nápoles e o Ducado de Varsóvia não conseguiam reunir e organizar mais do que 100 000 homens em armas. Ainda assim, países pequenos pela Europa também podiam recrutar bons exércitos, mas apenas no papel pois na realidade havia falta de recursos e essas tropas eram, na maioria dos casos, de qualidade duvidosa. O tamanho e a qualidade das tropas das nações co-beligerantes, ainda que não muito significativo, era bem-vindo por parte das potências continentais da Coalizão.[97]

    Durante a invasão da Rússia de 1812, o percentual de tropas de origem francesa que serviam no Grande Armée de Napoleão era de aproximadamente 50% dos 685 000 soldados recrutados. Os outros aliados do Império Francês forneceram os demais homens, como as nações da Confederação do Reno, a Polônia, os países que formavam a península itálica e a Espanha. Quando, entre 1813 e 1814, várias dessas nações mudaram de lado e passaram a apoiar a Coalizão, eles providenciaram uma boa ajuda a Coalizão, enquanto privavam Napoleão do seus muito necessários buchas de canhão.[97]

    Inovações
    Os estágios iniciais da Revolução Industrial foram muito ligados as crescentes necessidades militares para produzir armamentos e outros suprimentos para tropas cada vez mais crescentes em números. O Reino Unido se tornou o maior produtor de armas do continente. Esta produção de arsenal foi usado para suprir as forças da Coalizão no decorrer dos conflitos. A França era a segunda maior produtora de armamentos, equipando suas tropas e das nações da Confederação do Reno e seus aliados.[105]

    Todos os participantes das Guerras Napoleônicas. Azul: A Coalizão, suas colônias e aliados. Verde: O Primeiro Império Francês, seus protetorados e colônias, aliados e co-beligerantes.
    O próprio Napoleão mostrou tendências inovadoras para o uso da mobilidade de suas forças para enfrentar problemas como, principalmente, desvantagens numéricas nos campos de batalha, como ele mostrou nas suas campanhas contra tropas austro-russas em 1805, especialmente na Batalha de Austerlitz. O exército francês reorganizou o papel da artilharia, formando grupos móveis e independentes, ao invés das arcaicas formações militares.[106]

    Outras áreas que afetaram a arte da guerra: melhorias na comunicação entre os comandos e suas tropas. Uso de aeronaves de vigilância quando os franceses usaram balões de ar para espiar em posições de tropas da Coalizão e guiar a artilharia, sendo usado pela primeira vez na batalha de Fleurus, de junho de 1794.[107]

    Guerra total
    Ver artigo principal: Guerra total
    Historiadores discutem como as Guerras Napoleônicas se tornaram guerras totais. A maioria dos acadêmicos apontam que o aumento de tamanho e intensidade do conflito vem de duas fontes. A primeira era o choque ideológico entre os ideias revolucionários/igualitários e o sistema conservador/hierárquico. A segunda é o aumento do nacionalismo na França, Alemanha, Espanha e em outros países que fez deste conflito a “guerra do povo” ao invés de confrontos entre monarcas.[108] O historiador David Bell argumenta que mais importante que ideologia ou nacionalismo, foi a transformação intelectual na cultura da guerra, que veio do Iluminismo.[109] Um fator, ele diz, é que a guerra já não era mais um evento rotineiro, mas sim uma experiência transformadora para a sociedade. Em segundo lugar, os militares emergiram em seu próprio direito como uma esfera separada da sociedade, se distanciando do ordinário mundo civil. A Revolução Francesa fez de cada cidadão parte da máquina de guerra nacional, desde um soldado conscrito, até uma peça vital do maquinário apoiando a luta de casa, dando suprimentos ao exército (trabalhando nas indústrias e fazendas). Assim, segundo Bell, surgiu a ideia de “militarismo”, a crença de que os membros das forças armadas tem um papel moralmente superior ao de um civil em tempos de crise. O exército se tornou a essência da alma da nação.[110] Como o próprio Napoleão uma vez proclamou, “é o soldado que fundou a República e é o soldado que a mantém”.[111]

  65. ERIC CARVALHO disse:

    HINA: 50 ANOS DA REVOLUÇÃO
    No dia primeiro de outubro de 1999 a República Popular da China comemorou 50 anos de existência com uma enorme festa em Pequim para mais de 500 mil convidados, que contou com desfiles militares, apresentações folclóricas e queima de fogos. O presidente Jiang Zemin e os principais dirigentes do Partido Comunista, assistiram as comemorações na Praça da Paz Celestial, onde em 1989 o exército reprimiu com armas de fogo manifestações estudantis pela democracia, resultando em centenas de mortos e feridos.

    Foi nesta mesma praça, que Mao Tsé-Tung proclamou o nascimento da República Popular da China no dia primeiro de outubro de 1949, após décadas de imperialismo japonês e de uma sangrenta guerra civil entre nacionalistas e comunistas, que deixou um saldo de 40 milhões de mortos.

    Os avanços sociais nas áreas de ensino e saúde e a unificação de um vasto território com cerca de um bilhão e duzentos mil habitantes ( de longe o país mais populoso do mundo, abrigando 23% da população do planeta), que durante cinco milênios de história viveu fragmentado e dominado por inimigos estrangeiros, foram os maiores legados do Grande Timoneiro (como Mao era chamado).

    O sonho de uma sociedade igualitária com produção comunitária foi um desastre no final da década de 1950, levando fome e doenças para mais de trinta milhões de chineses. Esse cenário irá contribuir para uma outra revolução, liderada por Deng Xiaoping, que sucedeu a Mao nos anos 70, iniciando uma nova etapa no singular socialismo chinês, que muito tempo antes da derrocada socialista no leste europeu e na ex-URSS, convive com uma economia de mercado tipicamente capitalista.

    A) DAS DINASTIAS MEDIEVAIS AO IMPERIALISMO

    Várias dinastias imperiais governaram a China, que desde 221 a. C. é unificada e desmembrada, até a intervenção das grandes potências ocidentais em meados do século XIX, no contexto do neocolonialismo.

    Na Guerra do Ópio (1840-42), desencadeada pelo ocidente, quando o governo chinês decidiu proibir o contrabando desse alucinógeno dominado principalmente pelos ingleses, a China derrotada, perdeu sua soberania sobre vários portos, destacando-se Hong-Kong, Xangai e Nanquim. O país foi então repartido em zonas de influência: o norte ficou com os russos, o Shandong com os alemães, o vale do Yangzi com os ingleses e o sudoeste (limítrofe com a Indochina) com os franceses.
    Destaca-se ainda a derrota militar para o Japão (1894-1895) que passou a controlar Taiwan e Liaodong, radicalizando o nacionalismo chinês, que criou uma associação secreta (Sociedade dos Boxers), responsável por uma série de atentados contra estrangeiros residentes na China. As nações imperialistas reagiram se unindo militarmente, desencadeando a Guerra dos Boxers na passagem para o século XX, depois da qual a China ficou totalmente dominada pelas potências ocidentais.

    Pequim em 1900, ano da Guerra dos Boxers

    B) DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA AO SOCIALISMO

    Neste contexto, marcado pelo imperialismo, surgiu em 1905, o Kuomintang (Partido Popular Nacional), liderado por Sun Yat-Sem, que pretendia desenvolver a China através de transformações sócio-econômicas, liderando a proclamação da república na sublevação do Duplo Dez (dia 10 do mês 10) de 1911.

    O novo regime não conseguiu conter o clima de instabilidade e em maio de 1919 ocorrem várias manifestações estudantis combinadas com um boicote às mercadorias japonesas. As idéias marxistas penetraram na China e em 1921 era fundado o Partido Comunista Chinês.

    No sul os comunistas e os nacionalistas do Kuomintang uniram-se contra o domínio estrangeiro, até a morte de Sun Yat-Sem (1925), quando Chiang Kai Chek tornou-se chefe militar do Kuominyang, rompendo com os comunistas em 1927. O Partido Comunista tornou-se clandestino e grande parte de seus membros seguiu Mao Zedong (Mao Tsé-Tung) para o campo. Em 1931 os comunistas fundaram a República Soviética Chinesa no sudeste da China com 10 milhões de habitantes. Destruída a República, os comunistas se retiraram para o norte na Longa Marcha dirigida por Mao entre 1934 e 1935.

    Com a ocupação da Manchúria pelo Japão comunistas e nacionalistas se uniram novamente. Essa reunificação manteve-se durante a II guerra mundial, beneficiando fortemente os comunistas que com o término do conflito estenderam seu domínio em grande parte do território chinês. Após três anos de guerra civil, os nacionalistas de Chiang Kai-Chek recuaram para Taiwan (ilha de Formosa) e os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung fundaram a República Popular da China em 1949.

    Mao tsé Tung

    C) A REPÚBLICA POPULAR DA CHINA E A REVOLUÇÃO CULTURAL

    Para consolidar o Estado socialista, o novo regime chinês assume como principal tarefa revolucionária o combate ao imperialismo e ao latifúndio. A reforma agrária iniciava-se, porém, sem a coletivização das terras. Cada camponês tornava-se proprietário de uma pequena parcela.

    Com auxílio soviético foi implantado o primeiro plano quinquenal, priorizando a indústria pesada. Em 1958 foi adotada a política do “Grande Salto Adiante” que abandonou os planos quinquenais, estimulando o desenvolvimento agrícola. Foram criadas as comunas populares e o campo foi coletivizado. Porém, a nova política não produziu os resultados esperados e gerou fome, deixando cerca de 30 milhões de mortos.

    A partir de 1959, dirigentes favoráveis a uma política econômica mais ortodoxa liderados pelo presidente da República Liu Shaoqi passaram a disputar o poder com Mao Tsé-Tung, que lança em 1966 a “Grande Revolução Cultural Proletária”, mais conhecida como “Revolução Cultural”, para combater o revisionismo, expurgando o Partido Comunista de seus adversários. Apoiado pelo ministro da Defesa Lin Biao, pelo exército e pela juventude urbana (“Guarda Vermelha”), Mao combateu a política econômica pragmática, baseada em incentivos materiais e individuais. Com a deposição da corrente direitista liderada por Liu Shaoqi, Mao achou por bem interromper o processo da Revolução Cultural, antes que ela se radicalizasse demais. Tal medida provocou o descontentamento de líderes mais sectários do partido como Lin Biao, que morreu num acidente de avião em 1971, num fato mal esclarecido pelas autoridades chinesas, diminuindo, desde então, a influência dos militares na vida política do país.

    No Partido Comunista, o poder passou a ser disputado pela corrente dos centristas liderada por Zhu Enlai e pelo vice-primeiro-ministro Deng Xiaoping e a dos radicais liderada por Jiang Qing, esposa de Mao e pelo grupo de Xangai, conhecido mais tarde como “Bando dos Quatro”.

    D) DENG XIAOPING: “ECONOMIA SOCIALISTA DE MERCADO”

    As relações diplomáticas da China com o mundo ocidental normalizaram-se na década de 1970, principalmente após 1972, quando o presidente norte-americano Richard Nixon visitou a China. No ano anterior, a República Popular da China já tinha sido reconhecida pela ONU enquanto Taiwan era excluída da organização.

    Com a morte de Zhu Enlai em janeiro de 1976, inicia-se uma nova crise política com manifestações populares a favor de Deng Xiaoping e Hua Guofeng, que tornou-se primeiro ministro. Em 9 de setembro desse mesmo ano morria Mao Tsé-Tung e imediatamente Hua Guofeng inicia uma forte campanha contra os radicais, culminando com a prisão do “Bando dos Quatro”.

    Os novos dirigentes iniciam a política das “Quatro Modernizações” (indústria, agricultura, defesa e ciência e tecnologia), ao mesmo tempo em que a figura de Deng Xiaoping era reabilitada. Hua Guofeng foi substituído por Zhao Ziyang no governo e por Hu Yaobang na direção do partido. Iniciava-se um processo de reformas econômicas com o abandono das comunas populares, abertura para o exterior e autorização para formação de pequenas empresas particulares. A abertura econômica veio acompanhada de um grande movimento popular em nome da democracia. Durante o primeiro semestre de 1989 cresciam os protestos estudantis e em junho o exército fortemente armado com tanques, avançou sobre a multidão reunida na Praça da Paz Celestial (“Primavera de Pequim”), matando e ferindo centenas de pessoas.

    Praça da Paz

    E) ÀS VÉSPERAS DO NOVO MILÊNIO

    Com a morte de Deng Xiaoping em 1997, Jiang Zemin se fortalece como líder dos comunistas. A China neste final de século é um país com uma profunda crise de identidade, pois em meio as transformações econômicas, o Partido Comunista permanece comandando uma rígida ditadura, amparada pelo Exército de Libertação Popular (braço armado do comunismo chinês fundado em 1927), contando atualmente com 2,8 milhões de soldados.

    O que se questiona nesses 50 anos de revolução, é se a crescente abertura econômica não resultará em mudanças democráticas. O atual presidente Jiang Zemin manteve as reformas iniciadas por Deng Xiaoping, mas enfrenta sérios problemas, como as manifestações pela democracia, os constantes escândalos de corrupção envolvendo dirigentes do partido, além das diferenças cada vez maiores entre as zonas econômicas especiais, centros urbanos de comércio e indústria, onde surgiram os primeiros chineses milionários, e as áreas rurais, ainda mergulhadas no atraso e pobreza.

    A reintegração de territórios está ocorrendo até o momento, através de um processo de negociações diplomáticas, destacando-se a devolução de Hong Kong pela Grã-Bretanha em julho de 1997, devendo prosseguir com Macau, colônia portuguesa desde 1557, em dezembro de 1999. Nesse último ponto de presença européia no sudeste asiático, Portugal terá o direito de manter influências liberais durante um período transitório de 50 anos. O restabelecimento chinês sobre essas regiões tem por base a teoria de Deng Xiaoping: “Um só país, dois sistemas”, ou seja, uma só China majoritariamente socialista.

    Apesar de não ser tão carismático como seus antecessores, Jiang Zemin vem conseguindo garantir a estabilidade. Organizações de defesa de direitos humanos denunciam milhares de dissidentes, acusados de “ameaçar a segurança do Estado” e de “espionagem”. Como se vê, a estabilidade política do país é garantida com um forte aparato repressivo, acompanhado do monopartidarismo e de uma rígida censura, resquícios do velho stalinismo, ainda não resolvidos pelo socialismo

  66. Eric Carvalho disse:

    Roma Antiga
    Ver artigo principal: Roma Antiga
    Cronologia romana
    Reino de Roma
    e República Romana
    753 a.C. Segundo a lenda, Rômulo e Remo fundam Roma.
    753–509 a.C. Reino de Roma.
    509–500 a.C. Criação da República Romana.
    387 a.C. Os Gauleses invadem Roma. Saque de Roma
    264-146 a.C. Guerras Púnicas.
    146-44 a.C. Guerras civis romanas. Surgimento Mário, Sula, Pompeu e Júlio César.
    44 a.C. Assassinato de Júlio César
    Roma Antiga foi uma civilização que se desenvolveu a partir da cidade-Estado de Roma, fundada na península Itálica durante o século VIII a.C.[2] Durante os seus doze séculos de existência, a civilização romana transitou da monarquia para uma república oligárquica até se tornar um vasto império que dominou a Europa Ocidental e ao redor de todo o mar Mediterrâneo através da conquista e assimilação cultural. No entanto, um rol de factores sócio-políticos iria agravando o seu declínio, e o império seria dividido em dois. A metade ocidental, onde estavam incluídas a Hispânia, a Gália e a Itália, entrou em colapso definitivo no século V e deu origem a vários reinos independentes; a metade oriental, governada a partir de Constantinopla passou a ser referida como Império Bizantino a partir de 476, data tradicional da queda de Roma e aproveitada pela historiografia para demarcar o início da Idade Média.

    Origem
    Ver artigo principal: Fundação de Roma
    A etimologia do nome da cidade é incerta, e são várias as teorias que nos chegam desde a Antiguidade.[3] A menos provável indica-nos que derivaria da palavra grega Ρώμη (Róme), que significa “bravura”, “coragem”. A mais provável é a ligação com a raiz *rum-, “seios”, com possível referência a uma loba (em latim, lupa) que teria adotado os gémeos Rómulo e Remo que, segundo se pensa, seriam descendentes dos povos de Lavínio. Rómulo mataria o seu irmão e fundaria Roma.

    Nas últimas décadas, os progressos na língua etrusca e na arqueologia na Itália reduziram as probabilidades destas teorias, introduzindo novas hipóteses possíveis. Sabe-se, atualmente, que o etrusco era falado desde a região que se tornaria mais tarde na província romana de Récia, nos Alpes, até à Etrúria, incluindo o Lácio e toda a região para Sul, até Cápua. As tribos itálicas entraram no Lácio a partir de uma região montanhosa no centro da península Itálica, vindos da costa oriental. Apesar das circunstâncias da fundação de Roma, a sua população original era, por certo, uma combinação da civilização etrusca e povos itálicos, com uma provável predominância de etruscos. Gradualmente, a infiltração itálica aumentaria, ao ponto de predominar sobre os Etruscos; i.e., as populações etruscas seriam assimiladas pelas itálicas, dentro e fora de Roma.

    Os Etruscos dispunham da palavra Rumach, “de Roma”, de onde pode ser extraído “Ruma”. Adiante na etimologia, tal como na maioria das palavras etruscas, permanece desconhecido. Que talvez possa significar “teta” é pura especulação. As associações mitológicas posteriores colocam em dúvida esse significado; afinal, nenhum dos colonizadores originais foi criado por lobos, e é pouco provável que os fundadores tivessem tido algum conhecimento sobre este mito acerca deles mesmos. O nome, Tibério, pode perfeitamente conter o nome do Tibre (em italiano: Tevere). Acredita-se atualmente que o nome provenha de uma nome etrusco, Thefarie, e nesse caso o Tibre derivaria de *Thefar.

    Primeiros povos itálicos

    Mapa das línguas itálicas antigas
    Roma cresceu com a sedentarização dos povos no monte Palatino até outras colinas a oito milhas do mar Tirreno, na margem Sul do rio Tibre. Outra destas colinas, o Quirinal, terá sido, provavelmente, um entreposto para outro povo itálico, os Sabinos. Nesta zona, o Tibre esboça uma curva em forma de “Z” contendo uma ilha que permite a sua travessia. Assim, Roma estava no cruzamento entre o vale do rio e os comerciantes que viajavam de Norte a Sul pelo lado ocidental da península.

    A data tradicional da fundação (21 de abril de 753 a.C.[1]) foi convencionada bem mais tarde, no final da República por Públio Terêncio Varrão,[2] atribuindo uma duração de 35 anos a cada uma das sete gerações correspondentes aos sete mitológicos reis. Foram, no entanto, descobertas peças arqueológicas que indicam que a área de Roma poderá já ter estado habitada tão cedo quanto 1 400 a.C.. Estas descobertas arqueológicas também confirmaram que no século VIII a.C., na área da futura Roma, houve duas povoações fortificadas, os Rumi, no monte Palatino, e os Titientes, no Quirinal, e, mais a Norte, os Luceres, que viviam nos bosques. Eram estas apenas três das numerosas comunidades itálicas que existiram no primeiro milénio a.C. na região do Lácio, uma planície na península Itálica. No entanto, desconhecem-se as origens destes povos, embora se admita que possam descender dos indo-europeus que migraram do Norte dos Alpes na segunda metade do segundo milénio a.C., ou de uma eventual mistura destes povos com outros povos mediterrânicos, talvez do Norte de África.

    No século VIII a.C., os itálicos — Latinos (a Oeste), Sabinos (no vale superior do Tibre), Úmbrios (no nordeste), Samnitas (no Sul), Oscos e outros — partilhavam a península com outros grandes grupos étnicos: os Etruscos do Norte e os Gregos do Sul.

    Os Etruscos estavam estabelecidos a Norte de Roma, na Etrúria (uma zona correspondente ao actual Norte do Lácio e Toscana). Teriam sido eles uma grande influência na cultura romana, como claramente demonstrado pela origem etrusca dos sete reis mitológicos.

    Entre 750 a.C. e 550 a.C., os Gregos teriam já fundado várias colónias a Sul da península (que os romanos mais tarde designariam por Magna Grécia), como Cumas, Neápolis e Tarento, bem como nos dois terços orientais da Sicília.

    Domínio etrusco
    Ver artigo principal: Reino de Roma

    A Muralha Serviana herdou o nome do rei Sérvio Túlio e são as verdadeiras primeiras muralhas de Roma

    Templo de Júpiter 526 a.C.-509 a.C.[4]

    Tumba etrusca
    Após 650 a.C., os Etruscos tornaram-se dominantes na península Itálica, expandindo-se para o centro-norte da região. Alguns historiadores modernos consideram que a este movimento estava associado o desejo de dominar Roma e talvez toda a região do Lácio, embora o assunto seja controverso. A tradição romana apenas nos informa que a cidade foi governada por sete reis de 753 a.C. a 509 a.C., iniciando-se com o mítico Rómulo que, juntamente com o seu irmão, Remo, teriam fundado Roma. Sobre os últimos três reis, especialmente Tarquínio Prisco e Tarquínio, o Soberbo, informa-nos ainda que estes seriam de origem etrusca — segundo fontes literárias antigas, Prisco seria filho de um refugiado grego e de uma mãe etrusca — e cujos nomes se referem a Tarquinia.

    O valor historiográfico da lista de reis é, contudo, dúbio, embora os últimos reis pareçam ter sido figuras históricas. Crê-se, também — embora contestado em controvérsia — que Roma teria estado sob influência etrusca durante quase um século, durante este período. Sabe-se, porém, que nestes anos foi construída uma ponte designada Ponte Sublício,[5] que viria a substituir um baixio do rio Tibre utilizado para a sua travessia, e a Cloaca Máxima, o sistema romano de esgotos, obras de engenharia com um traçado típico da civilização etrusca. Do ponto de vista técnico e cultural, os Etruscos são considerados como o segundo maior impacto no desenvolvimento romano, apenas suplantados pelos Gregos.

    Continuando a expansão, para Sul, os Etruscos estabeleceram contacto directo com os Gregos. Após o sucesso inicial nos conflitos com os Gregos colonizadores, a Etrúria entraria em declínio. Aproveitando-se da situação, a cerca de 500 a.C., dá-se uma rebelião em Roma que lhe iria dar a independência dos etruscos. A monarquia foi também abolida em detrimento de um sistema republicano baseado num senado, composto pelos nobres da cidade, alguns populares representantes, que iriam garantir a participação política aos cidadãos de Roma, e magistrados eleitos anualmente.

    Contudo, o legado etrusco mostrou-se duradouro: os Romanos aprenderam a construir templos, e pensa-se que os primeiros tenham sido os responsáveis pela introdução da adoração a uma tríade divina — Juno, Minerva, e Júpiter — possivelmente correspondentes aos deuses etruscos Uni[desambiguação necessária], Menrva e Tinia. Em suma, os etruscos transformaram Roma, uma comunidade pastoral, numa verdadeira cidade, imprimindo-lhe alguns aspectos culturais da cultura grega, que teriam adoptado, como a versão ocidental do alfabeto grego.

    República Romana
    Ver artigo principal: República Romana

    Fórum Romano

    Expansão romana na península Itálica
    No virar para o século V a.C., Roma uniu-se às cidades latinas como medida defensiva das incursões dos Sabinos. Vencedora da Batalha do Lago Regilo, em 493 a.C., Roma estabeleceu novamente a supremacia sobre as regiões latinas que perdera com a queda da monarquia. Após séries de lutas, a supremacia veio a consolidar-se em 393 a.C., com a subjugação dos Volscos (volsci) e dos Équos (aequi). No ano anterior, já teriam resolvido a ameaça dos vizinhos Veios, conquistando-os. A potência etrusca estava agora confinada exclusivamente à sua própria região, e Roma tornara-se na cidade dominante do Lácio. No entanto, em 387 a.C., Roma seria saqueada pelos Gauleses liderados por Breno, que já tinha sido bem-sucedido na invasão da Etrúria. Esta ameaça seria rapidamente resolvida pelo cônsul Marco Fúrio Camilo, que derrotou Breno em Túsculo pouco depois.

    Para assegurar a segurança do seu território, Roma empenhou-se na reconstrução dos edifícios e tornou-se ela própria a invasora, ao conquistar a Etrúria e alguns territórios aos gauleses, mais a norte. Em 345 a.C., Roma voltou-se para Sul, a combater outros latinos, na tentativa de assegurar o seu território contra posteriores invasões. Neste quadrante, o seu principal inimigo eram os temidos samnitas que já haviam derrotado as legiões em 321 a.C.

    Apesar desses e outros contratempos temporais, os Romanos prosseguiram a sua expansão casual de forma equilibrada. Em 290 a.C., Roma já controlava mais de metade da península Itálica e, durante esse século ainda, os Romanos apoderaram-se também das poleis da Magna Grécia mais a sul.

    Planta de Roma nos tempos da República Romana
    Segundo a lenda, Roma tornou-se numa República em 509 a.C., quando um grupo de aristocratas expulsou Tarquínio, o Soberbo.[2] No entanto, foram necessários vários séculos até Roma assumir a forma monumental com que é popularmente concebida. Durante as Guerras Púnicas, entre Roma e o grande império mediterrânico de Cartago, o estatuto de Roma aumentou mais ainda, já que assumia cada vez mais o papel de uma capital de um império ultramarino pela primeira vez. Iniciada no século II a.C., Roma viveu uma significativa explosão populacional, com os agricultores ancestrais a trocarem as suas terras pela grande cidade, com o advento das quintas operadas por escravos obtidos durante as conquistas, os latifúndios.

    Em 146 a.C., os Romanos arrasaram as cidades de Cartago e Corinto, anexando o Norte de África e a Grécia ao seu império e transformando Roma na cidade mais importante da parte ocidental do Mediterrâneo. A partir daqui, até ao final da república, os cidadãos iriam empenhar-se numa corrida de prestígio, suportando a construção de monumentos e grandes estruturas públicas. Talvez a mais notável tenha sido o Teatro de Pompeu, erigido pelo general Pompeu, que era o primeiro teatro de carácter permanente alguma vez construído na cidade. Depois de Júlio César regressar vitorioso das conquistas gálicas e subsequente guerra civil com Pompeu, embarcou num programa de reconstrução sem precedentes na história romana. Seria, no entanto, assassinado em 44 a.C. com a maioria dos seus projectos ainda em construção, como a Basílica Júlia e a nova casa do senado romano (Cúria Hostília).

    Império Romano
    Ver artigo principal: Império Romano
    Cronologia romana
    Império Romano
    27 a.C. – 14 d.C. Augusto estabelece o Império Romano.
    64 Grande incêndio de Roma durante governo de Nero.
    69-96 Governos da dinastia flaviana. Construção do Coliseu.
    século III Crise do terceiro século. Construção das Termas de Caracala e da Muralha Aureliana.
    284-337 Diocleciano e Constantino. Construção das primeiras basílicas cristãs. Batalha da Ponte Mílvia. A capital do império é transferida para Constantinopla.
    395 Separação definitiva do Ocidente e Oriente.
    410 Os Godos de Alarico saqueiam Roma.
    455 Os Vândalos de Genserico saqueiam Roma.
    476 Queda do Império Romano do Ocidente e deposição do imperador Rômulo Augusto.
    século VI Guerra Gótica. Os Godos destroem os aquedutos de Roma durante o cerco de 537, ação que é tradicionalmente considerada o começo da Idade Média na Itália [6]
    No final da república, a cidade de Roma ostentava já a imponência de uma verdadeira capital de um império que dominava a totalidade do Mediterrâneo. Era, na altura, a maior cidade do mundo e provavelmente a mais populosa cidade já construída até o século XIX. Estimativas dos picos populacionais variam entre menos de 500 000 e mais de 3,5 milhões, embora valores mais populares pelos historiadores variem entre 1 milhão e 2 milhões. A grandeza da cidade aumentou com as intervenções de Augusto, que completou os projectos de César e iniciou os seus próprios, como o Fórum de Augusto, e o Ara Pacis (“Altar da Paz”), em celebração do período de paz vivido na altura (Pax Romana), redefinindo também a organização administrativa da cidade em 14 regiões. Os sucessores de Augusto tentaram prosseguir essa linha edificadora deixando as suas próprias contribuições na cidade. O grande incêndio de Roma, durante o reinado de Nero, iria destruir grande parte da cidade mas, por sua vez, iria permitir e impulsionar uma nova vaga do desenvolvimento edificador.

    Por esta altura, Roma era uma cidade subsidiada, com cerca de 15 a 25 porcento do abastecimento de cereais sendo pagos pelo governo. O comércio e a indústria desempenhavam um papel menos significante quando comparado com os de outras grandes cidades como Alexandria, mas assim mesmo era uma grande metrópole e o maior centro comercial e industrial do mundo, por isso ela tinha uma dependência de outras regiões do império para obter géneros primários e matérias primas. Para pagar os subsídios de cereais, foram introduzidos impostos na vida dos cidadãos das províncias. Se assim não fosse, Roma seria significativamente menor.

    A população de Roma entrou em declínio logo após o seu pico, no início do século II. No final desse século, durante o reinado de Marco Aurélio, uma praga devastaria os cidadãos a uma taxa de cerca de 2 000 por dia. Quando, em 273, a muralha Aureliana foi concluída, apenas restava uma fracção desse máximo da população de Roma: cerca de 500 000.

    Um evento historiograficamente designado de crise do terceiro século delineia os desastres e problemas políticos do império, que praticamente entrava em colapso. O medo e a ameaça das invasões bárbaras esteve patente na decisão do imperador Aureliano que, em 273, terminou a circunscrição da cidade com a maciça muralha Aureliana, cujo perímetro rondava os 20 quilómetros. Roma permanecia a capital do Império, embora os imperadores aí permanecessem cada vez menos tempo. No final das reformas políticas de Diocleciano, no século III, Roma seria privada do seu tradicional papel de capital administrativa do império. Mais tarde, os imperadores do Ocidente iriam governar o império a partir de Mediolano (atual Milão) ou Ravena, ou cidades na Gália e, em 330, Constantino I estabeleceu a segunda capital em Constantinopla. Por esta altura, parte da classe aristocrática romana transferia-se para o novo centro, seguida por muitos dos artistas e homens-de-ofício que viviam na cidade.

    O Arco de Galiano, um dos poucos monumentos que restam da Roma Antiga do século III, servia de porta na muralha Serviana. Os dois portões laterais foram destruídos em 1447
    No entanto, o senado, agora desprovido da sua influência política de outrora, preservava o seu prestígio social. Em 380, os dois augustos (Teodósio I no Oriente e Graciano no Ocidente) declararam reconhecer como única religião no império “a fé que a Igreja Romana havia recebido de São Pedro”[7] A conversão do império ao cristianismo transformou o Bispo de Roma (mais tarde designado papa) na figura religiosa de maior relevo do Império Ocidental, como declarado oficialmente em 380, no Édito de Tessalónica. Apesar do seu papel cada vez mais passivo no império, Roma conseguiu preservar o seu prestígio histórico, e este período assistiria à última vaga de actividades edificadoras: o predecessor de Constantino, Magêncio, construiu notáveis edifícios, como a basílica no Fórum Romano, o próprio Constantino erigiu o seu famoso arco para celebrar a vitória contra o primeiro, e Diocleciano construiria as maiores termas de todas as existentes. Constantino tornou-se também no primeiro padroeiro de edifícios oficiais cristãos na cidade; doou ao papa o Palácio de Latrão e construiu a primeira grande basílica, a antiga Basílica de São Pedro.

    Roma permanecia, contudo, um estandarte do paganismo, dirigida por aristocratas e senadores. Quando os Visigodos surgiram perto das muralhas em 408, o senado e o prefeito propuseram sacrifícios pagãos, e tudo indica que inclusive o papa estaria de acordo, se isso pudesse salvar a cidade. Ainda assim, nem as novas muralhas impediram que a cidade fosse saqueada, primeiro pelo visigodo Alarico a 24 de agosto de 410, e depois pelo vândalo Genserico em 455 a.C. e, mais tarde ainda, pelas tropas do general Ricímero (na maioria compostas por bárbaros) a 11 de julho de 472. Os saques da cidade, inéditos desde os tempos de Breno, alarmaram toda a civilização romana: a queda de Roma significava o derrube definitivo da ordem antiga. Muitos habitantes fugiram e, no final do século, a população de Roma caía para cerca de 30 000.[1]

    Planta da cidade durante o Império Romano
    Ainda assim, o prejuízo dos saques terá sido provavelmente exagerado na historiografia da época. A cidade encontrava-se já em declínio, e muitos dos monumentos teriam já sido destruídos pelos próprios habitantes, que roubavam rochas dos templos, edifícios públicos e estátuas próximas para o seu propósito pessoal — é mesmo frequente encontrar nos dias de hoje estátuas e pedaços arqueológicos utilizados em casas habitacionais por toda a cidade. Além disso, muitas das igrejas teriam sido também construídas desta forma. Por exemplo, a primeira basílica de São Pedro foi erigida usando partes do Circo de Nero, abandonado. Esta atitude foi uma característica constante de Roma até ao Renascimento. A partir do século IV, eram comuns os éditos imperiais contra o roubo de pedras e, especialmente, do mármore – a sua própria repetição mostra o quão inefectivos seriam. Em algumas ocasiões, novas igrejas foram criadas directamente a partir de templos pagãos, provavelmente transformando um deus ou herói pagão para o correspondente santo ou mártir do cristianismo. Foi assim que o Templo de Rómulo e Remo se tornou a basílica dos santos gémeos Cosme e Damião. Mais tarde, o Panteão, “Templo de Todos os Deuses”, se tornaria a Igreja de Todos os Mártires.

    Roma medieval
    As invasões bárbaras e o domínio bizantino
    Ver artigos principais: Invasões bárbaras e Império Bizantino

    Durante a Guerra Gótica, Roma foi cercada várias vezes pelos exércitos bizantino e ostrogodo

    A Coluna de Focas, o último monumento imperial do Fórum Romano

    A antiga basílica de São Lourenço Fora de Muros foi construída directamente sobre a tumba do mártir romano favorito
    Em 476, o último imperador do Ocidente, Rómulo Augusto, que vinha sendo manipulado (como a maioria dos imperadores neste período) pelo pai, o general Flávio Orestes, foi deposto pelas tropas bárbaras lideradas por Odoacro e exilado no Castelo do Ovo, em Nápoles. A queda do Império Romano do Ocidente teria, no entanto, pouco impacto em Roma. Odoacro, e mais tarde os Ostrogodos, continuariam a governar a Itália a partir de Ravena. Entretanto, o senado, apesar de desprovido da sua grande influência há muito tempo, continuaria a dirigir Roma, com o papa provindo geralmente de uma família senatorial. Esta situação manter-se-ia até as forças do Império Romano do Oriente, encabeçadas por Belisário a mando de Justiniano I, capturarem a cidade em 536.

    Em 17 de dezembro de 546, os Ostrogodos de Totila recapturaram a cidade e novamente a saquearam. Belisário recapturou a cidade, para a perder novamente em 549. Belisário foi substituído por Narses, que capturou Roma definitivamente em 552, terminando a Guerra Gótica que arrasou a península Itálica. A contínua guerra em redor de Roma entre as décadas de 530 e 540 deixaram-na praticamente abandonada e desolada. Os aquedutos não foram mais reparados, conduzindo a uma redução da população para cerca de 30 000[1], concentrados nas margens do rio Tibre, na zona do Campo de Marte, abandonando as zonas sem abastecimento de água. Existe mesmo uma lenda que fala de um momento em que Roma estaria completamente inabitada.[carece de fontes]

    O Imperador Romano do Oriente Justiniano I (r. 527–565) tentou, ainda assim, garantir subsídios a Roma para a manutenção dos edifícios públicos, aquedutos e pontes, embora sem grande sucesso, já que toda a península da Itália estava dramaticamente empobrecida pelas recentes guerras. Transformou-se também no padroeiro dos estudiosos, oradores, físicos e magistrados que restavam, na esperança de que os mais novos procurassem uma melhor educação. Após as guerras, as estruturas do Senado foram restabelecidas sob a supervisão de um prefeito e outros oficiais designados e responsabilizados pelas autoridades romanas (bizantinas) em Ravena.

    No entanto, o papa tornara-se um dos ícones religiosos em todo o Império Bizantino e, efectivamente, mais poderoso localmente que os senadores ou quaisquer outros oficiais bizantinos. Na prática, o poder local de Roma recaía sobre o ṕapa e, ao longo das próximas décadas, o poder aristocrático senatorial, bem como a administração bizantina de Roma, iriam ser absorvidos pela Igreja Católica.

    O reinado do sobrinho e sucessor de Justiniano, Justino II (r. 565–578) ficou marcado pela invasão dos Lombardos liderados por Alboíno (568). Com a captura das regiões de Benevento, Lombardia, Piemonte, Espoleto e Toscana, os invasores restringiram efectivamente a autoridade imperial a pequenas porções de terra ao redor de cidades costeiras, incluindo Ravena, Nápoles, Roma e a área da futura Veneza. A única porção ainda sob domínio bizantino era Perúgia, que permitia a ligação, repetidamente assediada, entre Roma e Ravena. Em 578, e novamente em 580, o senado, nas suas últimas intervenções de que há registo, foi obrigado a recorrer ao auxílio de Tibério II (r. 578–582) contra os duques que se aproximavam, Faroaldo I de Espoleto e Zoto de Benevento.

    Maurício I (r. 582–602) iria inserir um novo facto no contínuo conflito estabelecendo uma aliança com Quildeberto II da Austrásia (r. 575–595). Os exércitos do rei dos francos invadiram os territórios da Lombardia em 584, 585, 588 e 590 e, no ano anterior, Roma tinha já sofrido uma desastrosa inundação do rio Tibre, seguida de uma praga de peste negra em 590 — esta última tornou-se famosa pela lenda associada à procissão do novo papa, Gregório I (r. 590–604), pelas Tumbas de Adriano, que fala de um anjo que surgiu sobre o edifício investindo a sua espada flamejante, como sinal de que a pestilência iria terminar. A partir deste ano a cidade manteve-se finalmente a salvo.

    Entretanto, Agilolfo, o novo rei lombardo (r. 591–616) conseguiu assegurar a paz com Quildeberto II, reorganizou os seus territórios e prosseguiu os ataques a Nápoles e Roma em 592. Com o imperador ocupado com as guerras nas fronteiras orientais e os sucessivos exarcas , incapazes de defender Roma das invasões, Gregório tomou a iniciativa de iniciar as negociações para um tratado de paz, que seria conseguido no Outono de 598 — embora só mais tarde reconhecido por Maurício — durando até ao final do seu reinado.

    A posição do papa ver-se-ia fortalecida pelo usurpador Focas (r. 602–610). Focas reconheceu a sua primazia sobre o Patriarca de Constantinopla e chegou mesmo a decretar o papa Bonifácio III (607) como “representante de todas as Igrejas”. Foi no reinado de Focas que se assistiu à erecção do último monumento imperial do Fórum Romano, a coluna que ostentava o seu nome. Também doou ao papa o Panteão, já encerrado fazia séculos, o que provavelmente o salvou da destruição.

    Planta de Roma na Idade Média

    Planta medieval de Roma
    Durante o século VII, um influxo de oficiais bizantinos e religiosos de outras partes do império culminou numa presença dominante da língua e aristocracia grega. No entanto, esta forte influência cultural bizantina nem sempre se traduziu em harmonia política entre Roma e Constantinopla. Na controvérsia sobre o monotelismo, os papas sentiram a grande pressão (chegando mesmo a traduzir-se fisicamente) por não conseguirem acompanhar as alterações nas orientações teológicas de Constantinopla. Em 653, o papa Martinho I seria deportado para Constantinopla e, logo após um breve julgamento, exilado para a Crimeia, onde faleceu.

    Pouco depois, em 663, Roma recebia a sua primeira visita imperial dos últimos dois séculos, por Constâncio II – o seu pior infortúnio desde as Guerras Gálicas, já que o imperador tratou de retirar os metais que existiam na cidade, incluindo aqueles dos edifícios e estátuas, para disponibilizá-los para a construção de armamento para as lutas contra os Sarracenos. Contudo, durante a metade seguinte do século, e apesar das tensões várias vividas, Roma e o Papado continuaram a preferir a regência bizantina – em parte porque a alternativa seria a dominação lombarda e, por outro lado, porque a maioria dos alimentos trazidos para Roma provinham de estados papais de outras partes do império, particularmente da Sicília.

    Em 727, o papa Gregório II recusou aceitar os decretos do imperador Leão III, o Isauro, estabelecendo a iconoclastia. A reacção inicial de Leão foi de tentar raptar o Pontífice, em vão, mas mais tarde mandaria uma força de tropas Bizantinas, sob o comando do exarca Paulo, que seriam contidas pelos Lombardos de Tuscia e Benevento. A 1 de novembro de 731, foi convocado por Gregório III um sínodo em Roma para excomungar os iconoclastas, cuja resposta do imperador foi a confiscação de grandes porções de territórios papais na Sicília e Calábria e a transferência de várias zonas de domínio eclesiástico do papa sob controlo bizantino para o Patriarca de Constantinopla (a criação do patriarca de Grado, separando-o da jurisdição do Aquileia). Roma, sob domínio do papa, foi assim expulsa do Império Bizantino.

    Durante este período, o Reino Lombardo atravessava uma fase de renascimento, sob a liderança de Liutprando. Em 730 mandou uma razia contra Roma para punir o papa, que teria apoiado o duque de Espoleto. Ainda que protegido pela muralha maciça da cidade, o papa pouco podia fazer contra o rei lombardo, que entretanto conseguia aliar-se aos bizantinos. Gregório III, compreendendo a impotência de resistir a tal aliança, foi o primeiro papa a pedir ajuda, pela primeira vez de forma oficial, ao reino dos Francos, então sob o comando de Carlos Martel (739).

    O sucessor de Liutprando, Astolfo, foi ainda mais agressivo: conquistou Ferrara e Ravena, terminando assim o Exarcado de Ravena. Roma seria, provavelmente, a próxima vítima. Em 754, o papa Estêvão III dirigiu-se a França para nomear Pepino, o Breve, rei dos Francos, como patricius romanorum, i.e., protector de Roma. Em agosto do mesmo ano, o rei e o papa atravessaram os Alpes para derrotar Astolfo, em Susa, conseguindo fazê-lo prometer que iria desistir dos conflitos com o papa, devolvendo-lhe os territórios ocupados. No entanto, quando Pepino regressou a Saint-Denis, Astolfo faltou à promessa e cercou Roma durante 56 dias, em 756, desistindo assim que souberam da notícia do regresso de Pepino à Itália. Desta vez concordaria em entregar ao papa os territórios prometidos, e assim nasciam os Estados Pontifícios.

    Em 771, o novo rei dos Lombardos, Desidério, concebeu um estratagema para conquistar definitivamente Roma e depor o papa Estêvão III. O seu principal aliado seria Paulus Afiarta, líder da facção lombarda residente na cidade. Contudo, o plano não seria bem-sucedido, e o sucessor de Estevão, o papa Adriano I invocou Carlos Magno a declarar guerra a Desidério, que seria finalmente derrotado em 773. O reino lombardo foi dissolvido, e Roma foi colocada na órbita de uma nova e grande instituição política.

    O Sacro Império
    Ver artigo principal: Sacro Império Romano-Germânico

    A coroa do Sacro Império Romano-Germânico (século X),
    no Schatzkammer de Viena
    A 25 de abril de 799, enquanto o novo papa, Leão III, conduzia a tradicional procissão de Latrão em direcção à Igreja de São Lourenço em Lucina, ao longo da Via Lata , o trecho urbano da Via Flamínia (actual Via del Corso), dois nobres (seguidores do predecessor, Adriano), a quem não agradavam as fraquezas do papa em relação a Carlos Magno, atacaram o comboio processional deixando o papa gravemente ferido. Leão fugiu ao encontro do rei dos francos e, em novembro de 800, o rei entrou em Roma liderando um forte exército e um grande número de bispos francos. Carlos Magno organizou então um tribunal judicial para decidirem se Leão deveria continuar o Papado, ou se as reivindicações dos conjuradores seriam válidas ou não. No entanto, este tribunal fazia parte de uma cadeia de eventos minuciosamente planeados que iriam surpreender o mundo: O papa, naturalmente absolvido, e os conspiradores exilados, iria coroar Carlos Magno como Imperador Romano do Ocidente na Basílica de São Pedro, a 25 de dezembro de 800. Esta atitude cessou definitivamente a lealdade de Roma para com a sua “metade”, Constantinopla, criando um império rival que, após uma série de conquistas por Carlos Magno, englobava agora a maioria dos territórios ocidentais cristãos.

    As fronteiras do Sacro Império Romano-Germânico entre os anos de 962 a 1806, sobre as fronteiras da Europa moderna
    Após a morte de Carlos Magno, a inexistência de uma figura de igual prestígio provocou alguns desentendimentos na nova instituição. Ao mesmo tempo, a Igreja Romana enfrentava as demandas laicas da própria cidade, apressadas pela convicção de que o romano, embora empobrecido e desvalorizado, retinha o direito de eleger o novo imperador Ocidental. O papa reivindicava um território que ia de Ravena a Gaeta, o que significaria a soberania sobre Roma. No entanto, esta soberania seria continuamente disputada ao longo dos séculos seguintes, e apenas os papas mais fortes politicamente conseguiram mantê-la. A principal fraqueza do Papado era a precisamente a necessidade da eleição de novos papas, de tempos a tempos, na qual as famílias nobres emergentes rapidamente procuravam obter um papel de liderança. As potências vizinhas, nomeadamente o Ducado de Espoleto e a Toscana, e mais tarde os imperadores, aprenderam como tirar partido desta fraqueza interna e, consequentemente, tornavam-se árbitros entre os candidatos.

    Assim, o ambiente vivido em Roma era próximo da anarquia. O momento mais escandaloso verificou-se em 897 com a exumação do cadáver do Formoso para ser julgado num tribunal. Estas crises foram agravadas pelo surgimento de uma nova ameaça, os Árabes ou, como os italianos medievais os referiam, os Sarracenos: estes recém-chegados provindos do Norte de África já tinham conquistado a Sicília e a sua penetração no Sul da Itália estava a ser conduzida de forma eficaz. A infiltração de bandos de piratas levou o terror aos territórios em redor de Roma, ao qual o Pascoal I (r. 817–824) respondeu realojando os restos de todos os santos mártires entre os muros da cidade. Ainda assim, esta medida não impediu os muçulmanos de saquearem a Basílica de São Pedro em 846. Em 852, o Leão IV encarregou a construção de nova muralha ao redor de uma área na margem do Tibre oposta às sete colinas, que passaria a ser referida como “Cidade Leonina”.

  67. Eric Carvalho disse:

    Comuna de Roma

    Interior da basílica de Santa Maria em Trastevere, uma das mais belas igrejas de Roma construídas ou reconstruídas durante a Idade Média
    Por esta altura, a entretanto renovada Igreja Romana estava novamente a atrair peregrinos e prelados de toda as partes do mundo cristão, trazendo os seus dinheiros consigo: apesar da população reduzida (ca. 30 000), Roma transformava-se de novo numa cidade dependente dos consumidores, desta vez dirigida pela burocracia governamental. Entretanto, as outras cidades da península Itálica, dirigidas fundamentalmente por novas famílias que se iam sobrepondo à velha aristocracia, iam aumentando a sua autonomia formando uma nova classe de empreendedores, comerciantes e mercantes. Logo após o saque de Roma pelos Normandos, em 1084, a reconstrução da cidade foi suportada por famílias poderosas, como os Frangipane e os Pierleoni, cujo financiamento provinha do comércio e bancos, mais do que das terras. Inspirado pelas cidades vizinhas, como Tivoli e Viterbo, também o povo romano começou a considerar para a cidade o estatuto de comuna e, consequentemente, numa maior autonomia face à autoridade papal.

    Impulsionados pelas palavras do contestado pregador Arnaldo de Bréscia, um idealista e feroz opositor da propriedade eclesiástica e da interferência da Igreja nos assuntos internos, os romanos rebelaram-se em 1143. O senado e a república romana renasciam, portanto. No entanto, a Roma do século XII partilhava pouco daquela que havia governado o Mediterrâneo 700 anos antes, e rapidamente o senado se via em esforço constante para sobreviver, alternando o suporte ao papa e ao Império Romano do Ocidente, num posicionamento político ambíguo. Em Monteporzio, a 1167, durante uma destas alternâncias, as tropas romanas seriam derrotadas pelas forças imperiais de Frederico Barbarossa. Curiosamente, o inimigo vitorioso seria brevemente afugentado pela peste e Roma manter-se-ia a salvo.

    Em 1188, seria finalmente reconhecido o governo comunal pelo papa Clemente III, obrigado a pagar grandes somas aos oficiais da comuna, e os 56 senadores tornar-se-iam vassalos do papa. O senado sempre apresentou falhas no cumprimento das suas funções, o que levou a serem tentadas várias mudanças. Frequentemente apenas um senador encabeçava a instituição, o que levava, por vezes, a tiranias que não ajudavam à estabilidade do recém-nascido organismo.

    Em 1204, instalava-se novamente o mau ambiente, desta vez confrontando a família do papa Inocêncio III e os seus rivais, os poderosos Orsini, conduzindo a novos distúrbios na cidade. Muitos dos edifícios antigos sofreram a destruição pelas máquinas utilizadas entre os lados rivais para cercarem os seus inimigos nas incontáveis torres e fortalezas, usadas na Itália medieval como símbolo de nobreza.

    A Torre dei Conti foi uma das muitas torres construídas pelas famílias nobres de Roma como estandarte do seu poder e para defesa dos vários feudos que circundavam a cidade na Idade Média. Apenas subsiste um terço da torre
    As lutas entre os papas e o imperador Frederico II, também rei de Nápoles e da Sicília, levariam Roma a apoiar os gibelinos. Para afirmar a sua lealdade, Frederico enviou à comuna o Carroccio que teria ganho aos Lombardos na Batalha de Cortenuova em 1234, e que seria exposto no monte Capitolino. Ainda nesse ano, durante outra revolta contra o papa, os Romanos, liderados por Luca Savelli saquearam o Latrão. Curiosamente, Savelli era filho do papa Honório III e pai de Honório IV, embora nesta época os laços familiares não determinassem a sua lealdade. Roma não estava, decididamente, destinada a evoluir para uma comuna autónoma e estável, à semelhança de outras comunas como Florença, Siena ou Milão. As lutas intermináveis entre estas famílias nobres (Savelli, Orsini, Colonna e Annibaldi), o ambíguo alinhamento do papa, o orgulho da população que nunca abandonou o sonho e o esplendor do passado, e a fraqueza da instituição republicana continuamente privariam a cidade desta possibilidade.

    Na tentativa de imitar outras comunas mais bem sucedidas, em 1252, o povo elegeu um senador estrangeiro, o bolonhês Brancaleone degli Andalò. Esperando conseguir a paz na cidade, Andalò suprimiu os nobres mais poderosos (destruindo cerca de 140 torres), reorganizou as classes operárias e emitiu um conjunto de leis inspiradas naquelas aplicadas no norte da Itália. No entanto, e apesar da postura rígida com que enfrentou as adversidades, faleceria em 1258 com a maioria das suas reformas por concretizar. Cinco anos depois, Carlos I de Anjou, mais tarde rei de Nápoles, seria eleito senador. A sua entrada na cidade verificar-se-ia apenas em 1265 para pouco depois a deixar em virtude da necessidade de fazer frente a Conradino, o herdeiro dos Hohenstaufen que se aproximava para reclamar os direitos da sua família sobre o sul da Itália. A partir de junho desse ano, o governo de Roma era novamente caracterizado por uma república democrática, elegendo Henrique de Castela como senador. Conradino e a facção dos Guibelinos seriam derrotados na Batalha de Tagliacozzo (1268) e, assim, o governo de Roma passava novamente para as mãos de Carlos.

    O Nicolau III, membro dos Orsini, seria eleito em 1277 e transferiria a sede do Papado do Palácio de Latrão para o Vaticano, por se localizar mais protegido, e proibiria o acesso ao estatuto de senador de Roma por parte dos estrangeiros. Sendo ele um romano legítimo, o povo elegeu-o para senado, e a cidade tornava-se novamente dirigida pela facção papal. Não obstante, Carlos foi eleito senador novamente em 1285 e, com as Vésperas Sicilianas, o seu carisma seria afectado de forma irreversível. Assim perdeu a autoridade na cidade, lugar que seria ocupado por um outro romano e também papa, Honório IV da família Savelli.

    Cativeiro babilónico
    Ver artigo principal: Cativeiro Babilónico, Papado de Avinhão
    O sucessor do Celestino V foi um enérgico romano da família Caetani, o papa Bonifácio VIII, que teria sido envolvido por hereditariedade nas disputas familiares com os tradicionais rivais da sua família, os Colonna. Não obstante, essa quezilha não o desviou na sua luta para reassegurar a supremacia universal da Santa Sé. Em 1300, Bonifácio VIII celebrou o primeiro Jubileu e fundou a primeira Universidade de Roma. O Jubileu seria, como se provou, um passo importante para Roma, já que aumentaria o seu prestígio internacional; consequentemente, a economia da cidade assistiria a um impulso, devido ao fluxo de peregrinos. Bonifácio morreu em 1303, pouco depois da humilhação do Atentado de Anagni (Schiaffo di Anagni, “Bofetada de Anagni”) que assinalou o governo do Papado pelo rei de França, marcando um novo período de declínio para Roma.

    Por essa razão, o sucessor de Bonifácio, o papa Clemente V, nunca chegou a entrar na cidade, dando início ao famoso período do Papado de Avinhão, também conhecido como “cativeiro de Avinhão” (em alusão ao cativeiro babilônico), em que o papa mudava a sede da Igreja Católica para Avinhão, situação que duraria por mais de 70 anos. Como consequência, verificou-se a independência do poder local, embora se revelasse muito instável; também a falta dos ingressos financeiros anteriormente suportados pela Igreja provocaram um profundo declínio de Roma. Por mais de um século, Roma parava o desenvolvimento edificador. Pior, muitos dos monumentos da cidade, incluindo as igrejas principais, davam os primeiros sinais de degradação.

    O regresso do papa a Roma

    Cola di Rienzo alvoraçou o Capitólio em 1347 para criar uma nova República Romana. Embora de curta duração, esta tentativa ficou registada na estátua perto da escadaria que conduz à praça de Michelangelo
    Apesar do declínio e da ausência do papa, Roma não perderia o prestígio espiritual: em 1341 o famoso poeta Petrarca deslocou-se a Roma para ser distinguido como poeta no monte Capitolino. Entretanto, a nobreza e a classe pobre alinhavam-se para exigir o retorno do papa. De entre os vários embaixadores que neste período se deslocaram a Avinhão, destaca-se a figura simultaneamente bizarra e eloquente de Cola di Rienzo. À medida que aumentava o seu poder sobre a população, a 30 de maio de 1347 conquistou o Capitólio encabeçando a população, entusiasta. Embora de curta duração, o período da sua liderança sobre a população de Roma revelou-se um dos mais importantes momentos da história medieval da cidade; Cola esforçou-se por espalhar a aura rejuvenescedora do conceito comum de uma eventual independência italiana, no centro de um sonho confuso politicamente à semelhança do prestígio da Roma Antiga. Mais tarde, assumindo o poder de forma ditatorial, assumiu o título de “tribuno”, numa clara referência à magistratura da plebe da era republicana. Di Rienzo considerava também o seu estatuto equivalente ao do Imperador Romano-Germânico. A 1 de agosto de 1347, conferiu a cidadania romana a todas as cidades italianas e preparou a eleição de um imperador romano para a Itália. Como medida de contenção, o papa declarava Di Rienzo como herético, criminoso e pagão, manipulando a opinião pública ao ponto de esta se começar a distanciar. A 15 de dezembro, Di Renzo foi obrigado a fugir.

    Em agosto de 1354, Di Rienzo tornava-se novamente protagonista, quando o cardeal Gil Alvarez De Albornoz lhe confiou o cargo de “senador de Roma” no desenrolar do seu programa de certificação do governo papal nos Estados Pontifícios. Em outubro, o tirânico Cola, que se tornava uma vez mais impopular pelo seu contestado comportamento e pesadas dívidas, foi assassinado numa quezilha provocada pela poderosa família dos Colonna. Em abril de 1355, Carlos IV, da Boémia, entrou na cidade para o tradicional ritual de coroação como imperador. A sua visita foi assistida com grande desagrado pelos cidadãos, já que não era bem dotado financeiramente, por ter recebido a coroa de um cardeal e não do papa, e por se afastar escassos dias depois da coroação.

    Com o imperador de regresso às suas terras, Albornoz podia agora reconquistar algum controlo sobre a cidade, mesmo permanecendo na segurança da sua cidadela em Montefiascone, na região Norte do Lácio. Os senadores, agora designados directamente pelo papa, eram escolhidos de várias cidades de toda a Itália, embora a cidade fosse independente. O senado incluía agora seis juízes, cinco notários, seis marechais, vários familiares, vinte cavaleiros e vinte homens armados. Albornoz conseguia suprimir as famílias tradicionalmente aristocráticas, e a facção “democrática” sentiu-se suficientemente confiante para iniciar uma política agressiva. Em 1362, Roma declarava guerra a Velletri, cuja repercussão se traduziu numa guerra civil: a facção rural contratou um grupo de condottieri, os Del Cappelo (os “do Chapéu”), enquanto os romanos compravam os serviços das tropas alemãs e húngaras, acrescidos aos seus próprios 600 cavaleiros e 22 000 unidades de infantaria. Neste período, toda a Itália foi varrida pelos implacáveis grupos condottieri. Muitos dos Savelli, Orsini e Annibaldi, expulsos de Roma, tornaram-se líderes destas unidades militares. Quando a guerra com os Velletri terminou, Roma entregou-se novamente ao papa, Urbano V, com a condição de proibir Albornoz de entrar em Roma.

    A 6 de outubro de 1367, em resposta às preces de Santa Brígida e de Petrarca, Urbano V finalmente se deslocou à cidade. Durante a sua presença, Carlos IV foi novamente coroado (outubro de 1368). Por esta altura, também se deslocou a Roma o imperador bizantino João V Paleólogo para solicitar uma cruzada contra o Império Otomano, embora sem sucesso. Poucos anos depois, descontente com o ambiente da cidade, Urbano V voltava para Avinhão, a 5 de setembro de 1370. O seu sucessor, Gregório XI, marcou o seu regresso a Roma para maio de 1372 mas, novamente, os cardeais franceses, com o apoio do seu rei, conseguiram persuadi-lo. Assim se manteve o papa até 17 de janeiro de 1377, altura em que Gregório XI reinstalava novamente a Santa Sé em Roma.

    Não obstante, o comportamento incoerente do seu sucessor, o italiano Urbano VI, provocaria em 1378 o Grande Cisma do Ocidente, que deitaria por terra qualquer legítima tentativa de melhorar as condições da Roma, em declínio.

    Roma moderna
    O Renascimento em Roma
    Ver artigo principal: Renascimento

    A Escola de Atenas, 1509, Stanza della Segnatura, pintura de Rafael Sanzio, Museus Vaticanos
    Durante o pontificado do papa Nicolau V (p. 19 de março de 1447), o Renascimento entrava em Roma na mesma altura em que a cidade se tornava no centro do humanismo. Nicolau V foi o primeiro papa a incluir na corte romana académicos e artistas, como Lorenzo Valla e Vespasiano da Bisticci.

    A 4 de setembro de 1449, Nicolau anunciou um Jubileu para o ano seguinte cuja consequência seria um novo influxo de peregrinos de toda a Europa. A multidão seria tanta que, em Dezembro, na ponte Santo Ângelo, morreriam cerca de 200 pessoas “atropeladas” ou afogadas no rio Tibre. Nesse mesmo ano, reapareceu a peste na cidade, e Nicolau V fugiu de Roma.

    Apesar da atitude condenável, Nicolau V conseguiu estabilizar o poder temporal do Papado, isolando-o da interferência do Imperador. Desta forma, a coroação e casamento do imperador Frederico II, a 16 de março de 1452, não passou, portanto, de uma cerimónia civil. O Papado controlava agora Roma firmemente. A tentativa de Stefano Porcari, que almejava a restauração da república, foi implacavelmente suprimida em janeiro de 1453. Porcari seria enforcado juntamente com os seus ajudantes, Francesco Gabadeo, Pierto de Monterotondo, Battista Sciarra e Angiolo Ronconi. Não obstante, a reputação do papa seria questionada quando, ao início da execução, Nicolau V se apresentou demasiado bêbado para confirmar as graças que havia garantido a Sciarra e Ronconi.

    Nicolau V foi também o projectista da remodelação urbanística, juntamente com Leon Battista Alberti, onde se inclui a construção da nova Basílica de São Pedro.

    O sucessor de Nicolau V, o Calisto III, não continuou a política cultural de Nicolau, devotando-se à sua maior paixão, o amor pelos seus sobrinhos. O toscano Pio II, que tomou as rédeas após a sua morte em 1458, revelou-se um grande humanista, embora pouco fazendo por Roma. Foi durante o seu pontificado que Lorenzo Valla demonstrou que a Doação de Constantino tinha sido uma falsificação. Pio II foi também o primeiro papa a recorrer à luta armada, em campanha contra os barões rebeldes Savelli dos subúrbios de Roma, em 1461. Um ano depois, com a trasladação da cabeça do apóstolo Santo André para Roma, deu-se um novo afluxo de peregrinos. O pontificado do papa Paulo II (1464 – 1471) notabilizou-se unicamente pela reintrodução do Carnaval, que se tornaria um festejo muito popular em Roma durante os séculos seguintes. Ainda no mesmo ano (1468) foi desmontada uma conspiração contra o papa, organizada por intelectuais da Academia Romana, fundada por Pomponio Leto, resultando no aprisionamento dos envolvidos no Castelo de Santo Ângelo.

    No entanto, o pontificado mais importante foi, sem dúvida, o de Sisto IV. Para favorecer um familiar, Girolamo Riario, instigou a conspiração por parte dos Pazzi (Congiura dei Pazzi) contra a família Médici, de Florença (26 de abril de 1478]) e, em Roma, combateu os Colonna e os Orsini. Apesar dos grandes custos desta política de intrigas e guerras, Sisto IV era um verdadeiro padroeiro da arte na mesma linha de Nicolau V: reabriu a academia e reorganizou o Collegio degli Abbreviatori e, em 1471, iniciou a construção da Biblioteca do Vaticano, cujo primeiro curador foi Platina. A biblioteca foi oficialmente fundada a 15 de junho de 1475. Sisto mandou restaurar várias igrejas, incluindo Santa Maria del Popolo, a Água Virgem e o Hospital do Espírito Santo, mandou pavimentar algumas ruas e foi também o responsável pela construção de uma ponte famosa sobre o Tibre que actualmente se conhece pelo seu nome. No entanto, o seu projecto de maior envergadura foi a Capela Sistina no Palácio do Vaticano. A sua decoração convocou alguns dos mais renomeados artistas de época, onde se incluem Mino da Fiesole, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino, Luca Signorelli e Pinturicchio — já no século XVI, Michelangelo pintou-a com aquela que se tornaria na sua obra-prima, transformando a Capela num dos mais espectaculares monumentos em todo o mundo. Sisto morreu a 12 de agosto de 1484, e foi considerado o primeiro rei-papa de Roma.

    Durante o pontificado dos seus sucessores, Inocêncio VIII e Alexandre VI (1492 – 1503), Roma sofria do caos, de corrupção e do nepotismo emergente. No intervalo de tempo entre a morte do primeiro e a eleição do segundo, ocorreram 220 assassinatos na cidade. Alexandre VI teve que enfrentar Carlos VIII de França, que invadiu a Itália em 1494 e entrou em Roma a 31 de dezembro desse ano. O papa foi obrigado a barricar-se no Castelo de Santo Ângelo, que havia se tornado numa verdadeira fortaleza por obra de Antonio da Sangallo, mas o hábil Alexandre saberia conquistar a ajuda do rei, designando o seu filho César Bórgia como conselheiro militar na subsequente invasão do Reino de Nápoles. Roma ficava, assim, segura. Entretanto, com a movimentação do rei para sul, o papa recambiava a sua posição, alinhando com a liga antifrancesa dos estados italianos que, finalmente, forçaram Carlos a bater em retirada para França.

    Alexandre, considerado o papa mais nepotista de todos, favoreceu o seu implacável filho César Bórgia, criando para ele um ducado pessoal constituído por alguns dos territórios pertencentes aos Estados Pontifícios, e banindo de Roma a família Orsini, o inimigo mais insistente de César. Em 1500, a cidade comemorou um novo jubileu, mas as ruas tornavam-se cada vez mais inseguras, especialmente à noite, quando eram controladas por bandos de criminosos, os “bravi”. Não obstante, foi o próprio César a assassinar Alfonso de Bisceglie, a sua irmã Lucrécia e, presumivelmente, o filho do papa, Giovanni de Gandia.

    O Renascimento teve um grande impacto no aspecto de Roma com trabalhos como a Pietà (“Piedade”) de Michelangelo e os frescos do Aposento dos Bórgia, todos realizados durante o pontificado de Inocêncio. Roma atingiu o seu expoente de esplendor sob o papa Júlio II (1503 – 1513) e seus sucessores Leão X e Clemente VII, ambos membros da família Médici. Durante estes vinte anos, Roma tornara-se no maior centro de arte em todo o mundo. A velha Basílica de São Pedro foi demolida e recomeçada uma nova. A cidade alojou artistas como Bramante, que construiu o Tempietto de San Pietro in Montorio e foi autor de um grande projecto para renovar a Cidade do Vaticano, Rafael, que em Roma se tornou no mais famoso pintor de Itália pelos seus frescos da Capela Nicolina, Vila Farnesina, Quartos de Rafael, entre outras obras de arte famosas, e Michelangelo, que iniciou a decoração do tecto da Capela Sistina e executou a famosa estátua de Moisés para a tumba de Júlio. Roma perdia parcialmente o seu carácter religioso para se tornar progressivamente numa verdadeira cidade do Renascimento, com um grande número de festejos populares, corridas de cavalos, festas, intrigas e episódios de negligência. A economia estabilizou-se com a presença de vários banqueiros da Toscana, incluindo Agostino Chigi, que foi um amigo de Rafael e também ele patrocinador das artes. Antes da sua morte prematura, Rafael foi também, e pela primeira vez, um promotor para a conservação das ruínas da Antiguidade.

    O saque de Roma e a Contrarreforma
    Ver artigo principal: Saque de Roma, Contrarreforma

    Saque de Roma em 1527, pintura de Johannes Lingelbach
    Em 1527, a política ambígua seguida pelo segundo papa da família Mécic, o Papa Clemente VII, resultou num dramático saque da cidade pelas tropas imperiais de Carlos V do Sacro Império, que devastou a cidade durante dias. Muitos dos cidadãos foram assassinados ou procuraram abrigar-se fora das muralhas. O próprio papa aprisionou-se no Castelo de Santo Ângelo. O saque marcava, assim, o fim da era de maior esplendor da Roma moderna.

    O Jubileu de 1525 resultou numa farsa, com as reivindicações de Martinho Lutero a instaurar o criticismo e o despeito pela ganância do papa em relação a toda a Europa. O prestígio de Roma seria confrontado com o desmembramento das igrejas da Alemanha e Inglaterra. Ainda assim, o papa Paulo III (1534 – 1549) esforçou-se por apaziguar a situação convocando o Concílio de Trento, embora fosse, ironicamente, o mais nepotista dos papas. Paulo III chegou mesmo a separar Parma e Piacenza dos Estados Pontifícios para criar um ducado independente para o seu próprio filho, Pedro Luís Farnésio. Continuou, no entanto, o patrocínio pela arte, assistindo ao “Juízo Final” de Michelangelo, pedindo-lhe para renovar o Capitólio e assistir na construção da nova Basílica de São Pedro. Após o choque inicial do saque de Roma, convocou também o brilhante arquitecto Giuliano da Sangallo, o Jovem para fortificar as muralhas da “Cidade Leonina”.

    A necessidade da renovação dos costumes religiosos tornou-se evidente com o período de vacância que sucedeu à morte de Paulo III, com as ruas de Roma a tornarem-se palcos de sátiras sobre os cardeais que atendiam ao conclave. Os seus sucessores imediatos foram duas figuras de pouca autoridade que nada souberam fazer para escapar à real soberania da Espanha sobre Roma.

    Paulo IV, eleito a 1555, era membro da facção anti-Espanha. A sua política resultaria num novo cerco à cidade pelas tropas do vice-rei napolitano, em 1556. Paulo apelou à paz, mas foi obrigado a aceitar a supremacia de Filipe II de Espanha. Foi um dos papas mais detestados de todos e, após a sua morte, a população revoltou-se atiçando fogo ao palácio da Santa Inquisição e destruindo a sua estátua de mármore no Capitólio. A perspectiva de Paulo sobre a Contrarreforma mostrou-se patente na ordenação de confinar os Judeus a uma área central de Roma, ao redor do Pórtico de Otávia, criando assim o famoso Gueto Romano.

    A Contrarreforma seria considerada apenas pelos seus sucessores, o moderado Pio IV e o severo Pio V. Embora o primeiro fosse um nepotista, amante dos esplendores da corte, permitiu a introdução de costumes mais severos por parte do seu conselheiro, Carlos Borromeu, que estava prestes a tornar-se numa das figuras mais populares de Roma. Pio V e Borromeo entregaram à cidade o verdadeiro carácter da Contrarreforma. Toda a pompa foi retirada da corte, os bobos expulsos, e os cardeais e bispos foram obrigados a viver na cidade. Foram punidas severamente a blasfémia e a utilização de concubinas; as prostitutas foram expulsas ou confinadas a distritos reservados para o efeito. O poder da Inquisição dentro da cidade foi reajustado, e o palácio reconstruído com um novo espaço para prisões. Durante este período, Michelangelo abriu a Porta Pia e transformou as Termas de Diocleciano na espectacular basílica de Santa Maria degli Angeli, onde Pio IV foi enterrado.

    Fontana dell’Acqua Felice na Praça de São Bernardo
    O pontificado do seu sucessor, o papa Gregório XIII, foi um fracasso. As suas medidas iriam despertar novos tumultos nas ruas de Roma. O escritor e filósofo francês Montaigne defendia que “a vida e os bens nunca estiveram tão pouco seguros como durante o tempo de Gregório XIII, talvez”, e que uma confraternidade chegou mesmo a realizar casamentos homossexuais na igreja de San Giovanni a Porta Latina. As cortesãs tão reprimidas por Pio tornavam-se agora prostitutas que trabalhavam abertamente nas ruas.

    Sisto V tinha, no entanto, um temperamento distinto. Embora o seu pontificado tenha sido curto (1585 – 1590), tornou-se num dos mais eficazes na história de Roma. Sisto era ainda mais rígido que Pio V, e ganhou alcunhas como castigamatti (“castigador dos loucos”), papa di ferro (“Papa de ferro”), ditador e mesmo, ironicamente, demónio, já que nenhum outro papa o antecedeu na perseguição tão determinada da reforma da Igreja e costumes. Sisto reorganizou profundamente a administração dos Estados Pontifícios, e limpou as cidades de Roma de todos os bravos, prostitutas, procuradores, duelos, e afins. Nem os nobres ou cardeais se consideravam isentos do policiamento levado a cabo por Sisto. O dinheiro das taxas, que deixou de ser destinado à corrupção, permitiu a existência de um ambicioso programa de edificação. Alguns aquedutos mais antigos foram restaurados, e um novo foi construído, o Acqua Felice (do nome de Sisto, Felice Peretti). Foram também edificadas novas casas no desolado distrito de Esquilino, Viminal e Quirinal, enquanto que outras casas no centro foram demolidas para abrir novas e mais largas estradas. O objectivo de Sisto era tornar Roma num melhor destino para os peregrinos, e novas estradas permitiriam melhores acessos às basílicas. Os velhos obeliscos foram trasladados ou erigidos para embelezar São João de Latrão, Santa Maria Maior e de São Pedro, bem como a Piazza del Popolo, em frente à igreja Santa Maria del Popolo.

    Unificação italiana
    Ver artigo principal: Unificação italiana

    Proclamação da República Romana
    O governo pelo papado foi interrompido pela breve República Romana (1798), instituída segundo influência da Revolução Francesa.

    Outra República Romana surgia em 1849, no seguimento das revoluções de 1848. Duas das figuras mais influentes da unificação italiana, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi, lutaram ao lado da república.

    O regresso do Pio IX a Roma, com a ajuda das tropas francesas, marcou a exclusão de Roma do processo de unificação da segunda guerra da independência italiana e da Expedição dos Mil, após as quais toda a península Itálica, à excepção de Roma e do Véneto, seriam unificadas sob a Casa de Saboia.

    Vista de Roma a partir da Basílica de São Pedro, em 1901. Arquivo Nacional.
    Em 1870, com o início da guerra franco-prussiana, o imperador francês Napoleão III deixou de assegurar a protecção dos Estados Pontifícios. Pouco depois, o governo italiano declarava guerra aos Estados. O exército italiano entrou em Roma a 20 de setembro, abrindo uma brecha na muralha, a Porta Pia, após um bombardeamento de três horas. Roma e todo o Lácio seriam anexados ao Reino de Itália.

    O governo italiano ofereceu então a possibilidade a Pio IX de preservar a Cidade Leonina, embora fosse rejeitada a oferta já que a sua aceitação traduzia-se no reconhecimento da legitimidade do governo do Reino de Itália sobre os seus antigos domínios. Pio IX declara-se assim “prisioneiro do Vaticano” embora, na verdade, nunca lhe tenha sido vedado o direito a deslocar-se. Oficialmente, a capital não seria trasladada de Florença para Roma até 1871.

    Na actualidade

    Viale Europa, uma artéria na EUR
    A Roma actual não só reflecte a estratificação das várias épocas ao longo da sua história, mas constitui também um metrópole contemporânea. O vasto centro histórico contém áreas que data desde a Roma Antiga, época medieval, vários palácios e tesouros artísticos do Renascimento, muitas fontes, igrejas e palácios do Barroco, bem como tantos outros exemplos de Art Nouveau, Neoclassicismo, Modernismo, Racionalismo e quaisquer outros estilos artísticos dos séculos XIX e XX (com efeito, a cidade é considerada uma enciclopédia e um museu vivo dos últimos 3000 anos de história da arte ocidental). O centro histórico coincide praticamente com os limites das muralhas da Roma imperial. Algumas áreas foram reorganizadas após a unificação (1880–1910 – Roma Umbertina), e foram realizados alguns acrescentos e adaptações durante o período fascista, como a tão discutida Via dei Fori Imperiali, da Via della Conciliazione, em frente ao Vaticano (para cuja construção foi destruída uma grande parte do velho Borgo), a instituição de novos Quartieri (dos quais a EUR, San Basilio, Garbatella, Cinecittà, Trullo, Quarticciolo e, na costa, a restruturação da Óstia) e a inclusão da vilas fronteiriças (Labaro, Osteria del Curato, Quarto Miglio, Capannelle, Pisana, Torrevecchia, Ottavia, Casalotti). Estas expansões foram necessárias para albergar o aumento exponencial da população, consequência da centralização do Estado italiano.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, Roma sofreu poucos bombardeamentos (com maior incidência em San Lorenzo), e foi declarada como cidade aberta. Roma caiu nas mãos dos Aliados a 4 de junho de 1944, e foi a primeira capital das nações do Eixo a cair.

    Depois da guerra, Roma continuou a expandir-se devido ao crescimento da administração centralizada que resultou da unificação e à indústria, com a criação de novos quartieri e subúrbios. A população oficial actualmente ronda os 2,5 milhões; durante o horário laboral, os trabalhadores aumentam o valor para 3,5 milhões, o que representa um aumento dramático de valores anteriores: 130 000 em 1825, 244 000 em 1871, 692 000 em 1921 e 1 600 000 em 1931.

    Roma foi anfitriã dos Jogos Olímpicos de 1960, para os quais utilizou muitos dos sítios da Antiguidade, como a Villa Borghese e as Termas de Caracala como fontes de rendimento. Para os jogos olímpicos foram criadas novas estruturas, como o novo Estádio Olímpico (posteriormente aumentado e remodelado para a edição da Copa do Mundo da FIFA de 1990), o Villaggio Olimpico (Vila Olímpica, criada para acolher os atletas e posteriormente restruturado como um distrito residencial), etc.

    Muitos dos monumentos de Roma foram restaurados pelo estado italiano e pelo Vaticano para o Jubileu de 2000.

    Fachada do Palácio do Quirinal, residência oficial do Presidente da República Italiana
    Como capital da Itália, Roma alberga as principais instituições da nação, como a Presidência da República, o governo seus ministérios, o parlamento, os principais tribunais judiciais, e os representantes diplomáticos na Itália de todos os outros países, e a cidade do Vaticano (curiosamente, Roma também alberga, na parte do território italiano, a Embaixada do Vaticano, o único caso de uma embaixada dentro dos limites do seu próprio território). Muitas instituições encontram-se alojadas em Roma, nomeadamente as de carácter cultural e científico – como o Instituto Americano, a British School, a Academia Francesa, os Institutos Escandinavos, o Instituto Arqueológico Alemão – pela nobreza da escolaridade na Cidade Eterna – e outras humanitárias, como a FAO.

    Roma actualmente é um dos destinos turísticos mais importantes em todo o mundo, não só devido à incalculável imensidade de tesouros arqueológicos e artísticos, mas também pelo carisma das suas tradições únicas e a majestosidade das magnificentes “villas” (parques). De entre os mais significantes recursos, destacam-se os numerosos museus (como os Museus Capitolinos, os Museus do Vaticano e a Galleria Borghese), os aquedutos, fontes, igrejas, palácios, edifícios históricos, monumentos e ruínas do Fórum romano, e as catacumbas.

    De entre as centenas de igrejas, estão em Roma as cinco basílicas maiores da Igreja Católica: a Basilica di San Giovanni in Laterano (São João de Latrão, catedral de Roma), Basilica di San Pietro in Vaticano (São Pedro), Basilica di San Paolo fuori le Mura (São Paulo fora dos Muros), Basilica di Santa Maria Maggiore (Santa Maria Maior), e a Basilica di San Lorenzo fuori le Mura (São Lourenço fora dos Muros). O bispo de Roma é o papa; durante a actividade pastoral na cidade, é assistido por um vigário (tipicamente um cardeal).

  68. Eric Carvalho disse:

    Escravidão na república romana
    Ver artigo principal: Escravidão na Roma Antiga
    Em diversos graus ao longo da história de Roma, a existência de uma fonte de mão-de-obra barata na forma de escravos foi um fator importante na sua economia. Os escravos eram adquiridos de várias formas, entre elas a compra a mercadores estrangeiros e a escravização de populações estrangeiras após a conquista militar.[1] Com a grande implicação de Roma nas guerras de conquista no primeiro e segundo séculos a.C., eram importados para a economia romana dezenas ou centos de milheiros de escravos de uma vez.[2] Embora fosse limitado o uso de escravos como serventes, artesãos e assistentes pessoais, um enorme número deles trabalhava nas minas e nas terras agrícolas da Sicília e do sul da Itália.[3]

    Em geral, os escravos foram tratados com crueldade e opressão durante o período republicano. Sob o direito romano, um escravo não era considerado uma pessoa senão uma propriedade. Os amos podiam abusar, ferir ou mesmo matar os seus escravos sem consequências legais. Embora houvesse muitos graus e tipos de escravos, os graus inferiores e mais numerosos que trabalhavam nos campos e nas minas, estavam sujeitos a uma vida de duro trabalho físico.[4]

    Esta grande concentração populacional de escravos e o trato opressivo ao que eram submetidos foram a origem de várias revoltas. Em 135 a.C. e 104 a.C., estouraram na província da Sicília a Primeira e a Segunda Guerras Servis, respectivamente, nas quais pequenos grupos rebeldes encontraram dezenas de milheiros de seguidores voluntariosos que desejavam escapar da vida opressiva do escravo romano. Embora o senado as considerasse como sérios distúrbios civis, e foram necessários vários anos de intervenções militares diretas para sufocá-los, nunca se considerou que fossem uma ameaça séria para a república. O centro dos domínios de Roma, a província da Itália, nunca tinha presenciado uma revolta de escravos, nem tinham sido estes nunca uma ameaça potencial para a cidade de Roma. Isto mudaria com a Terceira Guerra Servil.

    Começo da revolta
    A revolta de Cápua

    Os gladiadores, mosaico na Galleria Borghese
    Na República Romana do século I a.C., os jogos de gladiadores eram uma das formas de entretenimento mais populares. Com o fim de subministrar gladiadores para os combates, foram estabelecidas várias escolas de treino, ou ludi, por toda a província da Italia.[5] Nestas escolas, os prisioneiros de guerra e os criminais convictos — que eram considerados como escravos— eram treinados nas habilidades necessárias para lutarem até a morte nos jogos de gladiadores.[6] Em 73 a.C., um grupo de cerca de 200 gladiadores da escola de Cápua, pertencentes a Lêntulo Batiato, planejaram uma fuga. Quando se revelou o seu plano, uma força de cerca de 70 homens armaram-se com facas da cozinha, lutaram até escapar da escola e apoderaram-se de vários carros de armas e armaduras de gladiador.[7]

    Uma vez livres, os gladiadores fugidos escolheram líderes, selecionando dois escravos gauleses —Criso e Enomau— e Espártaco, que foi um antigo auxiliar trácio da legião romana condenado posteriormente à escravidão, quer um prisioneiro capturado pelas legiões.[8] Porém, ficam dúvidas sobre a origem de Espártaco, pois “trácio” designava também um tipo de gladiador romano.[9]

    Estes escravos fugidos conseguiram vencer uma pequena força de tropas enviada desde Cápua e equipar-se com o material militar que capturaram, além das suas armas de gladiador.[10] As fontes são em parte contraditórias sobre a ordem dos acontecimentos que seguiram imediatamente após a fuga, mas em geral estão de acordo em que este grupo de gladiadores se dedicou à pilhagem na região das cercanias de Cápua, recrutando muitos escravos nas suas filas, e que finalmente se retirou para uma posição mais defendível no monte Vesúvio.[11]

    Derrota dos exércitos pretorianos

    Movimentos iniciais das forças romanas e escravas desde a revolta de Cápua até o Inverno de 73 a.C.
    A revolta e os assaltos na Campânia — que era uma região de repouso para as pessoas ricas e influentes de Roma e na qual se localizavam muitas fincas—, chamaram depressa a atenção das autoridades romanas. A Roma custou-lhe certo tempo compreender a escala do problema, pois viam a revolta de escravos mais como uma onda de crimes do que uma rebelião armada.

    Contudo, em 73 a.C., Roma enviou uma força militar sob mando pretoriano para terminar com a revolta.[nota 1] Um pretor romano, Caio Cláudio Glabro, reuniu um corpo de 3000 homens, não como legiões mas como milícias “recolhidas com pressa e azar, porque os romanos ainda não consideravam isto como uma guerra, senão como um assalto, algo parecido com um ataque de roubo”.[12] As forças de Glabro assediaram os escravos no monte Vesúvio, bloqueando o único caminho conhecido que descendia da montanha. Com os escravos conteúdos dessa maneira, Glabro estava disposto a aguardar até que a fome os forçara a se renderem.

    Como os escravos careciam de treino militar, as forças de Espártaco mostraram certo engenho no uso dos materiais locais disponíveis, que pela sua vez resultou num uso de táticas inventivas e pouco ortodoxas, ao enfrentarem-se com a disciplina dos exércitos romanos.[13] Em resposta ao assédio de Glabro, os homens de Espártaco fizeram cordas e escalas a partir das videiras e outras árvores que cresciam nas ladeiras do Vesúvio e usaram-nas para descer pelos precipícios do lado da montanha oposto ao das forças de Glabro. Deslocaram-se em torno do Vesúvio e atacaram-nos pela retaguarda, aniquilando os homens de Glabro.[14]

    Depois disto, foi enviada contra Espártaco uma segunda expedição sob comando do pretor Públio Varínio. Por alguma razão, parece que Varínio dividiu as suas forças pondo-as no comando dos seus subordinados Fúrio e Cossínio. Plutarco menciona que Fúrio comandava cerca de dois mil homens, mas não se conhece a força numérica do restante das tropas, nem se a expedição estava composta de milícias ou legiões. Estas forças também foram derrotadas pelo exército de escravos: Cossínio faleceu, Varínio quase foi capturado e os escravos apoderaram-se do equipamento dos exércitos.[15] Graças a estes sucessos, mais escravos se uniram às forças de Espártaco, bem como “muitos dos arrieiros e pastores da região”, engrossando as suas filas até cerca de 70 mil homens.[16] Os escravos rebeldes passaram o Inverno de 73 a.C. armando e equipando os seus novos recrutas e expandindo o seu território de pilhagem para incluírem as cidades de Nola, Nucéria, Túrio e Metaponto.[17]

    Contudo, as vitórias dos escravos rebeldes não se obtiveram sem custo. Em algum momento destes acontecimentos, ou possivelmente durante os assaltos do Inverno em finais de 73 a.C., perderam o seu líder Enomau —talvez em batalha— e não se menciona mais nas histórias.[18]

    Motivações e liderado dos escravos fugidos

    Espártaco
    por Denis Foyatier, c. 1830, exposto no Louvre. Um exemplo de representação heroica moderna de Espártaco
    No fim de 73 a.C., Espártaco e Criso comandavam um grande grupo de homens armados com demonstrada habilidade para resistirem aos exércitos romanos. O que visavam fazer com esta força é difícil de determinar. Como a Terceira Guerra Servil foi finalmente uma rebelião sem sucesso, não existe um relato de primeira mão sobre os motivos e objetivos dos escravos, e os historiadores que escrevem sobre a guerra propõem teorias contraditórias.

    Muitos relatos modernos da guerra afirmam que existia uma divisão em duas facções dos escravos fugidos: os que comandava Espártaco, que queriam escapar pelos Alpes para a liberdade, e os de Criso, que desejavam permanecer no sul da Itália para continuar assaltando e saqueando. Isto parece uma interpretação dos eventos baseada no seguinte: as regiões que Floro lista como as que estavam sendo atacadas pelos escravos incluem Túrio e Metaponto, que estão geograficamente distantes de Nola e Nucéria. Isto indica a existência de dois grupos: Lúcio Gélio Publícola atacou finalmente Criso e um grupo de cerca de 30 mil seguidores que foram descritos como separados do grupo principal de Espártaco;[19] Plutarco descreve o desejo de alguns dos escravos fugidos de saquear a Itália em lugar de escapar pelos Alpes.[20] Embora esta divisão em facções não contradiz as fontes clássicas, não parece que haja evidência direta que a apoie.

    Às vezes, os relatos fictícios — como o filme Espártaco de Stanley Kubrick, 1960 — retratam Espártaco como um libertador que luta para mudar uma sociedade romana corrupta e para terminar com a instituição romana do escravismo. De igual modo, isto não se contradiz com os historiadores clássicos, mas nenhum relato histórico menciona que o objetivo dos escravos rebeldes fosse terminar com a escravidão na república, nem nenhuma das ações de Espártaco parece especificamente dirigida a terminar com a escravidão.

    Mesmo entre os historiadores clássicos, que escreveram os seus relatos poucos anos depois dos próprios acontecimentos, parecia haver divisão sobre as motivações de Espártaco. Apiano e Floro escreveram que visava marchar sobre a mesma Roma,[21] embora isto pode não ter sido mais que o reflexo dos medos de Roma. Se Espártaco tinha pretendido realmente marchar sobre Roma, deveu ser um objetivo que abandonou mais tarde. Plutarco escreve que Espártaco simplesmente desejava escapar para norte à Gália Cisalpina e dispersar os seus homens de volta aos seus lares.[20]

    Não é claro se os escravos foram um grupo homogêneo sob o liderado de Espártaco. Embora seja uma suposição tácita dos historiadores romanos, talvez os romanos estivessem projetando a sua própria visão hierárquica do poder militar e da responsabilidade sobre a organização ad hoc dos escravos. De fato, são mencionados outros líderes escravos — Criso, Enemau, Cânico e Casto — e é desconhecido, a partir da evidência historiográfica, se foram ajudantes, subordinados ou mesmo iguais que lideravam grupos próprios e viajavam em comboio com as pessoas de Espártaco.

    Derrota dos exércitos consulares
    Na Primavera de 72 a.C., os escravos fugidos abandonaram os seus acampamentos de Inverno e começaram a se movimentar para a Gália Cisalpina. O Senado, alarmado pelo tamanho da revolta e pela derrota dos exércitos pretorianos de Glabro e Varínio, enviou um par de legiões consulares sob comando de Lúcio Gélio Publícola e Cneu Cornélio Lêntulo Clodiano.[22]

    A princípio, os exércitos consulares tiveram sucesso. Gélio atacou um grupo de cerca de 30 mil escravos, sob comando de Criso, perto do Monte Gargano, e matou dois terços dos rebeldes, incluindo Criso.[23]

    Neste ponto da história existe uma divergência nas fontes clássicas sobre o curso dos acontecimentos que não se pode reconciliar até a entrada de Marco Licínio Crasso na guerra. As duas histórias mais detalhadas existentes da guerra, de Apiano e Plutarco, detalham acontecimentos muito diferentes. Contudo, nenhum dos relatos contradiz diretamente o outro, senão que simplesmente informa de acontecimentos diferentes, ignorando alguns acontecimentos do outro relato e oferecendo acontecimentos que são únicos desse relato.

    História de Apiano

    Os acontecimentos de 72 a.C., segundo Apiano
    De acordo com Apiano, a batalha entre as legiões de Gélio e os homens de Criso, perto do Monte Gargano, foi o começo de uma longa e complexa série de manobras militares que quase tiveram como resultado que as forças de Espártaco assaltassem a mesma cidade de Roma.

    Após a sua vitória sobre Criso, Gélio deslocou-se para norte seguindo o grupo principal de escravos de Espártaco, que se dirigia para a Gália Cisalpina. Despregou-se o exército de Lêntulo para obstruir o passo de Espártaco, e os cônsules visavam pegar os escravos rebeldes entre eles. O exército de Espártaco enfrentou-se com a legião de Lêntulo, derrotou-a, revirou-se e destruiu o exército de Gélio, forçando as legiões romanas a se retirarem desbaratadas.[24] Apiano afirma que Espártaco executou cerca de 300 soldados romanos capturados para vingar a morte de Criso, forçando-os a lutar entre eles até a morte como os gladiadores.[25] Após esta vitória, Espártaco avançou para norte com os seus seguidores (cerca de 120 mil) tão rápido quanto pôde, “após queimar todo o material inútil, matar todos os seus prisioneiros e massacrar as bestas de carga para acelerar o seu movimento”.[24]

    Os exércitos consulares derrotados regressaram a Roma para se reagruparem enquanto os seguidores de Espártaco deslocavam-se para norte. Os cônsules voltaram atacar Espártaco em algum lugar da região do Piceno, e foram derrotados novamente.[24]

    Apiano afirma que neste momento Espártaco mudou a sua intenção de marchar sobre Roma —dando a entender que esse era o objetivo de Espártaco após a confrontação de Piceno[26]— porque “não se considerava preparado ainda para esse tipo de luta, já que a sua força não era armada adequadamente, porque nenhuma cidade se unira, apenas escravos, desertores e ralé”, e decidiu retirar-se a sul da Itália novamente. Assediaram a cidade de Túrio e a campina das cercanias armando-se, assaltando os territórios circundantes, trocando as pilhagens por bronze e ferro com mercadores (com os que manufaturarem mais armas) e enfrentando-se ocasionalmente com forças romanas, que sempre acabavam derrotadas.[24]

    História de Plutarco

    Os acontecimentos de 72 a.C., de acordo com a versão de Plutarco.
    A descrição dos feitos que dá Plutarco difere significativamente com a de Apiano.

    De acordo com Plutarco, após a batalha entre as legiões de Gélio e os homens de Criso (a quem Plutarco descreve como “germanos”[27]) perto do monte Gargano, os homens de Espártaco atacaram a legião comandada por Lêntulo, derrotaram-na, apoderaram-se do seu subministro e equipamento, e avançaram diretamente para norte da península Itálica. Após esta derrota, ambos os cônsules foram relevados do mando dos seus exércitos pelosenado romano e regressaram para Roma.[28] Plutarco não menciona em absoluto o ataque de Espártaco às legiões de Gélio, nem que Espártaco se enfrentasse com as legiões combinadas consulares no Piceno.[27]

    Depois Plutarco detalha um conflito não mencionado na história de Apiano. De acordo com Plutarco, o exército de Espártaco prosseguiu para norte até a região de Mutina (a atual Módena). Ali, um exército de cerca de 10 mil soldados comandados pelo governador da Gália Cisalpina, Caio Cássio Longino, tentou bloquear o avanço de Espártaco, e foi derrotado.[29]

    Plutarco não faz menção de nenhum outro acontecimento até a confrontação inicial entre Marco Licínio Crasso e Espártaco na Primavera de 71 a.C., omitindo a marcha sobre Roma e a retirada para Túrio descritas por Apiano.[28] Contudo, como Plutarco descreve que as forças de Crasso forçaram as de Espártaco a retirarem-se “para sul” desde o Piceno, poderia-se inferir que os escravos rebeldes se achegaram a Piceno desde sul a princípios de 71 a.C., implicando que se retiraram para sul desde Mutina para passarem o Inverno no sul ou o centro da Itália.

    Porém, aparentemente não havia razão para não escaparem pelos Alpes — o objetivo de Espártaco segundo Plutarco[30]—, é algo que não se explica.

    A guerra de Crasso (71 a.C.)

    Os acontecimentos de princípios de 71 a.C. Marco Licínio Crasso recebe o comando das legiões romanas, enfrenta-se com Espártaco e força os escravos rebeldes a retirarem-se através da Basilicata e Calábria para a região do estreito de Messina. Plutarco afirma que isto ocorreu na região do Piceno, enquanto Apiano situa as batalhas iniciais entre Crasso e Espártaco na região do Sâmnio.
    Apesar das contradições das fontes clássicas com referência aos acontecimentos de 72 a.C., parece haver um consenso geral sobre que Espártaco e os seus seguidores estavam no sul da Itália a princípios de 71 a.C.

    Crasso recebe o mando das legiões
    O senado, alarmado já pela aparentemente imparável revolta do sul da Itália, encomendou a Marco Licínio Crasso a tarefa de sufocar a rebelião. Crasso fora pretor em 73 a.C. e, embora fosse conhecido pelas suas conexões políticas e a sua família, não tinha reputação como comandante militar.[28]

    Foram-lhe assinadas seis novas legiões, além das duas anteriores legiões consulares de Gélio e Lêntulo, somando um exército de cerca de 40 000 soldados romanos treinados.[31] Crasso tratou as suas legiões com uma disciplina férrea, mesmo brutal, recuperando o castigo da decimatio (castigo mediante o qual se dizima um grupo de soldados, matando um de cada dez deles em castigo pela sua covardia). Apiano não tem claro se aplicou a decimatio quer às duas legiões consulares por covardia quando foi nomeado o seu comandante, quer a todo o exército por alguma derrota posterior (um acontecimento no qual até quatro mil legionários seriam executados).[32] Plutarco somente menciona a decimatio de 50 legionários de uma coorte como castigo após a derrota de Mímio na primeira confrontação entre Crasso e Espártaco.[33] à margem do que realmente sucedesse, o trato de Crasso às suas legiões demonstrou que “era mais perigoso para eles que o inimigo” e esporeou-os para conseguir a vitória e não correr o risco de desgostar o seu comandante.[32]

    Crasso e Espártaco
    Quando as forças de Espártaco se deslocaram novamente para norte, Crasso despregou seis das suas legiões nas fronteiras da região (Plutarco afirma que a batalha inicial entre as legiões de Crasso e Espártaco deu-se perto da região do Piceno,[28] Apiano afirma que sucedeu perto da região do Sánio[34]) e destacou a dois legiões sob comando de Múmmio, o seu legado, para que manobrara pela retaguarda de Espártaco, mas deu-lhe a ordem de não atacar aos rebeldes. Quando se lhe apresentou a oportunidade, Múmmio desobedeceu a Crasso e atacou as forças de Espártaco, mas foi derrotado.[33] Apesar desta derrota inicial, Crasso atacou Espártaco e derrotou-o, matando cerca de 6000 rebeldes.[34]

    A maré da guerra parecia mudar de direção. As legiões de Crasso saíram vitoriosas em vários confrontos, matando a milheiros de escravos rebeldes e forçando Espártaco a se retirar para sul através da Lucânia (atual Basilicata) para os estreitos de Messina. Segundo Plutarco, Espártaco fez um trato com piratas cilícios para transportá-lo, junto com cerca de dois mil homens, para a Sicília, na qual visava incitar uma revolta de escravos e conseguir reforços. Porém, foi atraiçoado pelos piratas, que abandonaram os escravos rebeldes, ainda tendo recebido o pagamento.[33] Fontes menores mencionam que houve algumas tentativas de construir barcos e balsas entre os rebeldes como meio de escape, mas que Crasso adotou medidas sem especificar para assegurar-se que os rebeldes não pudessem cruzar para a Sicília, e como consequência disto abandonaram os seus esforços.[35]

    Então as forças de Espártaco retiraram-se para Régio (atual Régio da Calábria). As legiões de Crasso perseguiram-nas e ao chegarem construíram fortificações ao longo do istmo de Régio o subministro.[36]

    Chegada de legiões de reforço; o fim da guerra

    Os últimos acontecimentos da guerra em 71 a.C., nos quais o exército de Espártaco quebrou o assédio das legiões de Crasso e se retirou para as montanhas próximas a Petélia. O mapa amostra as escaramuças iniciais entre elementos de ambos os bandos, o giro das forças de Espártaco para a confrontação final. Notem-se as legiões de Pompeu incorporando-se de norte para capturar os sobreviventes.
    Neste momento, as legiões de Pompeu voltavam para a Itália após sufocarem a rebelião de Quinto Sertório na Hispânia.

    As fontes discrepam sobre se Crasso solicitara reforços ou se o senado simplesmente aproveitou-se do regresso de Pompeu a Itália, mas ordenou-lhe esquivar Roma e dirigir-se para sul para ajudar Crasso.[37] O senado também enviou reforços sob comando de “Lúculo”, que Apiano confundiu com Lúcio Licínio Lúculo, comandante das forças implicadas na Terceira Guerra Mitridática naquele momento, mas aparentemente tratava-se do procônsul de Marco Terêncio Varrão Lúculo, o irmão pequeno do anterior.[38] Com as legiões de Pompeu vindo desde norte e as tropas de Lúculo desde Brundísio, (atual Brindisi, Crasso deu-se conta de que se não punha fim à revolta com rapidez, o mérito da guerra iria para o general que chegara com os reforços, e portanto esporeou as suas legiões para que dessem fim depressa ao conflito.[39]

    Após saber da aproximação de Pompeu, Espártaco tentou negociar com Crasso para dar fim ao conflito antes que chegaram os reforços romanos.[40] Quando Crasso se negou, uma parte das forças de Espártaco quebraram o confinamento e fugiram para as montanhas a oeste de Petélia em Brútio (Calábria), com as legiões de Crasso em persecução.[41] As legiões conseguiram atingir a uma parte dos rebeldes –sob comando de Cânico e Casto– separada do exército principal, matando 12.300 deles.[42] Contudo, as legiões de Crasso também sofreram perdas, já que alguns dos escravos em fuga deram-se a volta para se enfrentarem com as forças romanas sob comando de um oficial de cavalaria chamado Lúcio Quínctio e o questor Cneu Tremélio Escrofa, derrotando-as.[43] Em qualquer caso, os escravos rebeldes não constituíam um exército profissional e chegaram ao seu limite. Não queriam mais fugir e vários grupos de homens separaram-se da força principal para atacarem de maneira independente às legiões de Crasso.[44] Com a disciplina estragando-se, Espártaco deu meia-volta e empregou toda a sua potência para agüentar as legiões a chegarem. Nesta última batalha, as forças de Espártaco foram derrotadas completamente, e a grande maioria dos seus homens morreu no campo de batalha.[45] Desconhece-se o destino final do próprio Espártaco, já que nunca foi achado o seu corpo, mas historiadores acreditam que pereceu na batalha junto aos seus homens.[46]

    Consequências

    A Queda de Espártaco
    Por Louis-Ernest Barrias, no Jardim das Tulherias
    A revolta da Terceira Guerra Servil ficara aniquilada por Crasso.

    As forças de Pompeu não atacaram diretamente as de Espártaco em nenhum momento, mas as suas legiões, vindo de norte, conseguiram capturar cerca de 5000 rebeldes que fugiam da batalha, “aos quais deu morte”.[47] Por causa disto, Pompeu enviou uma mensagem ao Senado dizendo que, embora fosse certamente Crasso quem vencera os escravos na batalha aberta, ele terminara a guerra, reclamando assim uma grande parte do mérito, conquistando assim a inimizade de Crasso.[48]

    Embora a maior parte dos escravos rebeldes falecesse no campo da batalha, as legiões de Crasso capturaram cerca de seis mil sobreviventes. Todos eles foram crucificados ao longo da Via Ápia de Roma a Cápua.[49]

    Pompeu e Crasso obtiveram benefícios políticos por sufocar a rebelião. Ambos voltaram a Roma com as suas legiões e negaram-se a dissolvê-las, acampando fora da cidade no seu lugar.[12] Ambos apresentaram-se a cônsul em 70 a.C., embora Pompeu não tinha direito a isso pela sua idade e por não ter servido como pretor ou questor.[50] Porém, ambos os homens foram eleitos cônsules esse ano,[51] em parte pela ameaça implícita das suas legiões acampadas fora da cidade.[52]

    Os efeitos da Terceira Guerra Servil sobre a atitude dos romanos para a escravidão e para a instituição da escravidão em Roma são difíceis de determinar. Sem dúvida, a revolta comocionou o povo romano, que “a partir de um medo absoluto pareciam começar a tratarem os seus escravos com menos dureza do que antes”.[53] Os ricos donos dos latifundia começaram a reduzir o número de escravos agrícolas, optando por empregar o grande conjunto de homens livres despojados em contratos de mediaria.[54] Com o fim da Guerras da Gália de Júlio César em 52 a.C., as grandes guerras de conquista romanas cessariam até o reinado do imperador Trajano (que reinou de 98 d.C. a 117 d.C.), e com elas o abundante e econômico subministro de escravos provenientes da conquista militar, promovendo o uso de trabalhadores livres nas fincas agrícolas.

    A morte de Espártaco
    Hermann Vogel, 1882
    O status e os direitos legais dos escravos romanos também começaram a mudar. Durante a época do imperador Cláudio (que reinou de 41 d.C. a 54 d.C. foi promulgada uma constituição que convertia o fato de matar a um escravo velho ou doentio num ato de assassinato e decretava que se esses escravos eram abandonados pelos seus amos, convertiam-se em homens livres.[55] Com Antonino Pio (que reinou de 138 d.C. a 161 d.C.) estenderam mais os direitos legais dos escravos, fazendo responsáveis os amos pelo assassinato dos seus escravos, forçando a venda dos escravos quando se podia demonstrar que estavam sendo maltratados, e proporcionando uma autoridade terceira (teoricamente) neutral à qual podia apelar um escravo.[56] Embora estes câmbios legais ocorressem muito tarde como para serem resultado direto da Terceira Guerra Servil, representam a codificação legal de uns câmbios na atitude dos romanos para os escravos que evoluíram durante décadas.

    É difícil determinar em que medida os acontecimentos desta guerra contribuíram aos câmbios no uso e os direitos legais dos escravos romanos. Parece que o fim das Guerras Servis coincidiu com o fim do período mais importante do uso dos escravos em Roma, e o começo de uma nova percepção do escravo dentro da sociedade e o direito. A Terceira Guerra Servil foi a última das Guerras Servis e Roma não veria já mais uma revolta de escravos deste tipo quaiquer

  69. Eric Carvalho disse:

    Imperadores Romanos

    O Império Romano durou de 27 a.C. a 476 e foi o período em que Roma dominou grande parte da Europa, o norte da África e também regiões do Oriente Médio.

    A época dos imperadores começa após a Crise da República que termina com o assassinato de Júlio César.

    Sucedem-se imperadores de várias famílias patrícias que enfrentam rebeliões internas, invasão dos povos nórdicos, e o surgimento do cristianismo.

    Abaixo uma lista com os principais imperadores que governaram Roma neste período:

    Otaviano Augusto
    Imperador Otavio Augusto

    Otaviano Augusto, imperador romano.

    Caio Júlio César Otaviano Augusto foi imperador de 27 a.C a 14 d.C.

    Otaviano Augusto (ou Otávio Augusto) foi o primeiro imperador romano e pertenceu à dinastia Júlio-Claudiana. Nasceu na cidade de Roma em 23 de setembro do ano de 63 a.C e era sobrinho-neto de Júlio César que lhe ensinou os caminhos da política romana.

    Organizou expedições militares na Récia, Panônia, Hispânia, Germânia, Arábia e África. Também pacificou as regiões dos Alpes e Hispânia e anexou as regiões da Gália e Judeia.

    Na economia estimulou a agricultura e saneou as finanças de Roma e da península itálica. Também dividiu a capital imperial em 14 províncias para facilitar a cobrança de impostos e do censo militar. Igualmente, cobriu as construções romanas de mármore a fim de aumentar o esplendor do capital.

    Otaviano foi o primeiro Imperador a ser proclamado “Augusto”, pelo Senado Romano, ou seja, um deus. O culto ao imperador se iniciava em vida e era continuado pela família do falecido após a morte. Otaviano se identificou tanto com este título que muitos pensam se tratar de um segundo nome. Também o mês de agosto tem este nome em sua homenagem.

    Otaviano Augusto morreu em 19 de agosto de 14 d.C, na comuna italiana de Nola.

    Cláudio
    Tibério Cláudio César Augusto Germânico foi imperador de 10 a.C. a 54 d.C.

    Nasceu na província de Lugduno, na Gália, em 1 de agosto de 10 a.C e foi o primeiro imperador romano que não nasceu na Itália. Teve uma infância difícil devido aos problemas físicos que tinha como a gagueira e isso o manteve afastado de uma possível sucessão imperial.

    Cláudio subiu ao trono imperial em 41 d.C., após a guarda pretoriana ter assassinado o seu sobrinho Calígula.

    Apesar de padecer de problemas físicos, Cláudio governou o Império Romano de maneira competente. Construiu canais, aquedutos, pavimentou estradas a fim de melhorar as comunicações com as províncias mais distantes do Império. Também ergueu o porto de Óstia.

    Quanto às conquistas militares, durante o seu reinado foram anexadas as províncias da Trácia, Judeia, Lícia, Nórico e Panfília e Mauritânia. No entanto, a conquista mais importante foi a Britânia (atual Grã-Bretanha).

    Apesar da sua crueldade para com os senadores e equestres (a mais baixa aristocracia romana), organizou as finanças do Estado e conseguiu manter a paz em Roma.

    Em 54, Cláudio foi envenenado por Agripina, sua esposa e mãe do futuro imperador Nero. Após sua morte foi deificado pelo Senado Romano.

    Nero
    Nero Cláudio Augusto Germânico foi imperador do ano de 54 a 68.

    Nasceu na cidade de Anzio (na atual Itália) no dia 15 de dezembro de 37. Nero tornou-se governante numa época de grande esplendor do Império Romano, mas segue sendo uma figura polêmica.

    Nos cinco primeiros anos de seu governo, Nero cancelou todos os éditos publicados pelo Imperador Cláudio, pois o considerou um administrador incompetente. Tal como seus antecessores, usou a violência para sufocar as revoltas que aconteciam nas províncias imperiais.

    Quanto às guerras de expansão, ao contrário de seus antecessores, Nero não foi um grande conquistador e empreendeu apenas algumas incursões militares na região da atual Armênia. Por sua vez, aproveitou para melhorar, através da diplomacia, as relações com a Grécia.

    Alguns historiadores debatem a competência deste imperador para administrar o Império. Afinal, muitas de suas resoluções tinham influência de sua mãe, Agripina, e seu tutor, Lúcio Sêneca.

    Um episódio que marcou a trajetória de Nero foi o incêndio que destruiu parte da cidade de Roma, no ano de 64. Porém, de acordo com alguns historiadores, não é certa a responsabilidade de Nero pelo incidente, pois o imperador estava em Anzio naquele momento e retornou à Roma ao saber que a cidade ardia.

    Aqueles que apontam Nero como culpado baseiam-se nos relatos do político e historiador Tácito. Este afirma que o Imperador teria ficado cantando e tocando lira enquanto a cidade queimava.

    Enquanto não se tem certeza da autoria do atentado, o fato é que Nero culpou e ordenou perseguição aos cristãos, acusados por ele de serem os responsáveis pelo incêndio. Muitos foram capturados, crucificados e jogados no Coliseu para serem devorados pelas feras. Posteriormente, os historiadores cristãos só aumentaram a lenda de imperador cruel e implacável com os cristãos.

    Além deste, outros episódios colaboraram para a fama de imperador violento e desequilibrado. No ano de 55, Nero matou o filho do ex-imperador Cláudio e em 59, ordenou o assassinato de sua mãe Agripina.

    Nero se suicidou em Roma, no dia 6 de junho de 68, colocando fim à dinastia Júlio-Claudiana.

    Tito
    Tito Flávio Vespasiano foi imperador de 79 a 81 d.C.

    Nasceu em Roma em 30 de dezembro de 39. Apesar do seu curto reinado ele ficaria conhecido por ter sido o responsável pela destruição do Templo de Salomão, em Jerusalém, e a dispersão dos judeus pelo mundo.

    Três desastres naturais ocorreram durante o seu reinado: um incêndio em Roma, uma terrível peste e a erupção do Vesúvio que engoliu Pompeia. Entretanto, nem esses fatos diminuíram a boa reputação que obteve junto à população durante seu reinado.

    Tito, foi alcunhado de ser “o novo Nero”, pela sua fama de cruel e intolerante, acabou chamado de “As delícias do gênero humano” por conta dos benefícios feitos ao povo. Um deles foi a conclusão do Coliseu de Roma que garantia diversão, ainda que sangrenta, para os extratos mais pobres da população.

    Para aplacar as revoltas da Palestina mandou destruir o Templo do Rei Salomão, símbolo da unidade do povo de Israel. Isto levou ao começo da diáspora judaica e o fim do Estado judeu até a criação do Estado de Israel.

    Ao falecer, em 13 de setembro de 81, teria dito uma enigmática frase: “cometi apenas um erro em minha vida”. Vários estudiosos especulam a que erro o imperador se referia. Teria sido não matar o irmão Diocleciano, seu maior rival? Jamais saberemos.

    Após sua morte, o Senado Romano o declarou deus e seu culto se espalhou por Roma.

    Trajano
    Marco Úlpio Nerva Trajano foi imperador de 98 a 117.

    Nasceu no ano 53, na Itálica (atual Santiponce, na Espanha) sendo o primeiro imperador romano a nascer nesta província.

    Foi considerado um excelente general, um administrador detalhista e disciplinado e afirmava que todos os imperadores deveriam ser “simples cidadãos”.
    O seu reinado foi marcado pelo alargamento das fronteiras do império a Leste, com a conquista da Dácia (atual Romênia), Arábia, Armênia e Mesopotâmia.

    Desta maneira, o Império Romano atingiu sua máxima expansão como se pode ver no mapa abaixo:

    Imperio Romano máxima expansão

    O Império Romano sob o poder do Imperador Trajano.

    Apesar de passar grande parte do seu governo comandando as tropas que guerreavam, Trajano ainda teve tempo de Implementar um vasto programa de obras públicas em Roma que visava o melhoramento das condições de higiene e saúde. Mandou construir o Fórum de Trajano e a Coluna de Trajano, em Roma. Igualmente, promoveu a terceira perseguição contra os cristãos.

    Faleceu em 117 sendo sucedido por Adriano, seu sobrinho e protegido.

    Conheça a Arquitetura Romana.

    Adriano
    Imperador Adriano

    Estátua do Imperador Adriano com uniforme militar

    Públio Élio Trajano Adriano governo o Império romano de 117 a 138.

    Nasceu em Itálica, atual Espanha, no ano de 76. Foi considerado um talentoso administrador e sua obra mais famosa é a Muralha de Adriano, na atual Grã-Bretanha, onde até hoje se podem contemplar vestígios.

    Reformou a administração imperial através do Édito Perpétuo, publicado em 131. Esta compilação judicial regeu o império até ao tempo de Justiniano, no século VI.

    No campo militar abandonou as campanhas de Trajano na Mesopotâmia e preferiu adotar uma política defensiva.

    No atual Reino Unido, mandou construir no ano 112 a Muralha de Adriano. Com 120 km de comprimento, esta obra foi concluída no ano 126 pelos próprios soldados, que construíam e combatiam simultaneamente. A muralha marcou durante séculos a fronteira entre a Inglaterra e a Escócia a fim de garantir a defesa dos romanos contra os ataques dos povos do norte.

    Adriano faleceu em 138, em Roma.

    Diocleciano
    Caio Aurélio Valério Diócles Diocleciano foi imperador de 284 a 305.

    Diocleciano não tem data certa de nascimento e normalmente se atribuem os anos de 243, 244 ou 245, como provável ano. Também o local de nascimento é incerto, mas estudos indicam Salona, na atual Croácia, como o local mais correto.

    Diocleciano foi o responsável pela grande mudança administrativa do Império romano. Instituiu a diarquia e a tetrarquia, pois considerava que os talentos de um só homem eram insuficientes para a defender o Império. Assim foi governo sozinho 284 a 286 e fazendo parte da Diarquia de 286 a 305. Em seguida, ainda incluiria mais dois auxiliares, para governar o Império.

    Dividiu o Império Romano em duas partes, ocidental e oriental, onde cada uma delas foi governada por um “Augusto”. Em seguida, entregou dois grandes territórios nas mãos de dois “cesáres” que auxiliariam os “Augustos”.

    A Ocidental teria como capital Roma, no entanto Maximiano instalou-se em Aquileia ou Milão. Quanto à parte Oriental seria governada por Diocleciano em Nicomédia. Galério Maximiano reinaria da cidade de Sirmio (nos atuais Balcãs) e Constâncio Cloro, governaria a partir de Tréveros (território localizado hoje entre a França e Alemanha).

    As decisões políticas deviam ser tomadas em comum acordo pelos Augustos e pela legislação comum a todo o império. O fato é que o Império Romano alcançou grandes dimensões e as rebeliões dos governadores provinciais e mesmo de generais se multiplicavam.

    Uma delas foi a revolta do oficial romano Caráusio que havia se proclamado imperador na Britânia. Igualmente, acontecem rebeliões na Pérsia e no Egito. A fim de unificar o povo romano em torno a um inimigo comum promove a Perseguição de Diocleciano ou a Grande Perseguição aos cristãos.

    Já velho e doente reúne oficiais e soldados e abdica do trono. Algumas fontes mencionam que ele estava sendo pressionado por César Galério para abandonar o poder. Seja como for, Diocleciano se retira da vida pública e morre no ano de 311 ou 312.

    Constantino
    Flávio Valério Aurélio Constantino foi imperador entre os anos de 306 a 337.

    Também conhecido como Constantino Magno, nasceu na cidade de Naissus (na atual Sérvia) em 26 de fevereiro de 272. É considerado o primeiro imperador romano cristão da História, apesar de ter sido batizado no leito de morte, e favorecer o paganismo e o cristianismo de igual maneira durante seu reinado.

    Com a morte do pai, em 306, foi aclamado imperador romano. Passou grande parte do seu reinado combatendo militarmente os povos germânicos que pretendiam ultrapassar as fronteiras do império romano.

    Através do Edito de Milão, em 313, acabou com a perseguição romana aos cristãos. Constantino simpatizava com o cristianismo, porém não transformou a religião em oficial dos seus domínios. Aproveitou-se do crescimento da religião cristã, em quase todas as regiões do Império, para aumentar sua força política, ao mesmo tempo em que estimulava o culto ao deus Sol.

    Em 7 de março de 321 foi promulgado o Édito de Constantino, legislação que defendeu o descanso aos domingos em homenagem ao deus-Sol (Sol Invictus). Desta maneira, agradava por igual a cristãos e pagãos.

    Imperador Constantino

    O imperador Constantino é venerado como sando pela Igreja Ortodoxa

    Para resolver as primeiras divergências teológicas entre os cristãos, convocou o I Concílio de Niceia em 325, no qual participaram cerca de 300 bispos. Sob a influência de Constantino, o concílio definiu a natureza divina de Jesus, a fixação da data da Páscoa (passou a ser diferente da Páscoa judaica) e a promulgação da lei canônica. Ficou definido também que o domingo seria o dia de descanso dos cristãos.

    Ampliou a cidade de Bizâncio de 326 a 330, transferindo a capital do império romano para o Oriente, nomeando-a Nova Roma. Após a morte de Constantino, ela seria chama de Constantinopla e em 1453, quando foi conquistada pelos turcos, recebeu seu nome atual: Istambul.

    Faleceu em 22 de maio de 337 na cidade de Nicomédia (atual Izmit, Turquia).

  70. Marcis Tiz disse:

    o jovem aprendiz

    Já faz algum tempo que o início do ano ocupou a posição do fim do ano em matéria de lançamentos importantes. Em algum lugar entre os dois há o meio, que representa o tradicional período de entressafra. Em 2018, não é diferente: até setembro, o mercado está morno.

    Logo, é o momento IDEAL para você acabar com aquelas (infinitas) pendências, e não necessariamente precisam ser deste ano. Eu, por exemplo, tenho um backlog que vem desde o Nintendinho.

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    Mas, por enquanto, eis aqui a seleção de alguns dos melhores jogos de 2018 (até aqui, é claro) para você relembrar e lamentar o tempo que não tem para jogar:

    Monster Hunter World (PS4, Xbox One)
    A Capcom acertou em cheio ao criar um ecossistema online tão vivo e tão viciante, acessível a todos os jogadores – veteranos da franquia e marinheiros de primeira viagem.

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    Dragon Ball FighterZ (PS4, Xbox One e PC)
    Depois de Budokai, os fãs buscam um “sucessor” à altura dentro do universo Dragon Ball. E Dragon Ball FighterZ talvez tenha respondido a muitos desses fãs – até porque é da Arc System Works, que manja tim tim por tim tim do que faz em jogos de luta.

    Shadow of the Colossus (PS4)
    O clássico do PS2 renasceu cheio de vigor no PS4, com direito a otimizações no PS4 Pro e uma direção de arte tão marcante quanto a do original.

    Kirby Star Allies (Switch)
    Star Allies pode não ser o melhor jogo do mascote rosa da Nintendo, mas certamente soube aproveitar os recursos do Switch com maestria. É um item que merece estar na sua coleção.

    Sea of Thieves (Xbox One e Windows 10)
    A Rare tem feito um grande trabalho nas atualizações de Sea of Thieves para trazer mais conteúdo ao título desde que ele nasceu. O jogo vendeu bem e ainda ferve em popularidade.

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    A Way Out (PS4, Xbox One e PC)
    Josef Fares, diretor de A Way Out, não é um cara polêmico qualquer: ele também mostrou exímia competência em A Way Out, uma das melhores experiências cooperativas dos últimos tempos.

    Ni No Kuni 2: Revenant Kingdom (PS4 e PC)
    A sequência de Ni No Kuni respeitou o encanto da franquia e aprimorou o sistema de combate dentro de um mundo colorido, vivo e imenso.

    Far Cry 5 (PS4, Xbox One e PC)
    Far Cry 5 foi o melhor jeito possível de você matar as saudades de um clássico Far Cry, já que Primal não foi tão bem recebido quanto a Ubisoft esperava. Joseph Seed não precisa ser parecido com Vaas Montenegro, de Far Cry 3, mas é um Vilão com “V” maiúsculo mesmo.

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    Yakuza 6 (PS4)
    A saga de Kazuma Kiryu continua em Yakuza 6, que já é considerado um dos maiores da franquia. Mais minigames, mais atividades e mais narrativa do burburinho japonês que nós tanto amamos ver.

    God of War (PS4)
    Inesquecível como não poderia deixar de ser, a jornada de Kratos e Atreus foi o melhor reinício possível para uma das principais franquias da família PlayStation. As mudanças no sistema de câmera e combate foram uma aposta dos estúdios Santa Monica – e muito bem aplicadas.

    State of Decay 2 (Xbox One e Windows 10)
    Atropelar zumbis, conseguir armas novas e plantar armadilhas são apenas detalhes em State of Decay 2: o gerenciamento da sua comunidade – no melhor estilo simulador mesmo – é o grande desafio aqui. O título já passou dos 3 milhões de jogadores ativos e continua no ápice de sua popularidade.

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    Dark Souls Remastered (PS4, Xbox One e PC)
    Ainda não abraçou o masoquismo? Então deixe que ele abrace você: Dark Souls Remastered é a porta de entrada a uma das melhores séries de todos os tempos. Seja bem-vindo ao peculiar gosto de apanhar.

    Detroit: Become Human (PS4)
    A nova entrega da Quantic Dream traz um pacote com narrativa poderosa e dividida em cenários diferentes que o jogador aciona conforme suas escolhas. Para muitos, a qualidade está bem perto de Heavy Rain.

    Hollow Knight (Switch)
    Lançado em 2017 para PC, Hollow Knight rapidamente conquistou avaliações positivas na plataforma e ganhou notoriedade. O jogo alcançou um público maior com o lançamento recente no Switch e merece ser experimentado por todos que amam um bom metroidvania.

    fbf

    Mario Tennis Aces (Switch)
    Mario Tennis Aces é a forma mais genuína de matar as saudades de um Mario Tennis clássico, só que, dessa vez, você tem uma quantidade muito maior de poderes – tem hora que a disputa vira uma treta baseada nesses poderes, e nem tanto na técnica de jogar o esporte.

    The Crew 2 (PS4, Xbox One e PC)
    O aspecto mais lúcido de The Crew 2 é que ele é um produto honesto, que abraçou o jeito arcade de ser. Ele não tenta ser um jogo sério; simplesmente te bota no controle de aviões, carros e barcos da maneira mais inusitada possível (o primeiro só tinha carros) num mundo aberto gigantesco.

    tjgh

    —-
    Julho e agosto têm pouquíssimos lançamentos de peso: Octopath Traveler, Mega Man X Legacy Collection, Yakuza 0, Overcooked 2, Yakuza 3 (no Japão), The Walking Dead: Última Temporada, We Happy Few e Yakuza Kiwami 2 (Ocidente) são alguns dos destaques. Em setembro, começa a avalanche: Shadow of the Tomb Raider, Spider-Man, e aí vem outubro com Forza Horizon 4, Red Dead Redemption 2…

    Aproveite a relativa “seca” até lá e faça uma varredura de sua lista de 2018 (ou de antes disso, é claro). Que jogos não citados aqui você planeja jogar para liberar esse terreno? Conte a nós aqui embaixo, na seção de comentários.

  71. Anônimo disse:

    Esp

    Uma nova era do futebol de seleções na Europa foi oficialmente inaugurada nesta quarta-feira. A Uefa sorteou os grupos da novíssima Liga das Nações. O torneio será disputado ao longo do próximo biênio, ocupando o calendário das equipes nacionais durante parte das Datas Fifa reservadas aos amistosos. Em vez de disputarem partidas caça-níqueis, sem grandes perspectivas esportivas, as seleções passarão a enfrentar adversários de mesmo nível, que possam manter a sua competitividade. Além disso, o certame também será uma prévia da Eurocopa de 2020, entrando no sistema de eliminatórias, oferecendo as quatro vagas da repescagem.
    VEJA TAMBÉM: Entenda como funcionará a Liga das Nações, o novo torneio de seleções da Uefa
    A Liga das Nações possui um formato intrincado, mas simples. As seleções da Uefa foram divididas em quatro divisões diferentes, conforme o Coeficiente da Uefa ao final das Eliminatórias da Copa de 2018. As 12 equipes melhor ranqueadas ficam na Liga A, as 12 seguintes na Liga B, as 15 posteriores na Liga C e as 16 últimas na Liga D. Então, foram divididas em quatro grupos de três equipes – ou de quatro, conforme o número de participantes nas ligas de ranking menor. Os times se enfrentarão nessas chaves em jogos de ida e volta, em calendário inicial marcado para o segundo semestre de 2018, determinando a classificação de cada grupo.
    Assim, os campeões das quatro chaves da Liga A disputarão um ‘Final Four’: um torneio de mata-matas curto, com semifinais e final, para determinar o campeão da Liga das Nações em 2019. Além disso, os piores colocados de cada grupo serão rebaixados à liga inferior, enquanto os melhores acabam conquistando o acesso – da Liga B para a A, da C para a B, da D para a C. E o sistema também será integrado às eliminatórias da Eurocopa.
    A primeira etapa do qualificatório será disputada no modelo tradicional, com os dois primeiros colocados de cada um dos 10 grupos confirmando o seu lugar na fase final da Euro 2020. Já em março de 2020, acontecerá a repescagem, envolvendo a Liga das Nações. O melhor time de cada um dos 16 grupos que não tiver se garantido via eliminatórias poderá entrar na repescagem. Então, as equipes de cada liga se enfrentam entre si, em mata-matas, com semifinal e final. O campeão de cada liga vai à Eurocopa. Assim, até mesmo a Liga 4 terá direito a um participante na fase final da Euro 2020.
    Sem mais delongas, estes são os grupos. Destaque para o Grupo 1 da Liga 1, que contará com os confrontos de maior peso e os maiores clássicos continentais. Lembrando que França, Alemanha e Holanda, desta maneira, correm o risco de rebaixamento para a Liga 2 no próximo ciclo bienal da Liga das Nações.
    Liga A
    Grupo 1: Alemanha, França, Holanda
    Grupo 2: Bélgica, Suíça, Islândia
    Grupo 3: Portugal, Itália, Polônia
    Grupo 4: Espanha, Inglaterra, Croácia
    Liga B
    Grupo 1: Eslováquia, Ucrânia, República Tcheca
    Grupo 2: Rússia, Suécia, Turquia
    Grupo 3: Áustria, Bósnia, Irlanda do Norte
    Grupo 4: Gales, Irlanda, Dinamarca
    Liga C
    Grupo 1: Escócia, Albânia, Israel
    Grupo 2: Hungria, Grécia, Finlândia, Estônia
    Grupo 3: Eslovênia, Noruega, Bulgária, Chipre
    Grupo 4: Romênia, Sérvia, Montenegro, Lituânia
    Liga D
    Grupo 1: Geórgia, Letônia, Cazaquistão, Andorra
    Grupo 2: Belarus, Luxemburgo, Moldávia, San Marino
    Grupo 3: Azerbaijão, Ilhas Faroe, Malta, Kosovo
    Grupo 4: Macedônia, Armênia, Liechtenstein, Gibraltar
    340 Twitter
    Italo Santanna • há 6 meses
    A ideia é muito boa, espero que na prática dê muito certo.

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    Lucas Santos Italo Santanna • há 6 meses
    Sim, só não acho que os clubes vão ficar muito satisfeitos com esse torneio.

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    Cahê Gündel Lucas Santos • há 6 meses
    Por quê? Não são datas novas, só irá substituir os detestáveis amistosos.

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    Lucas Santos Cahê Gündel • há 6 meses
    Eu expliquei logo abaixo…

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    Este comentário foi apagado.

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    José Francisco Binhas Guest • há 6 meses
    Falou pouco, mas falou muita merda.

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    Everaldo Carvalho Guest • há 6 meses
    Também concordo. Clubes deveriam reverenciar as seleções e não o contrário…

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    Rick Nascimento Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Claro, os times gastam trocentos milhões nos jogadores, aí eles vão pra seleção jogar uma partida que não vale nada, só dinheiro pra federação, se lesionam e desfalcam o time nas partidas mais importantes. Tem que reverenciar mesmo né…

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    Rafael Soares Andrade Dias Rick Nascimento • há 6 meses
    Meu deus, eu li nesses comentários que “os clubes devem baixar a bolinha deles” como se eles não gastassem nada nos jogadores e as seleções ficassem apenas com o filé.
    Li também que “as seleções são maiores que os clubes” NA MORAL, ONDE? Sem clubes não há PAIXÃO que é o que move o esporte. NINGUÉM que gosta de futebol realmente prefere a seleção ao clube. Eu quero que o Brasil se foda se o Corinthians ganhar títulos por exemplo. Ah, só mais uma coisa, sem clubes, não existem seleções. PS: só complementei seu comentário.

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    Gustavo Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Depende, entre ver o Corinthians ganhar uma libertadores e o Brasil ganhar uma copa, ficaria bem dividido, mas acho que iria preferir ver o Brasil ganhar a copa, acho que tem várias pessoas que pensam da mesma forma.

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    Rafael Soares Andrade Dias Gustavo • há 6 meses
    Cara, você é corinthiano? Certeza? Com todo respeito, mas é uma LIBERTADORES cara. Foda-se a seleção, na moral. Se você falar que gosta muito da seleção e prefere a um campeonato estadual, entendo. Eu nem isso prefiro.
    Mas assim, eu adoro o futebol de seleções por um motivo bem legal: como não há paixão quando eu vou assistir uma Copa ou Euro por exemplo, eu assisto querendo apreciar a beleza do esporte, assim como Ligas europeias de clubes.

  72. Anônimo disse:

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    Gustavo Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Amigo, Copa é de 4 em 4 anos, Libertadores tem todo ano, a chance do Corinthians ganhar uma libertadores é muito maior do que a seleção ganhar a copa.
    A minha forma de pensar não descredencia minha torcida pro meu time, obviamente tenho certeza da minha torcida pro time que sou apaixonado desde criança.

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    Lucas Luiz Guesser Gustavo • há 6 meses
    Copa do Mundo toda edição tem no máximo 5 equipes com chances reais de ganhar. Libertadores todos os 32 tem alguma chance.

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    Everaldo Carvalho Guest • há 6 meses
    Sinceramente, sou patriota. Mas hoje, eu ficou muitas vezes divido entre querer o hexa e o tri da argentina, quero muito que eles ganhem o título tb.

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    Darcio Vieira Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Uma questão: O Messi será menor na História se não vencer uma Copa? Zico e Sócrates são uns perebas por jamais terem vencido a Copa do Mundo?

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    Daniel Coelho Darcio Vieira • há 6 meses
    Não, isto não faz deles perebas. Mas é uma mancha, um asterisco que só demonstra o quanto estes caras jogaram (jogam, no caso de Messi).
    Ninguém lembrará daqui a 30 anos que jogadores como (com todo respeito a estes profissionais) Alemão, Oscar (o zagueiro) ou Simeone não ganharam uma Copa, mesmo tendo jogado várias. Porque citei jogadores medianos, que participaram de seleções como coadjuvantes.
    Messi, como Zico ou Sócrates são supercraques. Então esperava-se que eles marcassem seu nome na Copa, pra coroar a grandeza do que eles foram

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    Everaldo Carvalho Darcio Vieira • há 6 meses
    eu levantei essa questão?

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    Matheus Bezerra de Lima Rafael Soares Andrade Dias • há 2 meses
    A nação está acima de qualquer clube.

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    ZordRubronero Gustavo • há 6 meses
    Vivi para ver um corintiano falar que prefere um título da CBF a um do Corinthians.

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    Gustavo ZordRubronero • há 6 meses
    To tão acostumado a ver meu time ganhar títulos, que ás vezes penso em outras prioridades.

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    Caio Amaral Gustavo • há 6 meses
    Prefiro o Corinthians campeão do que a seleção.

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    Gustavo Caio Amaral • há 6 meses
    Entendo, mas no meu caso, é que o primeiro contato que tive com futebol foi a copa de 2002, dai pra frente que fui acabar torcendo pro Corinthians, comemorei todos os títulos da mesma forma que comemorei a copa, mas faz tanto tempo que a seleção não é uma ameaça em copas, que fico sempre na expectativa que a copa volte pra nós.

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    Fellipe Franzão Gustavo • há 6 meses
    Prefiro ver o Palmeiras ganhar nem que seja o Paulistinha do que o Brasil a copa.

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    Fellipe Franzão Guest • há 6 meses
    A realidade da seleção é bem distante de 95% do povo, é mais indiferença que outra coisa. Qual o time Renight?

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    Fellipe Franzão Guest • há 6 meses
    O troll é liso hahaha

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    CPL Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Também prefiro que meu time ganhe qualquer campeonato do que seleção. Não me importo com seleção. Se ganhar bem, se não ganhar, não perco meu sono e nem derramo uma lágrima sequer.

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    lucas breda CPL • há 6 meses
    A seleção representa um país inteiro e gera alegria para mais pessoas que se unem em prol de um único objetivo e fora que Copa do Mundo é de quatro em quatro anos e eu fico querendo acompanhar todos os jogos porque é a maior competição do planeta. Os estaduais não valem nada, Copa do Brasil e Brasileirão são anuais, com o aumento de vagas a libertadores ficou mais acessível e o Mundial de Clubes é legal, mas com apenas 7 times a representatividade é pouca. A melhor competição de clubes é a Champions League, mas mesmo assim perto da Copa é muito pequena, porém como eu amo o futebol eu assisto vários campeonatos, mas a Copa é sempre com mais ânimo, além de que quase não durmo de ansiedade quando vai chegando mais perto de começar. Segue link da publicação do meu blog: alunoceunes.blogspot.com.br…

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    Arthur Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Acho que tem muito a ver com o momento… a maioria dos que pensam assim viu o tetra, o penta, as 500 Copas América, os clubes brasileiros na final da Libertadores por mais de 10 anos seguidos…

    Acho que era diferente na época do deserto dos 24 anos sem Copa, dos 40 sem Copa América, que só os argentinos e uruguaios ganhavam a Libertadores… fora a era atual do clubismo e fanatismo, redes sociais, as pessoas se levando a sério demais… essa relação mudou.

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    Everaldo Carvalho Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    “ninguém que gosta de futebol prefere seleção a clubes”.. Que é isso cara? É só o que tem, são esses tipos de clubismos que tornam a discussão sobre futebol chatas às vezes.

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    Rafael Soares Andrade Dias Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Cara, você prefere o Brasil ao seu clube?

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    Everaldo Carvalho Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Claro, mesmo quando meu clube era um dos maiores do país. Hoje aquela Coreia do Norte dos clubes do Brasil, chefiada por um ditador sanguinário, ainda torço, claro, mas nunca foi maior que a paixão pelo meu país e nunca será. Agora, na boa, respeito sua opinião e preferência.

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    Diego Marinho Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Mil vezes o Vasco que a seleção, até pq a máfia por máfia a que chefia a CBF causa mais mal ao futebol do país.

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    Everaldo Carvalho Diego Marinho • há 6 meses
    Não é por causa de uma federação que deixo ou não de torcer pela seleção. A CBF precisa ser demolida assim como a direção do vasco. O que não entendo é a desculpa que usam pra não torcer pra seleção por causa de corrupção como se os clubes fossem o céu na terra.

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    Diego Marinho Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Quem for pensar em corrupção não torce pela seleção nem por clube nenhum, nem brasileiro nem europeu. Só para deixar claro, eu torço muito pela seleção, só que não tem comparação com o clube e creio que a maioria seja assim, baseado nas pessoas que conheço.

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    Rafael Soares Andrade Dias Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Diferente do tal “Renato Gaúcho” aqui em baixo, você é respeitoso, por isso o diálogo. Pra mim é muito difícil imaginar isso, por que vivo num meio em que a seleção não é NADA perto da paixão por um clube. É o que move as discussões sadias de bares e do dia-a-dia com os amigos. Não conheço ninguém que me fale que prefira a seleção ao clube. É muito estranho hahahahaha.
    Quanto ao Vasco, é um crime o que estão fazendo.

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    Diego Marinho Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Apesar de tudo a paixão pelo Vasco não se compara

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    Roberto Nobre Campos Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Eu tb prefiro a selecao ao clube, Rafael.

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    Everaldo Carvalho Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    É, isso às vezes é um tanto complexo, acho que muitas coisas influenciam nessas preferências, no caso, como a minha região não possui times tradicionais a nível nacional, nos resta os times do sudeste. Talvez o calor da torcida local de um clube gigante como o COR ajude nesse caso a preferência.

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    Matheus Bezerra de Lima Rafael Soares Andrade Dias • há 2 meses
    Eu gosto de futebol, mas só torço mesmo pelo Brasil. Só assisto futebol de clubes pelo espetáculo do futebol

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    ZordRubronero Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Assino embaixo, sem os clubes não existiria o esporte, muita gente torce para um clube (ou mais de um), mas não está nem aí para seleção de seu país, seja ela grandiosa ou minúscula.

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    Rodrigo de Almeida Silva Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Assino embaixo, só substituindo Corinthians por São Paulo.

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    Gato Mestre Rafael Soares Andrade Dias • há 6 meses
    Falar de “paixão” hoje em dia com dinheiro russo e árabe e time feito pela Red Bull é uma piada.

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    Dio, A voz do Heavy Metal Guest • há 6 meses
    Futebol é feito primariamente de dinheiro, la atrás vem amor a camisa ou pátria.

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    Everaldo Carvalho Rick Nascimento • há 6 meses
    Seleções são maiores que clubes. É justo um jogador defendendo o seu país se lesionar jogando futebol, vc acha que eles deveriam jogar como moças?

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    Rick Nascimento Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Não disse isso. Mas jogos caça-niqueis às custas dos times que bancam o jogador? Quero ver se você ia achar bom teu time ter que jogar uma final de Libertadores sem o principal jogador porque ele se machucou num amistoso do Brasil contra o Taiti.

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    Rick Nascimento Guest • há 6 meses
    Da onde vem o sustendo do Falcão? Do time ou da federação colombiana? Então…
    Anyway, esse torneio não é caça-niqueis, por isso acho que vai ser uma boa. E os clubes não vão reclamar, porque ele substituir as eliminatórias pra Eurocopa, diminuindo o número de jogos pras seleções das primeiras divisões. Jogar menos é uma vantagem. Só resta ver se essas seleções vão aumentar o número de amistosos, o que aí sim seria um problema…

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    Rick Nascimento Guest • há 6 meses
    Então piorou. Agora que reli toda a matéria e olhei outros artigos entendi. Vai ser simultâneo às eliminatórias, não uma substituta. Ou seja, vai servir pra nada, visto que nem pra fazer testes pode ser uma boa, já que tem caráter oficial… Ah, UEFA… huahuahua

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    Everaldo Carvalho Rick Nascimento • há 6 meses
    Amigo, o cara está sujeito a se machucar em QUALQUER jogo, até em treino, brincando em casa, se depilando no banheiro…

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    Rick Nascimento Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Óbvio que está. Mas jogar uma partida que vale nada, por uma entidade que sequer paga ele? É como se lesionar praticando outro esporte nas horas de folga do final de semana.

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    Lucas Luiz Guesser Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Fala isso para um catalão, basco defendendo a Espanha.

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    Lucas Luiz Guesser Guest • há 6 meses
    Eles têm sua pátria. Com língua, identidade e cultura.

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    Dio, A voz do Heavy Metal Guest • há 6 meses
    Amam seus estados locais, que são suas verdadeiras pátrias.

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    Lucas Luiz Guesser Everaldo Carvalho • há 6 meses
    O futebol só existe por causa dos clubes…

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    Everaldo Carvalho Lucas Luiz Guesser • há 6 meses
    Sim, mas os torneiros e conquistas de seleções se tornaram maiores e mais importantes.

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    Lucas Luiz Guesser Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Não mais. O único torneio de seleções realmente relevante hoje é a Copa do Mundo, e chuto que depois de 2026 perderá muita importância.

    A Alemanha levou um time praticamente reserva ano passado para a Copa das Confederações.

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    Matheus Bezerra de Lima Lucas Luiz Guesser • há 2 meses
    Eurocopa é muito grande. Não despreze a Eurocopa que já teve tantos torneios históricos

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    Everaldo Carvalho Lucas Luiz Guesser • há 6 meses
    eu não acho que os argentinos preferem ver o melhor jogador de todos os tempos deles ganhando 5, 6 UCL’s e não ganhar sequer uma copa América pelo seu país. E na Euro a mesma coisa…

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    Lucas Luiz Guesser Everaldo Carvalho • há 6 meses
    O TIME não ganha nenhum titulo a mais de 20 anos. Messi sozinho não ganha nenhum campeonato com a Argentina. E ele bateu na trave 3 vezes já.

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    Dio, A voz do Heavy Metal Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Mas nem por isso os clubes tem que ser escravos da seleções.

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    Fotografia do Jogo Guest • há 6 meses
    Seleção nem é gente.

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    Lucas Santos Guest • há 6 meses
    É complicado.Pegando como exemplo o “menino”, você acha que o PSG,após pagar uma nota pra tirar ele do Barcelona,vai ficar feliz em ver ele jogar mais pela seleção do que pelo clube que paga seu alto salário? com certeza não.

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    Italo Santanna Lucas Santos • há 6 meses
    Se eu entendi bem, a proposta é que esse torneio ocupe a agenda que era destinada aos amistosos mensais. Se for isso mesmo, os clubes não tem do que reclamar, já que os jogos já serão na data Fifa.

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    Lucas Santos Italo Santanna • há 6 meses
    Só que em muitos amistosos as seleções européias nem levam força máxima, já nesse caso provavelmente levará, já que envolve tanto classificação para Euro quanto possíveis rebaixamentos,nesse caso a incidência de lesões acredito ser maior já que as partidas serão levadas mais a “sério”. Mas eu curti a ideia,esses amistosos modorrentos são um saco.

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    Cahê Gündel Lucas Santos • há 6 meses
    Ou não, já que, pelo que entendi, vale vaga na repescagem da Euro, uma vez que as eliminatórias continuam existindo. Assim, as grandes seleções não devem jogar com força máxima.

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    Lucas Santos Cahê Gündel • há 6 meses
    Bom,veremos. Desde já eu fiquei empolgado com a ideia,se fizerem o mesmo na América será muito bem-vindo.

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    Gabriel Pinho Guest • há 6 meses
    Com as 10 seleções sulamericanas e as 41 seleções da Concacaf seria possível fazer 5 divisões com 10 seleções e a última com 11. Com grupos de 5 em cada divisão, e jogos apenas em um 1 turno. Seria show.

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    Raphael Lemos Gabriel Pinho • há 6 meses
    Com o jogo entre o campeão da liga das americas e européia. Jogo único realizado no país sede da Copa do Mundo.

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    Gabriel Pinho Raphael Lemos • há 6 meses
    melhor não, se não vai ter seleção pleiteando título mundial nesta copa Toyota aí. Já pensou ??

    hahahahahahahahahahahaha

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    Gabriel Pinho Raphael Lemos • há 6 meses
    melhor não, se não daqui a pouco vai ter seleção pleiteando título mundial se ganhar esta copa Toyota aí.

    hahahahahahahahahahaha

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    Rodrigo Elesbão Gabriel Pinho • há 6 meses
    Cinco divisões? Com as seleções da Concacaf?

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    Gabriel Pinho Rodrigo Elesbão • há 6 meses
    que sejam 4 então

    Série A com 10; caem 3
    Série B com 15; sobem 3 e caem 3
    Série C com 16; sobem 3 e caem 4
    Série D com 20; sobem 4

    Seria uma boa alternativa, mas a Concacaf já fez o torneio dela e o sorteio será em março.

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    Lucas Santos Gabriel Pinho • há 6 meses
    Seria interessante.

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    Paulo Fontes Lucas Santos • há 6 meses
    Criaram a Eurocopa entre Eurocopas.
    Agora vocês querem criar uma Copa América entre Copas América, aí pegar os campeões para fazer uma Final de Copa do Mundo entre Copas do Mundo?
    É muito tempo livre pra ter esse tipo de ideia. Parabéns.

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    Cahê Gündel Guest • há 6 meses
    Sempre gostei dessa ideia também, em vários outros esportes existe isso. E, realmente, poderíamos ter uma Liga das Nações por aqui, bem melhor que assistir amistoso.

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    Marcelo Cabral • há 6 meses
    Já ansioso pelo clássico Gibraltar x Liechtenstein na quarta divisão.

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    Guilherme de Castro • há 6 meses
    Entre amistosos sem sentido e uma tentativa de aumentar a competitividade das data Fifa. Prefiro a segunda opção, tem que ver se não vai ofuscar a Eurocopa.

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    Pedro Costa • há 6 meses
    A ideia do torneio é sensacional, mas nem tudo é perfeito. Isso vai prejudicar no ranking das seleções não-europeias – principalmente as sul americanas. Isso porque a pontuação do ranking tem o peso maior quando a seleção é de uma conferência forte, ou seja, um amistoso Brasil x Islândia conta mais pro ranking que um Brasil x Japão, por exemplo. E como é um torneio UEFA, acho difícil a FIFA rever o sistema de contagem de pontos para todos. A tendência é que mais Grécia, Croácia e Polônia assumam lugares mais altos no ranking que Brasil, Argentina e México, por exemplo.

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    cleverton Pedro Costa • há 6 meses
    Mas até ai a UEFA cuida dos seus países, as outras confederações que se virem.

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    Pedro Costa cleverton • há 6 meses
    Sim, mas suponhamos que todas confederações instituam torneio semelhante. O modelo de pontuação pro ranking deveria ser revisto; fora que afasta bons jogos, inclusive entre as próprias seleções europeias, pois, seleções grandes vão cair. Veja bem, não critico o torneio em si, achei a iniciativa muito boa, mas só apontei alguns efeitos colaterais que serão sentidos no futebol do resto do mundo.

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    cleverton Pedro Costa • há 6 meses
    Sim sim eu entendi o que você quis dizer, Temos que ver como vai se desenrolar as coisas. Mas se eu não me engano a FIFA e a UEFA já começaram a conversar sobre expandir isso pra uma liga mundial.

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    Dio, A voz do Heavy Metal Guest • há 6 meses
    Alemanha Oriental x Ocidental versão 2018.

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    Vitor Souza • há 6 meses
    [OFF] Escudo novo do Leeds United:

    ver mais
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    Lucas Santos Vitor Souza • há 6 meses
    Não curti muito.

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    Gustavo Vitor Souza • há 6 meses
    Que merda é essa, colocasse um Tamo junto em baixo do escudo e ficava melhor que essa merda.

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    Espírito que anda Vitor Souza • há 6 meses
    Ridículo. Não se respeita mais a tradição dos clubes.

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    Lucas Santos Guest • há 6 meses
    Aí não,aquela aberração é Hors Concours. Kkk

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    William Balbino Vitor Souza • há 6 meses
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    Agora entendi o pq dessa imagem do Aston Villa hahahaha

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    Vinicinho pernambucano Vitor Souza • há 6 meses
    Franquia da mls na inglaterra ? Muda logo o nome para leeds ultradestroyers

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    A torre Vitor Souza • há 6 meses
    Horrível

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    Lucas Santos A torre • há 6 meses
    Sei lá,ficou meio parecido com aqueles escudos genéricos que o PES cria para alguns times,tipo o London FC…

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    Vitor Souza Lucas Santos • há 6 meses
    A capa do PES 2.

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    Lucas Santos Vitor Souza • há 6 meses
    Igualzinho. Kkk

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    Pedro Henrique Vitor Souza • há 6 meses
    Lamentável, achava bonito o antigo escudo.

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    Guilherme Ramos Vitor Souza • há 6 meses
    O escudo deles precisa de uma modernizada. Mas isso é ridículo!

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    Daniel dos Santos Vitor Souza • há 6 meses
    Infelizmente, ficou uma bosta. Curto design, mas tem coisas que não cabem, escudo de futebol é escudo de futebol, pô. Branding, tô fora! Pego minha várzea e vou embora…

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    Olavo • há 6 meses
    Se fosse a CBF ou alguma Federação anunciando um regulamento esdrúxulo desse pra alguma competição no Brasil, estariam todos caindo de paulada! Mas foi a UEFA criando mais um campeonato pomposo caça-níqueis pra seus federados, então estão todos batendo palmas.
    De fato, amistosos por si só, são modorrentos, mas o que deveria acontecer é justamente diminuir o número de Datas FIFA e não reinventar a roda com uma competição bizarra!
    Parabéns aos envolvidos.

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    Fellipe Franzão Olavo • há 6 meses
    Nd haver, essa competição será nas datas Fifa

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    Olavo Fellipe Franzão • há 6 meses
    Sim. Será em Datas FIFA, eu sei ler. E repetindo, são essas datas que precisam diminuir, evitando amistosos modorrentos, desgaste dos jogadores junto aos clubes e a criação de campeonatos bizarros como esse, que não tem NADA A VER!

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    Fellipe Franzão Olavo • há 6 meses
    Hahahaha A criação disso já evita os famosos amistosos modorrentos

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    Olavo Fellipe Franzão • há 6 meses
    Se você se apegar somente a isso, então a resposta é sim, acaba. Mas fica uma discussão bem rasa, típico de torcedor de sofá mesmo.

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    Dom Vito Corleone • há 6 meses
    Se a Seleção Brasileira ja não enfrentava grandes seleções em amistosos imagine agora com seleções europeias ocupadas?

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    Olavo Dom Vito Corleone • há 6 meses
    São grupos com 3 seleções. Uma delas sempre vai sobrar na rodada.

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    Rodrigo SMC Dom Vito Corleone • há 6 meses
    Será que vai ocupar todas as datas FIFAS?

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    Dom Vito Corleone Rodrigo SMC • há 6 meses
    Serão 8 datas FIFAS.

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    Dom Vito Corleone Guest • há 6 meses
    Só se for time belico 🙁

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    Dom Vito Corleone Guest • há 6 meses
    Quando ainda pertencia a AFC era uma potencia da região, mas a mudança pra UEFA além de não ter trazido a evolução esperada segregou de competições importantes.

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    Bruno De Barros Kasa • há 6 meses
    Quem nunca quis simular um torneio de seleções dividido por divisões? Mto show essa ideia, espero que dê certo, Holanda podendo complicar ainda mais a sua péssima fase recente, acredito que a Rússia tb tenha td pra se dar mal, já não se espera grande coisa da sua participação no Mundial aí depois ainda pega um grupo desses? Grande candidato a cair pro grupo C…

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    Gabriel Pinho Bruno De Barros Kasa • há 6 meses
    Eu brincava assim a minha infância toda, cortava e escrevia um monte de papelzinhos e as vezes até pintava com as cores da bandeira.

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    Cahê Gündel Gabriel Pinho • há 6 meses
    Pensei que eu fosse o único maluco que brincava de sorteio kkk

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    Gabriel Pinho Cahê Gündel • há 6 meses
    Brincava de corrida, futebol, colocava nome e número nos papéis, meus primos mais velhos me chamavam de maluco e rasgavam tudo. Depois fazia tudo de novo.
    Fazia copa do mundo, estaduais (de quase todos), regionais, competições nacionais de vários países, continentais de clubes e seleções, vôlei, basquete, F1 (um dos meus prediletos) e até de escola de samba eu fazia.

    Hahahahahahahaha

    Tenho saudades dessa época kkkkkkkkkkk

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    Rick Nascimento Bruno De Barros Kasa • há 6 meses
    Quem nunca jogou o Elifoot 98 com seleções ao invés de clubes? huaeuheahua

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    Bruno De Barros Kasa Guest • há 6 meses
    Turquia tem uma boa mistura de bons jogadores promissores e experientes já na Rússia não vejo nenhum jogador despontando e nem uma renovação acontecendo…

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    Daniel dos Santos • há 6 meses
    A Sérvia na Liga C ficou estranho, foram campeões sub-20 há pouco tempo, estão na Copa… Que coeficiente esquisito!

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    Gabriel Pinho Daniel dos Santos • há 6 meses
    Detalhe é que a Sérvia nem era cabeça de chave.

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    Daniel dos Santos Gabriel Pinho • há 6 meses
    Vai levar fácil a Liga. Se colocar time de garotos, também vence.

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    Gabriel Pinho Daniel dos Santos • há 6 meses
    Pode levar mas não acredito que seja fácil, pois tem seleções que melhoraram bastante como a Escócia, Eslovênia e até a Bulgária.

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    Gabriel Pinho Guest • há 6 meses
    Grécia campeã da Euro, Albânia participando de Euro e a Noruega podem incomodar também

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    Daniel dos Santos Gabriel Pinho • há 6 meses
    Seleções que podem incomodar, mas não sei se farão frente. Vamos ver!

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    Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Muito bom, isso dá abertura para uma liga mundial entre seleções.

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    Gabriel Pinho Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Quanto a uma liga mundial de seleções eu já não concordo. Pois já tem a copa do mundo. Prefiro estes regionais (continentais)

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    ASouza Melo • há 2 meses
    Tudo é lavagem de dinheiro mesmo…

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    FSociety • há 4 meses
    E as seleções sul-americanas??? como ficam?

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    ZordRubronero • há 6 meses
    A ideia é bem vinda, ainda mais que dará chances de seleções menores aparecem mais, nem que seja para tomar aquele sarrafo nas semis, ou quem sabe, em um dia de inspiração dos deuses do futebol, elas aprontem uma zebraça. Só não curti o formato das finais, para mim deveriam ser o melhor colocado de cada uma das ligas (A.B, C e D) a se enfrentarem no chaveamento final, mas com o lance de rebaixamente e ascensão, seleções mais fracas poderão ter seus 15 minutos (ou não) de fama na Liga A.

    PS: Sério mesmo que tem gente que acha que os CLUBES devem se rebaixar às SELEÇÕES e não o contrário? Os clubes bancam seus atletas, dão estrutura, é onde o futebol de verdade acontece. As seleções não passam de um monte de abutres gananciosos (não que os clubes não sejam, mas são eles que bancam e sustentam o esporte) que ficam contundindo atletas e aparecendo em grandes escândalos envolvendo a justiça. Ah, e por favor, sem aquele argumentinho estupido de “patriotismo” (cof, cof, ultranacionalismo, cof, cof) para cima de mim, vão cobrar “patriotismo” dos jogadores e seus “faz me rir”.

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    Marcio Lenz • há 6 meses
    Bom já temos um grupo da morte o 4 da Liga D.

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    Cleyton Ramos • há 6 meses
    É muito otimismo dizer que França, Alemanha e Holanda podem ser rebaixadas kk. Só acho que deveriam ser 2 acessos/rebaixamentos, pra ficar mais difícil (e divertido) o acesso. Podia dar títulos em cada divisão e os finalistas sobem, enquanto os últimos colocados se enfrentam em mata-mata pra ver os dois que caem.

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    Cronos • há 6 meses
    Grupo 3 da Liga D o mais alternativo. Imagina que delícia Ilhas Faroé x Azerbaijão. De Tórshavn a Baku são só 93 horas de carro.

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    Gabriel Pinho Cronos • há 6 meses
    Que carro o quê ? Kkkkkkkkkkkkkk

    Não tem como chegar de carro nas Ilhas Faroé.

    Só de avião mesmo e com certeza não tem vôo direto.

    Kkkkkkkk

    Mas de fato será um jogão. Ilhas Faroé melhorou muito e é uma principais equipes da Liga D.

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    Cronos Gabriel Pinho • há 6 meses
    Tem balsa kkkkkkk…falando sério, foi o tempo estimado pelo Google Maps hehehe

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    lucas breda • há 6 meses
    Será uma competição espetacular e ainda bem que lá existe organização e união para a criação de novas competições. Segue link da publicação do meu blog: alunoceunes.blogspot.com.br…

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    Darcio Vieira • há 6 meses
    Acho que há espaço para futebol de Seleções e de clubes. Por exemplo: Se Phillipe Coutinho não fosse convocado para a Seleção, o Liverpool receberia a grana que levou do Barcelona?

    Roberto Firmino sairia anônimo do Brasil rumo à Alemanha se já tivesse estreado pela Seleção?

    Quanto a Juventus teria pago em Paulo Dybala se ele fosse convocado desde as seleções de base da Argentina?

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    Fabito Moino • há 6 meses
    Euro com 24 seleções, eliminatórias da Euro, da Copa, Liga das Nações (ou amistosos, como era até ano passado)…muito, muito jogo de seleções. Eu adoro as seleções, mais que o futebol de clubes, mas “menos é mais”. O calendário de jogos entre países deveria ter uma enxugada, para se valorizar as partidas, ter a vontade dos jogadores e a compreensão dos clubes.

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    Will FS • há 6 meses
    Só não entendi a repescagem das eliminatórias da Euro… E se um grupo tiver todos classificados para a Euro?

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    Will FS Guest • há 6 meses
    Sim, isso eu sei, mas quem iria para a repescagem?

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    Will FS Guest • há 6 meses
    Será mais esclarecedor na prática rs

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    Rodolfo Matos • há 6 meses
    Quando a Liga das Nações fracassar, haverá uma guerra mundial.

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    Rodolfo Matos Guest • há 6 meses
    Oi, Juan

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    Kenu Rivis • há 6 meses
    Idéia ótima porém achei meio confusa

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    Fellipe Franzão • há 6 meses
    Torneio bem interessante, bola dentro da UEFA, Holanda ja começa passando vergonha,apesar da Itália ter nem técnico ainda capaz que passe da Polônia e Alemanha ganhará a Liga A.

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    Adriano Augusto • há 6 meses
    Isso foi ótimo. Em vez de amistosos aleatorios inuteis, agora são jogos oficiais entre times do mesmo nivel.
    Legal demais, talvez fosse interessante unir o resto do mundo e fazer o mesmo.

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    Paulo Fontes • há 6 meses
    Pelo que vejo nos comentários, só eu achei péssima essa ideia. É uma espécie de Eurocopa entre Eurocopas.
    O melhor mesmo é acabar com essas datas FIFA. Menos seleções, mais clubes.

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    Philippe Rossard • há 6 meses
    Eu achei a ideia boa, seria interessante fazer uma Liga Mundial – com esquema de liga, pode ser de quatro em quatro anos dando um espaço de dois anos entre a Copa do Mundo e a Liga.
    Só não pode varzear. Podia dar uma bonificação aos vencedores e participantes dos. 4 primeiros pra estimular rivalidade. Mas com a semifinal e a final. Imagina ter a chance de ver jogos serios de Seleções sem ser na Copa que é curta.

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    admys • há 6 meses
    Pessoal, vamos ao campeão de cada liga:
    Liga A: Alemanha
    Liga B: Dinamarca
    Liga C: Sérvia
    Liga D: Armênia

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    Leandro Stein admys • há 6 meses
    Campeão só tem a Liga A mesmo, de resto apenas os acessos.

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    admys Leandro Stein • há 6 meses
    Ah é? mas os campeões de cada liga não irão para a euro?

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    Leandro Stein admys • há 6 meses
    Não. Repetindo o que está no texto: ” Já em março de 2020, acontecerá a repescagem, envolvendo a Liga das Nações. O melhor time de cada um dos 16 grupos QUE NÃO TIVER SE GARANTIDO VIA ELIMINATÓRIAS poderá entrar na repescagem. Então, as equipes de cada liga se enfrentam entre si, em mata-matas, com semifinal e final. O campeão de cada liga vai à Eurocopa. Assim, até mesmo a Liga 4 terá direito a um participante na fase final da Euro 2020″.

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    admys Leandro Stein • há 6 meses
    Rapaz, acho que entendi, mas é um pouco complicado

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    Leandro Stein admys • há 6 meses
    Sim, é bastante intrincado. Ganhar o grupo nesses jogos de 2018 serve apenas para o acesso – exceção da Liga A, que aí tem um “campeão geral”. A repescagem da Euro vai funcionar paralelamente, mas aproveitando a classificação.

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    admys Guest • há 6 meses
    Essas três ligas B, C e D tem seleções bastante niveladas, difícil fazer algum prognóstico, até nas nanicas é difícil dizer quem será campeã, pode-se dizer que tirando a Alemanha as outras foi no chute

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    Gabriel Pinho Guest • há 6 meses
    Eu tiraria Azerbaijão da lista e incluiria Letônia e Kosovo(esse nas próximas edições)

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    admys Guest • há 6 meses
    Pois é, mas essa 4 aí tão no mesmo nível

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    Leonardo Gianotti • há 6 meses
    Eu gostei. Acho uma boa idéia, se vai dar certo ou não é outra história. Tomara que dê certo.

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    Bruno Miotto • há 6 meses
    Tem gente que gosta de falar merda, puta que pariu.

    De resto, acho que vai ser legal um torneio desses.

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    Bruno Miotto Guest • há 6 meses
    O pior é que esse tipo de gente fala isso mas na Copa torce descaradamente pra Argentina, Alemanha, Inglaterra, Itália e por aí vai. Eu tenho minhas preferências mas nunca falaria mal do futebol de seleções. Eu fui criado vendo Copa do Mundo e a Copa ainda é a cereja no bolo do fã e do jogador de futebol (não importa o quanto a Champions tenha evoluído nos anos que passaram).

    Vira-lata no loló dos outros é refresco.

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    Rick Nascimento Guest • há 6 meses
    Acho mó engraçado pessoal querer menosprezar o que os outros vivem só porque acham alguma coisa… hahaha

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    Rick Nascimento Guest • há 6 meses
    Não, eu estava falando dos fatos. O clube paga pelo jogador e o que ele faz na seleção vira apenas prejuízo pra ele. Isso é um fato, não é opinião. Agora dizer que torcer pra um time estrangeiro te faz menos torcedor que os outros é só achismo mesmo.

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    Rick Nascimento Guest • há 6 meses
    Eu comecei pelo estrangeiro lá em 92, depois fui ter um brasileiro, que tá até ok. Empolgação com seleção foi só quando era criança. Caía na história da Copa, onde até quem não sabe o que é impedimento resolve ver (hahahaha). Mas aí a gente vai reparando várias coisas… Não deu mais pra me envolver. Até porque, especialmente no futebol, é muito difícil não ver uma seleção como a representação de uma federação e não necessariamente de um país.

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    Leonardo Gianotti Guest • há 6 meses
    Eu vou por este caminho também. Prefiro os torneios de seleção, acho o clima que se forma em torno de um torneio de seleções incrível, destes que faz mesmo quem não gosta de futebol se empolgar. Agora, os torneios de clubes, bem …. digamos que eu apenas tolero.

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    Lucas Santos Guest • há 6 meses
    Qual o seu clube do coração?

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    Dio, A voz do Heavy Metal Lucas Santos • há 6 meses
    Palmeiras.

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    Lucas Santos Dio, A voz do Heavy Metal • há 6 meses
    Kkk

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    Gustavo Lucas Santos • há 6 meses
    Grêmio.

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    Lucas Santos Gustavo • há 6 meses
    Esse é o do personagem. Kk

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    Gustavo Lucas Santos • há 6 meses
    Quem me garante que esse não é o Portaluppi de verdade, tem que ver isso aí.

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    Lucas Santos Gustavo • há 6 meses
    Miniatura

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    Gustavo Guest • há 6 meses
    Aí já é ser ignorante, não acho que seja exatamente o caso, tem gente que ta cagando pro próprio pais em que vive, mas não acho que seja exatamente só os torcedores desses times, já vi vários torcedores do curintia falando que tão cagando pra seleção.

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    Vinicinho pernambucano Gustavo • há 6 meses
    Pra mim quem gosta de futebol tem que gostar dos dois, jogos de clubes e seleçoes, sao os mesmos tecnicos os mesmos jogadores os mesmos estadios e as mesmas regras nao sei por qual motivo pessoal quer diferenciar uma coisa que so muda alguns detalhes

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    Gustavo Vinicinho pernambucano • há 6 meses
    Eu entendo quem não liga pra seleção, no nosso caso principalmente, foi criado um distanciamento por corrupção, data fifa no dia do jogo do nosso time, jogadores que provavelmente são levados por empresário,etc.

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    Dio, A voz do Heavy Metal Gustavo • há 6 meses
    Dou também o exemplo de quem torce pra time pequenos com poucos ou nenhum jogador de seleção, pra esse cara a seleção gera menos empatia já que, não há quase nenhum cara do clube dele na seleção.
    Futebol de seleções é uma experiência muito fracionada e isolada.

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    Everaldo Carvalho Dio, A voz do Heavy Metal • há 6 meses
    Eu torço pra um que se apequenou nunca mais teve um jogador de seleção, a não ser do Uruguai, mas o meu caso é o inverso…

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    Glauber Silva Gustavo • há 6 meses
    Acompanho o que ocorre, mas não assisto jogos da seleção exatamente por isso. Copa até vejo, pois sempre é aquela coisa “o que vier é lucro”, mas sempre com a consciência de que poderia ter conseguido mais da melhor forma possível por que ali não é exatamente uma seleção dos melhores , mas enfim …

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    Everaldo Carvalho Gustavo • há 6 meses
    Mas data FIFA no dia dos nossos jogos aqui é pura sacanagem da CBF, todas as federações param que aqui não?! Como diria o NEto: “É brincadeira ô!”

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    Gustavo Guest • há 6 meses
    Eu acho isso foda demais, talvez seja a única época que você vai ver todas as torcidas juntas apoiando a mesma causa, porém a própria cbf não valoriza isso, sendo que raramente tem amistosos no Brasil e quando tem os preços são altos demais pra 98% da população.

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    Fotografia do Jogo Gustavo • há 6 meses
    bicho, a cbf não apóia a sua causa, apóia a causa dela.

    a seleção é um time da cbf, não do Brasil.

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    Gustavo Fotografia do Jogo • há 6 meses
    Exatamente, por isso ao poucos estamos pegando distância da seleção.

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    Bruno Miotto Guest • há 6 meses
    Já teve Brasil x Gana aqui em São José do Rio Preto.

    Nunca que hoje uma cidade do Interior do Brasil receberia um amistoso da seleção

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    Gustavo Guest • há 6 meses
    Eu nunca consegui ver, durante a copa por exemplo em Curitiba até cheguei a sonhar que teria jogo do Brasil aqui, mas no fim acabou tendo uns jogos bem insossos tipo Irã vs Nigéria.

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    Dio, A voz do Heavy Metal Gustavo • há 6 meses
    Seleções deveriam jogar em todos os lugares do seu país, o Brasil não joga em Salvador ou em Curitiba faz um tempão.

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    Everaldo Carvalho Dio, A voz do Heavy Metal • há 6 meses
    Concordo plenamente. Aqui em SLZ fazem 16 anos!

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    Bruno Miotto Gustavo • há 6 meses
    Aí é querer ser ignorante demais.

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    Gustavo Bruno Miotto • há 6 meses
    Desculpa, mas não entendi.

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    Bruno Miotto Gustavo • há 6 meses
    Não torcer pra seleção por causa do momento do país é querer ser ignorante demais.

    O momento do futebol é até aceitável não torcer.

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    Gustavo Bruno Miotto • há 6 meses
    Mas nem era na questão do momento do pais, é mais pela questão da pessoa estar cagando pra seleção mesmo, me expressei errado, mas também conheci vários seres humanos do 3° mundo que tem alergia a tudo que é brasileiro, tem até uma moça chamada Jessie Navajas no twitter que comenta em tudo que é postado sobre jogadores brasileiros, desmerecendo eles, chamando de caipira, macacos, pretensioso, feio,etc.
    E no fim ela é brasileira também, o pior é que conheço várias pessoas assim.

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    Everaldo Carvalho Gustavo • há 6 meses
    Normalmente são os corintianos da geração 7 x 1, do “itaquerão”, do mundialito, do romarinho…

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    Gustavo Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Acho que não, essa bobagem estilo nutella vs raíz é chato demais bicho, já vi velhos que também tão cagando pra seleção, meu pai por exemplo, mas no caso dele é pela corrupção da CBF.

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    Fellipe Franzão Gustavo • há 6 meses
    Meu pai tbm, era fã da Azzurra hahaha

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    Vinicinho pernambucano Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Correção é mundial, e nao sao so corinthianos que pensam assim, aqui no brasil uma conquista de clube so é maior por conta da seleçao ja ter 5 copas do mundo, por isso uma conquista de um titulo grande do seu clube é preferencia dos torcedores, antigamente antes do brasil ser campeao do mundo as criticas eram justamente pelos clubes serem vitoriosos e arrebentando os clubes europeus em excursoes e na copa do mundo nao achar nada, nessa epoca da historia a seleçao era mais importante, pergunte para um holandes torcedo do ajax se ele prefere o clube campeao da UCL ou a holanda perder a virgindade em copa e pergunte para um torcedor do botafogo se ele prefere o hexa ou a libertadores e mundial

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    Everaldo Carvalho Vinicinho pernambucano • há 6 meses
    Sim claro, Isso da minha parte é zueira mesmo. Mas concordo com suas palavras e podemos sim pensar por essa ótica, não é pq times da europa meio que desprezam o mundial que não devemos valorizar aqui. E também sonho desde mais novo por um mundial de clubes como se fosse uma Copa maiss reduzido como já propuseram na FIFA.

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    Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Com essa moda pegando seria bom que diminuíssem as competições entre clubes para equilibrar o calendário.

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    Lucas Santos Everaldo Carvalho • há 6 meses
    Quase impossível. Kkk

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    Urraca de Caleruega • há 6 meses
    >A Liga D vai ter um representante na Euro 2020

    Quem vocês acham que se classifica? eu pessoalmente aposto no Azerbaijão, mas torço pra Armênia.

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    Daniel dos Santos Urraca de Caleruega • há 6 meses
    Armênia, se até lá aparecer alguém para ajudar o Mkhitaryan.

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    EpsilonEuskadi Daniel dos Santos • há 6 meses
    Eles tem um ou outro perdido por aí, como o Movsisyan (ex-Spartak Moscow), Manucharyan (ex-Ajax), Andonian (Olympique de Marseille), Özbiliz (Besiktas), um brasileiro (Marcos Pizzielli) e um uruguaio (Mauro Guevgeozian, do Newell’s Old Boys), já é um começo.

    Uma saída para eles é fuçar aqui na America do Sul, pois há uma comunidade armênia forte, inclusive com um clube argentino, Deportivo Armênio. Devem ter alguns descendentes que topariam jogar pela seleção.

    A seleção palestina faz um processo parecido e consegue pinçar alguns jogadores, ainda mais com um clube forte como o Palestino podendo dar uma mão. De cabeça lembro do Alexis Norambuena, ex-Union Española e que jogou alguns anos na Polônia.

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    Daniel dos Santos EpsilonEuskadi • há 6 meses
    Aqui no Brasil, apesar de ter uma considerável colônia, o único descendente armênio que conheço no futebol é o Marcelo Djian (Marcelo Kiremitdjian).

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    Daniel dos Santos Guest • há 6 meses
    Stepan Nercessian

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    Bruno De Barros Kasa Daniel dos Santos • há 6 meses
    Nesse nível não sei nem se precisa de alguém pra ajudar hein

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    Bruno De Barros Kasa Urraca de Caleruega • há 6 meses
    Luxemburgo tem evoluído bem, seria muito bom pro futebol local.

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    Gabriel Pinho Urraca de Caleruega • há 6 meses
    Geórgia

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    Paulo Luís Reis Guest • há 6 meses
    Portugal cai.

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    Vitor Souza • há 6 meses
    Capaz da Holanda e da Itália já amargarem um rebaixamento no primeiro ciclo.

    É uma competição desnecessária… a UEFA tá querendo matar o seu próprio produto de seleções.

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    Gabriel Pinho Vitor Souza • há 6 meses
    Não é bem isso, a UEFA quer melhorar o nível das seleções mais fracas, achei muito atraente. Só não gostei destes grupos com 3 integrantes. Pois dá margem pra entrega de resultados.

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    Rick Nascimento Vitor Souza • há 6 meses
    Vale lembrar que ela substitui as eliminatórias pra Euro também. Um grupo com 3 times vai ter apenas 4 jogos pra cada time e depois a parte final com 2 ou 4 jogos. Bem diferente dos pelo menos 10 jogos das eliminatórias.
    EDIT: Malz, o texto me confundiu emendando as eliminatórias no meio. Depois de reler e checar outras fontes, vi que não é o caso. Então ferrou… huahehueahua

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    Leandro Stein Rick Nascimento • há 6 meses
    Emendei as eliminatórias porque tem a ver com a repescagem. Em nenhum momento disse que vai substituir as eliminatórias, e sim integrar =)

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    Rick Nascimento Leandro Stein • há 6 meses
    Sim, foi erro meu de ler rápido e não absorver toda informação, haha.

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    Italo Santanna Vitor Souza • há 6 meses
    Melhor que os insossos amistosos.

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